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Este é o Tratado da Saúde da Rádio Observador, esta semana com o doutor João Marques Santos, médico de saúde familiar da CUF. Fala, doutor, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia, Maria João.

Doutor, vamos a uma dúvida muito concreta. De repente, tornou-se difícil abrir os frascos e as garrafas de água. Será que é só velhice ou é motivo de preocupação? Doutor João, isto é uma queixa frequente no consultório?

Essa é uma excelente pergunta, porque toca num ponto muito importante e que não se deve ignorar. Conseguir ou não abrir um frasco não é apenas um pequeno incômodo na nossa vida diária. A medicina olha para a força da nossa mão como aquilo que chamamos uma força de preensão manual. É uma espécie de barômetro da nossa saúde global.

Explique-nos isso melhor, doutor. Como é que a força nos dedos e no pulso consegue dizer-nos algo sobre a saúde do corpo inteiro?

Vamos pensar que, na verdade, para conseguirmos fazer a força necessária para rodar uma tampa ou abrir uma garrafa, não usamos apenas os músculos da mão. Precisamos de uma cadeia inteira a funcionar bem, com massa muscular e qualidade deste músculo, dos braços, do tronco, do sistema nervoso, que vai enviar os sinais corretos e até uma boa capacidade cardiorrespiratória para conseguirmos aplicar esta força.

Ou seja, a mão é onde essa força se manifesta, mas depende do estado geral do organismo, é isso?

Exatamente. Os estudos mostram-nos que ter uma força de preensão fraca está associado a uma perda de massa muscular no nosso corpo, menos aptidão física, de uma forma geral, e um risco acrescido de perda da autonomia das atividades dia a dia. É por isso que dizemos que isto é um marcador funcional global. Quando a força da mão cai significativamente, costuma ser o primeiro sinal visível de que o organismo, como um todo, está a perder vitalidade ou massa muscular.

E como é que vocês, médicos, avaliam se essa força é normal ou se já está abaixo do esperado, doutor?

Com estas perguntas, daquilo que as pessoas conseguem fazer no seu dia a dia, e objetivamente conseguimos com um aparelho muito simples que é um dinamômetro.

Dinamômetro?

Sim, um pequeno dispositivo que a pessoa aperta com toda a sua força e nos vai dizer quantos quilos é que consegue fazer em força nesse aparelho.

Já fiz isso, agora estou me lembrando, por causa de uma tendinite. E quais são esses valores limite?

Por exemplo, para diagnosticar uma condição chamada sarcopenia, que é uma perda de massa e de força muscular que está associada a uma doença ou o próprio envelhecimento, consideramos valores baixos quando a força é inferior a 27 quilos nos homens ou inferior a 16 quilos nas mulheres.

E em tarefas específicas, como abrir uma garrafa de plástico?

Embora não pareça, para abrir uma garrafa de água de plástico com sucesso, precisamos de ter 20 quilos de força na mão. Além de uma boa força de pinça nos dedos. Quem está abaixo destes limiares vai deixar de conseguir fazer tarefas lineares em casa.

E o que é que pode causar essa perda repentina ou progressiva da força? É sempre a tal sarcopenia, é assim que se diz, doutor?

Sim.

Que falou.

A sarcopenia e este descondicionamento físico são as causas mais comuns, mas existem outras razões. Pode ser essa tendinite, como falou há pouco. Há problemas articulares muito específicos nas mãos, por exemplo, artrose ou artrite reumatóide, mas aí normalmente há dor, há uma alteração de rigidez, deformações na mão que vão reduzir a força, ou até uma fratura, por exemplo, uma sequela de fratura, obviamente. Há causas neurológicas, por exemplo, uma sequela da AVC, problemas neurológicos do membro superior, como a compressão de um dos nervos que sai para a inervação do nosso braço, ou no pulso, ou no pescoço. E doenças sistêmicas, como períodos de internamentos prolongados, em que há uma diminuição da massa muscular, ou até doenças crônicas descompensadas ou déficits nutricionais que podem fragilizar o nosso corpo.

Para quem está ouvindo, doutor, e sente que já tem dificuldade em abrir recipientes, qual é a recomendação principal do doutor João Marques Santos?

Sim, em primeiro lugar, não desvalorizar, não assumir que isto é algo só associado ao envelhecimento. Temos que perceber o que se está a passar, falar com o médico de família, que vai ajudar a perceber um pouquinho a causa subjacente. Não significa necessariamente que tenhamos que medir a força com dinamômetro. Mas pelo menos perceber e orientar um plano. A excelente notícia é que esta força muscular se treina. E nestes casos de diminuição de capacidade muscular, conseguimos melhorar. Há exercícios específicos para os braços e para as mãos, há fisioterapia, um reforço adequado da proteína na nossa alimentação, por exemplo, o início de uma ida ao ginásio. São exemplos perfeitamente possíveis para recuperar a força muscular e manter a independência em casa.

Portanto, é uma mensagem de esperança e de prevenção. Cuidar da força da mão é cuidar da nossa autonomia. Não se esqueça disto. Muito obrigada, doutor João. Até amanhã.

Obrigado. Até amanhã.