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Olá, bem-vindos à Vício Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Desta vez não tenho ao meu lado o Miguel Viteiro Dias, que está, segundo foi possível apurar, algures num retiro espiritual na Serra da Lousã. Miguel, se me estiveres a ouvir, recebe este abraço sentido, mas tenho as inevitáveis Rita Tavares, Mariana Lima Cunha e Inês André Figueiredo. É este trio de brilhantes analistas que me vai ajudar a explicar a primeira semana de uma histórica segunda volta presidencial. Uma primeira semana marcada, inevitavelmente, pelo único frente a frente televisivo e pela tragédia que se abateu, sobretudo, sobre o centro do país. As sondagens dão um conforto considerável a António José Seguro, o debate não consagrou André Ventura e a campanha aproxima-se rapidamente do fim, sem que pareça haver margem para grandes surpresas. Mas para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Rita Tavares, começo por ti para te servir uma sopa morna, morna como a campanha de António José Seguro, que parece, ainda assim, em velocidade de cruzeiro rumo a Belém.
Sim, António José Seguro tem abrandado muito o ritmo, pelo menos nestas duas últimas semanas, semana e meia desde as eleições. Houve aqui uma tentativa até de mudar um bocadinho o registo e nos primeiros dias vimos muitas vezes em reuniões mais privadas e mais focadas em temas concretos, como por exemplo a defesa, política internacional e também a corrupção. Hoje, nomeadamente, já começou a arrancar mais a sério com mais iniciativas, sendo que teve logo esta questão da intempérie que se abateu sobre a zona centro e portanto, isso condiciona não só o discurso de campanha como também as ações de campanha. Foi o caso de um comício que estava previsto para Almeirim e que acabou por ser cancelado porque António José Seguro considera que a situação de instabilidade no distrito de Santarém faz com que seja melhor não fazer esse comício. Ele não quer fazer o aproveitamento político desta situação. Pelo menos foi isso que disse esta tarde até aos jornalistas em Setúbal. Disse taxativamente que indo a Leiria, e já foi logo na quarta-feira, vai sempre sozinho. Admitiu que pode ir novamente, mas será no mesmo registo sozinho, o que acaba por ser uma crítica também a André Ventura, o seu adversário nesta corrida, que já esteve na zona mais afetada pelo mau tempo e António José Seguro a querer marcar aqui essa diferença relativamente ao seu adversário. E também a pontuar aqui por ser, para já, um dos primeiros a estar no local, ainda que em privado. Isso foi registado pelo autarca de Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, nas redes sociais, de que o único a contactá-lo tinha sido António José Seguro. Ora, isto acaba por ser também uma crítica ao poder central. E António José Seguro, apesar de não querer fazer o aproveitamento político deste momento em que o país vive, acaba por tentar também tirar um bocadinho de proveito, pelo menos da gestão política que se vai fazendo relativamente ao que aconteceu em Leiria.
E em relação ao debate, Rita Tavares, que leitura se pode retirar do impacto que teve ou não na campanha de António José Seguro? Havia muita expectativa em relação ao frente a frente, havia também muita expectativa em relação ao próprio desempenho de André Ventura, se seria ou não capaz de provocar o erro no adversário. O debate aconteceu com relativa normalidade. Isso deu maior conforto a António José Seguro?
Acho que António José Seguro tentou ali não cometer erros, percebeu que era um terreno que podia estar minado e que algum deslize poderia acontecer. Fez disso um objetivo, saiu do outro lado do debate sem nenhum erro clamoroso e, portanto, acaba por sair algo aliviado deste combate. Julgo que a perspectiva que há na candidatura é de que o debate correu bem e de que mostrou, acima de tudo, que era preciso apenas um debate. Aliás, António José Seguro disse isso, atirou isso a André Ventura durante o próprio debate, mas o que nos têm dito é precisamente isso, que valia a pena apenas o que este debate mostrou, que não era necessário outro. E aqui convém recordar que foi o próprio António José Seguro que não quis, não esteve disponível para mais do que um debate, inclusivamente para o debate das rádios em que rejeitou mesmo estar. Portanto, aquilo que António José Seguro viu no debate foi uma situação ultrapassada, um capítulo fechado desta segunda fase da campanha eleitoral e fechado a seu favor, pelo menos é essa a leitura que vai tendo. Também tem aqui outro pormenor que é interessante nisso do debate, que é a dada altura, António José Seguro, no próprio debate, referiu-se sempre a André Ventura como senhor deputado. A dada altura André Ventura até lhe chamou ex-deputado numa espécie de vingançazinha, mas é essa a postura que António José Seguro está a tentar fazer passar esta semana, que há um adversário político que é um líder partidário e ele é um pré-presidente quase em funções, que já está a fazer contactos, que já está a preparar-se para o cargo. Portanto, está a querer marcar essa diferença relativamente a André Ventura E, portanto, inclusivamente fala no debate na perspectiva de não poder lesar as futuras relações institucionais que terá com aquele líder partidário. Já põe as coisas neste plano.
Aliás, teve o cuidado até de falar para os eleitores do Chega, partido que apoia André Ventura, naturalmente. Uma última pergunta, Rita Tavares, até porque tu estás na estrada a acompanhar o candidato António José Seguro e tens de seguir viagem. António José Seguro tem falado muito nos últimos dias sobre a necessidade de ter uma votação reforçada para lhe dar uma maior legitimidade no cargo. Há algum número mágico na cabeça de António José Seguro?
Até agora, não. Ele na primeira volta teve um deslize num dia em que falou em 25%. Nós metemo-nos com ele, já estava com excesso de confiança, mas na altura ainda não se previa que tivesse uma vitória, muito menos uma vitória robusta. Agora falta perceber se é afinal essa mesma a fasquia que tem para a segunda volta e igualar Marcelo Rebelo de Sousa.
Muito obrigado, Rita Tavares. Continuação de uma boa campanha. Nós seguimos com esta vicissitude. Inês André Figueiredo, para ti tenho uma sopa a esfriar. André Ventura parece estar com dificuldades em arrancar um coelho da cartola. A direita não se mobilizou em torno dele e o debate não lhe correu como seguramente queria. Como é que estão os ânimos de André Ventura?
A campanha começou a meio gás, agora está a ganhar os moldes da primeira volta com duas ações por dia, mas o debate foi o pontapé de saída, com André Ventura a procurar essencialmente colar António José Seguro a três ideias. Diz que é do PS e que não pode fugir das responsabilidades que teve enquanto líder do partido e governante, que está a ser o rosto das elites, dos apoios vindos das castas, como lhes chamou André Ventura, até porque do outro lado está exatamente o líder do Chega e há essa tentativa de diferenciação dos dois candidatos. E finalmente, tem procurado muito o argumento de que António José Seguro não tem uma ideia para o país. É neste triângulo que André Ventura tem assentado a campanha eleitoral, muito focado nas críticas a António José Seguro e às vezes até numa tentativa de ridicularizar o adversário, como aconteceu esta quarta-feira, quando disse perante um grupo de jovens na Universidade Luziãda que não percebia o que tinha passado pela cabeça de António José Seguro quando perguntou nesse debate o que é que poderia fazer no caso de uma tentativa de regularização extraordinária de imigrantes, e usou uma expressão um pouco normal, para dizer assim, em contexto político. Por outro lado, André Ventura tem muita dificuldade em despir o fato de líder da oposição e isso viu-se na reação à tempestade, que acaba por marcar a semana. Disse imediatamente que queria ir ao terreno sem atrapalhar, fez questão de sublinhar essa parte, e esta quinta-feira não poupou nem o primeiro-ministro, nem o presidente da República. Para o líder do Chega, a presença na proteção civil não foi suficiente. É da opinião de que os políticos têm de estar no local e mostrar coordenação. E foi mais longe para criticar o fato de ainda haver pessoas sem eletricidade. De forma muito estupfacta, André Ventura perguntou se não se aprendeu nada com o passado e se estamos a brincar com aquilo que está a acontecer, numa referência a outros momentos como o apagão e as cheias, e ao fato de ainda não haver geradores de emergência suficientes para que as pessoas não fiquem sem eletricidade. Por isso, é neste equilíbrio difícil entre quem está com as sondagens desanimadoras e quem tem um futuro pela frente como líder da oposição, que André Ventura vai seguindo nesta campanha presidencial, também com a certeza de que um bom resultado o poderia deixar numa posição bem mais favorável nesse dia seguinte.
Mariana Lima Cunha, finalmente, para ti tenho uma sopa entalada. A nomenclatura do PSD continua com muitas dificuldades em lidar com a candidatura de André Ventura e parece estar disposta a aguentar a lei da rolha até o fim. Mas apontemos para a frente, uma coisa que tu gostas muito de fazer. Em que estado ficarão Luís Montenegro e o governo depois de 8 de fevereiro?
Acho que tudo depende muito do resultado que André Ventura vier a ter. Nesta altura, nós estamos a falar, como tu dizes, prevendo o futuro. Estamos a falar num momento em que é muito previsível que António José Seguro ganhe e, portanto, a dúvida passa a ser um bocadinho a dimensão da derrota de André Ventura, que para ele não será uma derrota no sentido em que, embora eu não seja das pessoas que dizem que André Ventura o pior que lhe podia acontecer era ir para Belém, etc. Porque acreditando que não é o objetivo primordial dele, acho que há muito para fazer em Belém em que pode funcionar como um eixo político muito importante e prejudicar a AD e o governo. E parece-me que esse é um dos objetivos mais primordiais de André Ventura neste momento. Mas enfim, sendo certo que a porcentagem que tiver só será uma derrota se for abaixo da que ele próprio já teve em presidenciais e da que o Chega tem. Também é certo que precisaria de alargar bastante essa base para poder consolidar a autoproclamação que fez como líder da direita. E isso até agora não está a acontecer. Portanto, eu diria que André Ventura, até agora, na campanha que tem feito, tem facilitado um bocadinho a vida a Luís Montenegro e ao governo. Como tu dizias, de facto, ninguém desalinhou até agora todas as grandes figuras de direita, figuras relevantes de direita têm todas colocado o seu apoio ao lado de António José Seguro. Mas André Ventura também não ajuda, porque eu compreendo que seja muito difícil e acho que ele está a viver esse dilema neste momento, manter a sua base, porque aí sim, seria uma derrota ter alguns da sua base a desmobilizar, potencialmente para a abstenção, mas manter a sua base, que tem muito fundamento no protesto e no ataque ao sistema, enquanto tenta atrair os eleitores do chamado sistema da AD e do centro-direita. Para si é um equilíbrio que mesmo o talentoso André Ventura, que é um político talentoso em termos de comunicação, eu acho que está a ter dificuldade em fazer. É difícil imaginar todo o eleitorado moderado de direita a deixar-se seduzir, por um lado, pelo discurso de André Ventura, um pouco estilo Trump, vai fazendo imitações de António José Seguro e apoucando o adversário. Não é um estilo que me parece que seja agregador e que esteja a abranger a maior parte do eleitorado de direita e não me parece que André Ventura esteja a sentir grandes facilidades em adotar esse discurso. Isto para voltar à tua pergunta, se ele estivesse a conseguir fazer isso e se conseguir fazer isso até dia 8 de fevereiro, se arranjar uma fórmula em que passe a convencer alguns dos moderados e a convencer a maior parte das pessoas de que de facto não é uma luta como ele tem colocado, como os adversários têm colocado, de democracia contra os autoritários, mas sim uma luta esquerda-direita ou não socialismo contra socialismo, isso é um grande problema, obviamente, para Luís Montenegro e para o governo, porque passa de facto a liderança da direita a estar em causa. André Ventura está com dificuldades em fazer esse caminho. Agora, é certo que Luís Montenegro certamente não pode relaxar, mesmo com uma percentagem que não permita a Ventura dizer-se o líder da direita. Luís Montenegro vai certamente ter de dar muito ao pedal no governo para convencer os eleitores de que de facto não há uma porta aberta para a transferência para votos no Chega, que não há uma necessidade do eleitorado de direita se refugiar em André Ventura, porque ele consegue criar ali um polo novo à direita, que parece que está um pouco sem líder e sem saber para onde se virar. E para isso eu acho que é preciso mostrar trabalho. Portanto, isto resumindo, Luís Montenegro tem de dar muito ao pedal a partir de 8 de fevereiro e já a partir de agora, porque seja qual for o resultado de André Ventura, ou é um pequeno desastre para André Ventura e aí tem um Chega humilhado e fantástico para Luís Montenegro, ou vai ter o André Ventura a tentar canibalizar a AD sempre que puder.
E no meio dessa tua reflexão, muito interessante, aliás, deixa-me sublinhar esse aspeto importante. Ignoraste António José Seguro. Por quê? Porque será um presidente alinhado com o governo? Achas que ninguém está a perder o sono com essa hipótese?
Sim, acho que ninguém perde o sono com essa hipótese. Acho que claramente a melhor hipótese com que o governo pode contar é António José Seguro estar no poder em Belém. Houve um ressuscismo-
Mas, por exemplo, a reforma laboral, tal como ela foi desenhada, pelo menos, já tem um veto mais do que anunciado. Portanto, António José Seguro também não será uma personagem meramente coadjuvante.
Sim, atenção, quando digo isto, não estou a reduzir António José Seguro a uma jarra, como se tem dito, a uma rainha da Inglaterra. Se nós olharmos para os outros candidatos, tirando Cotrim, que era previsível que ganhassem, o governo ia ter sempre de ter algum cuidado com a questão do pacote laboral, porque ninguém aceitaria, pelo menos sem o GT, nem André Ventura, aliás, que conforme o que vai ouvindo também do povo e daquilo a que chama povo e do povo mais revoltado, os trabalhadores, desse tipo de eleitor, também se vai afastando do pacote laboral e portanto, acho que seria sempre um caso um pouco mais bicudo para o governo. Mas no geral, o governo logo na noite das eleições, da primeira volta, começou a espanhar algum spin, que temos de descontar essa parte de otimismo que é preciso ter quando sofre uma grande derrota, que foi o que aconteceu nessa noite, mas é que tem um ponto de verdade, que é: o que nós mais tivemos na história da democracia foram coabitações PS/PSD nos dois palácios. Isso é o normal. O que normalmente não costuma acontecer é haver um governo e um presidente da mesma cor política, aconteceu só com Guterres e Sampaio, ser eleito. Portanto, a situação de ter PS e PSD a coabitar não é por si um problema. E quando nós olhamos para os possíveis socialistas que poderiam chegar a Belém, António José Seguro seria o menor problema, no sentido em que apesar de André Ventura agora o pintar como a cara do socialismo e até o associar a nomes como Sócrates ou Costa, o que é um pouco absurdo para quem conhece minimamente a história desses anos. Apesar disso, quer dizer, António José Seguro dificilmente é uma pessoa passível de ser pintada como radical de esquerda. É moderado em Belém. Não faço ideia se virá, de facto, mexer com muita coisa ou conseguir concretizar grandes reformas, mas certamente não virá propriamente abanar o sistema e diria que não virá tramar Montenegro, pelo menos no primeiro mandato. Portanto, não parece um grande perigo para o governo.
E a nossa primeira parte, infelizmente, tem de ficar por aqui. Prometo, em programas futuros, dar a oportunidade à Mariana Lima Cunha para falar sobre o povo e o conceito do povo.
Uma tese que eu gosto imenso.
É um tema que apaixona Mariana Lima Cunha. Voltamos dentro de momentos com um homem que conhece bem a direita, conhece muito bem o Chega, com entrevista a Diogo Pacheco de Amorim. Até já.