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"Vozes de um Cancro Esquecido", um podcast sobre cancro e saúde mental, onde contamos a história de duas doentes com o cancro ginecológico mais letal em Portugal, o cancro do ovário. Com relatos na primeira pessoa de mulheres que enfrentam a doença e a análise de especialistas que nos ajudam a entender os desafios físicos e psicológicos de uma jornada difícil, guiada pela esperança. "Vozes de um Cancro Esquecido" é um podcast Observador Lab, produzido em parceria com a Sociedade Portuguesa de Oncologia, Movimento Oncológico Ginecológico, Evita Cancro Hereditário e Oncoglam, com o apoio da GSK. Para mais informações, consulte o seu médico. Em Portugal, tal como no resto do mundo, os cancros ginecológicos representam uma percentagem significativa dos diagnósticos oncológicos femininos. As consequências são devastadoras para a saúde e bem-estar destas mulheres. A doutora Susana Sousa, da Sociedade Portuguesa de Oncologia, relata cerca de 3000 diagnósticos por ano só em Portugal.

O cancro ginecológico é, obviamente, um cancro da mulher, dos órgãos reprodutores da mulher, e é mais do que uma doença. No fundo, percebe-se isso também se entendermos que os órgãos da mulher nesta localização são vários e, por isso, os cancros podem ter várias localizações e nisso serem diferentes em vários aspetos. Na verdade, eu faço esta introdução porque ao serem doenças diferentes, muitas vezes também têm associada a isso formas de apresentação diferentes, histologias diferentes, incidências, que é o número de casos que aparecem por ano, também diferente, e, obviamente, um tratamento que também é dirigido para a doença que estamos a falar e um prognóstico, uma sobrevivência também muito diferentes entre si. Nós sabemos que o cancro ginecológico anda à volta de uns 3000 casos diagnosticados por ano em Portugal. De todos os tumores malignos ginecológicos, aqueles que nós sabemos que são os mais frequentes a nível nacional, e não só, é o carcinoma do endométrio. Esse é realmente o mais frequente, seguido do carcinoma do colo do útero e só depois então o carcinoma do ovário e também, falamos dos mais raros, o da vulva e o da vagina. Isto é uma ideia geral em termos de incidência. Alguns destes tumores, por exemplo, os carcinomas serosos do ovário, sabe-se que a incidência padronizada para a idade, pelo menos na Europa, está a aumentar. São os tumores ginecológicos que são mais frequentemente diagnosticados, na sua generalidade, em mulheres mais velhas, em mulheres pós-menopáusicas, embora, em alguns casos, também estejamos a assistir a um aumento de incidência em mulheres mais jovens, em mulheres em idade fértil.

A doutora Susana Sousa explica também que, por se manifestarem de formas distintas, os cancros ginecológicos podem ser diagnosticados tanto em fases iniciais como em estádios mais avançados.

E o que isto significa? Claro que, em termos de prognóstico, em termos de sobrevivência, facilmente entendemos, e isto é uma verdade para a maioria, senão todos os tumores, qualquer que estejamos a falar, se conseguirmos diagnosticar numa fase mais precoce, a probabilidade de um bom prognóstico, a probabilidade de cura, é muito maior do que se diagnosticarmos numa fase mais avançada. O mais letal é o carcinoma do ovário. A taxa de mortalidade é maior para o carcinoma do ovário, justamente na dependência desse estádio avançado que nós diagnosticamos mais frequentemente. Para perceber, 75%, mais ou menos, dos carcinomas do ovário são diagnosticados em estádios avançados, e isso vem dar uma visão mais complicada em relação à sobrevivência. Portanto, eu diria sempre que, preocupantes, obviamente são todos, mas mesmo estádios mais avançados, localmente mais avançados, com uma doença mais extensa, esses são aqueles que causam a todos nós maior preocupação e inquietação, porque sabemos que esses nos vão trazer mais desafios naquilo que é o tratamento e na probabilidade de recidiva ou de progressão.

O cancro do ovário é conhecido como uma doença silenciosa. Os seus sintomas são muitas vezes vagos e inespecíficos, confundindo-se facilmente com problemas comuns. Sinais como inchaço abdominal, sensação de saciedade precoce e necessidade frequente de urinar podem ser confundidos com questões digestivas ou hormonais comuns, especialmente em mulheres na idade pós-menopáusica. Estes sintomas são muitas vezes ignorados ou minimizados pela própria pessoa e até por profissionais de saúde. A professora doutora Deolinda Pereira, diretora do departamento de medicina oncológica no IPO do Porto, explica que, ao contrário de muitos outros tumores, o cancro do ovário é diagnosticado em fases muito avançadas.

Porque ele faz um crescimento muito lento, começa pela região onde está o ovário, que é a parte pélvica. E como é que ele vai crescendo? É por uma sementeira, habitualmente de células, que se vão espalhando por toda a cavidade abdominal, até atingir o diafragma. É um tumor que não é muito frequente, mas é muito agressivo, exatamente por ser um tumor silencioso.

Rosa Marçal tem 62 anos. Maria Carolina Silva tem 60. Estas são as suas histórias, começando pelos sintomas que as levaram a procurar ajuda.

À primeira deixei, aquilo andou, passou. Doía-me imenso quando ia fazer xixi e depois começou a ser mais repetidamente. A uns dois ou três meses, vinha outra. Fui ao meu médico de família e disse: "Olhe, doutor Jorge, eu de vez em quando tenho umas infeções urinárias. Importa-se de me passar a receita do antibiótico?" E começaram a ser, de facto, muito frequentes e eu estranhei.

Os sintomas de Maria foram distintos, mas igualmente preocupantes.

Chegava a hora da refeição, comer não ia. Parecia que já estava cheia, já estava satisfeita, não conseguia comer. Foi andando. E continuei assim, fui trabalhar, o estômago foi aumentando.

Para ambas as mulheres, a luta começou muito antes de saberem que tinham cancro.

Disse que não me sentia confortável e quando ia à casa de banho tinha muitas dores e ele esteve a ver e disse: "Não deve ser nada, é a falta de um hormônio". Ele, na altura, disse e eu, sinceramente, não fixei. Mas pediu para me observar e eu: "Claro, OK". E fez-me uma ecografia. E ele disse assim: "Estão aqui uns quistos. Vamos fazer assim, vamos fazer umas TACs para nós sabermos se isto é para desvalorizar ou se é para tirar".

Rosa volta a repetir a ecografia, mas os resultados são os mesmos.

O médico fez uma eco, que foi muito demorada, e depois ele disse: "Olhe, está aqui, de facto, uma massa muito duvidosa, mas o meu colega amanhã fala consigo". Comecei a achar tudo muito rápido. Eu tinha ido à consulta no dia anterior, já estava a fazer a ecografia naquele dia, amanhã, sem ter falado com o médico, já tinha que estar lá e quando desci a escada, já vinha com as pernas a tremer. No outro dia, disse ao meu marido: "Se calhar, vem comigo. Estou a ficar ansiosa". E foi assim, ele foi comigo à consulta, o médico já tinha a ecografia e mandou-nos sentar e disse-nos: "Olhe, é assim, Rosa, eu vou lhe pedir as TACs, porque tem aqui uma massa muito grande, muito duvidosa. Nós vamos ter que operar. Estas operações não têm lista de espera, vai ser operada já. Vamos só esperar pelo resultado das TACs que eu vou pedir, porque eu não lhe quero abrir a barriga e não saber o que é que tem lá dentro".

Devido à inespecificidade dos sintomas, Maria foi ao médico, não se tendo inicialmente encontrado a causa, e a terapêutica aliviava apenas os sintomas. Foi uma longa e difícil caminhada até obter o diagnóstico.

Já não aguentava, já não conseguia comer mesmo nada. As dores eram imensas, mesmo imensas, e acabei por ir ao hospital. Estive lá o dia todo, praticamente, a fazer exames, a fazer análises, tudo. Acabei por ficar internada. Estive lá uns dias, até fazer os exames a tudo. Acho que não falhou órgão nenhum que não me fizessem exames. Fiz exames a tudo. Não descobriram de onde era, nada. Acabei por ir ao hospital de Câmara de Gaia. Eles estiveram a examinar e a médica viu nos ovários e no útero uma mancha negra. Disse: "Isso é capaz de ser cancro, mas vamos examinar melhor". Fiquei lá internada nesse hospital, até fazer os exames todos novamente. Fiz a tudo.

O impacto emocional de um diagnóstico tardio é profundo e afeta não só a componente física, mas também a saúde mental. A doutora Susana Almeida, diretora do serviço de psiquiatria do IPO do Porto, explica o que acontece quando o cancro não é detetado atempadamente. Aceita-se que o pior está por acontecer ou espera-se pelo melhor?

Receber uma notícia deste gênero é sempre um abalo na vida de quem a recebe. Se essa pessoa estiver inserida num meio social, como numa família, numa relação, numa profissão, essas ondas de abalo vão se repercutir em todas estas dimensões. É uma inevitabilidade. Quando nós ouvimos um diagnóstico de cancro, ainda temos essa conotação que possa ser um diagnóstico de ameaça. De ameaça à vida. E estamos sempre na esperança de ouvir uma notícia que será um cancro tratável, numa fase tratável, que se resolve. Que a mulher, apesar de se munir de todas as ferramentas que consiga para o enfrentar, a seguir sabe que vai ter uma espécie de novo horizonte, em que será uma sobrevivente e com esta história para trás das suas costas. Ora bem, se nós acrescentarmos aqui cancro avançado, essa realidade tem que ser reapreciada, reprocessada. Não é a realidade da perspectiva da cura, é a realidade da expectativa do controle da doença, da gestão da doença. Como é que eu vou ser ao longo deste caminho, com tratamentos que vão estar intermitentes, mas que vão continuar, também? Como é que eu vou ser a partir daqui? Como é que eu me vou adaptar? Como é que eu vou conseguir trabalhar, estar na minha relação, estar na minha família, estar na sociedade que me conhece? Portanto, o processo é diferente. É um processo mais violento, é um processo com uma expectativa distinta, com objetivos diferentes. Isto corre muito bem, desde que haja um ótimo diálogo com a equipe que trata e que a pessoa esteja rodeada de ferramentas que a possibilitem enfrentar esta luta.

As coisas não acontecem só aos outros e todos nós não sabemos nunca o que é que nos espera, como é que vai ser amanhã. Tudo que podemos dar por garantido é mentira, não temos nada garantido. Nada. Ainda assim, eu pensava: "Isto não é nada, isto não vai ser cancro, isto vai ser uns quistos, vai ser qualquer coisa". E entretanto, o resultado saiu e o doutor Gustavo liga-me para eu ir lá falar com ele. E eu fui, na esperança de não ser nada. Os resultados tinham acabado de sair e o meu marido foi comigo e ele disse: "É um cancro, em estádio avançado. Portanto, vamos operar o mais rápido possível, assim que houver vaga".

O médico do hospital veio até comigo e disse-me o problema que tinha. Foi um choque quando o médico me falou. Era um médico e uma médica que estavam lá os dois presentes. Explicaram o cancro, o que era, o sítio que era. Ele esteve ali um bocado a falar comigo também e disse que eu vinha para o hospital passar operada. Fiquei internada para ser operada. Fui operada e fiquei lá mais um tempo, para ver o que eles me tiraram, para examinar. Também não cheguei a perguntar como era. Nem quero. Passei por tanto, que nem quero saber.

Depois de um longo processo até ao diagnóstico, as mulheres enfrentam não só os desafios físicos do cancro do ovário, mas também um impacto emocional profundo, como a incerteza e o medo que afetam a saúde mental das doentes.

De que forma é que nós enfrentamos esta situação? Qual é a atitude que devemos ter? Nós temos uma personalidade e não conseguimos viver sem ela. Nós não a conseguimos modificar porque recebemos de repente uma ameaça deste género. Nós vamos ter de processar a situação, adaptá-la à nossa realidade, à luz da nossa personalidade. E nós sabemos que as pessoas são todas diferentes entre si e, portanto, compete à equipa profissional, especialmente se houver psicólogos disponíveis, isso era muito importante, ou psiquiatras disponíveis, isso era crucial, para facilitar o processo de adaptação e fazer com que a pessoa consiga fazê-lo com as ferramentas mais adequadas, as mais eficazes, para que um processo que vai ser longo, seja eficazmente gerido pela própria.

Para além do acompanhamento médico, uma rede sólida de família e amigos é essencial. A doutora Susana Almeida destaca ainda o impacto deste suporte em todo o processo.

Seria formidável se todas as doentes que enfrentam um diagnóstico destes estivessem rodeadas de um companheiro ou companheira, estivessem rodeadas de uma família ou de um suporte de amigos que seja a sua família de eleição. Às vezes nós não temos a família que escolhemos, temos a família que construímos e, portanto, os amigos também estão às vezes muito próximos e em pé de igualdade com a família de sangue. Infelizmente, nem toda a gente está munida de famílias apoiantes ou famílias disponíveis. As famílias às vezes dispersam-se, as pessoas nem sempre estão perto e às vezes acontece um processo diferente. Às vezes começamos por estar perto, mas depois pelo desgaste, pelo prolongamento da situação, as pessoas vão-se afastando. A mulher que enfrenta esta jornada tem essa consciência. No início, sente-se rodeada e com muita atenção, às vezes até sufocada em algumas famílias que são muito próximas. Alguns amigos são muito insistentes e que de repente sentem-se melhor se ajudarem a pessoa a organizar a vida que tem. Mas às vezes, com o tempo, com o prolongamento dos tratamentos, com os anos de jornada, as pessoas começam a reparar que há uma espécie de triagem, há uma espécie de filtro. Portanto, a família e os amigos vão sendo também trabalhados. E a família e os amigos têm um aspeto crítico no suporte e no apoio, porque há coisas que as pessoas podem não conseguir fazer da mesma forma. E é preciso também perceber-se duas coisas: não é mau pedir ajuda. Não podemos esperar que as pessoas ofereçam ajuda. Se as pessoas são de facto próximas, a pessoa que adoece deve sentir-se confortável para solicitar ajuda e as pessoas em redor devem ser pródigas na oferta de ajuda.

Receber um diagnóstico de cancro do ovário marca o início de uma dura jornada. Agora, com a doença identificada, iniciam-se os tratamentos médicos. Quanto mais cedo se agir, maior a probabilidade de um melhor prognóstico da doença. O caminho não é fácil, exige força e esperança. Ouvir o nosso corpo é o primeiro passo para cuidar dele. "Vozes de um Cancro Esquecido" é um podcast Observador Lab, produzido em parceria com a Sociedade Portuguesa de Oncologia, Movimento Oncológico Ginecológico, Evita Cancro Hereditário e Oncoglem, com o apoio da GSK. Para mais informações, consulte o seu médico.