Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Existem erros que nós erramos.
A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria. Estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada.
Eu disse à minha família: "Eu só vou a Diongo se for Portugal. E vou lá e vou ser o senhor infestado". É goliado!
Vocês os três façam um quadrado. E é esta hora. Bem-vindo, Rui Miguel Tavares.
Olá.
É esta hora, em dia de final de Taça. Este programa deveria estar a ser feito no Jamor, com uma bifana numa mão, uma cerveja na outra. Até, quem sabe, uma música de gosto duvidoso a tocar lá atrás, mas Rui, este ano não vai ser assim. Benfica-Porto, final de Taça de Portugal. Não sei quantas já tivemos, mas este ano, para já, está este tom no ar.
Está, sim. Está um tom chocho.
Nem Jamor, nem cerveja, nem bifana.
Nem Jamor, não há mata para ninguém, não é aquela romaria de que tanto se fala e tanto se gosta. Todos nós temos amigos que vão muito cedo para o Jamor, às 9h, montar o seu estaminé, seja churrasco, seja tenda, e ficar lá até às 17h, que é a hora da Taça. Desta vez até é a hora diferente. O local também o é, vai ser em Coimbra.
E nós gostamos muito de Coimbra, atenção.
Sim, tem mais encanto.
Nada contra.
Tem mais encanto na hora da despedida da época. Mas é um jogo que vai concentrar todas as atenções, claro.
E tens ideia de quantas finais de Taça já tivemos entre o Benfica e Porto?
Sim, é um jogo corriqueiro, diríamos nós, na final de Taça. Já houve nove vezes e pressupunha haver um equilíbrio, mas não, o Benfica de facto é dono e senhor desses jogos. Oito a um, só perdeu uma Taça para o Porto.
Nesses jogos, o Benfica ganhou oito e o Porto uma.
De facto, é uma diferença muito grande. É claro que não há nenhum jogador do Porto que vá ligar esse detalhe, nem nenhum jogador do Benfica, porque é um jogo muito diferente, mas a diferença é enorme. E o Porto, a única vez que ganhou o Benfica foi nos anos 50, em 58, e foi com golo do Hernâni, que já tinha sido a figura da última Taça conquistada pelo Porto em 56, 2 x 0 ao Torreense. Mais de 50 anos que o Porto não ganha uma final ao Benfica e já teve plantéis muito superiores ao Benfica, sobretudo na última vez que jogaram entre eles, em 2004. O Porto de Mourinho tinha sido campeão nacional, estava a três dias de ser campeão europeu e conseguiu perder para um Benfica com garra, claro, mas o Porto era favorito, estava a ganhar 1 x 0 ao intervalo, com golo do Derlei, e perdeu por 2 x 1, gols de Fissas e depois Simão de cabeça no prolongamento, que é uma final que ainda hoje o Mourinho deve estar a pensar: "Como é que eu perdi isto?" Porque o Benfica não estava ao nível do Porto. Foi uma final diferente e é isso que se procura. Muitas vezes, a equipa que está por cima, num jogo destes, da Taça, costuma ser surpreendida, porque a outra quer o prestígio. E o Benfica, neste caso, corre e muito atrás, porque uma equipa que tinha sete pontos de avanço no final da primeira volta do campeonato e perdeu para o Porto, agora quererá reconquistar algum do seu orgulho. E o Porto estará a pensar numa deliciosa dobradinha fora de época. Não sei se a dobradinha tem época, mas de agosto não é, certamente, porque está muito calor.
Será a primeira dobradinha de agosto, talvez, da história. Tens que ir consultar os teus cadernos. E há, então, de certeza, histórias maravilhosas destas finais, Rui. Tenho certeza que tens aí uma ou duas.
Sim, há uma história curiosa, tem a ver com o Cavém, por exemplo, que é um jogador que não é muito falado, mas é um jogador histórico, porque foi bicampeão europeu pelo Benfica e é um jogador que numa final que acaba Benfica 1, Porto 0, ele marca aos 12 segundos. A bola saiu e aos 12 segundos marcou o gol da vitória. Temos aquela final também fora de época, também em agosto, nas Antas, Porto 0, Benfica 1, porque no início da época 82/83, portanto, no verão de 82, a federação chegou a um acordo e disse que a final daquela época era nas Antas, para não ser sempre no Jamor, muito bem. Por acaso, não era sempre e até foi em Alvalade. Já tinha sido também nas Antas, mas naquele ano era nas Antas, muito bem. Mas chegou-se à meia-final e percebeu-se que era Benfica-Porto. Assim foi, e o Benfica recusou jogar nas Antas através do seu presidente, o Francisco Martins. "Não jogamos". Do "foi tim", junho, julho, férias, e depois em agosto, diz que o Eriksson, treinador do Benfica: "Não, a gente vai jogar às Antas. Vamos embora, para acabar com isto". E foi no dia 23 de agosto, e o Porto perdeu 1 x 0, um golo, mais um, do Carlos Manuel, do meio da rua. Não foi tão bonito como o do Stuttgart e não foi tão heroico, mas abriu uma brecha evidente na cultura entre Benfica e Porto, porque o Benfica é que se recusou a jogar a final nas Antas. Depois ainda se tentou chegar a um compromisso de jogar a meio caminho, seria Coimbra, como agora, mas o Porto não quis, porque disse Se é antas, é antas.
Já estava decidido.
Já estava decidido. E de facto a federação cometeu um erro de casting. O Benfica levou a sua avante fora e dentro do campo com o tal golo do Carlos Manuel, em que o Zé Beto pareceu-nos um bocado mal batido, porque a bola não foi ao ângulo nem nada que se parecesse, mas foi um grande pontapé. Isso é pleonasmo para o Carlos Manuel.
Exato.
E é uma história curiosa. Já houve finais dilatadas entre eles. Houve um Benfica 6, Porto 2, houve um Benfica 5, Porto 0. As vitórias do Benfica são sempre gordas. Houve uma final em que o Porto começou a ganhar com um autogolo do Veloso. O Veloso não falhava só penáltis, também marcava na própria baliza. Para ser injusto, o Veloso é um grande capitão.
Que mau.
E o Nenê conseguiu dar a volta. Ele sozinho marcou três golos e acabou Benfica 3, Porto 1. E depois há um ano, que é depois desse ano, em 85, o Porto campeão nacional está à espera da dobradinha e é completamente albarroado pelo Benfica. O Benfica ganha 3-1, o gol do Porto é o último do jogo, é de Fúter de penalti e é uma tarde muito acertada do Benfica, porque lá estava com fome de bola. O Porto tinha sido campeão, estava doido na dobradinha e o Benfica conseguiu contrariar alguns dos prognósticos. E já que estamos aqui a falar de finais, há uma mítica em 80. O Porto tinha sido campeão nacional em 78 e 79, era treinado pelo Pedroto, que não era uma pessoa fácil de entender para as pessoas de Lisboa, porque era uma pessoa muito truculenta para falar do poder da capital, dos árbitros e dos roubos de igreja, do Benfica, sobretudo. E então, Porto e Benfica, o Sporting tinha sido campeão, o Sporting tinha roubado o trio ao Porto e no Jamor, adeptos do Sporting e do Belenenses vão apoiar o Benfica e com as suas bandeiras fazem sentir a regionalização ao mais alto nível. E o Porto perdeu um a zero, gol do brasileiro César. Brasileiro esse que foi o primeiro estrangeiro contratado pelo Benfica. Quando digo primeiro estrangeiro, é primeiro estrangeiro contratado no estrangeiro, porque o primeiro estrangeiro foi o Jorge Gomes, contratado nesse mesmo verão, mas contratado ao Boavista. Este César foi contratado ao América Mineiro. Desculpa, ao América do Rio. O Mineiro é outra equipa. Ao América do Rio. E resolveu essa final com o remate em arco, que o próprio César diz que foi o remate banana. E foi Benfica 1, Porto 0, com as pessoas de Lisboa, os clubes, a unirem-se contra o poder instalado de Pedroto e Pinto da Costa.
Já que falaste noutras finais que não foram no Jamor, também já houve final em Coimbra e com esses protagonistas.
Já houve, mas isso é Supertaças. E são bastante interessantes de seguir, porque as duas primeiras foram resolvidas nos penáltis. E há uma que é célebre, porque o Benfica está a ganhar 3-0 nos penáltis, num desempate de penáltis, e perde para o Porto, que é no momento em que o Pinto da Costa se ajoelha e reza. E a verdade é que os penáltis mudaram de feição a partir daí.
Resultou.
Resultou. No ano seguinte, mais uma vitória do Benfica nos penáltis e em 2004, o Porto ganha um zero em Coimbra, gol do estreante Quaresma, que tinha sido contratado pelo Porto como moeda de troca pelo Deco. O Porto tinha sido campeão europeu, vendeu o passe do Deco ao Barcelona e o Porto ficou com o Quaresma. Nesse primeiro jogo houve logo um lance brilhante da cartola. O Quaresma dá um nó cego no Argel e marca ao Kim e é o primeiro título do Porto nessa época, que ainda seria campeão mundial, porque iria ganhar em Tóquio ao Once Caldas. O Benfica de Trapattoni começa mal, porque perde, mas acaba a época com o título de campeão nacional, embora tenha perdido a final da Taça no Jamor com o Vitória Futebol Clube de Setúbal.
Ele não gosta que eu diga isto, mas eu tenho que dizer, Rui Miguel Tó vara, enciclopédia viva do futebol, como é fácil de entender. A sonorização é da Beatriz Martell Garcia. Vocês os três façam um quadrado. É três vezes por semana na Rádio Observador e sempre em podcast. Eu sou o Ricardo Conceição. Rui, um grande abraço. Bom fim de semana e esperemos ter aqui uma bela final de Taça.
Bom fim de semana e bom clássico. Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro a chorar. Não via nada. Eu já disse à minha família, eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser rececionado em festa.
É friagem! Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto