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Existia erros que nós erramos.

A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.

Era uma figura que se chamava Maria. Estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. "A chorar? Eu não via nada." Eu disse à minha família: "Eu só vou dia 11 ao futebol. E vou lá e vou ser feliz."

É golo do André!

Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tavares. Bem-vindo, Rui.

Olá, muito bem-vindo para mais uma semana.

Vamos a isto. Vamos dar um salto até 11 de agosto de 1980, uma segunda-feira. É sempre importante saber que dia era. E nesse dia, um jovem de 24 anos pegou no carro, partiu do Porto rumo a Gijón, para Espanha. Sabemos, por acaso, Rui, se foi por norte, por Santiago Compostela, ou foi por Chaves? Pode ser importante para esta história.

É sempre importante. Mas sabemos que foi por Chaves.

Sabemos que foi por Chaves. Na altura não havia autoestradas.

Nada, não havia nada.

E a viagem são mais de 500 km e não deve ter sido fácil. E este jovem, que ainda não dissemos o nome, nem dissemos quem é, que partiu do Porto, se meteu no carro, fez mais de 500 km a guiar, no fim, vestiu uma camisola branca e vermelha e lá vai disto. Estamos a falar de quem? Que história é esta, Rui Miguel Tavares?

Estamos a falar da transferência relâmpago de Fernando Gomes, que tinha ganho nas últimas três épocas o título de melhor marcador do Campeonato Nacional da Primeira Divisão. Fernando Gomes tinha acabado de assinar pelo Sporting Gijón, portanto tinha jogado para Espanha, ia preencher uma lacuna enorme de outro jogador que também tinha conquistado por três vezes o título de melhor marcador em Espanha, que era o Quini. O Quini tinha sido contratado pelo Barcelona e o Sporting Gijón ficou com uma vaga e foi buscar o Fernando Gomes, numa transferência bastante interessante.

Estamos a falar do bibota.

Sim. Na altura, ainda não tinha nenhuma.

Era o unibota. Não, ainda não tinha.

Nada. Ainda não tinha nada.

Era o zero botas.

Era o zero botador. É uma transferência bastante interessante. Primeiro, porque Gijón joga o Sporting e o Fernando Gomes jogaria mais tarde no Sporting Clube Portugal, mas sobretudo porque na altura, isto foi há 40 anos, há precisamente 40 anos, é preciso ver que o futebol português era de outra escala, não tanto como agora. E na altura, o que importava era sair de Portugal, era jogar lá fora. Não era ir para uma grande equipa. Claro que havia a ambição de jogar no Real Madrid ou num Barcelona, ou num Saint-Étienne, na altura, ou num Bayern, mas o sonho era mais jogar lá fora.

Só o sair era...

Era ganhar nome lá fora e ganhar muito mais dinheiro, claro, como agora.

Deixa-me ver se eu percebi isto bem. Portanto, o Fernando Gomes arranca do Porto segunda-feira, 11 de agosto, mete-se na sua viatura, faz mais de 500 km via Chaves até Gijón e joga à bola nesse dia?

É assim, a história é engraçada, contada por ele, claro. Ele parte às 16h, 17h do Porto. A viagem durou imenso tempo. Ele chegou à meia-noite e pouco. Deu para perceber um pouco da dimensão, já aí, do Sporting Gijón, porque ele foi dormir para um hotel dentro do centro de estágio do Sporting Gijón.

Centro de estágio.

Estamos a falar de 1980.

Há 40 anos.

A academia de Alcochete, por exemplo, nasceu em 2002.

Exatamente.

Estamos em 80. Sporting Gijón, que é um clube de classe média-baixa de Espanha, já tinha um centro de treinos com um hotel e sete campos relvados.

Sete. É outra louça.

Ele chegou lá, percebeu que havia ali um empreendimento fora do normal, mas era muito tarde, estava cansado, então conheceu quem de direito, que não o treinador nem companheiros, estavam já a dormir. Conheceu dirigentes que o reencaminharam para o quarto do capitão de equipa. Dormiu, claro. Pequeno-almoço às 9h30 da manhã, tomou pequeno-almoço, desceu, conheceu os companheiros de equipa, recolheu, dormiu outra vez, acordaram para o almoço, repetiu-se a cena, almoçou, cama e na hora do lanche conheceu o treinador que disse: "Olha, depois do lanche vamos para o estádio e vamos jogar". E era um Gijón-Oviedo. E estava tudo em polvorosa porque ninguém sabia muito bem ainda quem é que era o Gomes, porque as notícias, lá está, não eram como agora.

Sim, não havia internet.

Não havia nada. E então havia alguma expectativa por saber quem é que era o substituto do Quini. E o Gomes ficou espantado, como quem diz: "Então, mas eu cheguei esta madrugada aqui e já me querem pôr a jogar". E lá foi. Estava a chover, miudinho, era um torneio de Gijón, portanto era um torneio organizado, patrocinado pelo Sporting.

De pré-época.

De pré-época, exatamente. Acabou 5-1 para o Sporting Gijón e os cinco gols foram do Gomes.

Marcou cinco gols.

Marcou cinco gols.

Isso foi uma bela estreia.

Marcou cinco gols. Foi uma estreia formidável. A equipa qualificou-se para a final com o Real Madrid e foi nessa final que o Gomes teve o primeiro problema, que foi uma lesão que o afastou dos relvados por muitos meses. E é por isso que a aventura não foi tão bem-sucedida como ele esperava na primeira época.

Devido a essa lesão.

Devido à lesão. Na segunda época já foi melhor E conseguiu marcar mais de 15 gols, que é notável para uma equipa como o Sporting de Gijón. Portanto, o Gomes teve duas épocas no Sporting. Na primeira jogou muito pouco e não marcou quase nada. Na segunda jogou totalmente quase todos os jogos e marcou mais de 15 gols, o que é formidável.

Rui, quando me sugeriste este tema hoje, lembrei-me bem de Gomes, que nós ainda vimos ambos a jogar. Podemos dizer que o Fernando Gomes era um gentleman em campo, ou não?

Sim.

Porque sempre foi uma figura muito respeitada por toda a gente.

Sim. Acima de tudo, era um goleador exímio.

Inato.

Lembro-me de estar sempre a morder a língua, o que me fazia confusão como é que a língua nunca faltava, estava sempre no lugar. Mordia imenso a língua, fosse a festejar gols, fosse a fintar, fosse a rematar. Era um jogador que dominava todos os parâmetros do jogo dentro da grande área. Portanto, sabia parar a bola com o peito, com o coxo, arrematava bem com o esquerdo, com o direito, de cabeça, fantástico. Não tanto como um Jardel ou como um Mike Walsh, também do Porto, mas era um jogador muito bom de cabeça.

E com um belo cabelo.

É verdade. Bel cabelo, com aquela coisa ao pescoço, sempre também a abanar. Ele tinha muito aquele fio. Era um goleador que todos os adversários respeitavam e admiravam, porque de facto marcava muitos gols. E é como tu dizes, sempre também me pareceu um gentleman no trato.

Sim.

Portanto, era uma pessoa que devia receber bem os novatos, que respeitava os mais velhos e que por isso enquadrava-se facilmente em qualquer equipa.

Não vamos falar muito disso hoje, mas ele sai do Porto numa altura um pouco de convulsão nas hostes portistas. Peço desculpa, mas eu estava há 22 programas a tentar dizer hostes e hostes portistas é algo que fica sempre bem. Havia alguma convulsão nessa altura, não foi?

Sim. Uma convulsão entre o presidente Américo Sá e o vice-presidente Pinto da Costa e que originou o tal Verão Quente de 80, que significou a debandada de alguns jogadores. O Octávio Machado, por exemplo, foi para o Vitória, o de Setúbal, donde ele tinha criado raízes nos anos 70. E o Gomes acabou por ir para o Sporting Gijón porque não estava para aturar aquele ciclo que se imaginava terrível. E de facto foi, porque o Verão Quente significou uma rutura entre o Porto e José Maria Pedroto, e nós sabemos o quão carismático era o Pedroto, fosse no Porto ou noutro sítio qualquer, e foi nos dois Vitórias, foi em mais clubes portugueses. O Gomes foi jogar para Espanha e depois regressou em 82 pela mão de Pinto da Costa e também de Pedroto.

Ao Porto.

Ao Porto, regressou ao Porto.

E depois, Porto, Real Sporting Gijón e Sporting Clube Portugal.

Sim. Aí que não foi de todo verão, mas que foi quente, foi. Uma chegada à Madeira em que houve muitos problemas com o Octávio Machado, que na altura era o adjunto do Artur Jorge. É uma famosa ida à Madeira, uma ida muito turbulenta porque o avião chegou mais tarde, portanto os jogadores jantaram mais tarde e tem que haver um programa um dia destes sobre isso. E o Gomes foi afastado do Porto porque bateu de frente com o Octávio Machado. O Octávio Machado era o número dois do Artur Jorge, o Pinto da Costa tomou essa decisão e o Gomes foi jogar para o Sporting Clube de Portugal, não é vermelho e branco, é verde e branco.

É verde e branco.

E por lá se manteve e acabou a carreira no Sporting. Portanto, a vida de Gomes tem dois Sportings.

Exatamente, o de Gijón e o de Lisboa, como aparece às vezes por aí. Nós já dissemos que crescemos a ver o Fernando Gomes a jogar, um gentleman e Rui, esta é também uma forma de nós homenagearmos Fernando Gomes, falarmos dele.

Claro que sim. Fernando Gomes era aquilo que tu disseste, um gentleman e quando regressou a Portugal ganhou outra vez, três anos seguidos, o título de melhor marcador da Primeira Divisão, dois desses títulos foi na Europa também, portanto daí o Bibota. Que há bocado falávamos.

O grande Bibota. Fernando Gomes é um nome que se cola a ele e que vai ficar colado ao Fernando Gomes. Rui Miguel Tavares, vocês os três façam o quadrado. A sonorização é do Bernardo Almeida. Um grande abraço, Rui.

Abraço, até quinta. Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.

Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro, a chorar. Não via nada. Eu já disse à minha família: "Eu só vou a dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser rececionista."

É goleado! Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.