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Este é o Tratado da Saúde da Rádio Observador. Nos próximos dias com o doutor João Marques Santos, médico de saúde familiar da CUF. Olá, doutor. Bem-vindo de novo.
Olá. Bom dia, Maria João.
João, hoje vamos falar de um tema que deixa muita gente na dúvida: perder peso sem estar a fazer dieta ou exercício é uma boa notícia ou pode ser um sinal de alerta?
É uma excelente questão. Na verdade, em termos médicos, a perda de peso involuntária, ou seja, sem essa intenção de emagrecer, é um sinal que não deve ser ignorado.
Mas como sabemos quando essa perda de peso deixa de ser normal e passa a ser motivo de preocupação? Existe um valor limite, por exemplo?
Sim, há um critério muito claro. Nós, em medicina, consideramos uma perda de peso que é clinicamente relevante quando se perde 5% do nosso peso em menos de seis meses.
Mas consegue dar-nos um exemplo prático para quem nos está a ouvir perceber melhor, João?
Sim. Por exemplo, uma pessoa que pesa 80 quilos, se perder quatro quilos em meio ano ou em três ou quatro meses, isto sem ter mudado a alimentação ou ter começado atividade física ou um ritmo de vida diferente, é o suficiente para nós considerarmos fora do normal e precisarmos de fazer uma investigação um pouquinho mais cuidada.
E essa investigação precisa de ser imediata para toda a gente?
Há cenários que sim, que existe mais urgência. Por exemplo, nas pessoas com mais de 60 anos. Isto só porque nesta faixa etária há uma probabilidade maior desta perda de peso estar associada a uma doença mais grave, por exemplo, a uma neoplasia.
O que é isso, neoplasia?
Um cancro, possivelmente.
Além da idade, quais são os outros sinais de alarme que devem levar uma ida rápida ao médico?
Devemos ter atenção, por exemplo, se associado a esta queda de peso for acompanhado de sintomas intestinos, por exemplo, uma dor abdominal ou alterações do trânsito intestinal, uma tosse persistente que não passa, sobretudo se for durante muitas semanas, ou então até dores ósseas que não tenham outra explicação pronta.
Doutor João, quando pensamos em perda de peso sem causa aparente, o maior receio das pessoas é, como falava há pouco, o cancro, mas é sempre essa a razão?
Felizmente, não é sempre o pior cenário. Claro. Há muitas outras causas que não são associadas ao cancro, que não são neoplasias, e que frequentemente são tratáveis. Existe, por exemplo, a nível emocional e mental, a depressão e o estresse, que são dos principais responsáveis, porque estas alteram o paladar, reduzem o apetite e até provocam queixas digestivas. Isto faz com que a pessoa coma menos, muitas das vezes sem se aperceber que isso está a acontecer.
E que outras doenças podem estar por trás de uma acentuada perda de peso?
É isso que nós temos que rastrear também. Pode estar associado a um problema hormonal, por exemplo, o hipertiroidismo ou uma diabetes descompensada, uma doença do aparelho digestivo, como uma doença celíaca, úlceras intestinais ou digestivas, doenças do intestino, por exemplo, que diminuem a absorção de alguns nutrientes, outras infeções crônicas, por exemplo, como a tuberculose ou o VIH, como falamos aqui nesta questão de uma tosse persistente, ou então alguns medicamentos ou o consumo de algumas substâncias que podem condicionar o apetite, ou então aumentar o gasto de energia do nosso metabolismo.
Então, doutor João, o doente perde peso, vai ao médico, faz os exames iniciais e se estiver tudo bem, o que se faz a seguir?
Em primeiro lugar, pode ficar um pouquinho mais tranquilo, porque efetivamente as coisas estão bem. Sendo uma pessoa mais jovem, sem sinais de alarme, se esta primeira avaliação for negativa, ou seja, se estiver tudo sem alterações, podemos optar por uma vigilância ativa, ou seja, acompanhar esta perda de peso, perceber ao longo de três, seis meses se existe algum outro sintoma, prestar um pouquinho mais de atenção a estes sinais de alarme. Se for numa idade mais avançada, ter uma vigilância um pouquinho mais apertada, eventualmente repetir estes exames a curto prazo e fazer isto em espaços mais curtos.
Então, para terminarmos, qual é a principal mensagem que quer deixar aos nossos ouvintes, João?
A principal mensagem é não ignorar a balança. Se de fato notamos que a roupa ficou um pouquinho mais larga, que não se fez dieta e que de repente houve uma perda de peso, sobretudo se for algo que é muito rápido, devemos falar com o nosso médico de família, sobretudo irmos pesando e irmos anotando estes valores para depois quando chegarmos à consulta, termos algo concreto para apresentar ao nosso médico. Não chegarmos e dizermos só que sentimos a roupa mais larga e que efetivamente quando nos vamos pesar, temos menos um ou dois quilos. Mas sobretudo ter atenção a estas variações ao longo do tempo.
Doutor João Marques Santos, obrigada. Até amanhã.
Obrigado. Até amanhã.