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Olá, bem-vindos à "Vichy Soares". O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor-adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado Luís Soares, editor da rádio do Observador, que teve também a enormíssima responsabilidade de servir uma dose diária da refeição mais deliciosa da política portuguesa.

Foi uma estreia.

É verdade. Deixa-me só fazer um disclaimer. Miguel Viterbo Dias, se me estiveres a ouvir, continuas a ser o meu favorito. Luís Soares é um grande homem, mas tu continuas a ser o meu favorito. Mas como já vem sendo um clássico em campanhas eleitorais, oito dos 18, ouviu bem, 18 repórteres do Observador que estiveram a acompanhar esta campanha entram na "Vichy Soares" especial presidenciais 2026. A campanha ainda não terminou, é verdade, mas já podemos dizer com algum grau de certeza que a incerteza vai mesmo durar-

A certeza e incerteza

...até o dia 18 de janeiro. Na primeira parte deste programa, vamos procurar fazer o balanço da campanha possível que os três candidatos mais à esquerda tiveram. Não têm perspectivas muito animadoras, mas vamos tentar perceber o que dizem os nossos repórteres sobre essas campanhas. E na segunda parte, olharemos para as corridas eleitorais dos cinco principais candidatos.

Vamos começar com o Vasco Maldonado Correia, que tem acompanhado a campanha de António Filipe, o candidato apoiado pela CDU. Vasco, tem sido uma tentativa de medir forças, nomeadamente com a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda. Tem sido esse o objetivo de António Filipe ao longo desta campanha?

Com Catarina Martins e Jorge Pinto também, mesmo que Jorge Pinto tenha já feito outra vez esta tarde essa quase desistência, esse apelo aos eleitores para votarem em consciência, ou seja, basicamente para votarem em António José Seguro, tem sido essa a guerra de António Filipe para ficar à frente desse pequeno campeonato. Para isso foi não só tentando distanciar-se de António José Seguro, mostrando que ele, sim, é o candidato da convergência à esquerda. Foi essa a principal tentativa, a principal mensagem que foi passando ao longo da campanha e por isso nunca houve propriamente referências a Catarina Martins. Só uma vez, quando disse que ele próprio tinha sido o primeiro candidato da esquerda a avançar, isto já excluindo António José Seguro, e que por isso eram os outros candidatos que deviam explicar porque é que avançaram depois e porque é que não o apoiaram. Foi a única vez. Houve também uma altura, logo a seguir ao debate da RTP, em que Jorge Pinto lançou primeiro essa, ou abriu a porta pela primeira vez a essa hipótese. Nessa altura também se viu obrigado a fazer isso mesmo, mas foi uma campanha muito focada nisso mesmo, em tentar fugir aos apelos a voto útil de António José Seguro e mostrar que ele, sim, António Filipe, é o candidato da esquerda.

Nunca foi uma possibilidade, uma desistência, nomeadamente a favor de António José Seguro. Isso nunca esteve em cima da mesa?

Nunca esteve em cima da mesa, até porque, e se virmos o passado recente, já ficou claro que, no mínimo nesta altura, no período pós-geringonça, que sabemos como é que acabou, a estratégia do PCP não tem sido essa, tem sido a de se afastar dessa convergência com o PS. Já o tínhamos visto em Lisboa, por exemplo, nas autárquicas, aqui há uns meses, João Ferreira também não aceitou fazer parte dessa solução à esquerda e, por isso, também era previsível que António Filipe não o fizesse. Até porque, e como dizia, António Filipe fez questão de dizer várias vezes que nem sequer considera António José Seguro um homem de esquerda e, por isso, um candidato como António Filipe, um homem forte da CDU ao longo das últimas décadas, dificilmente o poderia fazer, especialmente nesta altura.

E António Filipe contou também, ou foi contando ao longo desta campanha, com figuras do PCP, nomeadamente ao longo de algumas ações de campanha.

Luís, sim, deixa-me dizer-te que hoje vimos um António Filipe bastante diferente do que tínhamos visto até aqui, quase que a não precisar dessas figuras na campanha. Um António Filipe, um candidato mais enérgico, um António Filipe mais confiante, talvez por ser a reta final, mas diria também porque, ao contrário dos últimos dias, em que de facto teve essas figuras importantes do PCP, teve Paulo Raimundo, aqui há pouco no Porto, voltou a ter Paulo Raimundo, teve também João Oliveira, que de certa maneira o conseguiram amparar nas arruadas, em ambientes em que parecia não estar tão confortável. Desta vez, hoje de manhã, estivemos em Almada, quem estava era Paulo Santos, que não tem um perfil tão próximo de João Oliveira ou de Paulo Raimundo na rua, de proximidade com a população, e foi António Filipe que teve de liderar a arruada como candidato que é, e mostrou-se bastante mais à vontade nessa posição de liderança e, por isso, talvez Talvez uma lição que saia dessa campanha é que o melhor António Filipe até era o que estava fora da zona de conforto e talvez tivesse feito falta ao longo dos últimos dias.

Ou seja, não houve assim tanta rua e se calhar mais rua poderia ter sido benéfico para o candidato, é isso?

Exatamente, houve muito pouca rua. Pelas minhas contas, foram três arruadas até agora, ou aliás, quatro arruadas, sendo que amanhã haverá mais duas, uma na baixa da manhã e uma à descida do Chiado. Mas esta organização que foi feita na campanha de uma primeira semana mais dentro de casa, mais ouvir os próprios apoiantes e a segunda a sair à rua ao encontro dos eleitores, talvez tivesse feito sentido ter mais rua. Não sabemos também que efeito é que terá esta concentração de arruadas mais perto da ida às urnas. Pode ser que o balanço de António Filipe dê um bom resultado.

Vasco Maldonado Correia, obrigado. Vais continuar a acompanhar estas últimas horas da campanha de António Filipe. Ainda à esquerda, vamos agora ao encontro do Miguel Pereira Santos, que acompanhaste viva Miguel, na campanha de Catarina Martins, sendo que, Miguel, e olhando também para aquilo que foi a campanha de António Filipe, houve também essa necessidade por parte de Catarina Martins de ir medindo forças com o candidato apoiado pelo PCP.

Olá, Luís. De todo. Do lado de Catarina Martins, acho que foi claramente a candidata entre os três à esquerda que quis evitar mesmo essa troca de bate-bocas entre António Filipe e Jorge Pinto, que foi acontecendo ao longo da campanha. A tal única boca sobre António Filipe ser o real candidato da convergência à esquerda por ter sido o primeiro a avançar. Catarina Martins igualmente não quis responder nessa ocasião. Portanto, penso que da parte do Bloco, e particularmente de Catarina Martins, há aqui algum taticismo de dizer: "Nós à esquerda não temos votos suficientes para nos estar a canibalizar." Portanto, a procura do voto foi sempre para o outro lado, para o lado que está entre a esquerda mais à esquerda e aquela ala do PS descontente com o avanço de António José Seguro. Isso numa primeira fase da campanha de Catarina Martins, nós vimos Isabel Moreira, deputada do PS, avançar e apoiar Catarina Martins. Não valeu a pena ficarmos à espera que aparecessem mais apoios, porque foi realmente a única figura de renome fora do Bloco de Esquerda que apoiou a eurodeputada do Bloco de Esquerda. Portanto, essa foi um bocado a estratégia, não tentar procurar o voto à esquerda com Jorge Pinto e António Filipe, mas sim aquela ala descontente com António José Seguro e nomeadamente com o papel que ele teve na oposição ao governo de Pedro Passos Coelho.

E foi muito essa mensagem também a de Catarina Martins, de tentar colar ou de ir buscar aquilo que foi a atuação de António José Seguro quando era líder do PS.

Sim, essa foi a estratégia principal desta campanha para Catarina Martins. Podemos dizer, ela realmente quis afastar da lama e da selvageria da direita, era assim que a Catarina Martins descreveu esta campanha. E o único candidato que podemos dizer com quem ela se picou ao longo dessas duas semanas foi precisamente António José Seguro. E sempre lembrando essa memória da troika, a abstenção violenta, os cortes nos salários e nas pensões, e também lembrando sempre o papel que teve nessa altura, que esteve ao lado de alguns descontentes, também nessa altura do PS, a dizer que esses cortes não eram constitucionais e houve, nessa altura, para quem se lembra, uma reclamação nesse sentido junto do Tribunal Constitucional. Portanto, reavivar toda essa memória para mostrar que Seguro, na verdade, não corresponde àquilo que neste momento o Bloco de Esquerda acredita ser um candidato presidencial de esquerda.

E no que diz respeito à discussão que houve ao longo da campanha, da desistência e não desistência dos candidatos mais à esquerda em favor de António José Seguro, como é que Catarina Martins se foi posicionando em relação a essa polêmica?

Catarina Martins tem até uma frase no debate que acho que para algumas pessoas pode ter sido um bocado ambígua, mas depois matou logo também a possibilidade de uma desistência, em que ela diz que se Jorge Pinto lhe tivesse telefonado, as coisas poderiam ter sido feitas de outra maneira. Mas acho que também nesse caso, o que acontece foi uma demonstração, digamos, de uma maturidade em relação a Jorge Pinto, até se calhar alguma condescendência a dizer: "Eu já ando nisso da política há mais tempo, as negociações não se fazem assim direto", ou tentar um bocado denunciar aquilo que pareceu ser uma jogada de Jorge Pinto para proveito próprio e que daquilo que conseguimos entender junto da caravana do Bloco, não foi percebido como uma proposta real, genuína, de uma desistência conjunta, mas mais uma jogada, um xadrez político para benefício próprio. E, portanto, Catarina Martins não alinhou, enterrou o assunto logo nos dias seguintes a esse debate da RTP, logo no início do período oficial de campanha, e continuou

firme na sua posição de não desistência. Neste caso, penso que Catarina Martins faz aqui uma campanha que procura essencialmente dar algum oxigênio àquilo que foram os últimos resultados eleitorais do Bloco de Esquerda. E acho que é também por essa razão que se escolhe o perfil de Catarina Martins, neste momento.

Para tentar agregar mais votação.

É isso mesmo.

Miguel Pereira Santos, obrigado também. Vais continuar a acompanhar essas últimas horas de campanha de Catarina Martins. Mariana Marques Tiago, termino esta primeira parte da Vixi Suave contigo e termino de forma algo poética, porque, no fundo, a campanha de Jorge Pinto está a terminar como começou, a desistência/não desistência do candidato apoiado pelo LIVRE. Que balanço é que fazes destas duas semanas na estrada com Jorge Pinto?

Olá, Miguel. É verdade, estamos a acabar como começámos. É bastante poético, porque se ao início havia bastante insistência, até por parte de outros candidatos que confrontavam diretamente Jorge Pinto, até as pessoas na rua que se cruzavam com ele, hoje foi o próprio Jorge Pinto a trazer o tema para cima da mesa. Foi durante uma arruada, a única, se não estou em erro, de toda esta campanha. Foi a primeira e foi aqui no Porto, em que Jorge Pinto decidiu abrir a porta e dizer aos seus eleitores que está tudo bem se decidirem votar noutra pessoa, incentivando, sem nunca o dizer diretamente, claro, a votarem em António José Seguro, a partir do momento em que as sondagens também não têm sido animadoras para Jorge Pinto e sempre destacando que tudo pelo bem da democracia, tudo pelo bem do país e não com objetivos políticos próprios. Portanto, não está ali para defender o LIVRE, não está ali para defender o seu nome, mas sim o país. E portanto, nesse sentido, ele acha bastante aceitável que os eleitores escolham votar noutro candidato, nomeadamente António José Seguro, obviamente, uma vez que estas declarações surgem precisamente depois de Jorge Pinto ter inicialmente proposto aquilo que ele chamou de um pacto republicano, em que havia uma desistência concertada entre Jorge Pinto, Catarina Martins e António Filipe, de forma a que apoiassem logo António José Seguro, para lhe dar mais força nesta corrida a Belém.

Mariana Marques Tiago, tu no início desta segunda semana escrevias um texto onde de alguma forma já refletias sobre o futuro de Jorge Pinto. Na altura, o candidato lembrou que outros no passado falharam e voltaram com outra força e outra vitalidade. Jorge Pinto, depois da campanha que fez, continua a ser um nome a ter em conta no LIVRE?

Tudo indica que sim, pelo menos internamente. Dentro do partido, tudo indica que sim. Inclusivamente, estou bastante ansiosa pelo comício logo à noite, onde vai estar presente Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, os coporta-vozes do LIVRE, para perceber como é que eles se posicionam e como é que veem agora Jorge Pinto. Mas tudo indica que a sua contribuição para o partido não vai ficar por aqui, sendo que Jorge Pinto já disse, deixou bastante claro esta manhã, que não tem a intenção de concorrer à liderança do partido. Nem agora, nem no futuro, pelo menos para já.

Veremos. Mariana Marques Tiago, muito obrigado por te teres juntado à Vixi Suave. A primeira parte fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com um olhar especial sobre as cinco principais campanhas destas presidenciais. Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave Especial Presidenciais 2026. Continuamos na estrada com os nossos brilhantes e inestimáveis repórteres, desta vez para olhar para a campanha dos cinco principais candidatos: André Ventura, António José Seguro, João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo. Utilizei esta ordem para nomear os candidatos, como poderia ter utilizado outra qualquer, porque em grande medida é quase impossível antecipar aquilo que vai acontecer no dia 18 de janeiro. Mas nós aqui no Observador gostamos mesmo de impossíveis e, portanto, vamos a isso.

Não necessariamente por ordem alfabética, porque não nos é possível, devido também às circunstâncias dos vários repórteres que estão por aí ainda a acompanhar as ações de campanha. E por isso vamos começar com o Rui Pedro Antunes, que acompanha a campanha de Henrique Gouveia e Melo. Bem-vindo, Rui, também à Vixi Suave. Rui, o que é que destacarias da forma como decorreu a campanha de Gouveia e Melo ao longo destas duas semanas?

Olha, foi uma campanha que acabou, de alguma forma, por seguir um guião que estava pré-definido, ou seja, num primeiro momento, Henrique Gouveia e Melo Estava a atacar os dois candidatos do sistema e manteve-se sempre mais ou menos nessa linha. Portanto, António José Seguro e Luís Marques Mendes. É preciso dizer que a Tracking Poll, embora Enrico Covei Melo fosse sempre desvalorizando, acaba sempre por ter efeito na definição dessa estratégia. E não nos podemos esquecer que ele, na primeira segunda-feira de campanha, portanto, no segundo dia de campanha oficial, estava praticamente empatado com André Ventura no primeiro lugar nessa sondagem diária que tanto foi afetando o desenrolar das campanhas. Ele vai fazendo uma campanha em crescendo, pelo menos na maneira como se conseguia, de alguma forma, falar com jornalistas, nas declarações à imprensa, foi sendo menos embrulhado, mas há sempre determinados momentos em que, por não jogar este jogo midiático, acaba por, de alguma forma, ser um bocadinho titubeante e confuso. Basta ver o que aconteceu quando na prova oral da Antena 3 não afastou a hipótese de criar um partido, caso não vencesse, obviamente. Disse que preferia uma opção de movimento cívico e depois teve que se explicar novamente a dizer que não disse nada disso. A campanha foi construída de uma forma muito profissional, ou seja, para ser em crescendo, o que significa que os jantares começaram por ser mais pequenos e depois, primeiro em Sintra, onde estiveram 600 pessoas, e depois em Oeiras, na quarta-feira à noite em que tiveram mil pessoas. Hoje está aqui o que eu chamaria o Estado Maior da Armada, não estou a falar especificamente militar, é no sentido metafórico, porque não só está aqui o Luís Bernardo, que é o todo-poderoso da comunicação, como também está aqui Mário Ferreira, apesar de fazer aniversário hoje, fez questão de descer numa pequena arruada no Porto ao lado de Enrico Covei Melo. E essa é a parte financeira e de grande apoio também que Enrico Covei Melo tem. Portanto, eles estão aqui com ele. Naturalmente que a sessão que está a fechar esta vinda ao Norte, porque amanhã irá para Lisboa para fechar na capital, está a acontecer na Alfândega e é um evento mais pequeno. Não tem comida, o que também é um chamariz, e portanto foram colocadas poucas cadeiras e bastante organizado, mas obviamente que a sala está cheia, mas também não era propriamente. Mas também já vimos, basta lembrar as últimas legislativas em que Pedro Nuno Santos desceu a Santa Catarina com mais gente, nem nunca António Costa tinha tido tanta gente na maioria absoluta, e depois foi o resultado que se viu. Portanto, essas coisas das multidões e das salas meio cacicadas por este e por aquele, também não dizem propriamente o que é uma campanha. Eu reparei, e para terminar, acho que já me estou a esticar.

Ainda quero fazer outra pergunta, mas sim, faça.

Então vamos a isso.

Ia-te perguntar, ou gostava de perceber, se o facto das sondagens que há um ano diziam uma coisa e hoje diziam uma coisa completamente diferente, até que ponto é que isso também foi alterando a estratégia da campanha de Covey Melo.

Foi alterando. E até acredito que, mais não que seja, porque ele chama perceções, mas em termos de ânimo, a ideia de montanha-russa, sobe aqui, desce ali, tem hipótese, volta a não ter, foi complicada de gerir. Mas atenção a esta equipa, volto a chamar a atenção a isto, altamente profissionalizada. Parece-me que Enrico Covei Melo não tem sondagens pedidas, mas tem estudos do gênero focus group, ou seja, a tentar perceber o que as pessoas queriam ter ouvido falar e que tipo de perfil de candidato procura. Depois não sei se ele consegue executar isso da melhor forma. Mas, por exemplo, David Damião, que está aqui, também esteve na maioria absoluta de António Costa, em que sabemos por outra figura, que é Luís Paixão Martins, que eram pedidos muito mais estudos qualitativos do quantitativos. E só para fechar esta ideia da confiança e das sondagens, só para dizer o seguinte: Enrico Covei Melo hoje está bastante solto. Não sei se é por achar que já perdeu ou por achar que vai ganhar, ou que vai passar à segunda volta, que seria para ele uma vitória. Portanto, das duas, uma, eu não sei lê-lo, ficou extremamente irritado, até vermelho, absolutamente quase alterado, como não o tinha visto nesta campanha oficial, quando soube que André Ventura tinha vestido um camuflado, uma espécie de farda militar. Eu diria que de certa forma transformou-se e ficou mesmo muito irritado com essa situação e até ele tinha vindo a evitar André Ventura, nos últimos dias já não tanto. Viu-se que, de facto, ficou muito irritado com André Ventura. Ele fará agora um último discurso daqui a pouco, vamos ver se vai voltar a dedicar uns tiros ao líder do CHEGA.

Pedro Antunes, obrigado também. E por falar em irritação, Pedro Jorge Castro, acompanhaste uma declaração irritada de João Cotrim de Figueiredo, que teve uma semana, ou tem tido uma semana muito complicada na campanha.

É verdade, estava aqui a pensar se havia alguma sopa que tivesse algum tipo de paralelismo com aquilo que temos estado a viver, e só me ocorre caldeirada. Eu sei que não é uma sopa, mas de facto foi bastante inusitado aquilo que aconteceu hoje. Então, recapitulando, de manhã saiu o comunicado da ex-assessora da Iniciativa Liberal e obviamente o João Cotrim de Figueiredo foi confrontado com isso. Enfim, ele continua a negar que soubesse há mais tempo que esta denúncia tinha sido feita na altura, há dois anos, na Iniciativa Liberal, e diz que a única explicação que tem para não lhe terem dito é não ser visado na denúncia, de alguma forma. E até elogiou Mariana Leitão, considera uma pessoa íntegra e que mantém a sua presença a discursar no comício que vai haver agora esta noite aqui no Porto. Mas começou logo uma série de frases bastante críticas para a comunicação social, a dizer que não podia continuar com a campanha sequestrada. E que foi de facto bastante aguerrido nisso, a dizer que isto ia ser tudo apurado em tribunal, a veracidade dos factos, e que o facto de ser difundido com ou sem consentimento a ele diz lhe pouco, porque o dano está causado e, portanto, a responsabilidade tem que ser apurada. Depois ele quis mudar de assunto e centrar-se na campanha, a dizer que a campanha onde tem hipótese de impedir que a segunda volta seja apenas entre André Ventura e António José Seguro, que é mais importante do que esta questão Mas nisto, ele depois teve uma segunda ação de campanha à tarde numa empresa perto de Santo Tirso e no fim dessa ação de campanha, ao contrário do que é habitual, em que ele costuma responder às perguntas dos jornalistas, pôs-se à frente dos jornalistas e disse: "Olha, tenho uma declaração para fazer", e começou um ataque à comunicação social com uma enorme violência, basicamente a acusar os jornalistas de serem cúmplices de uma campanha de assassinato político. Para ele, o que está em causa é o fato de os jornalistas lhe terem perguntado sobre esta alegação de assédio na segunda-feira e depois não terem feito uma investigação sobre isso, terem mantido o tema em aberto, terem mantido o tema na agenda midiática durante estes dias e ele não conseguir falar de outras coisas das visitas que anda a fazer na campanha. Isso serviu tudo para ele fazer este ataque gigantesco à comunicação social, dizendo: "Não têm ideia do que é que fizeram à minha vida". Enfim, foi algo bastante inusitado, é uma mudança total de tom.

Era isso que eu ia dizer, são duas semanas muito diferentes na campanha de Cotrim de Figueiredo.

Sim. Sempre na primeira estava nas nuvens, sempre a subir, sempre a crescer, a passar de quinto para segundo nas sondagens com a Tracking Poll da CNN, chegou a 21%. Ele estava a saborear os ataques que iam dirigindo os outros candidatos que estavam a ficar mais para trás. E de repente, segunda-feira, com a pergunta sobre o cenário da segunda volta, entre como é que ele se posicionaria e toda a controvérsia que surgiu à volta dessa resposta, que ele, aliás, diz que pode ter ficado com o discernimento toldado por já estar sob o efeito do receio de que esta questão da alegação de assédio viesse a ser tornada pública. Mas começou aí toda esta semana negra de João Cotrim de Figueiredo. Até aqui estava a falar em segunda-feira negra, mas na verdade, se formos a ver, segunda de manhã tem essa resposta muito controvérsia, que creio que deixou muitos eleitores na dúvida sobre o que deveriam fazer e que não esperavam, porque é uma resposta que contraria um pouco aquilo que tem sido a carreira política de João Cotrim de Figueiredo, sempre com as linhas vermelhas em relação a André Ventura. Depois, nessa tarde, foi confrontado com esta alegação de assédio, que negou, mas que obviamente lançou a campanha num manto de dúvida sobre como é que a situação iria evoluir. Na terça, ele disse que já foi um bom dia de campanha, mas na verdade, aquelas primeiras respostas dele sobre o que tinha acontecido na véspera, a dizer que não sabe o que é que lhe tinha passado pela cabeça para dar aquela resposta sobre o cenário da segunda volta, tudo isso foi aproveitado pelos adversários para continuarem a atacá-lo e tornar difícil que ele recuperasse a sua campanha. E portanto, isto acaba agora com estes ataques que fez agora aqui aos jornalistas. No fundo, ele queixa-se, isto é até um pouquinho contraditório. Ele queixa-se que os jornalistas só falam disto e não falam de outras coisas, e ele escolhe abrir o momento de declarações em que se calhar já ninguém tinha nenhuma pergunta para fazer relacionada com o caso do assédio, porque as coisas estavam minimamente esclarecidas de manhã com a informação que havia. E é ele que escolhe voltar a pôr o tema na agenda e desta maneira, que obviamente agora as pessoas que se habituaram a ver na semana passada, se calhar, um candidato cheio de otimismo.

Agora é bastante diferente.

Uma pessoa bastante ressentida de dedo espetado, a acusar os jornalistas, sendo que para ele era bastante importante a cobertura midiática. Ele queixou-se muito quando não tinha cobertura midiática. E agora que tem, a maneira de ele falar com os eleitores e de chegar a mais pessoas, está a desaproveitá-la desta forma.

E vamos ver como é que serão as últimas horas. Pedro Jorge Castro, continuas a acompanhar a caravana de João Cotrim de Figueiredo.

Ansiosamente.

Exatamente. E por isso mesmo, vamos já à Mariana Lima Cunha, que está a acompanhar Luís Marques Mendes. Podemos encontrar aqui um paralelismo ao contrário na campanha de Marques Mendes, que começou mais por baixo e foi subindo por causa também do que aconteceu com Cotrim de Figueiredo, ou nem por isso? Ou não podemos fazer essa relação?

Olá, Luís. Podemos sim, embora de uma maneira um bocadinho mais modesta, porque enfim, não é inversamente proporcional na medida em que Luís Marques Mendes não chegou propriamente a nenhum estado de euforia, mas sim de mais algum otimismo. Porque Luís Marques Mendes tinha começado a campanha, não na euforia de João Cotrim Figueiredo, mas sempre com más notícias. Ou seja, é evidente que a Tracking Poll da CMTV se transformou aqui num protagonista da campanha, uma vez que dá dados diários e dados que eram muito incômodos para Luís Marques Mendes. Ia sempre colocando o candidato em quinto lugar, que era uma expectativa que ninguém na equipe tinha. As sondagens prévias à campanha, aliás, apontavam-no como um favorito para a segunda volta. E portanto, é evidente que estas coisas mexem sempre com o estado anímico da equipe, ainda que Luís Marques Mendes tenha sempre dito que não desanimava com nenhuma sondagem. E eu diria que além desse efeito no estado anímico, havia também alguns ziguezagues nalguma da estratégia de Marques Mendes. Ele tinha alguns desafios. Um deles era a maneira como se ia posicionar em relação ao governo para mobilizar ao máximo o eleitorado da AD, mostrando também que vai ser um presidente independente. E nesse sentido, eu diria que ele teve alguma dificuldade em acertar o tom, sobretudo quando era questionado sobre os casos na saúde, os casos de socorro no INEM, foram ali uma batata quente que lhe passou pelas mãos e ele demorou alguns dias a acertar o tom e a conseguir chegar a um equilíbrio em que pede satisfações, pede explicações ao governo, pressiona a ministra da Saúde já sem apontar unicamente o dedo à direção executiva do SNS, que foi o que começou por fazer. E depois tinha também o desafio de tentar chamar a si o eleitorado da AD que estava a fugir para João Cotrim Figueiredo. Teve também alguma hesitação entre não atacar diretamente o adversário para fazer uma campanha pela positiva e começar, como se diz no jargão político, a malhar em João Cotrim Figueiredo. E isso de facto aconteceu a partir desta segunda semana, em que João Cotrim Figueiredo teve o seu dia horribilis e, em espelho, no sentido inverso, Marcos Mendes teve a primeira sondagem boa que o colocava na segunda volta. É verdade que é apenas uma, mas foi tomada como uma injeção de energia. Ainda por cima, foi no mesmo dia em que Luís Marques Mendes não só teve boas enchantes de rua, por exemplo, em Fafe, que é a sua terra natal, como também voltou a ter o apoio de Luís Montenegro na campanha. Tudo isso acho que contribuiu para levantar um pouco os ânimos numa campanha em que se sucediam as más notícias.

Mariana Lima Cunha, obrigada também. Vais continuar a acompanhar estas últimas horas da campanha de Marcos Mendes. Rita Tavares, vou até ti. Estás a acompanhar a campanha de António José Seguro, um espécie de patinho feio e agora transformado num cisne resplandecente. Como é que estão os ânimos na campanha do socialista, que ora alterna entre o primeiro e o segundo lugar, salvo com uma pequeníssima exceção de uma sondagem.

Em que saltou para o quarto. Mas mesmo assim, nem nessa António José Seguro se quis fixar e preferiu apontar para o copo meio cheio, ou seja, a maioria das sondagens onde o dão como uma possibilidade na segunda volta, uma possibilidade forte, e isso foi uma vitamina que surgiu aqui, sem sombra de dúvida, nesta campanha. Começou cedo, começou com as sondagens diárias da CNN a marcarem o ritmo. Percebia-se que o candidato começou a acreditar, tinha mais dados do que aqueles que a candidatura dispunha para poder avaliar e continuar a validar o discurso que estava a ser feito. E depois houve a terça-feira à noite, quando surge a primeira grande sondagem, a da Universidade Católica, em que António José Seguro agarrou sem querer sequer saber se a sondagem seguinte poderia ser menos favorável. Aliás, eu diria mesmo que sabendo que a sondagem seguinte iria ser desfavorável, agarrou logo naquele trunfo e deu um murro na mesa nessa altura, virando o tabuleiro e tentando fazer desta sua campanha uma frente de ataque a André Ventura, portanto, um duelo. Ele ainda esta tarde disse que não gosta da palavra, mas é disso que se trata. António José Seguro está a tentar fazer aqui um mano a mano com André Ventura, está a tentar que isto seja uma luta a dois. Portanto, aquilo que se passaria numa segunda volta, ele está a transportar quase para a primeira, que é tentar ficar ele contra o candidato que é antidemocrático.

Precisamente, e esse é um ponto que tem ganhado muita força nas intervenções recentes de António José Seguro, essa vontade de ficar em primeiro lugar. Qual é o significado político desse objetivo?

O significado político é nada mais, nada menos do que nesta altura tentar arrastar precisamente o voto de alguns descontentes e indecisos, tudo que venha à rede, para a candidatura de António José Seguro. Ele até começou esta campanha com aquela discussão sobre a esquerda, que esta tarde até com uma semi desistência de Jorge Pinto, teve aqui também um empurrão importante, mas a verdade é que começou com uma tentativa de concentração de voto da esquerda e centro-esquerda, com António José Seguro a fazer vários apelos a essa frente para que não houvesse um desperdício de quem queria um candidato que pudesse representar a esquerda e o centro-esquerda. Depois, quando as sondagens começaram a correr-lhe bem, e mal a Luís Marques Mendes, começou a esticar um bocadinho, a estender um bocadinho o seu apelo ao voto para lá da esquerda, chegou ao centro-direita e até refreou a direita, à procura dos tais eventuais descontentes com as candidaturas à direita, e acaba neste crescendo em que já não são os de esquerda, de direita, nem sequer só os moderados, o que quer é os democratas. Portanto, a tentar fazer aqui uma frente anti-Ventura na sua candidatura e conseguir então ficar em primeiro lugar na primeira volta, fazendo disso quase uma questão de honra para os democratas e prometendo ao mesmo tempo que isso não significa que ele no dia seguinte a ser eleito governará para metade do país, esquecendo a outra, faz sempre essa ressalva, que depois do combate político e eleitoral fará essa união. Mas agora, neste momento, o tempo ainda é deste duelo, de tentar que isto seja uma trincheira entre democratas e não democratas, tentando alargar o mais possível a sua base de apoio para estas eleições presidenciais, conseguindo passar então à segunda volta. Que é uma coisa que no início era posta um pouco de parte por toda a gente, portanto acaba por ser com alguma surpresa que António José Seguro aparece tão bem posicionado nesta altura do campeonato.

É bem verdade. Rita Tavares, muito obrigado por te teres juntado à Vixi Suave. Eu não sei exatamente o que chamei ao cisne António José Seguro. Eu queria dizer que era um cisne resplandecente. Acho que comi aí umas sílabas. Perdoem este vosso servo.

Às vezes acontece.

Também já são muitos dias de campanha. Inês André Figueiredo, vou até ti. Estás a acompanhar a campanha de André Ventura, que faz anos hoje. Não sei se isso tem marcado ou não a campanha presidencial de alguém que está muito perto de conseguir um resultado que seria, pelo menos em todos os níveis, histórico

Pelo menos está a marcar o facto de André Ventura, pela primeira vez, ter tido dois comícios no mesmo dia nesta campanha, talvez para lhe cantarem os parabéns duas vezes. Isso já ficou na primeira ação de campanha. Vamos ver agora em Coimbra, onde vai fechar o dia. Mas a verdade é que foi uma campanha muito atípica comparada com outras de André Ventura, que nos habituou a um estilo de fazer política muito intenso, com algum nível de agressividade no discurso, onde além de muitas bandeiras, os adversários serviram sempre para uma espécie de tiro ao alvo. E durante esta campanha, primeiro começou a perceber-se que André Ventura não estava a apostar muito nesses ataques pessoais, que os evitava. Ao longo dos dias, sempre que era questionado sobre assuntos mais políticos ou até reações a declarações dos rivais, optava por criar uma narrativa de quase confronto com os jornalistas ao dizer que ele estava a querer discutir temas que interessavam ao país, os problemas das pessoas e não as picardias entre os adversários. E agora, já nesta fase final, no discurso de ontem do Porto, André Ventura disse que a coragem de dizer a verdade já trouxe como recompensa esse primeiro lugar que ocupa nas sondagens. Mas a verdade é que desde cedo deu para perceber que havia uma estratégia por trás desta nova postura de André Ventura, porque, e fomos falando muito sobre isso ao longo das últimas semanas, o eleitorado do Chega, à partida, pelo que dizem as sondagens, é o mais fiel, ainda por cima quando estamos a falar do maior rosto do partido, e André Ventura percebeu que tinha de montar uma campanha, por um lado, como se fossem umas legislativas, a falar para os tais problemas que interessam às pessoas, e por outro, a aproveitar o caos dos ataques constantes entre adversários. Ventura esteve um pouco nesse fogo cruzado, não é? E acabou, pelo menos assim dizem as sondagens, por capitalizar com isso.

Inês André Figueiredo, uma última pergunta, porque durante muito tempo se foi dizendo, mais uma vez com base em sondagens, que as taxas de rejeição de André Ventura impossibilitariam sempre uma vitória numa segunda volta. Pergunto: na campanha, na equipa de André Ventura, isso é um dado adquirido ou André Ventura começa a acreditar que pode mesmo ser presidente da República?

Eu creio que há esse élan positivo daquilo que a campanha de André Ventura tem vindo a fazer nos últimos dias, porque há muito menos rejeição nas ruas. A rejeição que nós avaliamos nas sondagens e que continua a existir, apesar de estar mais pequena relativamente aos últimos anos, não se nota nada nas ruas, é cada vez menor. Mas, na verdade, esta também é a primeira vez que André Ventura vai a votos com sondagens muito positivas e já falou até nisso, no facto de, pela primeira vez, poder ficar no lugar que as sondagens lhe dizem, porque até agora isso não acontecia. Conseguia sempre ficar bem acima dos valores que as sondagens lhe apontavam e terá aqui um desafio que normalmente cabe aos grandes partidos, que é mostrar que nada está ganho e que o conformismo do sofá pode bem levar a uma não vitória ou pelo menos a uma vitória mais curta do que aquela que André Ventura deseja. Na verdade, uma vitória nesta primeira volta e uma derrota na segunda volta pode ser muito vantajosa para Ventura, e também já falámos sobre isso, pelo menos para o André Ventura do futuro, o líder da oposição, que com esse resultado pode sair muito reforçado ou pelo menos com forças redobradas para enfrentar umas próximas legislativas a médio prazo.

Inês André Figueiredo, muito obrigado por ter estado nesta Vixi Soares. Agradecimento que estendo aos oito convidados que tivemos neste programa e aos 10 que não tendo participado, têm preenchido muitos tempos de antena na rádio do Observador. Talvez seja. Sim, tu percebeste, Luís. Percebemos. Perdoa o meu cansaço. Percebemos, sim, senhor. Estamos a entender mal. Luís, muito obrigado também por teres vindo a esta Vixi Soares. Com uma promessa, a Vixi Soares Na Estrada volta na sexta-feira. Às 16h30. Agora conduzida pelo Luís Soares. Da minha parte é tudo. Muito obrigado por ter ouvido esta Vixi Soares e pode sempre ouvi-la de novo nas plataformas habituais. Até à próxima.