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Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou de onze para Portugal e vou lá e vou ser rececionista".
É guriado!
"Vocês os Três Façam um Quadrado" com Rui Miguel Tovar e hoje recordamos o momento da carreira do homem que proferiu a imortal frase que dá nome a este fantástico pedaço de telefonia, também conhecido como podcast, este "Vocês os Três Façam um Quadrado". Hoje vamos falar de Jorge Jesus. Rui Miguel Tovar, bem-vindo. Isto porque em 2009, a 20 de agosto, Jorge Jesus estreava-se no Benfica.
É verdade. É um jogo europeu, a preliminar da Liga Europa.
Estreia-se num jogo internacional.
Jogo internacional, sim. Benfica Vorskla Poltava, que é da Ucrânia, acabou 4 x 0. E só para a história, vamos só falar do 11, que é curioso, porque basta ver esta equipa extraordinária. Kim, depois é Schaffer, um argentino que não foi grande espingarda. Luizão, David Luiz no meio, lateral esquerdo, Fábio Coentrão, sensacional à época. Depois, Javi García, o espanhol, Ruben Amorim, Aimar, Di María, Saviola e Cardozo. De facto, era uma equipa extraordinária para os parâmetros portugueses, era uma equipa fora de série. No banco ainda entraram Ramires, que foi um jogador muito importante nesta época, César Peixoto e o Heldon, que no segundo jogo do Jesus, também em casa com o Marítimo para o campeonato, acabou 1 x 1, o Heldon entrou, marcou e salvou, porque marcou o gol do empate. Aqui o Heldon entrou e marcou dois minutos depois.
E o Benfica acaba por ficar pelo caminho nesta Liga Europa, acaba por perder o segundo jogo, não é?
Sim. Depois do 4 x 0, entrou em descompressão e então a segunda mão já não fazia muito sentido. O que interessava era só a qualificação para a fase de grupos. O Benfica com este 4 x 0 enfrentou a viagem à Ucrânia com outro descanso.
11 anos depois, Jorge Jesus está de volta ao Benfica, este Benfica de 2020. Rui, não sei se tu tens esta resposta, que até pode valer 1 milhão de euros, vamos assim dar de barato. O que Jesus tem?
Jesus tem conhecimento acima de tudo, tem ideias próprias, que também é importante. Ele pode gabar-se de tudo isso, mas a verdade é que tem, porque há pessoas que se gabam de coisas que não têm.
Exatamente.
Ele tem. Claro que também tem um lado rude, um lado negro, que às vezes dá vontade de o sacudir, porque quando o vemos afastar os adjuntos ou até o Xéco, que é uma referência do Benfica, parece que levamos um murro no estômago. Mas voltando um pouco às qualidades dele e o que ele tem, ele pode ser muito enervante. E se tu falas com os jogadores, tu percebes que alguns não vão à bola com ele, mas que quando aquilo que ele executa no treino acontece no jogo, os jogadores respeitam-no e percebem que aquilo, afinal, durante a semana, dá resultado.
Mas, Rui, por aquilo que estás a descrever, ele consegue ter uma forte componente tática. Um forte conhecimento do jogo, da forma como desenvolver o jogo. Mas se ele não tivesse essa característica, essa personalidade mais forte, vamos chamar-lhe assim, achas que ele conseguia os mesmos resultados, tanto com as equipas como com os adversários? Se fosse só tática e se fosse um tipo menos efusivo.
Difícil, porque é impossível. Eu não consigo ver o Jesus de outra maneira, tal como não conseguia ver o Mourinho, não consigo ver o Pedroto. E estou a falar de referências que mudaram, de facto, o futebol português. E quando digo mudar, não é uma mudança significativa, às vezes é uma mudança. O Mourinho mudou o futebol português porque ganhou uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões em anos seguidos. Isto é claro como água e mostra como é que Portugal reentrou na ribalta do futebol europeu naquele período. E o Jorge Jesus, em dois anos, chegou a duas finais europeias, o que é preciso um arcaboiço, porque o Benfica não tem dinheiro para competir com as Juventudes desta vida, ou o Paris Saint-Germain, ou quem seja. Portanto, chegar a duas finais europeias seguidas, é preciso ter conhecimento e ter, quem sabe, alguma arrogância. Só quem está lá dentro é que pode explicar melhor. Eu não consigo dissociar o facto do Jesus nunca ter dado os parabéns ao Benfica quando o Benfica foi campeão naquele photo finish impressionante com o Sporting. Isso para mim é falta de educação, é falta de chá. Agora, não me preocupa isso. É um lado negro, como já disse.
Mas eu vou guardar ainda a pergunta dos defeitos um pouco mais para frente. Queria perceber isto ainda um pouco melhor contigo, que é Ele é um verdadeiro artista da bola. É uma pessoa que respira futebol, que vive futebol. Ele conseguiu transformar essa paixão irracional pela bola, pelo jogo, em algo de concreto, na forma como orienta as equipes, como consegue puxar as equipes para cima e isso pudemos ver no Brasil com o Flamengo.
Sim! No Flamengo há muitas vertentes. A primeira de todas é que o Flamengo tinha uma equipe fantástica, que agora pode ir tudo por água abaixo. E até começou mal o campeonato, mas tinha uma equipe fantástica feita, a sua maioria, por jogadores que já tinham estado na Europa, e isso é uma grande ajuda. Mas não há dúvida que o Flamengo conseguiu superar-se com o Jesus, e isso é inestimável. Outro aspecto claro é que, no Flamengo, o Jorge Jesus não merecia de todo ganhar a Libertadores, a final, porque se viu durante 70 e tal minutos preso ao River Plate. Não conseguia ter nenhuma ideia de jogo, mas ganhou-a. E o curioso é que jogou melhor com o Liverpool na final do Mundial de Clubes do que a final da Libertadores. Mas o futebol é assim mesmo. E o que interessa também no futebol é ter memória, porque senão, se a gente vai olhar para a Wikipédia, lá está. "Ganhou aqui, perdeu aqui, quer dizer que isto é igual a isto". Não.
Ele diz que passado é museu, não é?
Pois, mas não é. E o importante aqui é ouvir as pessoas que o conhecem bem, gostem dele ou não, e perceber que ele há muitos anos que, mesmo durante os treinos ou durante os jogos, ele adivinha as coisas como vão acontecer. E isso dá uma força extra aos jogadores e percebe-se que ele consegue retirar mais um pouco de quem quer que seja. Isso é importante.
E os defeitos? Vamos lá aos defeitos.
Os defeitos, é como todos. É como o Alex Ferguson, é como o Carlo Ancelotti. É um treinador que às vezes comete o erro no próprio jogo, nas substituições, por exemplo, naquele jogo do título no Dragão, em que o Kelvin marcou aos 90 mais um, aquela substituição de entrar o Rodrygo no meio do jogo, quando é preciso empatar, e o Benfica, de facto, está empatado, mas que o Porto não está a criar perigo nenhum. Portanto, ao fazer entrar o Rodrygo, está, eventualmente, a dar a ideia ao Porto de: "Venham para cima de nós, que estamos aqui bem resguardados". Até não é que o gol do Kelvin é mesmo na cara do Rodrygo. Portanto, há coisas que às vezes nós pensamos uma coisa e acontecem de outra maneira. O Jesus pensou que ao entrar o Rodrygo iria estancar. Não estancou. Numa jogada simples entre Liedson e Kelvin, o Porto conseguiu garantir esse título de campeão. Mas parece-me que, lá está, porque o Ancelotti, porque o Mourinho, porque o Ferguson, todos se enganam em substituições, é o mais normal e banal.
Claro.
Até porque o treinador não pode jogar. Portanto, ele confia naquele jogador. Se aquele jogador não dá a resposta que ele quer, a culpa também não pode ser dele.
E vontade às vezes não deve faltar.
Imagina que não, então para ele. Mas o que eu vejo mais como defeito é isso, é raramente aplaudir o adversário como se isso fosse um momento de fraqueza, e não é, é de franqueza.
Exatamente.
Nós devemos, na hora certa, saber dirigirmo-nos a quem nos foi superior. E o Jesus peca por isso. Agora, no futebol muito menos, não é um defeito.
Valorizam isso, não é?
Muito, infelizmente.
Ó Rui, estamos mesmo aqui em cima do tempo. Tu achas que ele ainda vai para Espanha, Itália, Inglaterra? Ainda é uma possibilidade ou não? Ele não é pessoa de se encostar, não é?
Nunca acreditei muito nessas hipóteses. É verdade que o mercado é muito flutuante e às vezes acontecem surpresas, mas não o estou a ver a sair da casca. Uma coisa é o Flamengo, porque é Brasil, é a mesma língua, temos laços, de facto, muito fortes. E mesmo não conhecendo a realidade tão bem como imaginamos, porque o Brasil 2020 não é o Brasil da Gabriela Kravikanelo, da novela, ou do Vereda Tropical, do Roque Santeiro, mas é o Brasil, a gente conhece do jeito deles. Agora, ir lá para fora, para um país desses, não me parece. E neste momento, o que me parece é que Jesus quer fazer do Benfica o que já fez na sua anterior passagem em que chegou, lá está, mais uma vez digo, ganhou três títulos em seis anos e foi a duas finais europeias.
Jorge Jesus estreou-se faz hoje 11 anos no Benfica, o homem que proferiu estas palavras, agora transformadas em programa, vocês os três façam um quadrado, foi o nosso homenageado de hoje. Rui Miguel Tóvar, a sonorização é de Beatriz Martel Garcia, eu sou o Ricardo Conceição. Um grande abraço, Rui. Não te esqueças também nesta altura daquelas sandálias de plástico que evitam a picada do peixe-aranha. Não sei se te obrigaram a usar umas sandálias dessas.
Nada.
Pronto, ainda bem para ti. Abraço.
Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão.
Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro a chorar. Não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser rececionista".
É goleado! Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.