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Começa agora mais um "Tratar da Saúde" com o doutor João Marques Santos. Olá, doutor. Bom dia, bem-vindo.

Olá. Bom dia, Maria João.

Hoje trazemos à conversa uma questão que divide opiniões: os ovos. Afinal, a gema faz mal ao coração e aumenta o colesterol ou é tudo um mito? Podemos comer ovos à vontade, doutor?

Isso é uma excelente dúvida, Maria João. É muito frequente perguntarem-nos isso também na consulta. De uma forma muito curta, é que depende muito da pessoa, de quantos ovos comemos e de como é o resto da nossa alimentação.

É o todo.

Durante muito tempo disse para limitar drasticamente os ovos, mas a evidência mais recente mostra-nos que a realidade é um pouquinho mais variável.

Então, para uma pessoa adulta e saudável, qual é o número ideal? Quantos ovos podemos comer por semana?

Os estudos mais recentes mostram que um padrão de consumo moderado, e aqui falamos entre três a seis ovos por semana, até pode ser quase um ovo por dia, é perfeitamente seguro para os adultos saudáveis. Comer um ovo por dia até pode ter um ligeiro efeito protetor para o nosso coração e os estudos em larga escala mostram que o equilíbrio é a chave. Comer ovos a menos, menos do que um por semana, também é prejudicial, ou em excesso, mais do que dez por semana, pode estar associado a mais risco.

Mas a gema tem, de facto, bastante colesterol, não é, doutor? Isso não passa diretamente para o nosso sangue?

Sim, é verdade, Maria João, que a gema tem muito colesterol, é rica em colesterol. No entanto, em pessoas saudáveis, o colesterol dos alimentos não se transforma automaticamente no colesterol LDL.

Mau.

Aquele a que chamamos o colesterol mau. Exatamente. Os estudos controlados mostram que comer até 12 ovos por semana não aumentou o colesterol LDL nem os triglicéridos. E em alguns casos, até aumentou o colesterol de alta densidade, o HDL, que tem um efeito ou um papel protetor no nosso organismo.

Falou em pessoas saudáveis e isso significa que há grupos de risco que devem ter mais cuidado?

Exatamente, esta é a verdadeira questão. Há pessoas com diabetes tipo dois, por exemplo, ou com doença cardiovascular estabelecida, conhecida anteriormente, que precisam de ter uma maior cautela. Porque aqui sim, a evidência mostra-nos que, nestes casos, um consumo elevado de ovos pode duplicar o risco de complicações e até aumentar a mortalidade cardiovascular. Para quem tem estas doenças, diabetes ou doenças cardiovasculares, o acompanhamento médico, pelo médico de família, ou um nutricionista, ou o cardiologista, é essencial antes de aumentar o consumo.

Imagino que a forma como preparamos o ovo também conta aqui para a equação.

Sem dúvida, isso é um fator muito importante. Aqui o acompanhamento importa tanto ou mais do que o ovo em si. Vamos pensar na diferença entre um ovo cozido ou escalfado com vegetais ou com um pouco de cereais é completamente diferente dos ovos estrelados com bacon.

Tão bom.

Exatamente. Sobretudo, a evidência mostra-nos é que o impacto do ovo na saúde depende quase sempre do padrão alimentar global da pessoa e não do ovo em si.

Claro. Ou seja, o ovo até pode ser um bom substituto para outras opções menos saudáveis no dia a dia, não é, doutor João?

Exatamente. Aqui pensamos, se trocarmos um alimento ultraprocessado ou uma fatia de chouriço de charcutaria no pequeno-almoço por um ovo cozido, não estamos a fazer mal. Estamos a fazer uma troca muito benéfica para a nossa saúde. É um alimento muito denso, em nutrientes e bastante completo.

Em resumo, para quem é saudável, o ovo deixa de ser o vilão da história.

Exatamente. Para a maioria dos adultos saudáveis, um ovo por dia inserido numa alimentação equilibrada é seguro e nutritivo. Para quem tem diabetes ou problemas de coração, deve ser um pouquinho mais moderado e eventualmente falar com a sua equipa de família para perceber o que é que pode comer.

Doutor João Marques Santos, obrigada. Até amanhã.

Obrigado. Até amanhã.

Vou ali comer um ovo. Até amanhã.