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Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão.
Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. A chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou de 11 a Portugal. E vou lá e vou ser o senhor investing."
É goleado!
Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tovar. Bem-vindo, Rui.
Alô, mais uma semana desportiva. Está tudo bem?
Vamos a isso. Olha, hoje vou citar esse nome grande da música nacional que é Radar Kadhafi. Mediterrâneo agosto, em pleno verão, o sol a pino e eu faço uma revolução. E hoje quero te recordar, é quase uma revolução. Em 1996, a Nigéria tornava-se a primeira seleção de futebol africana a ganhar uma competição da FIFA. Ora, que competição foi esta? O que ganhou a Nigéria?
A Nigéria conseguiu uma proeza que eu acho lindíssima, porque já tinha torcido muito por eles no Mundial 94, quando foram eliminados pela Itália. Dois anos depois, a mesma geração com Kanu, Amokachi, Yemonike, Ikpeba, Okocha, ganhou os Jogos Olímpicos. Portanto, foi a primeira seleção africana a ganhar uma competição da FIFA e a primeira competição que ganhou ser os Jogos Olímpicos. O que é curioso aqui é que o Brasil ainda não tinha ganho nenhum Jogos Olímpicos. Portanto, a Nigéria e o continente africano conseguiram superar o Brasil neste pormenor. E eu acho isso lírico.
Brasil, penta, naturalmente. Penta campeão do mundo.
Sim. Na altura ainda era tetra.
Na altura ainda não.
Penta foi em 2002.
Exato.
Mas era o Brasil. E o Brasil tentava a todo custo, já tinha ganho Copas Américas, já tinha ganho o Mundial, só não tinha ganho o Europeu por razões óbvias, mas já tinha ganho tudo e mais alguma coisa e faltava o ouro olímpico. E a Nigéria conseguiu a proeza de chegar primeiro ao ouro do que o Brasil. Foi uma proeza inacreditável e vivê-la também me soube bem. Ver a Nigéria, que era um futebol muito descontraído. Dois anos antes, nos Estados Unidos, eles revolucionaram também um pouco o mundial, com um futebol desprendido. Não eram anárquicos na defesa, se bem que também não eram totalmente coesos, não eram a Itália, claro. Mas no ataque eram uma coisa muito bonita de se ver, porque tinham muitos artistas, tanto no relvado como no banco de suplentes. Havia muita matéria-prima. E o curioso é que o Mundial 94 foi nos Estados Unidos e estes Jogos Olímpicos também o foram em Atlanta.
Atlanta, exatamente. E as seleções olímpicas têm sempre uns jogadores mais jovens. Sempre a seleção de esperanças, não sei se este ainda é o nome que é usado. Portugal também teve equipe em Atlanta?
Teve, sim, senhor. Portugal qualificou-se num playoff. O playoff era com a Itália, bastava ganhar o primeiro jogo e Portugal ganhou na Luz 1 x 0 à Itália, gol de Porfírio. O Porfírio, que depois dos Jogos Olímpicos, não jogou por aí além, porque o titular era o Dani, mas ficou suada a qualificação e também ficou suada a melhor participação portuguesa nesses Jogos Olímpicos, que foi um quarto lugar.
Exatamente.
Chegamos às semifinais, digamos assim, isso é que interessa.
Mas vamos regressar a essa seleção da Nigéria de 1996, que estava mesmo cheia de jovens talentos. Alguns deles foram estrelas de renome no futebol mundial.
Sim.
Já falaste em um que conhecemos bem.
O Amunike, sim. Aqui o curioso desta seleção é que na altura só havia um bolador africano, que era o Amunike. O Amunike, em 94, com aquele mundial, tinha sido eleito o melhor jogador africano do ano. Portanto, tinha este bolador, mas depois tinha o Kanu, que foi bolador africano em 96 e 99, e tinha o Ikpeba, que foi bolador em 97. O Okocha podia ter sido bolador, porque era um jogador áss, só que nunca calhou ser eleito bolador. Mesmo assim, foi eleito sete vezes o melhor jogador da Nigéria pelos nigerianos. Isso diz muito. Mas de facto era uma equipa cheia de estrelas, da baliza até ao ataque, e cometeu a proeza de, nos últimos dois jogos, ganhar de virada ao Brasil e Argentina. Portanto, na semifinal eliminou o Brasil. E o curioso a referir é que no intervalo desse jogo o resultado era Nigéria 1, Brasil 3, e acabou 4 x 3 após prolongamento. Na altura não havia meia hora de prolongamento, era gol de ouro. Quem marcasse, ganhava. E nesse dia, no dia 31 de julho de 96, o Kanu, que é um nome icônico do futebol nigeriano e africano. Aliás, ele teve um problema de coração quando jogava no Ajax. Mas o Kanu é um jogador que fez carreira, e uma boa carreira, no Inter, no Ajax e no Arsenal. O Kanu tinha um problema numa válvula do coração e isso impediu de jogar durante oito meses depois dos Jogos Olímpicos. Portanto, ele aqui estava no auge, marcou o gol do empate aos 90 e decidiu a meia-final aos 94 E mandou o Brasil para o jogo de terceiro e quarto lugar. E aí Portugal teve que se haver com a fome de bola do Brasil, acabou 5x0. O Brasil ganhou de uma forma esmagadora. O primeiro gol foi de um tal Ronaldo Fenômeno, e os últimos três foram de um tal Bebeto.
Pessoas que conhecemos vagamente.
Vagamente.
Ronaldo Fenômeno e Bebeto são nomes que nos dizem, sim, qualquer coisa.
Claro. E só para dizer que na final.
Era isso mesmo, é a final.
Pronto, na final a Argentina colocou-se em vantagem. A Argentina tinha uma equipe belíssima. Portugal foi eliminado pela Argentina nas semifinais, 2x0, dois gols de Crespo. Se bem que já nos tínhamos defrontado na fase grupos e aí tinha sido 1x1. E o curioso desse jogo, com gols de Ortega e Nuno Gomes, é que o Simeone, que era um dos mais velhos dessa seleção, lesionou o nosso guarda-redes, o Nuno Espírito Santo. Com uma entrada daquelas, o Simeone era um jogador fresco, digamos assim.
Já era fresco na altura.
Já era. Portanto, Claudio López 1x0. Babayaro, que era outro belo nome da Nigéria, não tão lindo como aqueles outros que já falamos hoje, mas era um nome conceituado. Faz o empate, intervalo, segunda parte, Crespo, pênalti, 2x1, e depois Amokachi, 74, 2x2. E em cima dos 90, há um livre lateral para a Nigéria. A defesa da Argentina sofre toda e fica lá o Amunike. O Amunike aparece lá sozinho e marca o 3x2. Foi uma festa, pelo menos foi uma festa na minha casa. Eu adorava a Nigéria e adoro ainda hoje o futebol africano e sempre que há um mundial, fico sempre à espera de uma surpresa, de saber o que eles podem dar. A desilusão de quatro em quatro anos é genuína, porque até agora a melhor seleção africana não passou dos quartos de final. E estou a falar dos Camarões.
Era isso que eu ia perguntar, se entretanto se repetiu ou se houve mais algum campeão africano.
Sim, em matéria de Jogos Olímpicos, sim. E foi logo na edição seguinte, em 2000, a seleção dos Camarões guiados por esse mestre chamado Mayong, que fez muita história, sobretudo no Vitória.
Vitória de Setúbal.
Vitória de Setúbal. Sim. Essa equipe dos Camarões ganhou os Jogos Olímpicos em 2000. Em 2000 foi em Sydney, na Austrália. Nos quartos de final eliminaram com gol de ouro o Brasil, Brasil do Ronaldinho, 2x1. Depois, nas semifinais, eliminaram o Chile. E é bom dizer que o Chile tinha o Rodrigo Tello, que depois jogou no Sporting. E aqui Camarões também ganhou com gol no último minuto. E depois, na final, foram todos para pênaltis. Espanha 2, Camarões 2. Atenção que ao intervalo a Espanha ganhava 2x0. Portanto, as equipes africanas nestas competições são muito fortes e reagem muito bem.
São imprevisíveis.
Sim. Nos pênaltis marcaram todos, entre eles o famoso Eto'o, que estava lá nessa seleção, e ganharam a Espanha por 5x3. Portanto, 96 Nigéria, 2000 Camarões. O futebol africano estava no seu auge e foi com enorme alegria, e também surpresa, que vimos a Nigéria brilhar em grande altura, porque ninguém esperava. Esperávamos que a final fosse um Brasil x Argentina. Não estava no programa a Nigéria, mas ainda bem que eles deram um sinal de si.
E um dia desses, Rui, temos de falar da CAN, esse grande campeonato de futebol da África, que é uma prova incrível, com histórias também, de certeza, incríveis. Vocês os três façam quadrado com Rui Miguel Tavares. A sonorização é do Diogo Casinho, eu sou o Ricardo Conceição. Grande abraço, Rui.
Grande abraço, obrigado e até que impeça. Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão.
Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro a chorar. Não via nada. Eu já disse à minha família: "Eu só vou a Diongo se for Portugal. E vou lá e vou ser o senhor em festa".
É goleado! Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.