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Uma festa de aniversário, um bolo, refrigerantes e passado um bocado temos crianças mais agitadas, mais impulsivas, aparentemente cheias de energia. Mas será que o açúcar provoca mesmo hiperatividade ou estamos perante mais um mito na saúde infantil? Bom dia, doutora Vanessa Mendes.
Bom dia.
O açúcar deixa, de facto, as crianças hiperativas?
Esta é uma perceção muito comum, mas a evidência científica não confirma uma relação direta. O açúcar não causa hiperatividade no sentido clínico. E é importante aqui clarificar. O que significa hiperatividade? Do ponto de vista médico, falamos de hiperatividade como parte de uma perturbação de neurodesenvolvimento denominada, que agora se conhece muito, PHDA, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. E que se caracteriza por sintomas persistentes de desatenção, impulsividade e atividade excessiva com impacto na vida escolar, familiar e até social. Não se trata apenas de uma criança mais agitada num determinado momento, mas sim de uma patologia bem estabelecida.
Mas, Vanessa, por que existe esta associação tão presente entre o açúcar e a hiperatividade?
Porque há vários fatores que, de alguma forma, contribuem para essa perceção. O contexto, por exemplo, festas, estímulos sociais, a própria excitação, já aumenta naturalmente o nível de atividade. Existe também o chamado efeito expectativa por parte dos pais, que acreditam que a criança, porque consumiu açúcar, tendem a interpretar o comportamento como mais agitado. Ou seja, não é apenas o açúcar, é o contexto e a própria perceção.
Mas há algum efeito real do açúcar no comportamento?
Sim. Aqui é importante distinguir. O açúcar não causa PHDA, mas pode efetivamente provocar uma agitação transitória. E isto acontece porque provoca um aumento rápido da glicemia, um pico de energia e, portanto, a seguir, naturalmente, uma descida. E isso pode traduzir-se em maior excitação, alguma irritabilidade ou até dificuldade de concentração, que ocorre, contudo, de forma transitória. Há um efeito fisiológico real, mas diferente de uma perturbação de desenvolvimento.
E há crianças mais sensíveis a esse efeito?
Sim, por exemplo, crianças que tenham esta patologia, em que o consumo excessivo de açúcar pode agravar sintomas como a impulsividade e a desatenção. Mas não é, e aqui é importante frisar, a causa da perturbação, é apenas um fator que pode influenciar o comportamento.
Então o problema não é tanto a hiperatividade.
Exato. O impacto mais relevante do consumo de açúcar é global. Porque o consumo excessivo de açúcar está associado à obesidade, a alterações metabólicas e também às cáries dentárias.
Muito importante.
Muito importante. Não é o vilão da PHDA, é um fator importantíssimo na saúde das nossas crianças, de forma geral. E por isso deve ser sempre consumido com moderação.
O açúcar, sempre consumido com moderação. Foi mais um "Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes. Até segunda.
Até segunda, obrigada.