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Existem erros que nós erramos.

A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.

Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou a Diongo se for Portugal. E vou lá e vou ser rececionista".

É guriado!

Vocês os três façam um quadrado com o Rui Miguel Tovar. Bem-vindo, Rui.

Olá, muito bem-vindos.

Estamos aqui na véspera da final da Liga dos Campeões. Vamos ter a primeira final num domingo, a segunda no Estádio da Luz. É isto, Rui Miguel Tovar?

E é mais. Domingo é o dia do futebol por excelência em muitos países.

E nunca houve uma final.

Mas nunca houve uma final. As finais europeias antes sempre foram no meio da semana, à quarta-feira, depois mudou para sábado, ideia de Michel Platini, e este ano, pela tal imposição do vírus, é um domingo. Curiosamente, o primeiro jogo de sempre na Taça dos Campeões foi em Lisboa, no Jamor, entre Sporting e Partizans, em 55, e foi num domingo. Portanto, voltamos à estaca zero.

Curioso.

Voltamos à estaca zero, na mesma cidade, a uns quilómetros de distância entre o Jamor e a Luz.

Exatamente.

Ainda vai uma certa distância.

Esta é, no entanto, a segunda final da Liga dos Campeões no Estádio da Luz. Em 2014 tivemos aquela final madrilena entre Atlético e Real, não é?

Sim. A capital de Espanha foi Lisboa por 120 minutos, ia dizer 90, mas não, o Sérgio Ramos igualou nos descontos. O Godín marcou primeiro, após um erro de cálculo do Casillas, o Sérgio Ramos empatou e depois, no prolongamento, o Bale marcou um golo, o Ronaldo fechou a contagem, 4 x 1 de pênalti, e o melhor em campo foi o Di María, que no prolongamento fez uma grande exibição. Ele estava muito fresco e abanou a estrutura montada por Simeone. É uma final histórica, porque Ronaldo levantou a Taça dos Campeões, juntamente com o Pepe e com o Coentrão. Estamos a falar de uma equipa treinada por Carlo Ancelotti e é a última final em Lisboa. Nada fazia prever que em 2020 iríamos ter outra. Mas o curioso é que a Luz também já foi palco de uma final da Taça das Taças, em 92.

Era isso que te ia perguntar. Há mais edições?

Há mais. Em 92 foi Taça das Taças, Werder Bremen 2, Mônaco 0. Mônaco treinado pelo Wenger e na sua equipa tinha o Rui Barros e o George Weah, aquele avançado liberiano fantástico. O Werder Bremen era treinado pelo Otto Rehhagel, que em 2004 ganhou o Europeu pela Grécia em Lisboa, na Luz.

Exatamente.

Na nova Luz. Aqui em 92 foi na velha Luz. E o outro registo de final europeia na Luz foi em 83, Taça UEFA, segunda mão da final. A Taça UEFA era a única que se disputava em duas mãos. Na primeira, em Bruxelas, Anderlecht 1, Benfica 0. Na segunda, num fim de tarde muito bonito, em Lisboa, estádio cheio. O Benfica começou melhor, um gol do Cheo, após um amorte muito bonito do Humberto Coelho, era uma jogada estudada, mas ainda antes do intervalo, um jogador espanhol, Lozano, que depois se transferiu para o Real Madrid, fez o empate e com esse gol fora, o Anderlecht controlou, geriu o empate e acabou por levantar a Taça UEFA na Luz. Portanto, são estes os registos de finais na casa do Benfica.

Taça UEFA, que também já não existe. Agora já é outro.

Bom tempos.

Como é que chegamos aqui à Liga dos Campeões, Rui? Uma série de competições que desapareceram e reapareceram. Como é que foi isto?

É o marketing ditar leis. Não sei se é um palavrão ou não, eu considero um palavrão. Marketing e imitamos o estilo da Libertadores. A Libertadores sempre foi fase grupos e depois fase a eliminar. A Europa, durante muitos anos, até início dos anos 90, foi sempre a eliminar. E isso tinha piada, muita piada, porque permite haver meias-finais entre Real Madrid e Milan e não haver fase grupos.

Ou seja, os grandes podem cair também mais cedo.

Mais cedo, sim. Eu lembro-me perfeitamente que o Nápoles, quando foi campeão italiano, na época seguinte, como o Nápoles raramente vinha à Europa, não tinha um coeficiente muito forte. Então estava na parte de baixo da tabela e caiu com um da parte de cima. Então foi logo Real Madrid e Nápoles. E ganhou o Real Madrid. E quando se pensava que o Nápoles, agora é que era na Europa, porque já tinham conquistado a Itália, de facto, estraga-se um sonho. Mas é assim, é cruel, mas tem mais piada. Eu acho que dar hipótese na fase grupos, seis jogos, também pode ser engraçado do ponto de vista de uma equipa da classe média chegar mais longe, como tivemos o caso da Atalanta, de Itália. Mas eu preferia o sistema de duas mãos a eliminar, era muito mais poético.

Era mais bola.

Era mais bola também, sim. Agora, não. Agora os tempos encarregaram-se de acabar com a Taça das Taças, acabaram com a Taça UEFA, virou Liga Europa. A Liga Europa este ano teve 213 equipas, é uma enormidade. Vai o décimo classificado De um campeonato qualquer. Não vai exagerar, mas há muitas equipes, há demais, há demasiadas equipes.

Faz falta a Intertoto.

Hoje não. Não. Nem isso.

Nós depois explicamos o que é.

Mas é os tempos, a economia a ditar leis num mundo que antes era só do futebol.

Ainda sobrevive alguma coisa da Taça das Cidades com Feira ou não?

Não, isso muito menos. Porque isso a UEFA ainda hoje nem conta pro totobola.

Já nem conta.

Nunca contou, porque a UEFA nunca foi o pai da criança, digamos, e então nunca assumiu a paternidade. E eles fazem tábua rasa. Muitas vezes quando nós dizemos: "O Gerd Müller marcou 71 gols na Europa" e os 71 é um número que eu estou inventando.

Claro.

E a UEFA vem dizendo: "Não, marcou 64, porque os outros sete vocês estão a dizer que foram a Taça das Cidades com Feira e isso pra nós não existe". E então há sempre ali uns números que ficam mal-amanhados. A Taça das Cidades com Feira foi uma prova engraçada, mas não vingou, tal como a Taça UEFA.

Pelo menos tem o nome muito interessante, a Taça das Cidades com Feira. Eu acho que é um nome feliz. E quem é o campeão dos campeões desta Liga dos Campeões e destes Campeões Europeus?

Sim, aí é o Real Madrid. Começou logo com um grande avanço, foram cinco títulos seguidos, de 56 a 60, e nunca mais deixou ninguém aproximar. Houve ali uma altura em que tinha seis conquistas e depois o Milan e o Liverpool aproximaram-se, mas depois, agora, na tal final com o Ancelotti, no tal 4 x 1 o Atlético de Madrid em Lisboa, disparou, o Real Madrid foi tricampeão e tricampeão à séria, ser três vezes seguida. O Real Madrid conseguiu essa proeza com Ancelotti e Zidane. E ao conseguir isso, distanciou-se de uma forma que agora será muito difícil. Eu não estou a ver o Milan, que é o mais próximo, a chegar lá, até porque o Milan já nem vai à Liga dos Campeões, vai só à preliminar da Liga Europa. Portanto, parece que quando a Taça dos Campeões fizer 100 anos, em 2055, o Real Madrid será, com toda a certeza, ainda o clube com mais títulos.

O campeão dos campeões.

Sim, vai ser.

Antes de fecharmos a conversa, vamos olhar para um outro ponto que é tão do nosso agrado. Qual tu dirias que será a final mais estranha desta Liga dos Campeões ou desses Campeões Europeus?

Mais estranha?

Ou mais peculiar. Se é que há.

Assim, peculiar de clubes.

Assim, um Leixões-Torriense.

Sim. Parece-me que o Porto-Mônaco é uma final totalmente inesperada. No início, ninguém estaria à espera que essas duas equipes fossem à final, até porque eram dois países que não eram assim tão fortes. Mas depois veio-se a perceber que sim, que eram fortes, muito embora o Porto tivesse sido vencedor da Taça UEFA no ano anterior, mas não se esperava tamanha força, e ainda bem. Agora, em matéria de resultado inesperado, pra mim, por tudo que aconteceu na primeira parte, foi aquela de 2005, curiosamente é um ano depois do Porto-Mônaco, que é a final entre Liverpool e Milan. Ao intervalo está 3 x 0 pro Milan, o Liverpool consegue empatar em menos de 15 minutos. Portanto, 3 x 3. O Milan continua a atacar como nunca. Há duas bolas inenarráveis que não dão gol porque não era o dia. E depois vai tudo nos pênaltis e o Ancelotti é o treinador do Milan, mete o Rui Costa no prolongamento, o Rui Costa não marca nenhum pênalti, inexplicavelmente, e o Milan perde na decisão dos pênaltis com o Liverpool, perde depois de ter estado a ganhar 3 x 0 no intervalo. Ora bem, ainda hoje isso deve bater na cabeça de um Shevchenko, de um Maldini, de um Pirlo, de um Kaká. Isso serviu de mote para encher o peito a Rafael Benítez, que era um treinador que tinha ganho dois títulos pelo Valência, dois títulos de campeão de Espanha e uma Taça UEFA. Era um treinador com nome, mas se aquela final continuasse como foi na primeira parte, o Rafael Benítez seria esmigalhado. Mas não, acabou como o grande triunfador da noite, juntamente com o Dudek, o guarda-redes dos pênaltis e que com as suas spaghetti legs enfeitiçou do Shevchenko, Gerrard, Xabi Alonso. Portanto, há ex-jogadores do Liverpool que saíram muito valorizados. Riise, um lateral norueguês. Portanto, há jogadores que fizeram aí a sua noite mais memorável. E terá sido, de facto, uma das finais mais desconcertantes. A outra será aquela de 99, Bayern e Manchester United, quando entramos no minuto 90 +1, digamos, está Bayern 1, Manchester United 0. Cem e tal segundos depois, está Bayern 1, United 2, com dois gols suplentes. Portanto, o Solskjaer e o Sheringham. Portanto, acho que assim, finais vividas de uma forma intensa, essas duas foram as mais marcantes.

Acho que foi uma ótima escolha. Vocês os três façam o quadrado com o Rui Miguel Tovar. A sonorização é da Beatriz Martel Garcia. Desejamos a todos uma boa final da Liga dos Campeões no Estádio da Luz, em Lisboa.

Força aí. Mas isto tem é que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão.

Era uma figura que chamava-se Maria, estava a chorar e eu estava a olhar pro quadro, a chorar. Não via nada.

Eu já disse à minha família: "Eu só vou de ônibus pro Portugal. E vou lá e vou ser feliz em festa". É goleado! Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto