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Existem erros que nós erramos.
A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou a Diongo se for Portugal, e vou lá e vou ser senhor infestado".
É guriado!
Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tavares. Bem-vindo, Rui.
Alô.
Hoje vamos aqui desfazer um erro que anda na Wikipédia. Rui Miguel Tavares, vamos então repor a verdade sobre a Supertaça Portuguesa de 2002. Afinal de contas, que erro é este? O que é que se passa?
Ora bem, passa-se que é comum atribuírem esta Supertaça ao Cristiano Ronaldo, mas ele não pode ter ganho porque não jogou. No fundo, os títulos contabilizam-se quando se joga, só. Fazer parte da equipa não chega. E então, a Wikipédia, que é um ótimo motor de busca e de referência, ainda não emendou.
A ver se nos ouvem, senhores da Wikipédia.
Exato.
É bom que nos oiçam para corrigir, até porque nós poderíamos fazê-lo, mas temos outras coisas. Mas vamos então ao jogo, Rui.
Exatamente.
Cinco a um para o Sporting frente ao Leixões. Já percebemos que Ronaldo não jogou. Quem é que jogou neste Sporting 2002?
Isto traduz a final da Taça de Portugal em maio, que foi entre Sporting e Leixões. O Sporting ganhou um a zero, golo do Jardel, passe de Pedro Barbosa. Curiosamente, nem o Jardel, nem o Barbosa jogam aqui na Supertaça, no Bonfim, em Setúbal. O Sporting também tinha sido campeão nacional. Aliás, foi a última vez que o conseguiu ser com Boloni, que se mantinha como treinador. O Sporting em três meses ganha o campeonato, Taça e Supertaça, por ordem cronológica. O Ronaldo não intervém em nenhum desses títulos. E este jogo fica marcado por um resultado desajustado.
Expressivo, não é?
Sim, muito expressivo. Temos que ter em conta que o Leixões era da Segunda Divisão B, portanto, mérito maiúsculo para o Carlos Carvalhal, que agora está no Braga.
Exatamente.
E que fez um ótimo trabalho no Rio Ave na época passada. O Leixões qualificou-se para a Europa, via finalista vencido da Taça e foi a Setúbal jogar a Supertaça. Perdeu, porque o Sporting tinha muito mais ritmo. Aliás, o Sporting tinha começado a pré-época cedo porque tinha que jogar uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões com o Inter, que foi onde Boloni estreou Ronaldo.
Essa era uma das perguntas que eu tinha.
Na manga.
Foi nesse jogo.
Foi nesse jogo, no Sporting Inter, Milão, o Ronaldo fez o seu primeiro jogo, foi em Alvalade e não aqui no Bonfim, onde o Sporting ganhou por cinco a um. Ao intervalo, o resultado ainda estava em um a zero e a curiosidade é que devia mais cartões vermelhos do que gols. Na primeira parte, duas expulsões, uma para o José António, da parte do Leixões, aos 41, e dois minutos depois, o Beto, capitão de equipa, foi expulso. A segunda parte começou 10 para 10. E a curiosidade aqui, quando eu digo que o Beto foi expulso, a braçadeira passou para o Quaresma, que era um miúdo.
E que jogou essa Supertaça.
E que jogou a Supertaça.
Isso foi capitão do Sporting?
Capitão do Sporting até ser substituído. E quando o Sporting vai levantar a taça, o Beto e o Barbosa, capitães, dizem que o Quaresma é que é para levantar a taça, porque ele é que naquela noite mereceu.
E o Ronaldo estava no banco?
Estava no banco, juntamente com o Nuno Santos, um guarda-redes muito divertido, uma alegria constante no balneário, mas que nunca vingou no Sporting, e o Pedro Barbosa, daqueles que não jogaram. Dos que jogaram, César Prates, Dani, o luso-venezuelano, e Carlos Martins, que marcou um dos gols.
E há um gol no mínimo estranho de um senhor do Sporting, que não sei se estão recordados dele, que se chamava Kutuzov, que leva dois defesas do Leixões até à linha de fundo, embrulha-se toda a gente, caem e de repente a bola não sai e ele continua em jogo, leva a bola até a meio da grande área e lá vai disto. É um gol no mínimo estranho.
Parece-me a cara do Kutuzov, sim. Era um jogador muito buliçoso, muito trabalhador, que fazia 30 por uma linha para chegar ao gol. Não foi uma contratação feliz do Sporting, nem de qualquer clube que o contratasse. Não foi um jogador que tenha feito história, mas marcou esse gol de que tu te lembras e ainda bem que falaste. Era um jogador que marcava gols a conta-gotas, e isso para um avançado é preocupante.
Havia o outro, porém, que era mais interessante, que era o Nicolae.
Nicolae, sim. Marius Nicolae, quando chegou ao Sporting, na época anterior, trazido pelo Boloni, um romeno trouxe um romeno da sua confiança, era um miúdo com uma força inacreditável. Tinha 20 anos e notava-se que podia ser um avançado reconhecido lá fora. Acontece que deixou-se de embrulhar pelas lesões e em alguns momentos também se deixou embrulhar por alguma euforia e pela companhia do Jardel. O Jardel fez uma época 2001, 2002 sensacional Estratosférica, Bota de Ouro, o melhor marcador europeu. Pelo Sporting só tinha sido o Yazar nos anos 70, portanto é um momento grandioso para o Jardel. Só que depois esta época, 2002, 2003, é uma época para esquecer. Mesmo assim, marca mais de 15 gols na época. Uma época para esquecer e o Jardel marcou. E o problema é que o Nicolai e Jardel era uma grande dupla dentro e fora do campo. E se fora do campo o Jardel já tinha o Calvin tornado, o Nicolai também foi um pouco pelo mesmo caminho, mas era um jogador fortíssimo fisicamente, dominava muito bem uma vertente importante, que era o remate com o pé esquerdo, era fantástico. E ele chega a marcar um gol ao Milan na Taça UEFA, que é um gol portentoso fora da área, que a bola entra mesmo rente ao poste, é um remate fulminante, daquele que a bola segue sempre o seu caminho, não baixa. É aquele remate tenso que dá gozo ver alguém arrematar. Mas não deu sequência, não foi um jogador que tivesse enchido as medidas. Agora, faz parte do último plantel campeão, e isso é justamente meritório.
E é parte do imaginário do Sporting.
Claro.
Ainda há pouco tempo deu uma entrevista à Sporting TV, onde ele dizia que continua a fazer desporto e exercício físico todo dia, mas ao olhar para o físico dele, eu fiquei desconfiado, que se calhar é só uma vez por semana e não é todas as semanas.
Se calhar é boccia, não sei.
Exato. Pode ser. Rui, eu estava aqui indo olhar para esta ficha de jogo, para este Sporting Leixões, e já explicaste que o Leixões vinha da segunda, Carlos Carvalhal no banco, Lazlo Boloni no outro banco e no Leixões apenas um estrangeiro no 11 inicial.
E autor do gol, o Anchieta, que era um jogador muito temido, sobretudo na segunda divisão, onde marcava muitos gols. Mas havia outros jogadores muito interessantes. Zamorano, o Abílio. O Abílio era um jogador extraordinário, em bolas paradas era fortíssimo. E era uma equipa muito interessante, que fez uma campanha muito boa na Taça de Portugal na época anterior, eliminou o Braga, em Braga. Grande noite do Leixões. E é daquilo que nós sempre esperamos. Se nós curtimos o título inglês do Leicester, não podemos também de olhar para o outro well, para o Leixões, e ficar agradado. Foi de facto uma surpresa maiúscula, ninguém estava à espera. E foi um ano sui generis, porque de facto foi o último ano em que o Sporting foi campeão e foi o último ano em que uma equipa da segunda B, aliás, o único ano, em que uma equipa da segunda B foi a uma final da Taça e depois também ganhou o direito a ir à Supertaça. Isto tudo no ano 2002, em que houve aquele mundial do arco da velha para Portugal, péssimo. Portugal eliminada à primeira na fase de grupos. E aqui no Sporting não se nota a presença do Jardel, porque era muito cedo para ele, da época, não o horário do jogo. O jogo foi às 21h. E também nota-se a ausência do João Vieira Pinto, por quê? Porque já tinha dado um murro ao árbitro, o seu processo já estava a ser conduzido pela FIFA e, portanto, não podia jogar pelo Sporting. Portanto, aqui João Vieira Pinto estava de fora, mas estavam outras referências do Sporting desse mundial, como Beto, Rui Jorge, Paulo Bento. Portanto, é uma equipa bastante boa do Sporting, muito veterana, experiente e versátil, com o Quaresma, que de todos os jogadores em campo, é o único que ainda joga futebol, é o Quaresma. Isso é importante realçar.
De todos que estavam em campo.
De todos que estavam em campo. De todos, é o único que ainda se mantém no ativo.
E nessa noite foi capitão do Sporting e foi ele que ergueu a Supertaça. Rui Miguel Tovar, vocês os três façam quadrado. A sonorização é da Beatriz Martel Garcia. Um abraço, Rui.
Grande abraço. Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro, a chorar. Não via nada. Eu já disse à minha família, eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser rececionado em festa.
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