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Olá, bem-vindos à ViciSuave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o chalana da telefonia portuguesa, o dono de um portentoso bigode, o Vasco Maldonado Correia, e os menos pilosos, mas igualmente garbosos, o Miguel Pereira Santos e a Mariana Lima Cunha. É este trio que me vai ajudar a explicar uma semana marcada pelas notícias que envolvem a Polícia de Segurança Pública, mas sobretudo pelas críticas de André Ventura ao novo ministro da Administração Interna, Luís Neves. Uma semana marcada também pela morte da reforma laboral em sede de concertação social, nove meses e 200 horas depois do início das negociações. Segue-se agora mais uma longa maratona negocial no Parlamento.
O primeiro-ministro, faço-lhe um apelo, deve deixar cair esta teimosia e deixar cair este pacote laboral, porque ele ofende particularmente, é ofensivo.
Sendo este também um governo de concertação, é um governo que obviamente não vai desistir. Nós o que não podemos é ficar reféns da intransigência ou ficar reféns do imobilismo.
Acho que Pedro Passos Coelho é uma referência que nós precisamos. Eu gostava de ter Pedro Passos Coelho na vida política. Já o disse várias vezes, não quer dizer que concorde com tudo.
A via daqueles que constituem grandes coligações pra que essas maiorias possam, à partida, estar mais estabilizadas ou aqueles como nós, que optam por governar com maioria relativa e ao mesmo tempo com capacidade de diálogo com todos. A história provará qual destas duas saídas é a melhor saída.
Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Vasco.
Olá, Miguel.
Estamos nesta ViciSuave, quinta-feira, tu estás prestes a celebrar o 26º aniversário.
É verdade.
Pergunto-te-
Depende do dia em que me estiverem a ouvir
...pergunto, aliás, fazes anos no...
Dia 8 de maio.
Dia 8 de maio.
Muito bem.
Pergunto-te o que é que desejas para este ano?
Miguel, tu estás a olhar pra mim com esses olhos e tu sabes o que eu vou responder. Eu desejo uma relação melhor com o meu co-host.
Muito bem, Vasco. Espero que isso aconteça e espero que um dia voltes a ter um animal como tiveste, um cavalo, o Topogigio. Sei que ainda hoje sentes saudades do teu cavalo. Espero que um dia possas voltar a experimentar uma relação tão próxima como tinhas com o Topogigio. Falando sobre questões mais importantes. Tenho, Miguel Pereira Santos, uma sopa do Texas para te servir. Sopa do Texas para falar do xerife de Lisboa, Carlos Moedas, queria poderes reforçados da Polícia Municipal, andou um ano a pedir ao governo que assim o fizesse. Há um novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, antigo diretor da Polícia Judiciária, que no início desta semana veio dizer: "Nem pensar, não há cá reforço das competências da Polícia Municipal", e ainda enviou um recado a Carlos Moedas sobre o cuidado a ter com a conversa das percepções. O xerife Carlos Moedas sai fragilizado deste bate-boca com Luís Neves?
Eu acho que há aqui um lado de incompreensão, por que Carlos Moedas recupera este tema, sendo que parecia que já tinha ficado fechado no ano passado. Tivemos este mesmo confronto quando na altura ainda podia parecer que havia alguma sintonia nas posições com Maria Lúcia Amaral em relação a precisamente dar mais poderes à Polícia Municipal, mas depois rapidamente percebemos que não, que isto era só uma campanha de Moedas que não era correspondida pelo governo. E neste momento, quando o assunto parecia já estar encerrado, havia um parecer que dizia que esta reforma não tinha pernas pra andar, Carlos Moedas volta a trazer o tema pra praça pública, a fazer esta reclamação de mais poderes para a Polícia Municipal, essencialmente para si, porque é uma polícia que está sob a sua alçada. E desta vez o que tivemos foi uma reação muito mais rápida do governo do que nas vezes anteriores, porque bastaram alguns minutos para Luís Neves subir ao mesmo palanque em que Carlos Moedas tinha dito isto, num colóquio sobre segurança local, para o ministro ser bastante claro no sentido em fazer a diferença entre as duas polícias e que não há margem para haver uma aproximação ou para a Polícia Municipal passar a ter poderes a nível criminal e não só administrativo.
Muito bem. E a propósito ou à boleia dessa questão da segurança, tenho pra vocês uma segunda sopa, uma sopa quente, para falarmos sobre aquilo que aconteceu e que envolve a Polícia de Segurança Pública e, em concreto, a esquadra do Rato em Lisboa, com notícias sobre crimes cometidosPor agentes da PSP, mas foquemo-nos na questão mais política. Luís Neves foi muito crítico em relação ao alegado comportamento destes polícias, prometeu tolerância zero. Vasco André Ventura, na resposta a Luís Neves, basicamente acusou o ministro de estar alinhado com a agenda da extrema-esquerda e que está mais preocupado em perseguir polícias do que perseguir ladrões. Luís Neves será um osso duro de roer para André Ventura?
Sim, e já tinha sido notório também que há uma tensão entre Luís Neves e o Chega naquele episódio sobre a classificação dos Antifa, se são ou não uma organização terrorista. Na altura, isso foi negado pelo ministro da Administração Interna e foi o Chega a levar essa pergunta ao ministro no Parlamento. E por isso, sim, parece claro que Luís Neves, sendo até uma figura que está ligada às polícias, que vem da Polícia Judiciária, parece claro que tem aqui algumas linhas de tensão com André Ventura, mas também a resposta do Chega é a resposta que se esperava. Isto aconteceu também muitas vezes naquele debate com Pacheco Pereira, sempre que houve polícia diz: "Não ofendam as forças de segurança" e por isso isso vai sempre acontecer e neste caso, estando a polícia em causa, André Ventura vai se posicionar ao lado da polícia independentemente de qual seja a história.
Mariana Lima Cunha, a verdade é que parecia que o governo de Luís Montenegro ia num certo sentido em relação aos temas de segurança. Todos nos recordamos daquela célebre conferência de imprensa às 20h, em que Luís Montenegro apareceu rodeado dos principais responsáveis pelas forças de segurança para fazer basicamente um report.
Recordamos até porque achávamos que íamos ter de trabalhar imenso nessa noite e afinal a coisa despachava-se em poucas linhas.
Luís Montenegro aproveitou essa declaração ao país para fazer um report das operações que estavam em curso. Luís Neves, que era diretor da Polícia Judiciária à altura dos factos e que sempre criticou a conversa sobre a extrapolação dos números da criminalidade, aparece agora como ministro, mas num tom algo dissonante em relação àquilo que o governo parecia defender. Isto consegue compreender-se?
Eu fiquei surpreendida quando soube da escolha de Luís Neves, e não devo ter sido a única, até porque acho que o que estava provavelmente na memória de muita gente quando se pensava em Luís Neves era aquela declaração que ele faz no Parlamento. E não só, não foi a única, mas em que ele desmonta um bocadinho a questão das percepções, fala dos números concretos da criminalidade pra afastar alguns fantasmas que se andavam a alimentar e que acho que o governo, de facto, ajudou a alimentar com anúncios espampanantes como esse em São Bento. E eu acho que é bom que o ministro seja firme e que não abdique das suas convicções porque chegou ao governo. Há sempre aquela tese de que o governo absorveu uma pessoa que era inimiga da sua tese e que o puxou pra dentro das suas fileiras e que já não tem de andar a responder a Luís Neves, mas seja como for, acho que é muito redutor, como já vimos alguns partidos fazerem, encostá-lo simplesmente à esquerda e aos interesses da extrema-esquerda. Também já o vimos, por exemplo, ser muito firme no caso do coquetel molotov que foi atirado pra Marcha pela Vida e, portanto, até agora parece-me que o ministro sabe onde é que tem de estar. Acho mais bizarro quando olhamos pras prioridades de André Ventura, que é, aliás, uma pessoa que se tem esforçado por mostrar sempre que aplica castigos exemplares no Chega, que afasta quem tem os comportamentos desviantes, que dentro de casa é que se deve manter a ordem para que as instituições, neste caso o Chega, sejam respeitadas e não sei se não defende o mesmo pra polícia. Porque ele, reagindo aos castigos aos polícias que estiveram envolvidos naqueles atos horríveis na Esquadra do Rato, falou dos polícias que estão sem meios, com números de agressões brutais, que eu não digo que não seja um problema importante. Agora, para reagir àquele caso, é uma prioridade um bocadinho bizarra. Isto é um problema de segurança, obviamente, ainda por cima há chefes da polícia envolvidos. Portanto, acho que é ainda mais importante é dar uma resposta exemplar, e o que temos lido são descrições de requintes de malvadez, de vídeos que eram partilhados de ações horríveis e depois partilhados entre risos pelos agentes. E, portanto, acho que André Ventura, se costuma achar que é preciso educar pelo exemplo, tem aqui um excelente exemplo pra dizer que nem todos os polícias são assim, e os que são assim devem obviamente ser castigados.
Muito bem, e avancemos para uma outra sopa, nossa última sopa, sopa no chão, para falar sobre, adivinhem lá, a reforma laboral e a sua inesperada, absolutamente inesperada morte em sede de concertação social. O governo terá agora de levar o diploma ao Parlamento. Veremos que versão da reforma é que o governo levará à Assembleia da República. Miguel Pereira Santos, este não da UGT é uma vitória da esquerda, mas do Partido Socialista em particular?
Penso que sim. Desde o início das negociações ou desde que o governo apresentou o projeto, o PS
Um bocado como acabaria por fazer António José Seguro, disse que sem um acordo na UGT seria impossível passar esta. A própria esquerda já olhava com desconfiança para este projeto. E depois colocou-se sempre muito ao lado da UGT e caso a UGT aceitasse este acordo, também seria difícil para o PS não o fazer no Parlamento. Portanto, sim, sendo que não há esse acordo na concertação social, a esquerda consegue ver a sua influência ser ampliada em relação àquilo que é a sua expressão reduzida no Parlamento, mas nesse caso, o Chega também tem um papel importante, porque o governo poderia seguir para a frente com esta revisão laboral.
Se contasse com o apoio de André Ventura, coisa que aparentemente, a acreditar nas palavras de André Ventura, não contará. Maria Manela Macunha, por maioria de razão, esta decisão ou este desfecho em sede de concertação social é uma derrota para Luís Montenegro.
É uma derrota grande para Luís Montenegro, que não começou por assumir isto no programa eleitoral, mas depois fez desta uma grande bandeira da sua legislatura, que tem garantido que está aqui para reformar, que é um governo do diálogo, até vai marcar mais do que Cavaco Silva, como eu lia num texto teu, Miguel, esta semana. E é importante que Montenegro então se apresse a redirigir a narrativa para outra reforma qualquer, reforma do Estado, mudanças na saúde, lei de bases da saúde, coisas produtivas e que mostrem que é capaz de chegar aos tais consensos, porque de facto, este dossier não lhe correu bem e porque, para dizer muito rapidamente, eu na Vixi Suave anterior já tinha falado sobre isto, acho que há uma grande diferença aqui em relação a outros dossiers em que ele se tem conseguido entender com André Ventura, que são dossiers que interessam a André Ventura por definição. Ou seja, quando André Ventura tem pela frente dossiers da imigração, por exemplo, por muito que rasgue as vestes, diga que há linhas vermelhas, que não vai abdicar, acaba por sempre por interessar mais para a sua agenda fazer avançar alguma coisa do que não fazer nada. Este é um caso muito diferente, e nós vimos isso nos zigzags das posições que foi assumindo em relação às matérias laborais. É um caso muito diferente, porque André Ventura não tem a mesma certeza ou tem a certeza de que o eleitorado reage de forma diferente, o seu eleitorado, às questões laborais, porque pode ser um eleitorado muito frustrado e muito zangado com a maneira como a vida lhe está a correr, do que as questões da imigração. E portanto, é muito mais difícil fazer um acordo à direita aqui.
Vasco, para terminar, pergunta de 1 milhão de euros: André Ventura vai manter-se fiel à moeda de troca que exigiu para aprovar esta reforma laboral? Vê lá que isto vai ser gravado e depois vamos usar isto contra ti.
Eu diria que sim.
Diria que sim não é uma resposta. Ou sim ou não.
Deixa lá, nós já nos enganámos tantas vezes.
Vou dizer que sim, sendo que parece óbvio que André Ventura sabe que esta resposta que deu, esta ideia lançada para o espaço público da descida da idade da reforma, foi uma maneira de se afastar do governo neste pacote laboral, até porque já sabia qual seria o posicionamento do PS e por isso foi, chamemos-lhe assim, um refúgio também, e vou usar a palavra, Miguel, diria que usou este refúgio para não estar constantemente a ser a bengala do governo para fazer aprovar reformas.
Mas não pode ser sempre o PS a ficar por último e ficar entalado. Alguma vez deve acontecer aos outros.
E José Luís Carneiro desta vez pode sorrir.
Sair em primeiro.
A primeira parte da Vixi Suave fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com a entrevista a Pedro Silva Martins, secretário de Estado do Emprego no governo de Pedro Passos Coelho.