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Olá, seja bem-vindo ao segundo episódio de "Vozes que Inspiram", o podcast em que exploramos percursos de liderança marcados por decisões difíceis, resiliência e visão de longo prazo. Este podcast, em parceria com a VDA, amplia o Circle, uma iniciativa que reúne líderes de topo para promover uma liderança mais diversa e equilibrada, dando visibilidade a mulheres com ambição de chegar a cargos de liderança. Neste episódio, a nossa convidada, alguém cuja carreira combina inovação, coragem e resiliência, Vera Pinto Pereira, administradora-executiva da EDP. Bem-vinda.
Obrigada.
A sua carreira é marcada por várias mudanças e grandes desafios em setores diferentes, do lançamento da MEO às responsabilidades na EDP Comercial e depois na Fundação EDP. Quais foram os desafios que mais a marcaram no início da sua carreira?
Eu acho que ao longo de todo o meu percurso, sobretudo nas transições e nas decisões de grandes mudanças que acabei por fazer, porque mudei, como disse, e bem, entre vários setores, esses foram os principais momentos de desafio, de arriscar, mudar completamente, sair da zona de conforto, mudar de ambiente, aprender algo de novo do zero, reinventar-me com isso e tentar aportar algo a um negócio que estava a decorrer. Portanto, esses foram talvez os maiores desafios. Depois houve tantos. A criação do MEO, de uma folha em branco, nunca mais me esqueço da primeira vez que conversámos sobre a minha mudança da PT Multimédia para a PT para lançar o MEO, em que eu perguntei: "Mas qual é o desafio?" Na altura, o Zenal Bava disse-me: "É criares um serviço de televisão a partir de uma folha em branco".
Está a imaginar.
Fiquei com os olhos a brilhar.
O que podia fazer.
Portanto, tantos. Esse foi talvez um grande filho na minha vida profissional, o nascimento do serviço de televisão, mas todo o meu percurso na EDP tem sido uma soma de grandes desafios e de grandes momentos também com equipas extraordinárias.
Sabemos que a sua ida para a EDP aconteceu no contexto da Lei das Quotas. Como é que foi receber esse desafio, mais um, e o que é que significou naquela altura?
Não é confortável, para ser sincera. Obviamente, nós gostamos sempre de acreditar que a nossa carreira se define pela nossa competência, pelo mérito, pelo percurso que fazemos. E, portanto, num momento no tempo, aceitarmos que essa carreira, esse mérito, se cruza com algo que, de alguma forma, nos beneficia naquele momento no tempo, é difícil de encaixar. Mas a verdade é que não faz sentido que seja difícil. Porque no fim do dia, depois, o meu percurso dentro da EDP acabou por se ancorar precisamente no mérito, naquilo que fui capaz de fazer, melhor ou pior. E também a coragem e a frontalidade com que assumi a certa altura essa cota, também foi útil na marcação de um percurso, de um registo para as mulheres que se seguem.
Sendo uma mudança, não foi uma opção.
Exatamente. E, portanto, acho que se me tivesse feito de difícil por não querer ser uma cota, primeiro tinha perdido uma oportunidade extraordinária.
Extraordinária, lá está. Fazer tudo aquilo que tem feito e agregado.
Uma viagem incrível no grupo EDP. E depois acho que não teria dado um bom exemplo às mulheres que se seguem e precisamos de mulheres a fazer este caminho.
Como falávamos há pouco, do seu percurso faz parte setores e funções muito diferentes. Foi simples gerir estas transições sem receios e manter o foco e a eficácia?
Manter o foco e a eficácia acho que mantenho sempre, mas receios também, e ainda hoje.
E é bom ter receios.
É ótimo ter receios, porque os receios empurram-nos pra frente, puxam mais de nós, exigem mais de nós e, portanto, obrigam-nos a encarar o dia a dia e os desafios com uma certa dose de humildade, que eu acho que é fundamental pela vida fora. Portanto, o receio faz parte e é saudável, e temos todos, no fundo.
É verdade, sim.
Quando não temos, talvez seja até mau sinal. De resto, as mudanças fizeram-se, obviamente, com esforço, mas foram muito gratificantes, porque acabei por encontrar sempre um fio condutor de uma para outra. Acabei por encontrar muita aprendizagem que conseguia aproveitar de uma experiência para a outra. E também me permitiu acabar por ser um elemento muitas vezes fora da caixa, nos novos desafios em que me apresentava. E isso em si cria valor.
Claro, e é diferenciador.
É diferenciador, é importante. É importante assumirmos a nossa diferença e o valor que ela pode trazer às coisas.
Na Fundação EDP, gere cultura, como o MAAT, filantropia e apoios sociais, ao mesmo tempo lidera operações estratégicas na EDP Comercial. Como é que concilia responsabilidades tão distintas e o que é que se aprende com esta diversidade?
Na verdade, eu acho que em todos os nossos desafios de negócio, é muito importante encararmos os mesmos com uma dose de responsabilidade social. E, portanto, eu tenho a oportunidade de a pôr em prática de forma mais assumida e clara, através da fundação e do meu cargo de responsabilidade nessa matéria. Mas também aquilo que eu desempenho do ponto de vista de negócio, tem sempre presente essa preocupação, a preocupação com as pessoas, a preocupação com as comunidades em que nos inserimos, a preocupação com os nossos clientes. Portanto, essa dimensão social faz parte da vida e é muito importante que esteja sempre presente. É também assim que a EDP vive o seu negócio. Nós falamos muitas vezes que a EDP quer liderar a transição energética, mas de forma justa e inclusiva. E, portanto, essa combinação é algo que faz parte da matriz da empresa, é algo que faz parte da minha forma de ser, e por isso é muito gratificante eu poder combinar depois, na prática, essas duas dimensões. E aquele meu bocadinho da semana que dedico à fundação é extraordinário, é gratificante, é superdivertido.
Dá para perceber pela sua expressão.
E puxa outras coisas em mim, toda a parte da arte e cultura, acaba por ir buscar um bocadinho da minha dimensão mais criativa, que também preciso de pôr em prática.
Antes de se juntar à EDP, Vera Pinto Pereira ficou conhecida como a senhora MEO, responsável por muitas inovações, como por exemplo, as gravações automáticas. Que lições tirou desses tempos e que impacto considera que deixou depois no setor das telecomunicações?
Quanto às lições que tirei, acho que aprendi sobretudo a gerir um ritmo de inovação acelerado. A ler o mercado, a tirar partido das oportunidades, a empurrar o próprio negócio e as equipas também para fora da zona de conforto, a trabalhar em folhas em branco. Essa experiência de inovação é algo que depois me acompanhou pela vida fora e que também marcou o meu percurso nas outras funções que assumi, nos outros setores em que trabalhei. Acho que é muito isso que trago da minha experiência do MEO, porque nós, e não fui eu que deixei uma marca, foi um nós, foi uma equipa enorme, incrível, grandes amigos que hoje continuam na minha vida. Trouxemos uma nova experiência de televisão para Portugal.
Sem dúvida.
Foi incrível.
Fazer parte.
Fazer parte disso, de desafiar toda a forma como consumíamos e víamos televisão em Portugal.
Sabemos que enfrentou um momento mais exigente com o diagnóstico de cancro. Como é que foi viver essa experiência e ao mesmo tempo manter o ritmo profissional, a liderança dos vários projetos?
Foi um call to reality, peço desculpa pelo estrangeirismo, mas foi um momento que marca um antes e depois na minha vida, sobretudo a forma como eu vivo o dia a dia e como encontro pausa no meu dia a dia, como vivo mais no presente e menos na ansiedade ou no plano do futuro. Foi um momento importante. Não é bom ter um cancro, mas acabou por ser uma coisa boa para mim, que me tornou mais humana, mais ancorada no presente, mais tranquila e nesse sentido foi ótimo. Como é que conciliei isso com a minha vida pessoal e profissional? Eu continuei efetivamente a trabalhar, mas também porque isso é uma parte muito importante de mim e por isso quando entendi que o cancro não era um diagnóstico de algo que me obrigasse a ser uma pessoa diferente, a estar menos capaz de viver o meu dia a dia.
E ter alguma normalidade.
Eu precisei muito dessa normalidade. Tive a sorte de ter equipas incríveis à minha volta a apoiarem-me, porque de facto não é uma fase de total normalidade, acabamos por precisar de dedicar algum tempo ao tratamento e à recuperação. Mas as pessoas que me rodeiam ajudaram-me a manter essa normalidade e a seguir em frente com o meu dia a dia, seja no trabalho, seja na família.
Fala muito da equipa, muito importante.
Muito importante. Eu tenho uma equipa extraordinária. Acho que as equipas se cultivam ao longo dos anos. Eu dedico bastante tempo ao tema pessoas, porque eu gosto de pessoas. Alimento-me da energia dos outros e se puder dou um bocadinho da minha e tenho uma equipa incrível.
Li uma entrevista sua em que dizia: "O meu início de carreira foi exigente, deu-me resiliência, não fui apaparicada e isso foi muito bom para mim". Foi não ter a vida facilitada, além da sua própria personalidade, que a ajudou a ultrapassar desafios pessoais, profissionais, como os que falávamos?
Sim, também, entre outras coisas. Mas eu acho que a resiliência e a capacidade de nos reinventarmos são características que sistematicamente, cada vez que caímos, cada vez que há uma dificuldade, são características muito importantes para o sucesso, para o caminho e para a felicidade. É impossível sermos felizes se não passarmos por dificuldades, se não soubermos cair e levantarmo-nos. E portanto, esse início de carreira, que também não foi nada de outro mundo, simplesmente foi muitas diretas, muito esforço, projetos difíceis, situações às vezes mais exigentes, e isso é importante. Digo muito aos meus filhos, que estão agora todos a começar também a sua carreira. Eu disse: "Não vai ser ótimo logo no primeiro dia. Não vai tudo correr bem".
Não se vão sentir realizados logo.
Não se vão sentir realizados, vão fazer imenso trabalho com o qual não se identificam, para além, obviamente, de servir cafés.
Fazer bastante café.
E tirar fotocópias e o que for. Mas isso é importante, faz parte do caminho.
Vera Pinto Pereira, estamos a chegar ao fim. O que partilhou sobre a sua história e o percurso revela não só que é preciso coragem, mas também versatilidade e capacidade de transformar desafios em oportunidades, como a própria Vera dizia há pouco. Que mensagem gostaria de deixar a quem nos ouve, especialmente mulheres que aspiram a cargos de liderança?
Eu tenho quatro grandes mensagens, sobretudo para as mulheres, mas para todos em geral. O primeiro é que o crescimento acontece sempre fora da zona de conforto e, portanto, é fundamental ao longo da vida irmos pensando: será que estou demasiado acomodado, estou demasiado confortável? Ir fazendo, ir empurrando esse crescimento em nós próprios fora da nossa zona de conforto. A segunda é que devemos sempre também procurar ter um brilho nos olhos. O sucesso faz-se disso, da nossa alegria, e a nossa energia vem desse brilho nos olhos. Portanto, procurem fazer qualquer coisa que vos faz feliz, acima de tudo.
Que faz toda a diferença.
Toda a diferença. Não interessa se tem uma caixinha, se tem um nome, se tem uma equipa, tem que nos fazer feliz. A terceira mensagem é pensar sempre em grande, com ambição, porque o pior que pode acontecer é não chegarmos exatamente lá, mas quanto maior a ambição, mais longe chegamos. E portanto, a ambição não é uma coisa má. Não é mau ser ambicioso. Às vezes há alguns rótulos: "Essa pessoa é muito ambiciosa". Ainda bem, porque é isso que nos empurra. E a última, e esta sobretudo às mulheres, é levantem a mão e digam que sim. Quando vos desafiarem, é indiferente se se sentem preparadas ou não. Primeiro, provavelmente se vos convidaram é porque estão preparadas. Segundo, o que não estiverem aprendem a seguir. Portanto, precisamos de mulheres que levantem a mão e digam: "Sim, quero, vou, faço". Porque vocês são todas extraordinárias e precisamos de um mundo equilibrado entre homens e mulheres. Não imagino também um mundo de só mulheres, obviamente, que horror!
O equilíbrio é sempre bom.
O equilíbrio é fundamental, mas para isso é preciso levantar a mão e dizer sim.
Vera Pinto Pereira, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada pela sua partilha.
Muito obrigada, foi um prazer.
Quanto a si, marcamos encontro já na próxima semana para o terceiro episódio de Vozes que Inspiram, um podcast que conta com convidados do Circle, uma iniciativa da BDA. O convidado será João Bento, chairman da Outry e da Lisnav. Até lá.