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Bem-vindos à segunda parte da "Vixi Suave". Conosco temos alguém que não é marinheiro, é capitão, é Gonçalo Capitão, é deputado e coordenador do grupo parlamentar do PSD para a Comunicação, Juventude e Desporto. E por falar em desporto, creio que se Abriosa jogasse no céu, ele estava disposto a morrer só para ver jogar a sua académica. Gonçalo Capitão, tem visto os debates das legislativas? Que análise é que faz a estes frente a frente? São úteis para a escolha do candidato?

Antes de mais, muito obrigado pelo convite. Estando nós a conversar no dia 4 de dezembro, não ficaria bem a um militante do Partido Social-Democrata não evocar Sá Carneiro e para começarmos já em tom de abalroamento, do assassinato de Sá Carneiro. Portanto, eu sublinho o que estou a dizer, porque é uma convicção profunda. Sim, tenho visto os debates. Tenho visto os debates e até mais do que isso, as entrevistas. Os debates, eu acho que a certa altura, por um lado, o esclarecimento é bom, mas nós estamos num ambiente cacofónico na política e no mundo em geral. É tanta informação que a certa altura as pessoas já se perdem no meio de tudo aquilo. Mas tenho visto, sim. Há um ou outro que dispenso, até porque não vão esclarecer-me absolutamente nada, mas tenho visto e mais do que isso, tenho visto entrevistas. Se me diz Jorge Pinto, António Filipe, são figuras estimáveis, mas encontro outras ocupações para o meu tempo, embora tenha o maior respeito pelas utopias, sejam elas mais leves ou menos leves. Agora, o que eu recomendaria às pessoas é que não se fiquem pelos debates. Ainda outro dia, na segunda-feira, vi uma entrevista do doutor Pedro Santana Lopes ao André Ventura, que é talvez dos exercícios mais notáveis que aconteceu nesta campanha. Eu não sei se o doutor Santana Lopes se tivesse, é completamente legítimo, é um grande político português, é um homem que tem obviamente liberdade para dizer o que lhe apetece e fazer o que lhe apetece. Mas é uma entrevista em que o doutor André Ventura aparece como figura de Estado, em que fala das prerrogativas do Presidente da República. Eu não sei se o doutor Santana Lopes queria que ele aparecesse como figura de Estado ou se o queria expor para as pessoas verem. Atenção que é isto que aí vem, mas é uma entrevista em que o André Ventura diz claramente que a partir de Belém, ele já o tinha dito em tom panfletário, mas ali diz como constitucionalista, quase, que a partir de Belém não lhe choca nada, passados os seis meses em que não pode dissolver o Parlamento, dissolver o Parlamento, e a partir daí impor as suas causas, ou seja, como que tornar o sistema semipresidencialista em presidencialista. Aliás, o doutor Santana Lopes fala-lhe do exemplo francês e eu aí discordo absolutamente pelo seguinte: para isso era preciso uma revisão constitucional, não é isso que se espera, mas os portugueses, tenham atenção, já andam há muito tempo a usar o voto como protesto e usar o voto como protesto em demasia pode redundar numa coisa a que os britânicos chamaram Brexit.

E deste período de campanha, há algum candidato que o tenha surpreendido pela positiva ou pela negativa? Já sabemos o que é que pensa de André Ventura, já leiremos também a forma como lida.

Não diria que estão todos a cumprir as expectativas. Doutor Marques Mendes, experiência, equilíbrio, moderação, mundividência. Obviamente, eu sou do Partido Social-Democrata, se calhar não esperava outra coisa, embora às vezes os sociais-democratas apoiar outras candidaturas. Mas nenhum me surpreendeu. Acho que talvez a maior surpresa pela negativa tenha sido o almirante Gouveia e Melo, porque acho que entrou em desmando.

O Gonçalo Capitão fez mestrado em teoria e ciência política. Sabe o que é o marxismo-leninismo, não?

Isso deve ser uma adaptação às teses do Ventura, o leninismo. Não, obviamente é a brincadeira. Se calhar houve palavras que eu andei a repetir de forma errada a vida toda. Não pego nessa-

O pior do almirante não é o lapsus linguae, não é?

Não, obviamente que não, nem ninguém, todos temos direito a um erro. Aliás, eu às vezes, eu não gosto, mas por conselho profissional, vou ver as minhas entrevistas e "ih, um erro de concordância". E quando vai uma vírgula que não devia estar nos artigos, depois fico chateado. Não, o pior do almirante é que aparece como homem providencial. Para mim, o único homem providencial foi crucificado há quase dois mil anos e portanto veio para nos salvar. O almirante Gouveia e Melo, e agora que eu, se fosse mesmo da Armada e não fosse só de apelido capitão, estava sujeito à justiça militar. O almirante Gouveia e Melo é uma espécie de Ventura de farda. Ele veio para mudar o sistema, os outros não prestam para nada, isto foram quase 50 anos perdidos. O que o almirante Gouveia e Melo esquece é que a presidência é um cargo político, não é partidário, mas é político. Portanto, esta aversão à política, esta distância: "Ah, eu sou muito distante disto tudo." Então não deve perceber nada daquilo. Aliás, uma das coisas que aprecio num Presidente da República é sentido de Estado. E um chefe de Estado-Maior da Armada que repreende uma tripulação na comunicação social, não só perde a lealdade daquela tripulação, como me revela a mim alguma falta de sentido de Estado. Depois é a linguagem, é toda aquela coisa que queria um saltalho para o lombo e que ele corra mal dá coisa. A última coisa que quero é alguém que esteja a relinchar em Belém, para usar a idiossincrasia do almirante.

Acha que depois de Afonso Camões ter saído de mandatário de Henrique Gouveia e Melo, que também Luís Vaz de Camões vai querer afastar-se do candidato presidencial? É isso.

Coitado Luís Vaz de Camões. Não, acho que não, por causa do marxismo-leninismo. Eu nem sei dizer como é. Leninismo. Não, acho que não. Acho que o Camões taparia o outro olho, neste caso que era para não ver nada.

No dia 12 de novembro, fez uma sessão em Almada que tinha o seguinte mote: Por que razão devemos votar em Luís Marques Mendes? Consegue explicar-nos de forma sucinta, claro, quais as razões porque Mendes é o melhor candidato? E se esta é demonstrável.

Quando cheguei lá, uma das coisas que disse foi sugerir que alterassem o título para "Como não votar Marques Mendes." Por um lado, porque acho que os outros candidatos, e podemos ir lá se for do vosso interesse, ficam muito aquém de Luís Marques Mendes. E pelas qualidades que já disse, ele tem as qualidades que eu quero num presidente: moderação, sensatez, experiência de vida, mundividência, toda uma grande parte da sua vida dedicada ao serviço público. E eu não tenho dúvidas de que ele vai ser imparcial. Vejam que ele foi criticado por ter, às vezes, opiniões no seu lugar de comentador. E bem sei que a presidência não é um lugar de comentário. Esse é o argumento fácil de quem não está contente com ele. Opiniões favoráveis a António Costa, desagradou muita gente no PSD. De tal maneira, vejam o doutor Isaltino, por exemplo, e outras pessoas que hoje em dia não podem vê-lo. Portanto, eu acho que é por aí. E por outro lado, nenhum dos outros candidatos me convence. Podemos ir lá se for do vosso interesse.

Exatamente. Dizia que eles ficavam aquém. Sei que já falou aqui de André Ventura e de Govemo e Melo, não sei se quer explicar-nos por que os outros candidatos ficam aquém.

Eu diria que dos outros candidatos, António José Seguro é um homem decente. É verdade. Embora nos debates que ele faz, eu vejo um bocadinho um programa de governo. Eu não sei se aquilo não é um bocado ainda a dor do que lhe aconteceu e que foi indecente, que foi a facada que Costa e os amigos de Costa lhe espetaram nas costas. Porque houve aquele acordo para António José Seguro ficar à frente do partido e mal cheirou a poder, trataram dele. Que é um bocadinho o que eu temo. Temo é uma forma de expressão. O Partido Socialista fará o que entender com as dores deles para o seu bem. E que é o que vai acontecer a António José Carneiro, que aquilo é inominado pelo Pedro Nuno Santos/António Costa, e portanto quando cheirar a poder outra vez, eu temo bem que o doutor José Luís Carneiro, que é um homem com quem eu trabalhei na minha vida extrapartidária e vejo como um cidadão íntegro, eu acho que ele vai ser vítima de tudo isso. Mas voltando, o António José Seguro, eu não sei se ele não está mais a recuperar o tempo que não o deixaram estar à frente do PS, porque ele fala de educação, e fala de economia, e fala disto e daquilo, mas no fundo não exibe todo o grau de experiência e todo o mais que Marques Mendes pode dar. Ou seja, sendo um político moderado, o outro dá mais. Cotrim, eu percebo. O Cotrim, com todo o respeito, é sério, com todo o respeito, faz-me lembrar aqueles produtos com aloe vera, ou seja, tem um perfume agradável, está na moda, mas não resolve é nada, realmente. Porque a última coisa que eu acho que faz falta em Portugal é um presidente que queira impor uma toada liberal a uma sociedade com tantas assimetrias. O liberalismo, se algum dia funcionar, será numa sociedade muito mais equalizada ou equitativa do que a nossa. O André Ventura, isso já é outra coisa. Eu, aliás, se é que eu tenho esse poder, eu pediria às pessoas que refletissem bem. Nós estamos num ponto de viragem que pode ser histórico. Se Ventura não passar à segunda volta das presidenciais, é aquele momento do combate de boxe em que o pugilista que está cheio de energia leva o primeiro golpe e sangra pela primeira vez. E ele está um bocadinho desorientado, porque Luís Montenegro, e bem, começou a roubar as bandeiras que são de defender e a democratizá-las e a executá-las, e portanto ele já não sabe o que há de dizer. Aquilo é um bocadinho um suplemento político da Revista Maria, ou seja, escrevem para lá e dizem: "Olha, agora eu acho que isto está muito inseguro." Isso, vamos dar neles. "Ai, não sei o quê, a toalha do meu pai." Pois, usa outra. Já serve para tudo. E eu acho que as pessoas têm aqui uma oportunidade de semear definitivamente a instabilidade no Chega. Não acaba no dia a seguir, nada disso. Não vai para os cinco deputados no dia a seguir, não vai, mas dá-lhes uma sensação de mortalidade que eles ainda não adquiriram. Também se ele passar, não é o fim da democracia. As pessoas quando acabou a democracia clássica do século XIX, ali por volta da Primeira Guerra Mundial, também acharam que era o fim da democracia e lá está. Não é nada disso que hoje está em causa. O Ventura não é o fim da democracia, nem o apocalipse, nem tampouco meio Salazar. Não tem categoria para isso, embora eu repudie qualquer espécie de ditadura e qualquer espécie de ditador. Não haja equívocos. Não estou com isto a fazer a apologia do doutor Salazar, apesar de ter estudado na mesma faculdade. Mas o Ventura é uma coisa totalmente à parte. As pessoas é que decidirão. Para mim, há dois tipos de pessoas que votam no Chega. Uma corresponde a uma mentalidade muito portuguesa, que é aquele conjunto de pessoas que não acredita no mérito, e às vezes com razão, porque temos ainda muitas distorções ao mérito na sociedade portuguesa, e que portanto prefere a visão negativa das coisas. Por exemplo, um de vós comprou um carro. Eu se for por aquela mentalidade mais pequena, digo: "Pois, tem cunhas. Roubou. Ai, não sei o quê." Em vez de pensar, como pensam outros povos e muitos dos portugueses já também: "Ah, não, eu vou trabalhar muito e vou tentar conseguir o suficiente para ter também esse carro."

É o ressentimento em relação a isso.

É isso mesmo, era a palavra que eu ia usar. Ele cavalga o ressentimento, explora a dor e aquilo é uma política quase de abutre. Está à espera que a pessoa caia para o lado, pira lá. Mas depois há gente que legitimamente quis protestar. Aliás, foi gente que quis protestar que levou o Hugo Chávez ao poder. Eu conheci muita gente na Venezuela que votou o Hugo Chávez porque queria protestar contra o Carlos Andrés Pérez e contra o regime anterior, etc. Agora, pensa aí duas coisas. Primeiro, os partidos maiores, eu falo pelo PSD, mas imagino que o PS também, já ouviram o recado. Realmente, isto estava adormecido e não podia continuar como estava. O recado está ouvido e por isso é que estamos em ritmo de transformação, por isso é que a economia está a crescer, por isso é que estamos a fazer várias transformações. Por outro lado Pensem bem se querem andar acompanhados pelo primeiro grupo. Portanto, o Ventura é isto: é o ressentimento, é a revolta, é a punição, é a divisão onde deve haver união. E depois falta-nos Manuel João Vieira. Já entrou outra assinatura. Eu tenho respeito pelo Manuel João Vieira por uma coisa: o Manuel João Vieira é talvez a única pessoa em Portugal que consegue fazer contracultura. Ou seja, ele põe em causa tudo o que é a nossa sociedade, tudo o que é a nossa cultura, e portanto, podemos levar só pelo lado cômico, que ele também estimula, mas ele veio para nos pôr tudo em causa e quem quiser aproveita a candidatura do Manuel João Vieira para pensar em muitos sinais de ridículo que às vezes temos e nem damos conta.

Para forçar uma reflexão. Foi da direção nacional da JSD com Pedro Passos Coelho, sob a liderança de Pedro Passos Coelho, não lhe parece que seria o nome mais consensual como candidato à Presidência da República?

As candidaturas presidenciais são de impulso próprio. Eu, por exemplo, acho que António José Seguro, se calhar, não era o mais consensual para o PS e avançou. Jorge Sampaio, se bem se lembram, presidente Sampaio, um homem que eu tive a oportunidade de conhecer e que muito respeito, avança também dimpto antes que alguém se lembrasse do assunto. O Pedro Passos Coelho não quis avançar. Se me perguntam se eu tenho boa impressão do Pedro Passos Coelho, tenho. Partidariamente, estou com Pedro Passos Coelho, apesar de ser amigo dele e de gostar muito dele, não. Porque corresponde a uma opção e a uma linha que não é, de momento, tão compatível quanto isso com Luís Montenegro. Mas eu penso que se ele tivesse avançado, se calhar, também teria muita abrangência, mas eu não sei se teria mais que Luís Marques Mendes, sinceramente. Se calhar, vamos teorizar um bocadinho. Os votos que Passos Coelho ia buscar à direita, vai Marques Mendes buscar ao centro-esquerda. Portanto, serão candidaturas muito diferentes, isso sim, mas não vejo como uma seja melhor do que a outra.

Não havia, naturalmente, uma capacidade maior de alargar a base eleitoral face a Marques Mendes.

Acho que não, porque, por exemplo, o Passos hoje em dia está mais, na minha interpretação, está mais à direita.

Deixe só conseguir também a pergunta: não haveria uma hipótese maior, por exemplo, de afastar André Ventura desta corrida?

Acho claramente. Mas quer dizer, agora não é Virginia Woolf, mas é quem tem medo de André Ventura. Quer dizer, não tenho medo dele. Eu não sei, se calhar não perderam tempo com isso, mas há uma intervenção de repercussão que ainda hoje não entendi, que eu fiz no Parlamento. Não há que ter medo deles. Quer dizer, ou iam para a volta ou faziam fogo de contenção. Não é entrar por ali adentro. André Ventura é um político como outro qualquer. O que assusta ali no Parlamento é o comportamento daquela bancada, mas há uma coisa que têm de entender: eu não tenho medo.

Já que pegou nessa intervenção também acabou por desmontar o Chega com algum humor. Parece-lhe essa uma forma eficaz de combater este populismo de André Ventura?

Esse assunto, eu confesso, há uma coisa que para vós não fará muito sentido, mas para mim ajuda a explicar a minha perplexidade. Eu saí do Parlamento, ainda não havia redes sociais. Voltei com as redes sociais e senti-me esmagado. Logo a seguir à intervenção do PCP, entra com esta do Chega. Eu ainda andei ali dois dias a perceber o que tinha-me passado por um lado e por outro. Mas o que eu acho é isto, e já disse isto noutro sítio: quando as coisas são ridículas, temos que tratá-las como ridículas. Aquele discurso sobre as autarquias era a coisa mais inenarrável do mundo. Eles têm contradições do arco-da-velha. Aliás, o Ventura admite isso. Quando ele é confrontado com as contradições, por exemplo, entre um artigo que escreve em 2004 num jornal acadêmico, em que o Estado tinha de ser laico, pois está a cumprir uma missão de Deus. Depois era a tese que era contra o populismo penal e depois vem com as castrações químicas, com as prisões perpétuas e tal. E quando lhe perguntam sobre isso, ele diz uma coisa perigosíssima, que eu acho que não tem sido enfatizada, que é: "Ah, eu distingo a opinião da ciência." O que isto quer dizer são várias coisas. Primeiro, que podemos contar com um político que hoje tem uma opinião, amanhã outra e depois de amanhã outra ainda diferente, porque a opinião é uma coisa que podemos mudar consoante o nosso apetite, a nossa vontade. E por outro lado, uma coisa mais perigosa ainda, que é este protagonismo messiânico, quase à Bolsonaro, à Trump, que é estou a cumprir uma missão de Deus. Ou seja, a minha opinião é superior às outras porque a minha é dada por Deus. O que ele depois não explica é porque é ele o escolhido de Deus e não nenhum outro membro do seu partido ou dos outros. Quer dizer, nós somos todos representantes de Satã, teoricamente. Andamos todos nos cultos satânicos.

Depois desse momento, Rita Matias, deputada do Chega, disse que o Açou Capitão já podia voltar para o fim da bancada parlamentar do PSD, onde ninguém o vê. O Açou Capitão acaba por ser um epifenómeno desta legislatura?

Isso não sei. Agora é ela que espera e depois verá. Era o que mais faltava eu ocupar-me com a Rita Matias. Olha, em primeiro lugar, o lugar de deputado não só não é novo para mim, como não é o meu primeiro emprego. Em segundo lugar, eu convido a espremer o conteúdo das intervenções, sejam a brincar ou não, o meu e o dela. E portanto, a Rita Matias devia dedicar-se ao poker porque é um bluff. O que ela fez bem e que a maior parte dos deputados não faz, é adaptou-se ao mundo da comunicação atual. Mas aquilo é uma embalagem. Depois vai abrir, é como as compras por correio quando compra o 46 e depois sai lhe um 39. Ela que me diga uma ideia que tenha. Aliás, eu posso debater, se marcarem duas sessões plenárias por causa do tempo, eu enfrento qualquer um dos deputados do Chega individualmente.

Desafio-la para um debate, depois fazemos aqui na Rádio University.

Não, até porque eu gosto de bater com gente educada. Eu só preciso de uma garantia dela, é boa educação, que é coisa que ela não tem revelado. E portanto, virá o dia em que a líder da juventude venturiana me intimida com esse tipo de comentários. Aliás, porque a minha experiência de vida e o meu currículo Falam por mim em relação à dela. E eu vou lá para trás, sim. Eu tenho aquela lógica do Churchill de que ser backbencher é uma coisa muito importante, mas estou disponível sempre que o líder parlamentar me chamar, sem medo. Não creio que seja um epínome, mas sim, não está nas minhas mãos falar quando me apetece. Isso não.

Foi adido na Embaixada de Portugal em Caracas, já falou que viveu na Venezuela. Parece-lhe que Portugal deve apoiar uma ação do aliado Estados Unidos no terreno ou deve abster-se de qualquer posicionamento para defender os portugueses e as comunidades portuguesas na Venezuela?

A posição, primeiro vamos estar claros, eu gostava que nós fôssemos mais relevantes no panorama mundial, mas o presidente Trump não vai ter em conta a nossa opinião se decidir fazer alguma coisa na Venezuela. A verdade é essa. Mas o Estado português tem sido relativamente cauteloso em relação à Venezuela, precisamente pela quantidade interminável de portugueses que lá temos. Eu dei a volta aos 23 estados e posso dizer que nós temos comunidades até no estado do Amazonas, que é uma coisa pequena, rodeada de selva, e nós temos comunidade. Por isso, sim, é preciso cuidado, até porque uma declaração mal posta, se o regime se aguentar, pode pôr em causa os negócios dos portugueses. Os negócios dos portugueses não estão só nas áreas urbanas, estão também nos bairros, que para as pessoas entenderem, são as favelas do Brasil. E sim, claro, eles têm coletivos e têm outras organizações que no fundo são grupos armados que facilmente expropriariam e esbulhariam os portugueses dos seus negócios. Dito isto, eu acho que Portugal também não pode é apoiar a continuação do que lá está. Porque já chega, aquilo é muito mau, é mau demais, é pior do que as pessoas sabem, não tendo vivido lá. Mas eu acho que em termos de Estado, tendo em conta até que Trump decidirá o que entender, não vale a pena estarmos aqui com posições voluntaristas e animadas que depois se venham a revelar prejudiciais para a nossa comunidade, porque sim, lá punem-se as pessoas da oposição. Há muitas coisas que as pessoas não suspeitam cá, mas lá a vida humana não tem o mesmo valor que aqui.

E agora, para terminar, vou voltar à questão quando lhe perguntávamos se ia voltar para o fim da bancada parlamentar, porque fez parte da direção de Pedro Passos Coelho, que chegou a primeiro-ministro, de Pedro Duarte, que foi ministro e é recém-eleito presidente da Câmara do Porto. Falhou alguma coisa no seu percurso para não estar aqui na linha da frente da política ou da bancada?

É engraçado que essa que devia ser a pergunta mais inocente, é a mais difícil. Eu se calhar do ponto de vista da ambição e dos projetos pessoais, nunca fui um bom gestor. Ou seja, fui sempre ao sabor das coisas que iam aparecendo. Por exemplo, estive 12 anos fora do país. Adorei, foi uma experiência brutal com as comunidades portuguesas da África do Sul, do Brasil menos e da Venezuela o tempo maior. Aprendi muito, aprendi quer com os portugueses lá fora, quer com os diplomatas. Sou hoje um tipo muito menos impetuoso e muito mais ponderado pela experiência que tive com a classe mais ponderada do mundo. E o ponderado aqui já tem um sentido irónico. Nunca tive uma ambição concreta de ser isto ou aquilo. Até acho que é um bocadinho aéreo o Dino ter saído do tanque. O Dino acabou afogado, eu ainda não. Mas ter saído do tanque e voltado para o Parlamento tantos anos depois. Aliás, houve um funcionário da velha guarda do Parlamento, dos velhos tempos, há vários, que estão lá desde a outra vez que eu lá estive. Dizia: "Então, senhor doutor, voltou para o pé de nós e tal." Apanhei o doutor Montenegro distraído e pus o meu nome na lista. Não é bem assim. Ou seja, nunca tive a ambição de estar na primeira linha. A propósito daquela intervenção da Rita Matias, estou a rolar na cauda do pelotão. Quando o líder parlamentar me chama, eu vou para a frente, puxo pela equipa e no caso do Chega, fiz uma fuga.

Vamos então avançar para a fase do carne ou peixe, em que tenho que escolher uma de duas opções e vamos pôr aqui uma trilha não sei se vai ouvir, de tensão para responder a estas questões muito rapidamente. Quem é que levaria a um jogo da Académica no Estádio Cidade de Coimbra, André Ventura ou Henrique Covilhão?

André Ventura.

Quem é que levaria a comer uma empalhada no Tropical, Rui Rio ou Pacheco Pereira?

Pacheco Pereira.

E se tivesse que dar um curso para melhorar a retórica com algum humor à mistura, escolheria António Leitão Amaro ou Sebastião Bugalho?

Sou amigo dos dois, mas talvez António Leitão Amaro.

E se o convidassem para partilhar um painel de comentador da televisão, preferia ter como parceiro Marcelo Rebelo de Sousa ou Marques Mendes?

Marcelo Rebelo de Sousa. Foi meu orientador de tese.

Quer explicar alguma coisa às pessoas que viu?

Se calhar. O André Ventura a ver Abriós e a Associação Académica de Coimbra pode ser que lhe ensinassem princípios democráticos de moderação e saber estar. Portanto, essa é fácil.

E o Pacheco Pereira?

O Pacheco Pereira custava muito que ele me explicasse a tese do Ronaldo ter feito um ato de traição ao visitar o Trump adora-lo. Acho que ia ser uma conversa brutal. Talvez ele trouxesse um quilo de papéis lá da instituição dele para me tentar explicar, mas não ia convencer.

E o Leitão Amaro? É porque ele é mais xisudo que o outro.

Não, eu decidi isso à graça, é ministro.

E Marcelo Rebelo de Sousa já justificou. Vamos então para a última parte deste programa, que é a sobremesa, e dizer a música que nos trouxe e o porquê dessa escolha.

Desde logo, porque eu acho que o Reininho é o meu poeta português contemporâneo favorito. É um homem que joga com as palavras e que nos permite uma coisa, que é ouvirmos a coisa pelo lado superficial. E é uma canção pop e estamos ali divertidos Ou se quisermos pensar no que ele nos diz, ele aborda em muitas das músicas do GNR vários problemas sociais e até políticos interessantes. E esta do "Cais" tem uma referência, por exemplo, cinematográfica ao "Inda Ha Lodo no Cais", assim é que se chama o filme, que trata de problemas sociais, laborais muito complexos. Fala-nos de mitologia, do Netuno e das sereias sensuais. Eu convido as pessoas a verem as várias referências que ele põe nas músicas. Por exemplo, ele tem outra música que é a "Sexta-Feira", um seu criado, logo aqui está uma referência ao Robinson Crusoe. "Já nem sei em quem votei", que é um bocadinho o ambiente actual. "Julieta Suicida", "Meias de Vidro", "Meias de Vida". É, de facto, maravilhoso conseguir estar a ver a análise da sociedade através dos olhos do Rui Reininho e foi por isso.

Gonçalo Capitão, muito obrigado por ter participado e estar connosco à mesa aqui na ViciSuave, que regressa, como sempre, na próxima semana. Ficamos com o "Cais" do GNR.