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Este é o "Tratar da Saúde", da Rádio Observador, sempre com a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Fala, doutora, bom dia. Bem-vinda. Já lhe aconteceu ir ao frigorífico sem estar realmente com fome, comer depois de um dia difícil ou em momentos de maior ansiedade e, no fim, ficar com a sensação de que nem precisava? Doutora Vanessa, afinal, estamos a comer por necessidade fisiológica ou por emoção?

Sim, essa distinção é muito relevante do ponto de vista clínico. A fome física é uma resposta fisiológica do organismo, que surge de forma progressiva e está associada a sinais como sensação de vazio gástrico, diminuição de energia ou até alguma irritabilidade. Já a fome emocional surge de uma forma mais súbita e está frequentemente associada a estados emocionais como o estresse, ansiedade ou a tristeza. E nesses casos, existe uma tendência para a procura de alimentos mais palatáveis e energéticos. Aqui os docinhos, normalmente, é o mais comum.

Eu digo sempre que gostava de ser como aquelas pessoas que quando estão em estresse, perdem o apetite. Eu é o contrário. Eu ganho muito apetite, pelos vistos, esta fome emocional. E o estresse, como falámos, tem aqui um papel importante, não é?

Tem, papel central. Em situações de estresse, há a libertação do cortisol, como também já falamos. Uma hormona que estimula o apetite e aumenta a preferência por alimentos ricos em açúcar, gordura. Portanto, trata-se de um mecanismo biológico de adaptação, não uma falha individual. E o problema surge quando este padrão se torna repetitivo e passa a ser a forma dominante da resposta às emoções.

Então, como é que podemos reconhecer essa diferença no dia a dia?

Sim, existem alguns indicadores importantes, nomeadamente uma vontade súbita de comer, o desejo por alimentos específicos, sobretudo os mais calóricos. A ingestão alimentar sem sinais físicos de fome e muitas vezes a sensação de culpa após comer. E isto é muito comum. Ao contrário da fome física, que tende a desaparecer após a ingestão adequada, esta mantém-se.

Mantém-se. E do ponto de vista prático, o que é que podemos fazer para lidar com esta fome emocional?

O primeiro passo é desenvolver esta consciência alimentar. Parar e identificar se existe uma necessidade fisiológica ou uma resposta emocional. Depois há medidas com evidência, nomeadamente técnicas de respiração para regulação do sistema nervoso, introdução de pausas ao longo do dia, atividade física regular e também otimização de sono. Estas são estratégias que ajudam a reduzir o impacto do estresse e a regular o comportamento alimentar.

Ou seja, não se trata apenas de controlo ou de força de vontade.

Exato. Trata-se de compreender os mecanismos que estão por detrás do comportamento alimentar. Quando esta compreensão existe, torna-se então possível fazer escolhas mais consistentes e sustentáveis. Portanto, há uma ideia essencial que devemos guardar. Nem sempre comemos porque o corpo precisa. Muitas vezes comemos porque estamos cansados, ansiosos ou até emocionalmente sobrecarregados. E isso não é falta de controlo, é uma resposta do organismo e o importante é aprender a reconhecer esses sinais, porque quando conseguimos distinguir a fome de emoção, deixamos de viver em conflito com a comida. E começamos a cuidar verdadeiramente de nós.

Vou ter em conta essas dicas. Obrigada, doutora Vanessa Mendes. Até amanhã.

Até amanhã. Bom dia.