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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Diogo Pacheco de Amorim, vice-presidente da Assembleia da República, deputado do Chega, alguém que está muito habituado a pensar a direita em Portugal e do ponto de vista histórico, sobretudo. Falemos sobre isso, sobre a direita nestas eleições presidenciais. Na noite da primeira volta, André Ventura disse que quer liderar essa tal direita e agregá-la. Entretanto, não apareceu uma única figura relevante de direita a apoiá-lo. Sabemos que Ventura diz que dispensa o apoio dos notáveis, mas isso não significa que não está a conseguir como queria agregar a tal direita.
Miguel, é preciso começar por o que é a direita. Isto é uma questão básica. Eu não sei se cabe no âmbito aqui um pequeno historiado.
Claro que sim.
Nós desde o 25 de Abril, de fato, não tivemos nenhum partido de direita. O que houve foi o Partido do Progresso, que não era a direita marcelista, não era a direita do antigo regime, era de fato direita. Aliás, o Mateus Fernandes, que era o secretário-geral do partido, esteve preso em Peniche durante dois anos no tempo do doutor Salazar. E as pessoas que estavam à frente do partido foram ilegalizadas. Depois o PDC, com menos relevância, porque o Partido do Progresso estava, de fato, a juntar muita gente. A direita ficou órfã e teve que se encostar, na altura, ao CDS e ao PSD, mas principalmente ao PSD. Convém, na minha opinião, esclarecer aqui uma coisa: o PSD não é um partido, são dois partidos em um. Aliás, não é por acaso que aparece o PPD/PSD. Há o PPD, que é um partido popular e conservador, e o PSD, que é um partido social-democrata de centro-esquerda. E conviveram sempre, a Buenos Aires entrou na São Caetano, mas a São Caetano junta a Buenos Aires também e a São Caetano. E o que acontecia? A famosa história do voto útil. Faziam campanha à direita, apanhavam o voto útil da direita e com o voto da direita iam governar à esquerda ou centro-esquerda. Portanto, há esta permanente ambiguidade no sistema. Aparece uma tentativa de partido de direita com o Manuel Monteiro no CDS-PP, onde eu também dei uma mão, mas faliu dois anos depois essa tentativa de passagem à direita do partido centrista, que voltou pelas mãos de Paulo Portas a ser, curiosamente pelas mãos de Paulo Portas, que era um homem até então de clara direita e dos entusiastas da transformação do CDS num partido de direita, num partido novo do centro de uma democracia cristã vaga. Há o PND, que tenta pegar nessa parte que seria o CDS de direita, mas não havia redes sociais e, portanto, não tinha hipótese de vingar e não vingou. A outra tentativa que aparece neste momento com êxito é o Chega. E agora vamos ver, o Chega é um partido de direita, de extrema-direita, é direita radical, é direita populista. O Chega é um partido de direita, é aquilo que há 20 anos a CDU e o CSU eram. Só que, entretanto, aquele traço do centro do espectro político foi andando para a esquerda. Repare uma coisa, eu acho uma coisa espantosa, no outro dia ouvi a referir, porque alguém que dizia que só há dois sexos, masculino e feminino, e era tratado de direita ultraconservadora. Então eu pergunto: o que é uma direita conservadora? É a que admite três sexos, quatro, cinco, seis, não admite 20? Ou seja, acho que é importante recentrar isto. E recentrar é: o Chega é um partido de direita popular. O populismo foi inventado pela ciência política de há 20 anos para cá. No fundo, não é nada, é uma forma de degradar, se quiser, ou de menosprezar aquilo que é um partido de direita popular. Chegados aqui, neste momento, houve, graças a Deus, uma clarificação. E pegando na pergunta que o Miguel me faz: e qual é a clarificação? Eu imagino que não vai haver nas próximas legislativas mais um voto útil no PSD.
Mas deixe-me só acompanhar o seu raciocínio. Portanto, acha que este movimento que à direita, para simplificar, que à direita existiu de rejeição de André Ventura, pode ser benéfica para o Chega, é isso?
Pode ser, completamente.
Porque é um clarificar de águas.
É um clarificar de águas. Nós temos vindo a lutar permanentemente, aliás, já no tempo do PND, contra o voto útil, aquele tal voto que ficou órfão. Nunca tivemos um partido de direita e, portanto, era o voto possível. Mas entretanto, criou-se o hábito desse voto útil, o votante útil viciou-se no voto útil. Só que agora a questão é: nas próximas legislativas, nós vamos guardar a caderneta de cromos dos apoios, quem foram os cromos que apoiaram. É este senhor que quando estava em questão uma luta entre a esquerda e a direita nas presidenciais, que foi apoiar a esquerda. Ou seja, o votante útil, neste momento, olha para o seu voto e diz: "De fato, o meu voto eu não vou votar inútil." Portanto, esta clarificação para nós foi benéfica, porque de fato estes apoios, o Miguel referiu que foi a direita. Não é a direita, aquilo quando muito pode ser um centro, centrão, podemos entrar no centrão. Aliás, há muita gente que ficou surpreendida, Miguel. Nós sabemos que Em Bruxelas, a Comissão funciona há 20 anos sob um quadripé que é, para traduzir em português, o Partido Socialista, o Partido Social-Democrata e Conservador, os Verdes e os Liberais, que estão numa coligação informal há 20 anos e que sustentam esta Comissão. É evidente, o que estamos a observar agora é exatamente esta coligação europeia transposta para estas eleições.
Acompanhando o seu raciocínio, vai obviamente provocar, nas suas palavras, uma clarificação de águas, mas o resultado dessa direita mais fiel a André Ventura, mais fiel ao ideário do Chega, será necessariamente uma direita mais pequena do que o objetivo inicial que existia, talvez de alargar as barreiras do Chega. Existir de alargar não pode significar estar condenado a liderar uma força mais pequena?
Os resultados das eleições é que nos vão dar a resposta a isso. Nós temos claramente, e é verificável, um bloco muito coeso de apoiantes, que anda pelos 22%, 23%. Tudo o que vier a mais é um alargamento. Nós já tivemos uma vitória grande que foi a passagem à segunda volta. Esta é indiscutível, já foi dada. Ou seja, uma posição de relevo, dar no espectro político português uma posição de relevo à direita. Agora, na segunda volta podemos ficar, eu poria como uma segunda vitória os 31,8000%, ou seja, mais meia dúzia de votos em termos de percentagem, porque estão a dizer: "Está bem, mas podem ter uma percentagem maior, mas têm menos votos." Mas a verdade é que o que conta são votos, são as pessoas que vão votar. Nós temos que contar é a vontade de manifestar. E, portanto, não colhe vir dizer: "Está bem, tiveram 35%, mas tiveram menos 100 mil votos que teve o PSD nas últimas legislativas." Isso não colhe, porque o que conta é quem está, está, quem não está estivesse. Quem conta é quem vai manifestar, quem quer manifestar o seu voto. E por isso a percentagem conta exatamente o mesmo se houvesse, em termos normais, um aumento de votos. Portanto, se ultrapassarmos os votos que o PSD teve nas legislativas, aí, de facto, sob qualquer hipótese, pode dizer lidera o centro-direita, lidera a direita. A verdade é que lidera. Lidera um espaço que em legislativas deu para governar. Tudo o que tivermos além disso só aumenta este espectro. E eu acho que o Montenegro fica em muito má situação se nós tivermos mais um voto e ele ou mais um décimo do que ele teve nas legislativas. Vai ter que repensar. Para continuar, isto pode resultar no rearrumamento das forças políticas. Ou seja, vamos admitir que o núcleo duro do voto social-democrata é o que teve o Marques Mendes, os 11%. Acho que faz mais sentido juntar isso com o Partido Socialista à direita do socialismo democrático. Porque qual é a diferença no fundo? Tem mais um décimo disto de presença de Estado, menos um décimo. De facto, passamos a ter um único partido. Se até agora a São Caetano se juntava o PPD e o PSD, agora passa a juntar o PSD e a ala direita do PS ou vice-versa no rato. Portanto, o que faz sentido é: fica o centro, um partido centrão, a direita com o Chega e a esquerda com a ala esquerda do Partido Socialista, se quiserem, o rearrumado de qualquer forma. O que faz sentido é que, de facto, neste momento, temos três forças objetivamente. O resto é: "Está bem, mas dizem que são de direita." Uma coisa é uma pessoa dizer que é de direita, outra coisa é direita, ou pode ser que eu seja de extrema-esquerda e toda a gente se ri, pode eu dizer que eu vim de extrema-esquerda, ou bombista, ou assassino. É óbvio. Portanto, Miguel, parece-me que, neste momento, o panorama para mim é este. Agora, posso estar enganado, não sei qual é a vossa opinião.
Esta questão de André Ventura alargar ou não a sua base eleitoral, a que já tem do Chega. Ele classificou já nesta segunda volta António José Seguro como o Tó Zero, como uma inutilidade, até já fez imitações do adversário. Acha que com esta retórica André Ventura consegue alargar o eleitorado e consegue apelar à tal direita moderada que pode estar em processo de rearrumação?
Eu diria que o André Ventura não resiste a certas tiradas. Não resiste, é mais forte do que ele.
Mas estrategicamente são avisadas ou não?
Mas sabe, o que me parece, estou há alguns anos com o André. E várias vezes digo: "André, eu acho que talvez."
Às vezes aconselha-o a ter mais calma na maneira como entra.
E não só eu. A minha intuição funciona e tem funcionado sempre. Portanto, se me diz racionalmente o que me está a dizer, faria mais sentido o doutor André Ventura moderar-se na linguagem, nas expressões, na forma de estar. Racionalmente eu diria que sim, mas a verdade é que tem funcionado.
O instinto dele não tem falhado.
Não tem falhado. Está bem, então vamos alargar. Mas entretanto, o que também está a acontecer é que as pessoas também se estão a radicalizar. Olha para a televisão, é uma pessoa estimável, o doutor Seguro é uma pessoa estimável, honrada, ninguém diz que não é, mas é tão redondo que as pessoas começam: "Mas o que é isto?" E portanto, começam a pensar: "Mais do mesmo, vamos ter mais do mesmo. Não, então prefiro este, por muito que ele radicalize, prefiro aquele." É muito difícil de dizer se tem razão ou não tem.
Mesmo que não sejam fãs absolutos de André Ventura, podem, por reação a Seguro, preferir o estilo de Ventura.
E depois também pode acontecer uma coisa. Se começar a haver aquilo a que se chama moderação na linguagem, nos termos.
Pode diluir.
Não é diluir, é depois o eleitorado base dizer: "Já está a ficar como os outros." Portanto, isto do ponto de vista tático e estratégico, é muito difícil de encontrar. Só mesmo por instinto. E isso o doutor André Ventura até agora tem demonstrado um magnífico instinto e espero que não tenha perdido. Julgo que não.
Defende que Montenegro deveria ter apoiado André Ventura contra o perigo do socialismo trazido por António José Seguro, mas foi o mesmo André Ventura que disse nesta eleição: "Que se lixe Montenegro." Em que é que ficamos?
Quero pôr exatamente da mesma forma, mas eu não segui completamente.
Ou seja, o ponto aqui é: André Ventura não tem propriamente tratado sempre bem o PSD. Disse o "que se lixe Montenegro" há pouco tempo. Não faz as referências mais simpáticas ou de quem tem mais vontade de se aliar ao PSD, mas quer o apoio ou queria o apoio do PSD nas eleições. Aliás, chegou a desafiar Montenegro a apoiá-lo. Como é que se faz esse equilíbrio? Quer afinal o apoio do PSD ou quer tratar o PSD como inimigo político?
Já é um problema que se põe desde a primeira vitória.
Da relação com o PSD.
A nossa posição foi sempre: "Ouçam, nós estamos aqui com prejuízo do partido. O partido perde e vai para uma coligação." Nós temos o trauma do CDS. Quer dizer, o CDS foi sendo minado e foi sendo laminado pelas possíveis coligações e alianças, e portanto, era um risco que nós corríamos. Mas o país precisa de reformas estruturais tão urgentemente que nós não tínhamos problema em pôr em risco o crescimento do partido, de forma a acudir a situações que são urgentíssimas. O doutor Luís Montenegro não quis. Ok, pronto. Então entramos na guerra política. O doutor André Ventura estende sempre nestes momentos cruciais em que querem se aliar em nome de um bem maior. Querem se coligar ou não querem? Não querem, para nós, do ponto de vista de partido, ótimo. É mais um ponto, dois pontos, três pontos, é crescimento garantido. Agora para o país, nós sabemos que quanto mais tarde forem feitas as reformas estruturais, mais custos elas vão ter. Portanto, a posição do doutor André Ventura e do Chega em relação ao doutor Luís Montenegro e ao PSD, naquilo que se refere, é esta: se quiserem, estamos disponíveis. Se não quiserem, vamos à guerra.
Melhor eleitoralmente.
E vamos à guerra.
Escreveu recentemente que aconteça o que acontecer no dia 8 de fevereiro, há eleitores do PSD que votando pela primeira vez em André Ventura, já não regressam mais ao PSD. Aliás, já fez aqui essa referência há bocadinho. É essa a grande luta de André Ventura nesta campanha?
Esta é a luta estratégica e a grande neste momento. É pegar nos famosos votos úteis, trazê-los e que eles não tenham retorno. E até agora tem-nos ajudado muito. Esta procissão tem-nos ajudado muito nisso. A clarificação de que falávamos no princípio.
Deixe-me interrompê-lo. Olhando para as últimas legislativas, o Chega tem crescido, sobretudo na abstenção. Tem crescido em muitos eleitores que eram até do Partido Comunista Português.
Sim, Partido Socialista.
E tem tido, segundo pelo menos os estudos pós-eleitorais, alguma dificuldade até em entrar no eleitorado da AD. Portanto, esta eleição acha que vai permitir isso? É isso?
Aliás, pôs exatamente o acento na sílaba que tinha que ser. Isto vai ser decisivo, porque eu tenho vários amigos e muita gente que conheço, eleitores úteis do PSD. Dizem: "Mas nós temos que parar os socialistas." "Mas nós somos um partido mais sólido nesse aspecto." "Está bem, mas vamos dar mais uma hipótese." Portanto, agora ficou claro que quando está de um lado o doutor André Ventura, o único da direita que está a concorrer, do outro lado, o doutor António José Seguro. Nesta altura, o que faria sentido era o doutor Luís Montenegro dizer: "Sim, senhor, agradeço o vosso voto até agora e agora vamos devolvê-lo, porque é fundamental na luta contra o PS, em nome do qual eu vos tenho congregado para votar no PSD. É nesta altura que votem no doutor André Ventura." Não o fez Vários desses meus amigos a quem eu já tive o cuidado de dizer: "Isto assim não pode ser". Portanto, pode haver esse refluxo e se vier, eu julgo que nunca mais volta para o PSD em termos legislativos.
E acredita convictamente que depois destas eleições o Chega estará em condições mais favoráveis de substituir o PSD?
Acho que sim, Miguel. Não tenho dúvidas. Tem outro fôlego. Houve uma clarificação e as pessoas têm uma perspetiva mais clara. Digamos, as nuvens desapareceram, temos o panorama iluminado desta forma. Ou seja, temos uma força de direita, cada vez menos as pessoas acham que é a tal direita radical, extrema direita, nazi, fascista, salazarista.
Acha que há menos medo do Chega do que já houve?
Sim, claramente. Aliás, nota-se na diminuição da taxa de rejeição, que tem vindo a diminuir. As pessoas vão entendendo que é a conversa política, de ataque político, do radicalismo, do racismo, da xenofobia, e passam a dizer: "Mas estes ao fim e ao cabo são tipos normais, são um partido normal, que defende as coisas normais, que defende o bom senso, defende as coisas elementares e, portanto, é conversa fiada". Deve ser a partir daí que a taxa de rejeição está a diminuir. As pessoas vão percebendo e vão acordando, vão sendo menos doutrinadas pelas televisões e pelo dia a dia. É isso que me parece estar a acontecer.
Mas deixe-me aqui fazer-lhe uma pergunta. Eu sei que estamos a dar muitos passos à frente, mas esta reorganização dos vários campos políticos, em que há um campo claramente da direita liderado pelo Chega, o tal centrão PS, PSD e depois a esquerda, isto coloca um desafio ao Chega, porque teria de ser maioritário numas eleições legislativas para governar. De outra forma, não tem um parceiro à direita ou à sua esquerda, no caso, para governar. Esta deslocação do Chega para um campo da direita claramente delimitado e a transferência do PSD para um campo do centro não torna isso mais difícil?
O que eu acho, Miguel, é que o nosso campo, que inicialmente são uns lá 22, 23%, se quiser, que foi crescendo até aqui, neste momento vai ser alargado pela natureza das coisas. Desde logo, porque começávamos a falar, muitas pessoas estão irritadas com esta situação, com esta perseguição, e o dia a dia. Ainda há bocado me estavam a contar: "A minha irmã insultava-me para votar no Chega. Estava com uma amiga na praia, saíram da praia em biquíni, pôs uma camiseta para ir comprar um gelado do outro lado da rua, em Albufeira. Foi insultada, foi agredida por um bando de nove a 10 homens que lá estavam. Eu vou votar no André Ventura." A realidade, o dia a dia. Isso são sensações. Não são sensações. De facto, as pessoas têm isso aí. À medida que vão enfrentando estes problemas, vão percebendo que não há aqui xenofobia, não há aqui racismo, há uma constatação de uma realidade. E este campo tem crescido bastante, não é por acaso. Eu cheguei a uma altura que pensei: "18% é o máximo da nossa base de apoio." Depois passou a 21, depois a 23. Esta base de apoio está a crescer consolidadamente, não está a crescer 10 pontos de repente, é evidente. Como disse há bocado, fazer a coisa um bocadinho mais soft para ir captar. Tem dois caminhos para ir. Ou espera que a realidade traga as pessoas, ou faz esse caminho. Aquilo que é mais sólido é esperar que a realidade traga as pessoas e a perceção. Agora, Miguel, é óbvio que nós só conseguiremos governar, nós e qualquer um dos nossos partidos na Europa, com maioria absoluta, porque a coligação contra é imediata. E tem acontecido, nós temos visto, tem acontecido em toda a Europa. Ou seja, só com maioria absoluta. Temos que crescer até à maioria absoluta ou então encontrar um parceiro que entretanto acorde e pense: "Espera aí, vamos fazer uma frente." O que é pouco provável no nosso panorama político. Nós sabemos bem como a Iniciativa Liberal nunca o fará, e o PSD, este PSD, agora vamos ver as famosas recuperações do PSD com o tático do doutor Passos Coelho ou qualquer outro. Mas isso são recuperações. De momento, o que nós podemos dizer é que com esta Iniciativa Liberal e com este PSD, temos de chegar à maioria absoluta, senão conseguiremos fazer uma coligação.
Não podem contar com os parceiros que existem.
Exato.
Um resultado de André Ventura, porventura o que estava a falar de um resultado até acima do dado nestas eleições, também significa que o Chega terá mais argumentos para justificar uma crise política no futuro. O governo tem agora de se acautelar melhor.
Nós teremos sempre muito cuidado a criar crise política. Só com uma justificação sólida. Nunca criaremos uma crise política artificial para poder beneficiar. Até porque O que eu acabei de dizer.
Neste momento não teria esse efeito prático.
Se nós estivéssemos a dois pontos de ter uma maioria absoluta, aí poderíamos criar uma crise artificial para tentar ter a maioria absoluta. Como é evidente, não estamos perto disso. Ou, tanto quanto parece, que às vezes a realidade política avança de tal maneira.
Neste momento não justificaria o Estado criar esse ambiente.
Nem pouco mais ou menos. Portanto, é uma questão de ir vendo, ir seguindo, fazer o que temos vindo a fazer até agora no Parlamento, tentar aprovar diplomas que nos interessem e apoiar negociando diplomas do PSD. Às vezes o PS mete, como nós estamos de acordo e também passar. Portanto, é navegar à vista, que aliás é o que o governo está a fazer, o partido do governo está a fazer, e todos os partidos estão fazendo neste momento é navegar à vista.
Uma última pergunta antes de avançarmos com o segundo segmento do nosso programa, até porque já falou dele. Nestas eleições, um dos temas foi a ausência de um tal líder agregador à direita e também se falou muito de Pedro Passos Coelho. Aliás, André Ventura disse que só avançava porque Pedro Passos Coelho não quis avançar. Aqui a nossa questão e o nosso desafio é outro: há mesmo espaço para André Ventura e Pedro Passos Coelho coexistirem em simultâneo? Passos não seria uma ameaça à existência de Ventura? O Chega aceitaria estar na sombra desse PSD liderado por Pedro Passos Coelho?
Miguel, são várias perguntas. A principal é esta, eu no fundo já respondi há bocado. Basta estar oito dias na política, não é preciso estar há uns anos. É evidente que, vamos admitir que o Passos Coelho regresse ao PSD e temos um PSD liderado por Passos Coelho. Como eu tinha respondido há bocado, é óbvio que isso nos vai diminuir a margem de crescimento ou anular ou até reduzir, pelo menos durante um tempo, a margem de crescimento. Mas a questão é: para o país é benéfico ou não fazermos uma coligação? É o que eu disse há bocado, é fundamental. Nós corremos o risco, aliás, não é só em Portugal, todos nós sabemos o que se está a passar na Europa, em França, na Alemanha, desindustrialização, dívida gigante e por aí fora. Se não deitamos a mão a isto muito rapidamente, fica muito complicado. Portanto, respondo positivamente neste aspecto. O doutor Passos Coelho não representa um risco existencial para o partido. Na minha opinião, não representa. Agora, que vai reduzir ou anular a nossa margem de crescimento ou taxa de crescimento, seguramente, mas isso é óbvio. Agora, é bom ou mau para o partido? É mau para o partido. É evidente, para o partido preferimos continuar essa confusão gigantesca que está, e toda a gente a dedicar as mãos à cabeça, não pode ser, e dentro de um ano ou dois estávamos com a maioria absoluta.
Claro. Vamos então avançar com o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções, venha daí a trilha. Esta é difícil. Num futuro distante, preferia ser o conselheiro de que líder do Chega? Bruno Nunes ou Rita Matias?
Miguel, a pergunta não é difícil, é impossível, porque o doutor André Ventura, neste momento, está com 43 anos, com um futuro pela frente. Eu estou com 66, Miguel, acho que eu não vou ser conselheiro de mais ninguém ou apoiante que não seja o doutor André Ventura. É impensável, eu não vou viver 100 anos, infelizmente para mim, eu não vou viver 100 anos, portanto, só te posso responder desta forma.
Com quem é que preferia beber um copo no Casino Estoril? José Luís Carneiro ou Pedro Nuno Santos?
Eu tenho alguma simpatia diferente por qualquer um deles. E portanto, digo-lhe, imagino que teria tanto gosto de beber com um como com o outro.
Não há nenhum com quem estivesse mais à vontade?
Por razões diferentes, pelas características diferentes que têm. O doutor José Luís Carneiro é uma pessoa simpática, é honesta, é uma pessoa com quem se está bem. Mais brusco, mais coisa, mas com graça, com sentido de humor, também temos o Pedro Nuno Santos. Portanto, razões com um, outras razões com outro, teria todo o gosto em qualquer um deles.
Esta acho que será a mais fácil, é a última pergunta: a quem é que cederia o seu gabinete como vice do Parlamento, em caso de necessidade, em caso de urgência? A Luís Montenegro ou a Pedro Passos Coelho?
Confesso, Miguel, que esta é fácil de responder, Pedro Passos Coelho.
Era para lhe darmos uma fácil. Uma última para terminar o nosso programa, como é hábito, nosso convidado pode servir uma sobremesa, no caso, uma música. Que música que nos traz e por quê?
Miguel, trago uma música que me parece bastante adequada ao espetáculo a que temos assistido desta procissão de pequenos, médios e grandes notáveis, do rato até à belona. E portanto, a procissão, letra de António Lopes Ribeiro, acho eu, cantada pelo Nuno de Câmara Pereira.
Eu, Pacheco Amorim, muito obrigado por ter vindo a esta "Vixi, isso". Fiquei muito gosto de tê-lo cá. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista nas plataformas habituais ou lê-la, no caso, no site do Observador. Até à próxima.
Tocam os sinos na torre da igreja, arrós, maninho e alecrim pelo chão. Na nossa aldeia que Deus a proteja, vai passar a procissão Mesmo na frente, marchando a compasso, de fardas novas vem o solidão. Quando o regente lhe acena com o braço, logo o trombone faz pó, pó, pó. Olha, os bombeiros tão bem alinhados, que se houver fogo, vai tudo no fole. Trazem ao ombro brilhantes machados e os capacetes rebrilham ao sol. Tocam os sinos na torre da igreja, arrós, maninho e alecrim no chão. Na nossa aldeia, que Deus a proteja, vai passando a procissão. Olha os irmãos da nossa confraria, muito solenes nas opas vermelhas. Ninguém supôs que nesta aldeia havia tantos bigodes e tais sobrancelhas. Ai, que bonitos que vão os anjinhos, com que cuidados vestiram em casa. Um deles leva a coroa de espinhos e o mais pequeno perdeu uma asa. Tocam os sinos na torre da igreja, arrós, maninho e alecrim no chão. Na nossa aldeia, que Deus a proteja, vai passando a procissão. Pelas janelas, as mães e as filhas, as conchas ricas formando troféus. E os lindos rostos por trás das mantilhas parecem de anjos que vieram dos céus. Com o calor, o prior vai aflito e o povo ajoelha ao passar o andor. Não há na aldeia nada mais bonito que estes passeios de Nosso Senhor. Tocam os sinos na torre da igreja, arrós, maninho e alecrim no chão. Na nossa aldeia, que Deus a proteja, já passou a procissão.