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Sonhávamos, desejávamos, conseguimos. Lisboa, Portugal, vitória, sol. Está sol.

Voltou o sol, é verdade.

Voltou o sol. Nem digo olá, nem digo nada. Voltou o sol.

Não é preciso dizer que isto é o "Terapia de Casal", que eu sou o Guilherme, que esta é a Rita.

Não interessa. Nada interessa quando o sol regressa.

É verdade.

Nada interessa quando o sol regressa.

E vou te dizer mais: a maneira como tu choraste.

No outro dia eu chorei um bocadinho.

No outro dia, quando apareceu o sol. Queres contar às pessoas o breakdown que tu tiveste?

Não contámos já aqui?

Não.

Eu acho que já contámos.

Não.

Estava um bocadinho de sol e eu emocionei-me, porque eu achei que nunca mais ia ver o sol.

Está aqui o sol.

Está aqui o sol, agora que eu vou chorar um bocadinho. Como é que tu estás?

Eu estou bem, mas não sou eu que tenho que dizer coisas aqui a este microfone.

Pois, queria só saber como é que estavas antes de te perguntar. E quero saber como é que estão as pessoas lá do outro lado.

Sabes qual é o problema? O que acontece aqui é o que acontece no Governo Sombra ou no programa cujo nome somos legalmente impedidos de dizer.

Nós não estamos legalmente impedidos de dizer nada.

Absolutamente nada. E queríamos agradecer ao Observador por ser nosso parceiro e deixar-nos dizer as javardices todas que nós dizemos nas nossas semanas. Mas o que se passa é o seguinte: tu perguntas-me como é que foi a minha semana e quando eu vou começar a responder e puxo um tema sobre a semana, tu dizes: "Não, espera aí, mas ainda falta a minha." Que é o que o Carlos Vaz Marques faz. Hás de reparar que o Carlos Vaz Marques diz assim.

Quem?

Carlos Vaz Marques.

Carlos Vaz Marques.

Carlos Vaz Marques. Que é: "Então, Ricardo, esta semana sente-se engarrafado." E ele começa: "Pois, porque esta semana o Primeiro-Ministro..." E ele: "Não, mas a notícia é a seguinte: é que o Primeiro-Ministro..." E ele interrompe a dizer a notícia. Diz logo a notícia.

Eu não vou dizer a notícia, eu só quero saber. Estás bem?

Eu estou bem.

Eu não te perguntei como é que foi tua semana, eu perguntei como é que estás.

Eu estou ok.

Ok. Guilherme, gostava que tu tentasses adivinhar qual é o símbolo da cidade de Manchester, onde eu estive.

Que giro. Pois é, tu estiveste em Manchester, que é uma cidade da Inglaterra, que tem muita cultura musical, tem muitos estúdios, muitas bandas que vêm de lá. Portanto, eu vou dizer que o símbolo de Manchester é uma clave de sol.

Não, errado. O símbolo de Manchester é a abelha, porque durante a Revolução Industrial, tornou-se um dos centros de produção de algodão.

Ok.

E então era visto como um sítio onde havia uma raiva, uma colmeia de trabalho, onde se trabalhava muito.

Ok.

Desde então que o símbolo da cidade de Manchester é a abelha. Há abelhas em mosaicos, os transportes são chamados a Bee Line, são todos amarelos, tudo é amarelo, é muito giro.

Já percebi. Sendo que a abelha não tem nada a ver com algodão.

Não, mas é a ideia de hive mentality.

De trabalhadores, já percebi.

De trabalhar, de produzir, mentalidade colmeia.

Sim, senhor, já entendi. Como podia ser uma formiga, não é?

Exato, como podia ser uma formiga.

Já entendi, Manchester. Faltou aí uma segunda camada na vossa metáfora.

Não faltou.

Porque a abelha era mais perfeitinho.

Era mais perfeitinho, mas a vida é o que é.

Pois, a vida é muito pouco perfeitinha.

Eles também eram o centro de produção de algodão, ou seja, o centro de transformação do algodão, da indústria do algodão, onde não se produzia algodão, não havia algodão. Chamava-se Cottonopolis, mas não se cria algodão em Manchester. Era importado e depois eles é que trabalhavam o algodão.

Pois, estás a ver? Acho esquisito. De repente, já sou contra. Manchester, o que se passa aí? Façam lá mais música, que vocês a fazer música são muito bons.

Exato, devia ser uma clave de sol, não é?

Devia ser uma clave de sol. A quantidade de músicos que vieram de Manchester e de música que foi feita em Manchester. E agora estão para aqui a falar de algodão.

É verdade.

Olha, ao contrário de Manchester, o algodão não engana.

Olha, gostei. Já temos gatos à luta, entretanto, mas é uma referência que provavelmente grande parte da nossa audiência... Já viste? Aqui é que é literalmente uma audiência.

Espera. Eu espero que as pessoas tenham noção do que aconteceu em 20 segundos. Em 20 segundos, dois dos nossos gatos bufaram um ao outro, eu levantei-me para ir ver o que se passava e a Bibi Eight, que é a terceira gata da equação, roubou uma cadeira.

Pronto.

Vocês não querem que eu esteja cá em casa, é isso? É para eu sair.

Eu estava aqui a chegar a uma conclusão que é: isto é que é uma verdadeira audiência. A nossa audiência.

Porque julgas?

Porque ouvem.

Porque ouvem, exatamente.

Áudio.

Audiência, de áudio.

Não são os ouvintes, é a audiência.

Exatamente. Da mesma maneira que quando se mede a quantidade de gente que foi ver um filme ao cinema, devia ser "olhôencia".

Não, os espectadores.

De espectar.

Porque espectam.

Ficam espectados. Olha, vamos avançar no nosso podcast.

Vamos avançar.

E foste fazer o que em Manchester? Isso é que tens de dizer às pessoas, não foste lá oriara pedido.

Fui, um bocadinho.

Pronto.

E fui ver Florence and The Machine. Gostei muito, foi muito giro.

A bruxinha, não é?

A bruxinha, com uma produção muito gira, um espetáculo muito giro, foi muito divertido. Tinha me esquecido do que é que ia dizer, desculpa.

Está tudo bem.

Mas queria que tu dissesses às pessoas quão boa mulher eu fui para ti.

Pois é, a minha mulher foi excelente. Primeiro, esteve fora de casa três dias. Logo aí, é assim que se nota uma excelente mulher. Deixou-me sossegado, fui fazer stand up. Eu em três dias atuei cinco vezes. Só para veres.

Nem a Florence atuou.

Nem a Florence fez tantos espetáculos como eu em tão poucos dias. É só para saberes. Mas estou a acertar os pronúncios finais do meu espetáculo "Amigável", que está à venda na Ticketline, ficam também já a saber. Andei a atuar muito. Mas por que eu digo Que tu foste uma excelente mulher.

Eu é que disse para tu confirmares.

Exatamente. Por que tu me encorajaste a dizer que tu és uma boa mulher? Porque tu trouxeste-me duas coisas.

Três.

Sim, mas duas são a mesma coisa em dobro.

Não, são três coisas diferentes.

Sim, é verdade. Está ok também. Então o que tu fizeste? Trouxeste-me três coisas. Trouxeste-me dois livros, um deles eu andava com muita curiosidade de ler, que é o "Dungeon Crawler Carl".

É muito difícil de dizer.

Eu vou dizer outra vez.

"Dungeon Crawler Carl".

"Dungeon Crawler Carl", que é uma saga que toda a gente me anda a dizer que eu vou gostar muito, a nossa amiga Sofia já disse, eu fui ao podcast da Mariana Alvim, que ainda não saiu, falar de livros e ela disse que eu ia adorar o livro. E trouxeste-me também mais um livro do Ketsu, que é um youtuber japonês que escreve livros de mistério e terror semiinterativos, muito engraçados.

Quer dizer, o primeiro muito engraçado, o segundo nem por isso.

O primeiro, excelente ideia, o segundo mais do mesmo, perdeu um bocado a força, o terceiro vamos ver. Neste momento está um igual. E trouxeste-me granola do Tesco, que é a melhor granola para pôr no pequeno-almoço. Tu trouxeste-me.

Dois pacotinhos.

Se eu sou um homem fácil de agradar, se eu sou um homem de gostos simples, tu vais a Manchester e o que é que eu te peço? Livros e granola. Livros e granola é o que eu preciso para me fazer feliz e sossego. Portanto, tu de vez em quando sais três dias de casa, eu fico aqui sossegado com os gatos.

Eu vou caçar.

Tu vais caçar granola e livros. Exatamente. O paradigma mudou, a sociedade mudou e neste momento eu quero ficar em casa com os meus gatos, a jogar PlayStation e a ver o "Marty Supreme" e tu vais e caças granola e livros e trazes de volta.

É verdade.

E regressas à caverna. Para mim está excelente, eu estou pronto para ser um trophy husband.

Pronto, eu também estaria pronta para tu seres um trophy husband, se eu pudesse fazer dinheiro suficiente para tu seres um trophy husband, ainda não acontece.

Eu gostava muito. Eu estou pronto para ser trophy husband.

Olha, eu gostava era de falar de outra coisa que aconteceu durante a semana.

Também tenho outros temas.

Nós fomos.

Era esse o tema que eu tinha.

Nós fomos à festa de Carnaval do lar da minha avó.

Verdade.

E é tudo o que vocês podem imaginar de uma festa de Carnaval num lar.

Foi uma experiência sociológica de nível avançado.

Eu amei.

Eu não aconselho a quem não está preparado. As pessoas têm que passar por algumas experiências sociológicas antes de ir a esta. Começar por esta pode causar traumatismos.

Hilariante.

Foi hilariante. Sendo que houve um momento, que eu não sei se tu apanhaste, que eu apontei para falar aqui.

Ok.

A tua avó está num lar, estão lá outros velhotes no lar, não é só um lar para a tua avó. Isso é que era excelente.

Isso era bom.

Não porque ela depois também não fazia lá amigas, que ela já tem lá amigas. Mas a tua avó está num lar, dia de Carnaval, vai uma animadora. Foi uma animadora de lares, vamos dizer assim.

Mas que era muito teatral.

Muito teatral e que falava sempre num tom de voz: "Meus queridos, a Amália incorporou-se no corpo de uma malabarista de semáforo."

Era isso, era o que eu ia dizer, porque é uma Amália que esteve no chapitô.

Exatamente. Mas o que é que se passa? A senhora era muito simpática, falava sempre neste tom e com os velhinhos falava constantemente em tom de farmacêutica. Era exatamente o tom dela. Vocês já ouviram farmacêuticos a falar com os velhos? É aquele tom que ela falava constantemente com os velhos. Mas há um momento, depois do evento todo da animação que ela fez, que é basicamente dançar com velhos e pôr karaokê a dar com músicas que os velhos se lembram. Atenção, excelente seleção, porque a tua avó cantou todas.

Sabia todas. E eu estava espantada. A certa altura, perguntei-lhe.

A minha avó conhece estas músicas todas.

A certa altura, perguntei: "Avó, como é que tu conheces isto tudo?" A minha avó assim: "Eu também tive as minhas festas." E eu: "Ok".

Exatamente. Cala-te e ouve. Foi espetacular porque eu nunca tinha visto tantos velhos a cantar "Você acha que cachaça é água?"

"Cachaça não é água, não."

Ao mesmo tempo. Mas no final ela vai velho a velho, como os noivos fazem nos casamentos, de ir mesa a mesa, ela vai velho a velho.

Despedir-se.

E ela despede-se velho a velho, o que parece-me um bocadinho inútil, porque os velhos meia hora depois não se vão lembrar daquela senhora. Mas também isso é um problema.

Meia hora eu acho que também é exagero.

Meia hora é um exagero, se calhar são 20 minutos. Mas ela vai velho a velho. Quando ela chega à tua avó, que era o velho 82 da lista das despedidas, estou eu e tu ao lado dela. E ela diz o seguinte, e eu até apontei para nós falarmos disto. Está a tua avó, estás tu, estou eu.

E a minha mãe também estava.

Estava do lado de lá e ela não falou diretamente para a tua mãe, portanto eu não estava a falar disso, mas estava lá. Mas o que acontece nesta sequência? Está a tua avó, estás tu, estou eu. E ela diz assim: "Ai, minha querida, o que é importante é a família e já vi que tem a família aqui reunida" e não sei o quê, não sei o que mais, estava a fazer assim um discurso. Depois, olha para o lado e passa para ti, imediatamente ao lado, e diz assim: "Esta é a neta, esta só pode ser a neta, com esta carinha laroca, esta é a neta". Depois passa para mim e diz assim: "E este é o pai".

Não.

Não.

Não, ela não disse "este é o pai".

Disse.

Não, tu estás a perceber mal. Ela olhou para a minha mãe e para a minha avó e disse: "Ah, família, já vi, são parecidas. E esta é a neta, também tem aqui algumas coisas". E depois olhou para ti e diz: "Bom, aqui puxou mais ao pai".

Não.

Foi, juro que foi isso que ela disse, porque ela achava que tu eras meu irmão.

Não, ela achou que eu era teu pai, tenho certeza. Eu nunca me senti tão velho como com aquela gaja de chapitô naquele lar.

Guilherme, não é isso. Tu percebeste mal.

É possível que eu tenha percebido mal, que é um lar e eu também começo a ouvir mal.

Tu percebeste mal. Ela disse: "Aqui puxou mais ao pai. É o irmão". Olhou para mim e eu disse: "Não, é o meu marido".

Eu percebi: "E aqui está o pai".

Não.

Depois tu disseste: "Este é o meu marido", do género: "Não, é o meu pai, é o meu marido".

Não, não é meu irmão. Não ando a comer o meu irmão.

Quer dizer, há livros sobre isso.

Sim, mas ela achou que tu eras meu irmão.

Eu achei que ela achou que eu era teu pai.

Não.

Vou te dizer uma coisa, nunca me tinha sentido tão velho como naquele momento.

Não.

E eu: "Até mas agora pareço um" Eu puxo ao pai da Rita. Eu sou bem conservado, eu faço exercício. Comecei a tomar creatina esta semana. Eu não estou jovem e enxuto?

Está tudo bem. Não, ela achou que tu eras meu irmão.

Como o Marcelo diz da Ana Abrunhosa: "Não estou todo teso?"

Ela ficou tipo: "Não, aqui puxou mais ao pai."

Ok, já percebi.

O género é mais parecido com o pai, porque viu-nos às três relativamente parecidos, também não sei onde é que ela viu parecenças, mas talvez no nariz.

Também não sei onde é que ela viu parecenças. Porque eu não te acho parecida com a tua avó, não te acho parecida com a tua mãe.

Mas se calhar juntas, as pessoas sabendo que somos família.

Ela sabe que é uma família, viu tudo junto e disse: "Olha aqui uma família". Assim também eu. Aliás, eu fui corrido a irmão também, pelos vistos.

Eu queria perguntar-te, de todos os velhos que estavam no lar, que tu viste, qual é que tu vais ser quando fores velho? Porque eu vou ser uma mistura de duas que nós vimos lá e também já queria explicar.

Olha, eu não tenho muita afinidade por karaoke e não gosto muito de festas em que me obriguem a ser o centro das atenções ou que eu tenha que fazer coisas do género: "Venha para aqui, venha aqui para o centro, venha cantar e venha dançar." Eu não gosto, deixem-me sossegado. Portanto, eu acho que seria a velhinha que empratou dois pratos.

Era a que eu ia dizer.

Pois. Houve uma senhora que tinha um ar super mal-disposto.

Não, a certa altura, uma menina que era neta de outra senhora, levantou-se com o andarilho, ela perguntou: "Quer ajuda?" Ela disse: "Não quero ajuda."

Pois, eu não vou ser mal-disposto.

Eu vou.

Mas a minha atitude vai ser a que a senhora teve a seguir, que é: empratou dois pratos com comida lá do catering, que aquilo tinha lá uns lanches, que tinha tipo croissants, bolo, uns croquetes e não sei o quê.

Pôs um guardanapinho em cima de cada prato.

Encheu dois pratos, pôs um guardanapo. As pessoas têm que ter noção, encheu dois pratos. Encheu dois pratos de andarilho. São mais viagens e é mais difícil transportar.

Mas ela...

Trouxe para a mesa onde ela estava sentada, pôs um guardanapinho por cima de cada prato e depois levantou-se e disse: "Estou farta disto, não quero aturar gente." E foi-se embora.

Não, chamou o rapaz.

Chamou o rapaz do andarilho.

"Ajuda-me a ir para o quarto que eu já estou farta disto."

"Estou farta disto, estou farta desta gente." "Vou para o quarto com os dois pratinhos de comida." Eu vou ser esta.

Adorei. Eu estou entre essa e a senhora que a certa altura já estava a organizar também a festa.

Pois é, havia lá uma senhora que a certa altura se levantou.

Estava mascarada de cigana.

Estava mascarada de cigana, mas também não era Carnaval, nem nada mau. Mas ela mascarou-se de cigana, de facto. E estava ao lado já desta senhora animadora de festa, que foi para lá com colete refletor para os velhos poderem ver bem onde é que ela está. Com as cataratas, tu nunca sabes. E foi semi organizar a festa. Estava calada, mas estava em sidekick. "Eu sou a lenka disto."

"Vai, tu meste também."

"Eu sou a lenka disto. Vai, embora."

Eu vou ser essa.

O braço direito. Pois eu não sei.

Que se levanta e até para: "Vocês estão a fazer tudo mal."

Ya. E houve lá um senhor muito velhinho, que foi de um cinto acordando.

Sonho.

Ya. E não têm direito.

Sonho.

Não têm direito.

E a certa altura, quando ela se foi despedir do velhinho que estava ao nosso lado, que ela se vira e diz: "Viana, é de Viana." E começa a cantar de novo.

Pois é, começou a cantar uma música.

E depois disse: "Isto é uma private entre nós." Não sei se tu percebeste esse momento.

Ela disse private. "Isto é uma private entre nós."

"Isto é uma private entre nós." Muito engraçado.

Foi muito giro, foi uma boa experiência. A tua avó parece-me superfeliz naquele lar. Ela está mesmo enturmada. Ela está mesmo contente de estar ali.

Ela não gosta de dizer que está.

Pois, porque a tua avó é como tu. Vocês imaginem.

Não, eu é que sou como ela.

Exatamente. Vocês são uma como a outra e a outra como a uma. Vocês são a mesma coisa, mas em tempos diferentes.

É verdade.

Porque a tua avó tem aquele ar de "a mim não fodem", de semi maldisposta, e depois entra o "cachaça não é água, não" e estamos a cantar e a bater palminhas.

Sou eu.

Vocês têm que decidir exatamente o que é que querem. Se é estar maldisposta ou se é dançar o "cachaça não é água, não". Porque é impossível, é fisicamente impossível.

Dançar o "cachaça não é água, não" maldisposto.

Maldisposto não dá.

Não dá.

Não dá. É impossível estares num karaoke a cantar maldisposto. Não funciona. São energias opostas e não funcionam uma com a outra.

Isto foi na terça-feira e eu sábado, quando estava a voltar de Manchester para Lisboa, estava com o meu amigo Tomás, fomos os dois ver o concerto, estamos a chegar ao momento de passar aquele primeiro momento em que passas o teu cartão de embarque e começas o processo da segurança. Vem uma rapariga ter connosco e diz: "Vocês falam português?" E nós: "Sim."

"No, sorry."

"Podem ajudar a minha mãe a orientar-se?" Porque a filha ia deixar a mãe para a mãe voltar para Portugal. E era uma senhora para aí com os seus 70 anos, que não se orientava dentro do aeroporto sozinha.

Pois claro.

Então nós estivemos a ser babysitters da dona Regina.

Muito bem. Finalmente fizeste com ela o trabalho que costumas fazer comigo.

Exato.

Em aeroportos.

Fomos babysitters da dona Regina, que se sentou ao pé de nós, foi depois à papelaria, comprou umas Pringles. Perguntou se nós queríamos Pringles, nós dissemos que não, obrigada.

Uma velhinha a comer Pringles?

Passado um bocado ela volta lá dentro, vai buscar um chocolate, pergunta se nós queremos chocolate, nós dizemos que não, ela mama o chocolate todo. Depois passado um bocado ela diz: "Vou lá dentro." Nós: "Ok." Ela vai lá dentro, volta com uma raspadinha. Está o tempo todo a raspar, volta lá para dentro e eu viro-me para o Tomás e pergunto: "Acho que ela ganhou na raspadinha." Foi lá dentro buscar o dinheiro.

Comprou o aeroporto.

E ela nunca mais estava a voltar. E nós começamos assim a olhar para dentro da papelaria e está ela a raspar furiosamente mais raspadinhas no balcão.

Pois, o jogo é um problema, dona Regina.

Ya. Depois contou-me a vida toda dela. Eu também fiz perguntas.

Também é verdade.

Eu também fiz perguntas.

Não vamos entrar em pormenores, para não estar a contar a vida da senhora aqui.

Mas contou-me a vida toda e senti-me a ser babysitter. Foi muito giro. Portanto, esta semana declaro oficialmente a Semana Internacional da Velhice. Internacional porque uma das velhotas foi em Manchester.

Foi uma semana de velhos Eu também te digo. Olha, eu gostava de falar mais de um tema antes de irmos a e-mails, que é uma rapariga, que eu não vou dizer o nome, porque eu não sei se ela quer ser identificada aqui ou não, mandou-me uma mensagem no Instagram a dizer que num dos episódios que está no Patreon, que atenção, vocês podem continuar a ir ao Patreon, a subscrever durante um mês, ouvir a nossa tour toda, os áudios todos, incluindo os oito tribunais da relação, ou podem só ouvir especificamente um episódio. E agora eu dizia-vos qual é que era, mas eu só sei que é um dos últimos dois em Lisboa, se eu não estou em erro. Mas lembras-te que nós temos uma conversa lá sobre uma rapariga que foi ver o nosso espetáculo e que escreveu no nosso slide ou no nosso fórum dentro da sala live, que suspeitava que o namorado era um espião russo?

Sim.

E nós falámos disso lá e dissemos como é que ela suspeitava, mas que raio, porque é que ela achava que o namorado era um espião russo e não sei o quê. Então não é que esta semana foi apanhado um rapaz de 22 anos que está a ser acusado de espiar para a Rússia, que ia a hotéis onde ficavam militares da NATO e entrava nos quartos com a chave-mestra da empregada do andar. Sabes aqueles carrinhos que têm uma chave-mestra para limpar os quartos todos? Roubava e roubou computadores de uma delegação do norte da Europa, acho que é sueca, se eu não estou em erro, e foi à embaixada russa vender os computadores de militares da NATO. E é um jovem português de 22 anos ou 23, que está agora a ser julgado por espiar para a Rússia, roubar coisas da NATO.

Então, se calhar, fica aqui a questão: era o teu namorado?

Nós fazemos o apelo à rapariga que nos foi ver ao vivo a dizer: "É o teu namorado que está preso. Ele não te responde há muito tempo e está nos calabouços da PJ." Porque a mensagem que ela dizia: "Olha, ontem estava a ouvir um dos vossos episódios de Patreon, em que alguém disse que desconfiava que o namorado fosse um espião da Rússia e hoje recebo um SMS do SAPO News com esta capa." E a capa é mesmo: jovem português acusado de espiar para a Rússia. Miguel Rodrigues, de 22 anos, suspeito de furtar computadores de militar da NATO em Lisboa.

Tu queres ver.

Tu queres ver que a namorada deste rapaz alertou para o que estava a acontecer antes da PJ, mas a PJ já andava atrás dele há muito tempo.

Pois, se calhar foi também por isso que ela suspeitou. Se calhar apareceu lá a polícia em casa.

Pois, não sei. De repente, nós se calhar tivemos a namorada de um espião português. O que é isto?

Olha, uma mulher, matão.

Olha, é para alertar que está na hora de ir a e-mails.

Pronto, então vamos lá. Olha, vamos começar com o e-mail da tia. Semana passada recebemos um e-mail de uma mãe que precisava que nós passássemos uma mensagem à irmã, portanto, tia do seu filho, porque ela queria dar Kinders e queria mimar e nós acabamos por ficar do lado da mãe.

Ficámos do lado da mãe, sim, senhor. E o que é que se passa? A mensagem que a mãe escreveu para a tia, que tu leste, tinha de facto lá o nome. E tu disseste o nome. Houve uma pessoa que alertou nos comentários.

A sério?

Eu queria agradecer. E estava lá o nome.

Desculpem.

Nós pedimos imensa desculpa, mas não tem mal, não me parece que tenha ficado ofendida com o seu próprio nome, tanto que a tia agora mandou uma mensagem. Ela diz direito de resposta e ela tem todo o direito de resposta.

É verdade.

Eu vou te deixar ler.

Sim.

Sem dizer o nome. Tu já disseste o episódio passado. Saiu no primeiro nome. Mas chamámos-lhe tiazinha.

Tiazinha. Quem perceber a referência, percebe, quem não perceber, não percebe. E o e-mail chama-se: "Eu sou a tia". Eu sou a tia que te quer encher de Kinder. "Queridos terapeutas, eu sou a tia do e-mail passado e quero o meu direito de resposta."

Sim, senhor. O "Terapia de Casal" é um espaço plural, editorial livre, como se quer em democracia, e há direito de resposta neste podcast.

"Em minha defesa, nunca dei um Kinder ao meu sobrinho. Posso já ter dado, alegadamente, um bocadinho da minha sobremesa. Eu só pergunto à minha irmã quando é que lhe posso dar, porque sei que ela fica toda irritadinha."

Exatamente.

"Só quem tem irmãos sabe o prazer de irritar. É um quentinho no coração, é irresistível. Vocês não imaginam a satisfação que foi ouvir de vocês que o meu sobrinho é parecido comigo. E vou explicar porque é que este milagre da genética aconteceu. Foi carma. A minha irmã fez-me sempre a vida negra, principalmente em criança. Por exemplo, o nosso pai fazia as nossas lancheiras para a escola e metia um queijinho da Vaca que Ri para cada uma, e a sacana roubava sempre o meu queijinho antes do lanche. Este é o exemplo mais leve do que ela já me fez. Já se mordeu a ela própria e foi fazer queixinhas ao nosso pai. A minha sorte foi que eu estava na fase em que caem os dentes e o meu pai percebeu que a mordida não correspondia. Senão tinha levado umas palmadas, nos anos 90 usava-se."

Espera aí, antes de continuares o e-mail. Este pai é o Sherlock Holmes.

Ya.

Foi ver a marca da dentadura para confirmar que não podia ter sido aquela filha? Bem, respect a este pai. É isto que um pai de duas filhas, de duas meninas tem que fazer? É desenvolver uma capacidade de CSI?

Sim. "Enfim, foram várias dessas ao longo da vida e Deus Nosso Senhor castigou-a e deu-lhe um filho com a minha cara e os meus olhos. Para terminar, tenho muito orgulho de ser a tia que estraga e estou disposta a arriscar ser deserdada da família pelo meu sobrinho. Usando a piada do Ryan Reynolds, se antes do meu sobrinho nascer eu dava a vida pelas minhas irmãs, agora que ele existe eu sacrificava a vida de qualquer uma delas por ele. Ri muito nesta parte do episódio. Se lerem este e-mail, a minha irmã vai ficar tão irritada e eu vou ganhar o dia. Obrigada, beijinhos, a tia."

Lemos, sim, senhora, tens direito de resposta. E nós por acaso, na semana passada, quando falámos de é função do tio educar o que os pais não podem e deseducar um bocadinho o que os pais podem, nós esquecemo-nos deste lado que é os tios também se vingam dos irmãos nas crianças.

Claro.

Isso é muito engraçado. Por exemplo, é muito engraçado, para mim, assistir à dinâmica que existe entre ti, a tua irmã e o nosso sobrinho Duarte, do lado da tua irmã, porque claramente eu não cresci convosco. Era esquisito se eu tivesse crescido convosco.

Eras o meu irmão.

Aí era teu irmão.

Olha, aí sim.

E a senhora lá tinha toda a razão. Mas é muito engraçado perceber, por aquilo que vocês contam e por aquilo que vocês vão explicando Vendo no Duarte que a tua irmã está a ser castigada pela infância que perdeu à tua mãe com o filho que tem.

Completamente. A minha irmã está sempre a dizer: "Fogo, ele é igual a mim."

E é muito engraçado. Agora sofres.

Ya. Agora tudo que tu fizeste a tua família passar, olha aí, o miúdo.

Isso é muito engraçado. E portanto, nós como tios, que é isso que nós somos, somos tios oficiais. Havia o tio careca, que era o Nuno Graciano.

Deus o tenha.

Que Deus o tenha. Eu sou o tio entradas.

Tio entradas.

E o tio entradas de Portugal está aqui também para se vingar dos pais de Portugal através das suas crianças.

Muito bem.

E portanto, eu não tinha pensado neste lado. Eu neste momento sou a plateia. Sou 100%, estou do lado dela. Eu acho bem que se a irmã a fez sofrer, que ela agora-

Eu acho que deve ser um prazer enorme irritar.

Ya.

Agora vou passar a usar também com a minha irmã.

Ya.

Tu devias passar a usar com o teu irmão também.

A vingar-me do meu irmão...

Mas ele não te fazia nada para não.

O que é que eu posso fazer? Há uma coisa que eu posso fazer, que é: eu sou acima da média em videojogos. Eu sou bom a jogar videojogos. Foi a vida toda a jogar.

Grande flex.

Estou só a dizer, eu não sou dos melhores do mundo, estou muito acima da média em termos de videojogos. Mas o meu irmão é, de facto, muito melhor que eu. O meu irmão é melhor do que eu.

Ya.

E nós quando jogamos os mesmos jogos, ele chega sempre primeiro e mais depressa às merdas e joga melhor do que eu. Portanto, o meu objetivo neste momento é preparar a minha sobrinha Alice para jogar melhor que o meu irmão.

Olha.

Eu vou projetar nela uma capacidade de ganhar ao meu irmão e de ser melhor que o meu irmão que eu nunca tive.

Já que tu não podes.

Já que eu não posso. E eu acho que estas pequenas vinganças fazem parte.

É bom. Dão sal à vida, não é?

Exatamente. E eu quero vingar-me do meu irmão desta maneira.

Muito bem. Vamos passar para o e-mail da Nelson Rosado, porque ela é um anjo.

Exatamente.

E a outra pessoa é um diabo.

Então vamos embora. Espera aí, dá-me dois segundos só para encontrar aqui o e-mail. Está aqui. Chama "Seis anos, seis meses, seis curtes". Seis, seis, seis.

Seis, seis, seis.

Sendo que eu não ouvi a palavra curte, eu vou te dizer. Que idade é que eu tenho? 39?

Vais fazer 39.

Vou fazer 39.

Outra vez esta história de que idade é que eu tenho?

Eu não me lembro das minhas idades.

Só tens uma.

É só uma, mas eu achava que era 39, eu vou fazer 39. Tenho 38. Há 15 anos, desde os meus 23 que eu não usava.

Acho que já usámos aqui no podcast. Já falámos e já mencionámos isto precisamente.

Ironicamente, ninguém diz uma curte. Tive uma curte ontem à noite.

Não, já tivemos este momento de: "ih, eu não ouvia a palavra curte há tanto tempo".

Está bem, mas apareceu-me aqui outra vez, desculpa lá. "Queridos terapeutas, espero que este e-mail vos encontra aconchegados e protegidos do frio." Entretanto, já veio.

O sol.

O sol, portanto, estamos bem, estamos melhor, obrigado. "Estou há semanas a ponderar se vos escrevo sobre este meu dilema, por isso peço desculpas em antemão, caso me entusiasme com o chá, e vou tentar resumir isto o máximo possível." Como é que uma pessoa que diz chá e spill de tea, ao mesmo tempo também diz curte? Está aqui uma mistura geracional, não é? Ela deu um salto 20 anos em dois parágrafos.

Exato, sim.

"Saí recentemente de uma relação de seis anos. Eu via toda uma vida, um futuro com esta pessoa que estava comigo. Nunca nada foi forçado, era quase como o clichê do quando sabes, sabes. Foi uma história bonita, com um término feio, como eu costumo dizer. Já vivíamos juntas há quatro anos e estávamos a falar em dar o próximo passo. Ainda nada muito certo, apenas íamos enviando para o ar que era algo que gostávamos que acontecesse num futuro próximo. Já depois de ter acabado comigo, descobri que supostamente", e ela escreveu em caps lock, em negrito e sublinhado o supostamente, "existiu anel. Ou seja, como passamos de um pedido a um término? No mês em que íamos fazer seis anos, ela acabou comigo. Tudo com base numa discussão que foi claramente causada pelo estresse e por um luto. Eu estava disposta a fazer tudo para salvar esta relação e vi-me congelada pela pessoa que", congelada, foi o termo que ela usou, "um dia dizia que também o faria a tomar a decisão sozinha. E eu a ser obrigada a aceitar sem sequer conseguir dar o meu ponto de vista. Quando acabou comigo, disse que era a melhor decisão para ambas, que tínhamos de nos focar na nossa individualidade e procurar ajuda mental. Inicialmente, a opção de terminar nem era opção. Íamos só passar uns dias separadas para aliviar a tensão do problema e do zumbido externo que se tornou maior."

Ok.

"Até aqui achava tudo bem, ou eu achava que sim. Achava que teria sido um término minimamente saudável. Agora olho para trás e vejo que foi tudo menos isso. Aliás, podemos falar da falta de tomates existente atrás do noutra vida. Se for real, voltará. Agora não, mas ninguém nos garante o futuro. Mas e quê? Vou ficar na estante até a menina se lembrar? As if. Mal acabou comigo, fui procurar ajuda psicológica porque cheguei à conclusão que eu já não era eu há imenso tempo, que me deixei ser comida pelo medo e pela ansiedade. E tenho desde então focado muito em mim, nas minhas amizades e na minha vida profissional."

Muito bem.

"Ela, ao contrário do que me disse, e foi dito, focou-se em festas, bebedeira, vícios e sexo. Tanto que nestes seis meses já foram umas seis pessoas e que esta roda no arco começou em menos de um mês de acabar comigo. Imaginem se não estivesse em celibato." Este e-mail é grande, desculpem, faltam dois parágrafos. "Ao mesmo tempo que isto acontece, existem ou existiam uns reposts." Esta pessoa nunca foi de ser ativa nas redes sociais, muito menos dar reposts. "Sobre esperar pela pessoa, sobre ter estragado um relacionamento, sobre querer algo de volta. Mas quando era abordada sobre o assunto por diferentes pessoas, dizia que não era para mim, um pouco exaltada, que simplesmente gostava das frases e partilhava e faz questão de dizer e mostrar a toda a gente que está tudo bem com ela e o quão bem está. #nonchalant. Para além dos reposts, durante uns bons meses tinha esta pessoa e as suas recentes amizades a visitar os meus perfis. Inicialmente dizia-me que era por preocupação, que ia para lá bêbada, depois passou a ser para ver as minhas figuras tristes." E como se isso não bastasse, agora sente necessidade de alimentar amizades com uma das minhas melhores amigas e com amigas que me afastei com o tempo, por causa da distância e porque ela não gostava das vibes delas, mas que ainda vamos falando. Digam, isto é normal? Toda a gente me diz que ela está uma pessoa diferente, má e fria. Algumas destas pessoas já a conheciam antes da nossa relação alguma vez existir e dizem que ela nunca foi assim. O que me preocupa é que neste momento ela esteja a usar pessoas, o que por si só não é bom, mas fico a pensar em que pessoa é que se tornou e no buraco que está a cavar. Em parte, sei que já não é o meu lugar, aquele de me preocupar com esta pessoa, mas o que mais me deixa preocupada é mesmo esta comparação de quem eu tinha para quem se tornou. É possível alguém ter um downgrade assim tão grande? É que apesar de tudo, foi uma pessoa com a qual dividi vida. Acho que este tipo de carinho e afeto não se perde, pelo menos do meu lado não se perdeu. Aliás, chamem-me burra por ainda ponderar que isto ainda poderia ser salvo. Por favor, chamem-me. Digam-me que isto é o meu Joe e que eu dodge the bullet. Acredito que este e-mail esteja uma grande ensalçada. Olha a expressão que eu nunca tinha ouvido.

Ensalçada.

Este e-mail está uma grande ensalçada. Peço desculpa pela confusão, queria muito ouvir a vossa opinião. Um grande beijinho enorme para os vossos patudos. Cumprimentos.

Nelsona Rosada.

Nelsona Rosada, porque a outra ficou uma diaba e ela manja.

E ela manja. Muito bem.

Eu estou a falar há 47 minutos.

Não, eu percebo perfeitamente. São seis anos. Não é como se fosse uma relação de um ano e meio. Quando é uma relação mais curta, tu pensas: "Se calhar não tive tempo para conhecer quem era verdadeiramente esta pessoa". Mas passados seis anos, tu achas que já conheces aquela pessoa.

Sem dúvida nenhuma.

E de repente, isto já não é sobre o acabar. Eu acho que a sensação que está aqui subjacente é: então eu namorei seis anos com uma pessoa que era assim e escondeu, ou ela transformou-se de facto?

Eu acho que a resposta é transformou-se. Ninguém aguenta seis anos. Se calhar aguenta, mas eu acredito que as pessoas são muito diferentes quando acabam uma relação e quando sentem a liberdade de sair de uma relação. Há coisas gravíssimas que se fazem. Até franjas. Há pessoas que fazem franjas quando acabam relações e que passam por fases em que: "Meu Deus, o que está a acontecer?"

O cabelo sofre sempre.

O cabelo sofre sempre no fim de uma relação. Eu não sei se aquela pessoa ficou má em relação ao mundo, é o que eu estou a dizer. Ela pode estar só a aproveitar o facto de ter ficado solteira, teve seis anos numa relação e agora está a experimentar a vida dela, a sexualidade dela e pode ser a libertinagem de uma solteirice a cada um diz respeito. O que me preocupa no meio disto é a mudança de atitude em relação à Nelsona Rosada. Porque primeiro acabam bem, depois fica ultra agressiva, começa a mandar bocas, diz que segue as redes sociais para ver as figuras tristes dela.

Sim, isso é horrível.

Ela ficou ultra agressiva, sem necessidade nenhuma. E agora está a fazer aquela coisa.

Quando foi a pessoa que acabou.

Foi ela que acabou.

Porque se fosse ao contrário, se tivesse sido a Nelsona a acabar e ela tivesse ficado agressiva.

Exatamente.

Não era fixe, mas eu até percebia.

Sim, e há uma coisa que eu queria dizer sobre este e-mail, que foi dita mais ou menos há 47 minutos no início do texto. Perdão, que é: então ia me pedir em casamento e termina a relação? É perfeitamente possível. Uma pessoa pode estar a ponderar pedir em casamento e pensar: "Será que é esta pessoa que eu quero para o resto da minha vida ao meu lado? Será que é com esta pessoa que eu quero assinar um contrato, comprar uma casa, arranjar um cão, etc." E perceber que não é.

Sim, mas a ponto de comprar um anel?

Supostamente. O supostamente é grandíssimo.

Pois.

Nós não fazemos ideia. A Nelsona Rosada não sabe, mas é perfeitamente possível. Até comprares o anel, as coisas começarem a tornar-se reais.

E tu panicares.

Eu não acho nada estranho aquelas runaway brides.

As runaway brides eu também não acho estranho.

É a mesma coisa, é só ligeiramente mais cedo. Eu não acho esquisito as pessoas confrontarem-se com a data de: "Eu vou casar com esta pessoa. Ai, ai, ai, que isto vai acontecer. Meu Deus, o que está a acontecer? Meu Deus, meu Deus, meu Deus, isto vai acontecer, eu não consigo", foge. A pressão do momento leva-te a tomar a decisão de quer ou não quer.

Verdade.

Eu acho perfeitamente aceitável.

Sentiste isso conosco, foi? É isso que estás a querer dizer?

Não, tanto que estou aqui.

Pois.

Nunca esquecerei que eu, quando tinha três anos, ia fazer a festa da escola do Natal.

Eu não conheço esta história e já estou a adorar.

E eu era um dos Reis Magos.

Eras qual?

Não me lembro, mas não estava em blackface.

Pois. Não te lembras ou é uma forma educada de dizer que estavas em blackface?

Acho que não estava em blackface, mas se descobrirem essa foto, por favor, mandem que eu quero ver. Eu era um dos Reis Magos.

Ok.

E estava na altura dos Reis Magos entrarem em palco. E eu tive um acesso.

Três anos, dizes?

Eu era muito, muito, muito pequenino.

Se calhar eras um bocadinho mais velho para te lembrares.

Pois, se calhar tinha quatro ou cinco anos. Mas foi nessa idade. Eu tive um acesso de vergonha e de nervos e fugi. Entram dois Reis Magos.

E o terceiro...

O terceiro, ninguém sabe onde é que ele está, e eu vejo os meus passinhos a descer as escadas da escola para fugir. E a professora foi a correr atrás de mim e depois os meus pais levantaram-se e foram a correr atrás de mim, porque eu estava a fugir do edifício, porque eu não queria entrar na peça. Este Rei Mago não queria ser nem rei nem mago. Ou melhor, foi mago no sentido de ilusionista e desapareceu.

E desapareceu.

Eu fugi. Eu fugi.

Até hoje tens isso um bocado com o stand-up. Se pudesses fugias.

Eu nunca gostei de ser o centro das atenções.

Sim, diz a pessoa cuja carreira é fazer stand-up comedy.

Não quer dizer nada. Não quer dizer absolutamente nada.

Claro que quer.

Não quer dizer absolutamente nada.

Tu tens ascendente em Leão, Guilherme. O teu leãozinho às vezes quer sair e gosta da aprovação e do espetáculo.

O que se passa é o seguinte: eu fugi no momento em que era para subir a palco e fazer de Rei Mago. Provavelmente eu nem tinha falas, era só dar um presentinho à Maria ou José e vir embora.

Exato.

Eu nem isso quis fazer. Portanto, eu percebo perfeitamente as pessoas que têm cold feet à última hora e que não têm coragem e querem ir embora. Isso eu entendo completamente. Agora, mudar de atitude perante a Nelson Arrozada e de repente ficar ultra agressiva, ficar ressabiada, ficar vingativa ao ponto de insultar.

Sim, isso é feio.

Acabaste a relação? Acabaste a relação. Agora vai à tua vida e deixa a tua pessoa, para de pesquisar o Instagram, de mandar bocas.

E o TikTok.

E outra coisa: burra.

Burra. Ela escreveu.

És burra. Pediste e eu concordo. És burra em achar que ainda há salvação para esta merda.

Não há.

Esta pessoa anda a enfiar a língua dela em cinzeiros, deixa a meter, deixa a enfiar o que ela quiser e ser enfiado onde ela quiser.

Sim, tu estás a trabalhar em ti.

Segue a tua vida, estás a tratar da tua saúde mental, acabaste a tua relação, descobre exatamente o que é que tu queres do fato de estares solteira, da mesma maneira que ela está a descobrir o que é que ela quer que lhe lambam com o fato de estar solteira. E não fiques a conjeturar voltar para essa pessoa e para essa relação, porque essa relação já não é a mesma coisa.

Nem nunca vai ser.

Porque essa pessoa já não é a mesma coisa. Obrigado e bom dia.

terapiadecasalpodcast@gmail.com é para onde vocês podem enviar os vossos e-mails, como fez a Tiazinha e como fez a Nelson Arrozado, para terem estas pérolas de sabedoria dadas por Guilherme Fonseca, meu excelso marido. Estaremos cá para a semana. E beijinhos.