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Existia erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.

Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. "Está a chorar?" Eu não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal e vou lá e vou ser o senhor em festa". É feriado!

Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tovar. 15 de agosto, um dia muito especial no calendário nacional. É feriado, ainda mais especial no calendário católico, é o dia da Assunção de Nossa Senhora e a 15 de agosto de 2004, há um português que se apresenta em Londres e diz isto:

"I have to say this. We have top players and I'm sorry, I'm a bit arrogant, we have a top manager. Again, please don't call me arrogant because what I'm saying is true. I'm European champion, so I'm not one of the bottle. I think I'm a special one."

Olá, Rui Miguel Tovar. Bem-vindo. Está apresentado José Mourinho, Chelsea.

Sim, verdade. Uma grande contratação de um treinador que fez imenso furor no início do século, primeiro pelo Benfica, depois em Leiria e depois finalmente com títulos no Porto e Inglaterra no primeiro desafio lá fora através do Chelsea.

E os ingleses quando ouviram isto, e nós lembramo-nos bem das notícias na altura, em 2004, no fundo pensaram: "Mas quem é este que aparece aqui com esta conversa?" Apesar de o homem já ser campeão europeu, não é?

Sim, mas os ingleses sempre foram muito sobranceiros. Não sei se é o facto de viverem numa ilha, mas a verdade é que eles têm visões muito diferentes em relação ao continente e isso vê-se na moeda, na forma como conduzem, é tudo ao contrário.

No sistema métrico.

Sistema métrico, portanto, gostam de ser diferentes. E aqui também. Eles nesta altura ainda se achavam os reis, não se sabe do quê, mas tinham o rei na barriga. Tudo bem que eles são monárquicos, portanto até tem algum sentido.

Até se pode aplicar.

Mas futebolisticamente a seleção inglesa nunca foi nada especial. Ganhou o Mundial em 66, mas foi a única final que foram. E em matéria de clubes já tiveram os seus momentos, claro.

Claro.

Mas aqui eles sempre foram muito arrogantes com Arsène Wenger, por exemplo, que quando chegou ao Arsenal também foi gozado porque tinha um aspeto de professor, porque tinha óculos e tinha um ar muito jovem. Mas o Arsène Wenger, em 2004, foi campeão inglês pelo Arsenal sem derrotas. E é nesse registo que entra o Mourinho. Pega no Chelsea, que é rival citadino do Arsenal. Chelsea esse que não é campeão inglês há 49 anos, portanto vai fazer o cinquentenário na primeira época de Mourinho. O Mourinho chega a uma equipa desacreditada, porque não ganha nada há muito tempo e apesar de ser campeão europeu, é português. Isso para os ingleses não é um trunfo.

É o José que lá aparece.

É o José. E de repente o Mourinho muda tudo, porque o Chelsea começa a ganhar.

Como é que foi logo esse primeiro jogo, por exemplo?

Esse primeiro jogo, que foi interessante, foi um jogo com o Manchester United.

Portanto não é para brincadeiras logo.

Não é para brincadeiras. Foi mesmo um início prometedor. Um a zero, gol do Gudjohnsen. Pelo Manchester United, o treinador era o inimitável Alex Ferguson. Não jogou o Ronaldo. Por quê? Porque ele neste dia estava mais entretido a marcar um gol a Marrocos nos Jogos Olímpicos em Atenas, em 2004.

Não estava em campo.

No mesmo dia, Mourinho estreia-se pelo Chelsea e Ronaldo estreia-se a marcar nos Jogos Olímpicos. Com alguns quilómetros de distância.

Sim.

E o Mourinho consegue aqui um arranque fulgurante. Nunca deixou de ser primeiro classificado. Podia ser nos primeiros tempos com o Arsenal, mas depois destacou-se de uma forma muito evidente e o Chelsea acabou por arrebatar o título. E o curioso foi que Mourinho, em meados de outubro, já com algum avanço na tabela classificativa, fez um exercício de futurologia e disse que o Chelsea ia ser campeão em final de abril, a três jornadas do fim. E não é que foi mesmo assim. No final de abril com o Bolton. Fez bem as contas.

E mais uma vez deixou os ingleses à beira de um ataque de nervos.

Deixou, porque era um homem muito irreverente, era um homem que fazia manchetes todos os dias e era um homem que ganhava, porque fazer manchete sem ganhar não dá. E agora vê-se isso. No Tottenham o carisma está lá, mas como não há vitórias, pelo menos de uma forma tão avassaladora como nesses tempos do Chelsea, já não lhe dão assim tanto crédito. Mas na altura era incrível, porque havia notícias todos os dias sobre o Mourinho, todos os dias sobre o Chelsea, coisas boas e coisas más. Os treinadores ingleses não iam muito à bola com ele, nem o Wenger. O Ferguson tinha dias em que ia à bola, outros que não. Agora, o plantel do Chelsea ia à bola todo. E estamos a falar de um Chelsea que tinha o Petr Čech na baliza, fantástico. Tinha o John Terry, que era um capitão que se começou a assumir como capitão de verdade. No meio-campo tinha o Lampard, que foi o melhor marcador da equipa em toda a época, com 19 gols. E depois tinha jogadores Drogba, Duff, Gudjohnsen, tinha os portugueses Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho e Tiago O Thiago fez uma época fantástica e na penúltima jornada há um jogo interessante que é Manchester United e Chelsea, porque o sistema inglês, tal como o francês, não é como o português, em que a segunda volta copia a primeira volta. Não, não é assim. A primeira volta tem aquele calendário e a segunda volta tem outra.

Porque não estava a bater certo.

Não bate a bota que o prato gota, mas não. A primeira jornada foi Chelsea, Manchester United e a penúltima foi Manchester United, Chelsea. O Van Nistelrooy marcou primeiro, 1 a 0, acabou 3 a 1 e o Thiago marcou um gol nesse dia fantástico fora da área. E estamos a falar de uma campanha de Mourinho que mereceu mais de quatro recordes, que é: primeiro, jogos sem sofrer gols, 25. Mais vitórias fora numa época, 15. Menos gols sofridos fora, nove. Mais vitórias numa época, que é um recorde que ainda se mantém, 29. E menos gols sofridos na época, 15. Portanto, é uma série de recordes, tudo patrocinado por uma equipa que nós conseguimos fazer uma equipa tipo deste Chelsea, mas os suplentes eram fantásticos e muitas vezes, exceção feita ao Lampard ou ao Drogba, se se lesivesse um outro jogador qualquer, o suplente iria cumprir na mesma dimensão. Incrível.

Com a mesma bitola.

Sim, e de facto foi uma época irrepetível, porque o Chelsea foi campeão no final de abril, e em fevereiro, o Mourinho teve o primeiro sucesso, que foi a Taça da Liga, em Cardiff, Gales, porque o Wembley estava a ser reconstruído, e foi um 3 a 2 ao Liverpool, que é um jogo mítico em que o Mourinho é expulso. Lá está a tal irreverência, porque mandou calar os adeptos do Liverpool durante o 1 a 1. E é o primeiro troféu, 3 a 2. O segundo seria dois meses depois. Seria eliminado da Taça de Inglaterra pelo Newcastle, num jogo em que antes do apito final, o Mourinho aperta a mão ao Graeme Souness, que é o treinador do Newcastle, como quem diz: "Ok, ganhaste bem, fair play" e foi-se embora. E na Liga dos Campeões elimina o grande Barcelona do Louis van Gaal. Seria eliminado pelo Barcelona na época seguinte, mas nessa época elimina o Barcelona, mas cai perante o Liverpool, que chega à final desse ano e até ganha o Milan nas meias-finais. Portanto, é uma primeira época fantástica e o Chelsea interrompe uma seca de 50 anos.

Ao fim de 50 anos ganha um campeonato. E aparece esse treinador português com uma forma de estar não muito portuguesa. Portanto, é alguém que não é muito humilde, fala a língua razoavelmente. Já que focamos este ponto, mas isto foi uma pedrada no charco e mudou também a forma como os treinadores portugueses eram vistos lá fora, não é?

Claramente. É verdade que tivemos alguns exemplos, como por exemplo o Artur Jorge, em Paris nos anos 90, mas Mourinho veio entrar em rutura com o nosso paradigma e começou-se muito mais a acreditar em Portugal, sobretudo porque Ronaldo também estava a dar cartas em Inglaterra, então o campeonato inglês começou a ficar famoso à conta de dois portugueses e dos outros que lá estavam e que não faziam tanto furor, mas também o faziam. Então Ronaldo e Mourinho, durante três épocas, foi bastante interessante vê-los a esgrimir argumentos, porque representavam dois clubes grandíssimos que estavam sempre à procura do primeiro lugar do campeonato e da final da Liga dos Campeões.

No fundo, abriram também um pouco a porta a toda esta geração que agora está a jogar em Inglaterra, não é?

Sim. E também repara, o próprio Chelsea habituou-se ao português, tanto assim é que foi buscar o Villas-Boas. Portanto, nada é ao acaso. Esta mentalidade também começou a ficar enraizada a partir desse momento. E depois Mourinho espelhou tanto no Inter como no Real Madrid e novamente no Chelsea, porque Mourinho voltaria a ser campeão no Chelsea uma terceira vez. Portanto, Mourinho tem três títulos de campeão inglês, tal como o Arsène Wenger, por exemplo, e o Bill Shankly, que é uma figura imensa do Liverpool. Portanto, é um homem que fez história com o seu conhecimento, o seu know-how, falando em inglês, que é a Premier League, causou ali uma fricção. E foi bastante interessante de acompanhar esses momentos, porque os ingleses, lá está, como aqui começamos a conversa, são muito sobranceiros e olham com muito desdém para tudo que não é inglês ou tudo que não é da ilha, porque os escoceses e irlandeses também são valorizados, e os galeses, mas tudo que é do continente eles não vão meter a bola. Mas com Mourinho tiveram que engolir e aplaudiram. E atenção, isto não é só um defeito inglês. Nós, Portugal, também tivemos um problema enorme com o Scolari.

Exatamente.

Ainda hoje há críticas imensas e ele levou-nos a duas meias-finais seguidas, a do Europeu 2004 e a do Mundial 2006.

Hoje falámos do Special One com o Rui Miguel Tovar, também ele um Special One. Vocês os três façam um quadrado. A sonorização é do Bernardo Almeida. Eu sou o Ricardo Conceição. Um grande abraço, Rui. Bom fim de semana.

Obrigado. Igualmente. Bom fim de semana.

Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião. Era uma figura que se chamava Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu já disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser rececionado em festa". É o Rio Adu.

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