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Começa agora mais um "Tratar de Saúde" com a Dra. Mariana Sobral, médica de família dos Centros de Saúde CUF. Olá, doutora. Bom dia.
Bom dia.
Hoje há uma frase muito comum: "Já me sinto bem, por isso deixei a medicação." À primeira vista parece uma decisão lógica, mas pode trazer riscos importantes. Dra. Mariana, por que isto acontece tantas vezes?
Eu acho que é natural e muito comum que, de facto, o sintoma desapareça e a pessoa tendencialmente deixa de fazer a medicação. E acho que parte disto é também culpa dos médicos. No fundo, se eu prescrevo um medicamento, eu tenho que explicar à pessoa para que ele serve.
Que ele vai até ao fim.
Exatamente. E quanto tempo. Se é uma terapêutica crônica por três a seis meses. Naturalmente, se é uma situação aguda, uma febre, uma constipação, aí pode ser orientado, quer por médico, quer por enfermeiro, a suspensão mais rápida.
Ou seja, sentir-se bem não significa necessariamente que a doença desapareceu.
Exatamente. As tais chamadas doenças silenciosas: hipertensão arterial, diabetes, colesterol. Portanto, o tratamento é para controlar a doença e não só os sintomas, e para reduzir riscos a médio e longo prazo. Por isso acho que é sempre importante perceber o que estamos a tomar, para quê e qual é o tempo previsível.
E qual é o problema de parar assim de um dia para o outro?
Depende muito do medicamento e da situação clínica, mas estou me a lembrar agora, por exemplo, de um antidepressivo, que pode causar uma série de sintomas secundários ou até um anti-hipertensor. Um dos maiores riscos aqui na suspensão do anti-hipertensor é de termos um acidente cerebrovascular, por exemplo. Portanto, é mesmo importante parar com indicação e procurar ajuda.
Sim, fazer aquele desmame, como se diz em muitos casos.
Exatamente.
Mas doutora, se a pessoa está a ter efeitos secundários, não deve parar?
Os efeitos secundários têm que ser sempre tidos em conta. Temos os efeitos secundários graves. Imagine que temos uma dificuldade respiratória, aparecimento de borbulhas a partir do momento em que se toma algum tipo de medicamento, é logo uma emergência médica. Em relação aos outros medicamentos, imagine, voltamos outra vez, um medicamento para o colesterol ou para a hipertensão arterial, se começarem a surgir aqui estes efeitos, é importante ir ao médico para percebermos se de facto estão relacionados com o medicamento que iniciou ou com outra coisa qualquer.
Dra. Mariana, também acontece muito a pessoa alterar doses porque leu alguma coisa na internet, porque um familiar toma menos ou porque quer fazer uma pausa.
É muito comum. E eu também compreendo. Mas, de facto, a prescrição, e cada vez mais, e essa é a evolução da medicina, é individualizada. Portanto, duas pessoas com o mesmo problema não têm de todo necessariamente que ter o mesmo tratamento. Aquilo que funcionou para uma família, para um familiar ou para alguém nas redes sociais, pode não ser apropriado e até pode ser perigoso. E só queria deixar aqui a mensagem que a grande maioria da medicação não produz nem habituação, nem dependência.
Que perguntas práticas devemos fazer antes de iniciar ou de manter uma medicação, doutora.
Em primeiro lugar, a decisão de iniciar um tratamento tem sempre de ser partilhada. Não é o médico que manda e que a pessoa tem de fazer. E sempre que não sentir confortável com o plano, deve procurar uma segunda, terceira, quarta opinião. Alguém com quem se sinta confortável. Depois, é importante também perceber o tempo de duração do tratamento, como é que deve ser tomado, horários, e quando se vai ao médico também é importante levar uma lista de medicação, que já faz, para evitar duplicação, e de suplementos também.
Portanto, uma consulta pode evitar tanto tratamentos desnecessários como paragens perigosas, é isso?
Sem dúvida. No fundo, tomar medicamentos sem compreender para que servem ou como é que vão ser tomados, cria uma insegurança que é natural. E voltamos outra vez ao mesmo. Se sai da consulta com dúvidas, é fundamental ou agendar uma nova consulta, ou procurar o apoio de outro médico ou até do farmacêutico.
Portanto, fica a mensagem prática. Antes de reduzir, parar ou mudar uma medicação, fale com quem a prescreveu. Cuidar da saúde também é não tomar decisões sozinho. Dra. Mariana, muito obrigada pelos esclarecimentos. Até amanhã.
Até amanhã, Joana.