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Sistema desenvolvido no INL, em Braga, permite extrair o DNA do sangue menstrual e, assim, identificar a mutação genética que leva à endometriose
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▲Sistema desenvolvido no INL, em Braga, permite extrair o DNA do sangue menstrual e, assim, identificar a mutação genética que leva à endometriose

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Sistema desenvolvido no INL, em Braga, permite extrair o DNA do sangue menstrual e, assim, identificar a mutação genética que leva à endometriose

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

De oito anos para dois meses. Investigadores portugueses criam sistema que pode revolucionar o diagnóstico da endometriose

Susana demorou 12 anos a ser diagnosticada com endometriose. Um projeto europeu, que conta com presença portuguesa em Braga, quer reduzir essa espera para um ou dois meses.

“Sempre me foi dito que era normal”. A dor tornou-se “um grande entrave” quando Susana fez 12 anos e, à medida que o tempo foi passando e tanto entre médicos como familiares, a desvalorização da sua condição foi constante. Mas persistia. “O quadro foi progredindo ao ponto de vomitar com dores, ter febre, faltar às aulas e não me conseguir pôr de pé”, conta ao Observador. Quase 12 anos se passaram até receber a confirmação daquilo que sentia. As dores, o mal-estar generalizado e as inúmeras idas às urgências hospitalares eram um sinal claro de endometriose. Só aos 23 anos é que o diagnóstico chegou.

Estima-se que existam milhares de mulheres em Portugal que passaram ou atravessam algo semelhante a Susana Fonseca. “Houve sempre uma desvalorização constante da sintomatologia. Continuei a ouvir que [a dor] era normal e os exames eram sempre inconclusivos. As ecografias davam resultados normais”, relata. Para desvendar o porquê de sofrer todos os dias, Susana informou-se na internet e reconheceu os seus sintomas sob uma descrição: endometriose. A partir daí, seguiu-se a validação clínica a fundo.

“Fiz vários exames: ressonância magnética, ecografia, colonoscopia e Uro TAC, exatamente para avaliar todos os sistemas (urinário, gástrico, etc.). Já tinha endometriose em todo o lado, a doença estava bastante avançada. Tive de fazer uma cirurgia de cerca de seis horas, com raspagem do intestino”, descreve. “Habituada” a viver com uma “dor permanente”, passou por dois anos “estáveis” depois da operação. As consultas continuaram com alguma regularidade, para acompanhar o seu estado de saúde, mas conseguiu recuperar “alguma qualidade de vida”.

Foi através de testemunhos como o de Susana que nasceu o SENSOPAD. O grande objetivo deste projeto europeu — com focos de investigação em Portugal — é passar dos oito anos que demora, em média, a ser diagnosticada uma pessoa com endometriose, para apenas um par de meses. Em Atenas, procuram desenvolver um sistema baseado num penso higiénico para detetar inflamação de forma precoce através do sangue menstrual. Em Braga, desenha-se um sistema de diagnóstico com toda a precisão para detetar a doença a partir de uma alteração genética existente nas células das pessoas com endometriose.

Com as duas partes do projeto em ação, divididas entre uma dezena de parceiros na Europa, a ideia é “desenvolver uma tecnologia que nos permita, primeiro, detetar de forma precoce e, depois, diagnosticar de forma precisa a endometriose”, descreve Carlos Honrado, um dos investigadores que lidera o projeto em Portugal.

O penso, que tem sensores integrados, serve para o “screening“, e é uma espécie de aviso atempado, uma vez que deteta inflamação que, por sua vez, pode (ou não) estar associada à doença. Identificada alguma irregularidade, faz-se a recolha de sangue menstrual para ser inserido no tal sistema de análise desenvolvido em Portugal, para detetar uma mutação específica ligada à endometriose. “Passaríamos de um diagnóstico que demora oito anos para talvez um ou dois meses”, reforça.

▲ Lorena Diéguez e Carlos Honrado lideram o desenvolvimento de um sistema de diagnóstico de endometriose no Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia, em Braga

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O laboratório onde tudo é à escala “micro” e que quer combater “tabus”

Os protótipos do sistema de diagnóstico estão a ser testados no meio de um corredor no Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia (INL), em cujo centro estão filas e filas de mesas numa disposição open space e, às margens, dezenas de laboratórios. É no piso superior daquele edifício moderno e curvilíneo, descrito pelas centenas de investigadores que percorrem as instalações diariamente como “a vírgula do INL”, que fica o laboratório de microfluídica.

O trabalho está dividido entre as duas bancadas da sala. Os investigadores do INL estão a trabalhar no desenvolvimento do método experimental para detetar a mutação genética que dá origem à endometriose. Por isso, de um lado “limpa-se” o fluido a analisar das componentes que “não interessam” através de peças impressas tridimensionalmente e tubos muito finos, e no outro extrai-se o DNA necessário para identificar o tal gene de interesse.

Parece simples, mas tudo isto acontece à escala “micro”. Neste laboratório, tudo é feito com volumes extremamente pequenos de amostras, para aumentar a velocidade, a eficácia, a precisão e o controlo de todas as variáveis experimentais. Hugo Silva, um estudante de doutoramento inserido naquele grupo de investigação no âmbito da sua tese na área da microfluídica, mostra ao Observador como tudo funciona. A explicação, técnica e complexa, é visualmente apoiada pelas imagens transmitidas no grande ecrã ligado ao microscópio em que trabalha.

Nesta bancada do laboratório de microfluídica, os investigadores do INL extraem apenas as células nucleadas do sangue menstrual
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Analisam microlitros de amostra de cada vez. É um milionésimo de um litro, para referência
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Com várias vias de tamanhos diferentes, conseguem separar as diferentes componentes do sangue menstrual, até chegarem às células de interesse
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Após a separação, acabam com um tubo Eppendorf para o resíduo, cheio de glóbulos vermelhos, de cor mais intensa, e outro com a amostra isolada
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“O sangue menstrual é composto tanto por tecido como por sangue periférico. É basicamente o endométrio a crescer durante o mês e, depois, durante a menstruação, todo o tecido e células que vêm do endométrio, do estroma e do epitélio, juntamente com células imunitárias e componentes do sangue periférico, estão nessa amostra”, explica o investigador Carlos Honrado. Se no sangue “normal” basta fazer uma centrifugação para separar as diferentes camadas, no menstrual a quantidade de elementos é “muito mais complicada de processar”.

É também por isso que “nunca ninguém olhou seriamente para o sangue menstrual” como ferramenta de diagnóstico. Através da microfluídica, conseguem, de forma automática, “fazer uma filtragem”. “Assim, removemos o tecido e a matriz que não interessam, eliminamos os glóbulos vermelhos e fazemos o enriquecimento apenas das células nucleadas para recolher o DNA”, acrescenta o especialista em dispositivos médicos.

“Sendo uma amostra muito complexa, se pegarem numa amostra pequena de 500 microlitros desse sangue e quiserem extrair o DNA, vai ser um processo altamente ineficiente. A nossa contribuição é fazer com que esse processo seja simples e eficiente. Se forem com uma amostra desse género para um laboratório, teria de ser feito um processo muito manual que demoraria muitas horas para descomplexar a amostra”, continua.

Milad Massoudifarid é um investigador iraniano que, após ter concluído os seus estudos em Teerão e ter passado sete anos na Coreia do Sul a trabalhar no seu doutoramento, chegou a Braga para trabalhar especificamente neste projeto. Foi Milad quem montou o sistema para extrair o DNA da amostra recolhida por Hugo. Em cima da bancada está um sistema já automatizado que injeta quatro substâncias distintas, em quantidades diferentes, que permitem isolar a informação genética do sangue “limpo”. Para ilustrar o processo ao Observador, Milad colocou um corante em cada um dos tubos, para identificar a corrente de cada um dos líquidos.

De forma automática, os investigadores conseguem pegar nas células nucleadas presentes na amostra de sangue e isolar o DNA
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Os quatro tubos, que transportam diferentes substâncias, são colocados em pontos específicos deste "labirinto", desenhado para conseguir recolher apenas a informação genética das células
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A "cábula" de Milad Massoudifarid, o investigador iraniano que é o responsável pelo modelo nesta fase do processo
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No final, colocam uma quantidade da amostra de DNA extraída num sensor para tentar identificar a mutação genética que leva à manifestação da endometriose
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A líder do grupo de investigação é a galega Lorena Diéguez, que, sentada em conversa numa mesa com vista para o jardim e a guesthouse que recebe investigadores e professores convidados dentro do perímetro do INL, oferece contexto adicional para as dificuldades associadas ao diagnóstico de endometriose. Além da falta de literacia, Lorena explica que a existência de “tabus” contribui para a falta de existência de artigos científicos focados na utilização do sangue menstrual e a sua composição.

“Pouco a pouco vamos avançando para que as pessoas falem disto, mas garanto que uma grande parte da população — e até das próprias mulheres — não sabe o que é a endometriose”, admite a investigadora.

“A doença condicionou toda a minha vida”

Os sintomas de Susana regressaram cerca de dois anos depois da laparoscopia. Só com a cirurgia laparoscópica, que permite a observação com uma câmara na zona do endométrio, é possível proceder à extração da região inflamada e fazer a biópsia à amostra retirada. A endometriose é uma doença associada ao crescimento anormal da camada que reveste o interior do útero. Mas apesar de ser uma condição que começa localizada, acaba por se propagar para outras regiões, seja o resto do útero, ou até mesmo os intestinos. “Se não for tratada a tempo, pode inclusivamente evoluir para cancro do endométrio”, explica Lorena Diéguez.

Com 27 anos, Susana já havia sido forçada a “desistir” daquilo que passou múltiplos anos a estudar. “No meio do caos”, conseguiu completar a sua licenciatura em Educação e chegou a ser professora do 1.º ciclo. “Quando comecei a dar aulas, estava na fase mais crítica da doença e acabei por desistir da profissão. Estava sempre a faltar, nunca sabia quando conseguia ir dar aulas e havia comentários legítimos dos colegas e dos pais, pois as crianças precisam de previsibilidade”, conta ao Observador. “Formei-me como professora e desisti da carreira por causa do diagnóstico, até porque não podia concorrer para colocar-me num local distante onde não houvesse um hospital por perto e onde tivesse de viver sozinha”, acrescentou. “A doença condicionou toda a minha vida”.

Tendo já, em teoria, “reparado” a inflamação do endométrio, é comum que o problema nunca fique totalmente resolvido. “O médico sabia do meu desejo reprodutivo de querer ser mãe e disse-me que o ideal seria tentar engravidar naquela altura. Deu-me seis meses para tentar de forma natural, caso contrário, teria de passar para Procriação Medicamente Assistida”, recorda Susana. Naquele período pós-cirúrgico, estava a tomar medicação hormonal para suspender a menstruação e reduzir os sintomas. Mas para tentar engravidar, teve de interromper o tratamento.

"A histerectomia não cura a endometriose. Passei por uma resseção intestinal anos depois da histerectomia, ainda por causa da endometriose. Há todo um conjunto de consequências invisíveis que continuam a condicionar o meu dia a dia".
Susana Fonseca, fundadora da Mulherendo — Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose

“Cada mês negativo era um suplício, porque as dores eram incapacitantes sem medicação. Mas, ao sexto mês, consegui engravidar de forma natural”, celebra. Foi uma gravidez de risco que acabou numa cesariana, onde a endometriose tornou a ser intervencionada, uma vez que os médicos encontraram os seus ovários colados à parede do útero. É nestas alturas, em que se abandonam as opções terapêuticas que minimizam os sintomas, que se descobre a infertilidade. Segundo um estudo publicado no Journal of Assisted Reproduction and Genetics, entre 30% e 50% das mulheres com endometriose ficam inférteis.

E, dois anos depois de ter nascido a sua filha, durante um check-up médico Susana percebeu que já não poderia voltar a ter filhos. “Além da endometriose muito avançada, tinha desenvolvido um istmocele na cicatriz da cesariana, ou seja, uma bolsa de sangue no útero. O quadro era muito complexo e, em vez de um segundo filho, tive de fazer uma histerectomia total”, descreve.

“Muitas jovens começam a tomar a pílula muito cedo para regular os sintomas hormonais. O problema é que a doença continua lá a evoluir silenciosamente. Quando deixam a pílula para tentar engravidar, a endometriose regressa com força e descobrem que estão inférteis porque o dano se acumulou ao longo dos anos”, explica Carlos Honrado. O investigador do INL diz que estas consequências da doença são comuns por causa dos atrasos verificados no diagnóstico — seja porque os métodos são ineficientes, ou por simples desvalorização médica. “Há situações em que a imagem não mostra nada, o que atrasa muito o diagnóstico. A pessoa tem os sintomas, faz o exame de imagem e não se vê nada porque certas localizações da endometriose são muito difíceis de detetar”, continua.

A análise genética proposta pelos investigadores sediados em Braga não elimina a necessidade da cirurgia laparoscópica. “Numa fase inicial, a cirurgia pode não ser descartada de imediato até se confirmar que os resultados são idênticos, mas encurtaria muitíssimo o tempo de diagnóstico e ajudaria na monitorização pós-cirúrgica”, esclarece Lorena Diéguez. Porém, “seria muito mais barato, mais seguro e chegaria a muito mais mulheres por ser um teste não invasivo e sem efeitos secundários”.

▲ A equipa do laboratório de microfluídica do INL. (Da esquerda para a direita) Carlos Honrado, Francisca Névoa, Lorena Diéguez, Hugo Silva e Milad Massoudifarid

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Passei 12 anos à espera de um diagnóstico e a ser constantemente desvalorizada. Todos os projetos em andamento são excelentes iniciativas”

O projeto do SENSOPAD celebrou, no início de outubro, dois anos. Foi uma iniciativa criada na Universidade Técnica Nacional de Atenas que, em conjunto com múltiplas instituições europeias, recebeu uma bolsa europeia de quase 7 milhões de euros para quatro anos de trabalho. O desenho dos diferentes protótipos que, juntos, vão resultar no tal penso higiénico com um sensor para a inflamação e de um sistema de diagnóstico mais eficaz, vai prosseguindo “on track“.

“Do nosso lado, já conseguimos demonstrar vários dispositivos a funcionar para fazer as diferentes tarefas: pegar no sangue, fazer a descomplexação e recolher o DNA. No próximo ano, o nosso objetivo é integrar tudo isto de forma automática e otimizada”, descreve Carlos Honrado. “Agora, falta testar com amostras reais”, aponta a chefe do grupo de investigação. No início de 2027, esperam já ter formalizado um acordo com o Centro Clínico Académico do Hospital de Braga para recrutar doentes e também pessoas saudáveis para testar a funcionalidade do sistema de diagnóstico desenvolvido.

“Até agora, os testes foram feitos com sangue periférico ou amostras mais parecidas com as de interesse”, refere Lorena Diéguez. “Durante a maior parte de 2027 faremos a integração e calibração dos sensores com amostras controlo e, em 2028, faremos o estudo clínico completo”, completa. O projeto, de uma forma geral, procura também o input de “pessoas já diagnosticadas, colaborar com associações de doentes e outros projetos de investigação na mesma área”.

▲ O Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia, em Braga, é o maior centro de investigação nesta área em toda a Península Ibérica e conta com investigadores de 30 nacionalidades

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Tanto que Susana, fundadora e presidente da Mulherendo — Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, está totalmente familiarizada com este projeto. “Passei 12 anos à espera de um diagnóstico e a ser constantemente desvalorizada. Todos os projetos atualmente em andamento são excelentes iniciativas. Tudo o que venha facilitar o diagnóstico e melhorar a qualidade de vida das doentes é uma boa aposta”, afirma.

Enquanto não chega uma solução que facilite a deteção da doença e simplifique o processo de diagnóstico, Susana organiza sessões de literacia em escolas para alunas a partir do 7.º ano. “Há muitas jovens que dizem, no final, que têm estes sintomas todos, mas que a mãe diz que é normal”, descreve. “Mesmo com todo o acesso à informação, continuam a perpetuar-se mitos enraizados e tabus”.

Nestes casos, a única coisa que se pode fazer é entregar o folheto da Mulherendo e aguardar que os pais entrem em contacto, para ajudar a esclarecer questões sobre a condição. “Ainda assim, por vezes a nossa intervenção é encarada por alguns encarregados de educação como uma invasão ao trabalho parental”, acrescenta.

Viver com endometriose é como ter uma “bomba-relógio” no corpo, descreve Susana que, mesmo já tendo retirado o útero cirurgicamente, continua a sentir os efeitos do diagnóstico tardio. “A histerectomia não cura a endometriose. Passei por uma ressecção intestinal anos depois da histerectomia, ainda por causa da endometriose”, justifica a presidente da associação. “Há todo um conjunto de consequências invisíveis que continuam a condicionar o meu dia a dia”.

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