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Existia erros que nós erramos.
A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião. Era uma figura que chamava-se Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, eu não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou a Dionâmo se for Portugal. E vou lá e vou ser сильно festivo.” É goliado!
Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tovar. Olá, Rui.
Olá, tudo bem?
Como estás? Hoje entram em campo, atenção, Platini, Maradona e Paulo Futre, todos ao mesmo tempo. É a razão, Rui Miguel Tovar, para te dizer: larga lá o comando e a consola, ou não?
Tem que ser. Acho que é o melhor que há a fazer.
Estás a jogar na consola, não é? Já percebi.
Eu não, estou de escadinha aqui.
Então conta-nos lá.
É um dia icónico, são três figuras irredutíveis.
E por que hoje queres falar nestas três figuras? Conta-nos lá.
Isto faz parte de uma história bastante curiosa, que é a história da seleção do resto do mundo. Nos anos 80 e 90 era uma seleção que se reunia muito de vez em quando e que concentrava as atenções como se fosse uma final da Taça de Inglaterra. Era um jogo televisionado e parava um pouco o país. A Taça de Inglaterra parava muito mais, claro. Mas aqui também havia o charme de podermos ver jogadores a fazer malabarismos, como se fossem os Globetrotters. Portanto, era um momento de descontração, mas também de alguma seriedade, porque não era só brincadeira.
E estas três figuras jogaram juntas?
Jogaram juntas e é esse o fenômeno. Repara, estamos a falar de três jogadores que costumam usar o número 10.
Exatamente.
Porque sim. Mas aqui neste dia, no dia 7 de agosto de 87, nesta seleção Resto do Mundo versus Inglaterra, em Wembley, até o palco era condizente. O jogo foi sábado à tarde, foi transmitido para 61 países.
Incrível.
Desde a China até à União Soviética, também Portugal, através da RTP, claro. E repara, nove Platini, 10 Maradona e 11 Futre. Portanto, aqui nesta questão dos 10, ganhou o Maradona, sendo que o número oito também não era de se deitar fora.
Quem era?
Chamava-se Gary Lineker.
Bom, ele não disse que no fim ganhava a Alemanha, pois não? Neste caso, o nome desta seleção sempre me causou alguma estranheza. O resto do mundo não é um nome muito feliz em português. Mas era o que tínhamos. Então temos uma Inglaterra frente a uma seleção do resto do mundo, com Platini, Maradona e Futre na mesma equipa. Portanto, número nove, 10 e 11. Platini, Maradona e Futre, não é?
Sim. E o número três, por exemplo, era o Celso, que jogava no Porto. O número um era o Dasayev.
O guarda-redes da União Soviética.
Número sete era o Bertolds, da RFA, um jogador portentoso. A Inglaterra ganhou 3 x 0. Nas bancadas estava o Pelé, que entrou no relvado e entregou a taça aos ingleses, porque isto tinha a ver com o centenário da Federação Inglesa em 1987, portanto 100 anos. E a curiosidade prendia-se com o facto de Maradona ter sido assobiado cada vez que tocava na bola, porque isto foi um ano depois do Mundial do México, em Inglaterra. Portanto, o Maradona não era uma pessoa-
Muito amada.
Muito amada, nada mesmo. E o Maradona, no fim do jogo, reagiu, não sei se furioso ou não, não dá para ver no papel como é que é o estado de ânimo, mas ele disse que era uma vergonha. Quem disse ser que marquei com a mão, no que diz respeito à Argentina e Inglaterra no Mundial 86, é um grande mentiroso. E eu diria que sim, é que é uma vergonha. E o Pinóquio ficou ressentido também. De facto, não existe um ano depois, ele teimava ainda com o facto de não ter sido com a mão aquele golo óbvio. Resta dizer que a Inglaterra estava afastada das competições europeias, devido àquela tragédia em Heysel, na Bélgica.
Heysel Park.
Exatamente. Na final da Taça dos Campeões, entre o Liverpool e Juventus, em maio de 85. A tragédia que vitimou 38 pessoas e feriu 600. Portanto, os ingleses já não viam futebol internacional há dois anos e estavam com fome de bola, naturalmente. Neste particular, o melhor em campo foi o Platini, que nunca tinha jogado em Wembley. Foi a primeira vez que jogou. Platini esse que já tinha abdicado do futebol e que o Futre, num momento da primeira parte, quase marcou. Aliás, ele conseguiu fintar o Peter Shilton, o guarda-redes, mas depois adiantou tanto a bola que perdeu o ângulo de remate. Fica aqui só esta ressalva de Futre ter convivido com o Maradona no mesmo relvado e-
E com Platini. É incrível. E eles todos, há pouco falavas no número 10, e estes três número 10 também tiveram muito sucesso em Itália. Os três.
Pois, sim.
Não é?
Exato. O Platini foi só três vezes seguido o melhor marcador de Itália Um homem que não era avançado, era médio. Marcava livres e penáltis, sim senhor, mas foi três vezes seguidas o melhor jogador de Itália, foi campeão em tudo e mais alguma coisa, ganhou a Taça das Taças, a Taça dos Campeões. Aliás, foi dele o penalti do único gol da trágica final de Heysel, um a zero ao Liverpool. O Maradona é o número 10 por excelência, campeão duas vezes pelo Nápoles, e o Futre, embora não tivesse sido número 10 na camisola, mas era um 10 de campeão em todo o lado, da cabeça aos pés, foi campeão pelo Milan. Portanto, temos aqui Platini e Juventus, Maradona e Nápoles, e Futre, em 96, foi campeão pelo Milan. Fez só um jogo, mas bastou para entrar na história desse colosso que é o Milan. E esta curiosidade, de facto, é bastante interessante, se bem que destes três, só o Platini é que era destro. Os outros dois eram canhotos, e de que maneira.
Rui, e aqui um pormenor que eu também não resisto, é que toda a gente gosta do Futre e, como já explicaste, nem toda a gente gosta do Maradona, então do Platini nem se fala.
Não sei se tem a ver com os festejos do Platini quando da conquista dessa Taça dos Campeões em 85, porque a forma como ele festejou o gol de penalti, a forma como ele festejou a entrega do troféu, não condizia com o momento fúnebre do futebol. Mas acontece que, segundo o Trapattoni, que era o treinador do Platini na Juventus, nunca, em nenhuma circunstância, alguém disse à Juventus que o cenário era de mortos e de feridos lá em cima, porque eles estavam no balneário. Os jogadores perceberam que havia alguma coisa, claro, porque havia um barulho anormal, mas nunca nenhum responsável da UEFA, de acordo com o Trapattoni, volto a dizer, nenhum responsável da UEFA disse que lá em cima, no relvado, há tumultos, há mortos e há feridos. Nunca. Tanto assim é que nunca se colocou a questão de cancelar o jogo. Para mim, era óbvio. Não havia jogo e acabou. Portanto, os jogadores entraram em campo sem nenhum conhecimento do que se passara nos 90 minutos anteriores.
Já com as bancadas meio destruídas. Um dia ainda temos de falar do que foi essa tragédia em Heysel.
E a curiosidade do Trapattoni prendia-se, e o argumento dele é esse: "A minha mulher estava a ver o jogo na bancada. Portanto, se alguém me dissesse que havia problemas desta gravidade na bancada, eu sairia do balneário e iria ter com a minha mulher para descendê-la. Portanto, o senhor da UEFA, que veio falar conosco, que bateu à porta do balneário da Juventus e que disse: "Há aqui problemas, mas o jogo vai seguir", nunca falou naquilo que era realmente os problemas, o que tinha acontecido". Portanto, parte da embirração do Platini vem daí. E claro, marcar um gol aos 120 minutos no França x Portugal do Euro 84 também não deve ter ajudado em nada.
Sim.
Mas que era um jogador fabuloso mesmo, isso era e é o que faltava não referir esse aspecto.
Rui, só mesmo aqui para terminar e voltando um bocadinho a esta questão do resto do mundo e destas seleções que se reúnem. Estes jogos são sempre um pouco desinteressantes ou é impressão minha? Nós na Europa parece que não temos aquele espírito dos all-star games que nós vemos nos norte-americanos. Não sei se concordas com esta opinião.
Sim, nada a ver, não temos esse chip de ficar embasbacado a olhar para esse jogo.
Do espetáculo.
Sim. Não temos essa energia. Eu lembro-me, por exemplo, de quando foi o acidente do Scherbakov, o Sporting organizou um jogo cuja receita se revertia para o Scherbakov, e era Scherbakov contra o resto do mundo. A ocasião pedia mais calor humano do que houve, porque as pessoas não estão para eviradas. Mas isso é aquilo que eu digo. As pessoas não gostam de futebol, gostam do seu clube, só. A maioria das pessoas quer ganhar a tudo o custo. Portanto, tudo que seja da feijões, tudo que seja de entretenimento não é para os europeus. Os americanos gostam mais disso, até porque fazem muito show off. Nós não somos tanto assim.
Rui Miguel Tavares, vocês os três façam o quadrado. A sonorização é do Diogo Casinha, eu sou o Ricardo Conceição. Rui, grande abraço e não te esqueças do protetor solar, está bem? Estamos em agosto.
Grande abraço e bom fim de semana.
Um abraço.
Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião. Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal e vou lá e vou ser feliz". É goleada hoje!
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