Exercício Físico

Arranjei um PT e ainda estou vivo. Pergunte-me como

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Mete dor. Suor. Algum dinheiro. Um homem que nos visita a horas marcadas para nos fazer sofrer. E não é “As 50 Sombras de Grey”. Eis as aventuras de João Miguel Tavares com um "personal trainer".

mnantes/iStock

Autor
  • João Miguel Tavares

Concluí que tinha chegado a hora de arranjar um personal trainer no dia em que a minha filha mais velha me comparou a uma letra de alfabeto. “Papá, tu de lado pareces um D.” Ainda pensei em enfiar-lhe um tabefe, mas como hoje em dia o que está a dar é a Parentalidade Positiva, fui antes olhar-me ao espelho.

Ela tinha razão. Não havia como negá-lo: visto de perfil, ali estava efetivamente um D semi-esférico e bojudo, o que é tanto mais triste quanto tenho quatro filhos que são elegantíssimos Is (enfim: a mais pequena tem três anos e é um I a bold, mas um I, ainda assim). Era preciso mudar este estado de coisas e dizer adeus ao D. Donde, Decidi Dedicar-me Doravante a Derrotá-lo e a Desterrá-lo Dos meus Dias.

Há coisa de um ano já tinha feito a experiência infrutífera de correr dia sim, dia não. Acordava às seis e meia da manhã, enfiava um equipamento de sexualidade duvidosa que a minha excelentíssima esposa me havia oferecido, e ia dar voltas ao quarteirão. A experiência durou pouco, e não foi nem por causa do horário, nem por causa do equipamento de sexualidade duvidosa – foi por causa dos meus joelhos, que começaram a ranger mais do que os de Mantorras. Subir as escadas de um prédio passou a ser um pavor. Estava a ficar tão em forma que mal conseguia andar.

Conclusão óbvia: precisava de perder peso antes de começar a correr. Conclusão ainda mais óbvia: não fazia patavina de ideia do que estava a fazer. Um corpo de 42 anos (o meu) não aguenta o mesmo do que um de 32, e muito menos do que um de 22, que deve ser a idade em que parei de fazer exercício regular. Precisava definitivamente de ajuda, e só tinha uma de duas opções. Um ginásio, que eu sabia ser o pior negócio do mundo, porque já andei num e acabei doutorado em desculpas para nunca lá pôr os pés; ou um personal trainer, que viria a minha casa duas vezes por semana e do qual não conseguiria fugir. Optei pelo PT.

Um PT com a idade certa

Ter um PT em casa é mais caro do que ir a um ginásio? Sim, claro, é bastante mais caro, talvez três vezes mais caro, mas ao mesmo tempo ficamos com a sensação de desperdiçar menos dinheiro – porque o investimento é espremido até à última gota de suor. O meu PT foi recomendado por uma amiga (neste negócio o passa-palavra é fundamental) e quando apareceu pela primeira vez em minha casa rapidamente concluí ser o homem certo a quem entregar músculos e esqueleto. Bastaram três palavras: “Tenho 52 anos.”

Sim, diante de mim tinha um PT quinquagenário. Estão a ver aqueles tipos (ou aquelas tipas) que gostam de namorar sempre com alguém 10 anos mais novo? Na escolha de um PT, recomendo exatamente o contrário: arranjar sempre alguém 10 anos mais velho.

Tenho cá para mim que todos os PT têm como modelo o sargento do filme Oficial e Cavalheiro, aquele que estava sempre a gritar aos ouvidos do Richard Gere.

Mas faz toda a diferença ser maltratado por um tipo dez anos mais velho do que por um tipo dez anos mais novo. É uma questão de autoridade moral: o meu PT consegue efetivamente fazer, com uma perna às costas, tudo aquilo que me exige. Logo, em vez de a idade se tornar numa desculpa, coisa que certamente aconteceria se o meu PT fosse um pós-adolescente (“eh pá, mas tu achas que eu tenho a tua idade!?”), acaba por se tornar um incentivo (“eh pá, se o velhinho consegue eu também sou capaz!”).

E assim, as exigências trogloditas do PT ficam matizadas, já que ele se transforma num cruzamento do sargento do Oficial e Cavalheiro com o Mr. Miyagi do Karate Kid.

É aqui que entra a parte da vassoura

Qualquer PT tem frases que repete incessantemente. Suponho mesmo que haja uma cadeira intitulada “Filosofia Barata para PTs” nos cursos que eles tiram. A máxima favorita do meu é: “Não consigo não existe”. De cada vez que estou à beira do coma por exaustão e me atrevo a murmurar “não consigo…”, ele grita imediatamente: “NÃO CONSIGO NÃO EXISTE!”

Mas existe, claro. E para eu ter a certeza disso, basta um cabo de vassoura.

Nada de piadinhas, ok? Todos sabemos que o cabo de vassoura tem um lugar clássico no anedotário nacional, e que ele não está nunca, mas nunca, ligado a atividades prazenteiras. Quando há um cabo de vassoura envolvido, há invariavelmente sofrimento. Ainda assim, não imaginava que pudesse sofrer tanto com tão pouco. Bastam umas dezenas de elevações com o cabo da vassoura a passar por trás da cabeça enquanto dobro os joelhos para parecer que tenho um elefante obeso às cavalitas.

Ao decidir contratar um PT, pensei que fosse preciso investir alguma coisa em material. Mas não. O meu PT faz a festa toda com um cabo de vassoura, uma toalha e, de quando em vez, um garrafão de água. Depois, aproveita os sofás, as paredes e as escadas do prédio. E não precisa mais do que isso para pôr um tipo de rastos.

Há um exercício que consiste em empurrar uma toalha pelo chão enquanto corremos, e em relação ao qual eu tinha bonitas memórias cinematográficas. N’O Império dos Sentidos – um famoso filme japonês acerca do qual o arcebispo de Braga afirmou, no início dos anos 90, “aprendi mais em meia-hora a ver O Império dos Sentidos do que em 67 anos de vida”, como se isso fosse uma coisa má –, há uma cena que começa com a atriz principal a limpar o chão exatamente dessa forma, e que acaba num magnífico momento de marmelada. E no entanto, o que antes era parte dos meus sonhos, agora é o meu pior pesadelo – tenho suores frios de cada vez que vejo uma toalha no chão.

Está a ser bom para ti?

Pergunta fundamental num mundo que detesta aborrecer-se: Treinar é divertido? É bom? Dá prazer? A minha resposta é: não, não dá. Lamento. Até agora tive uma dezena de aulas, e consigo lembrar-me de 56 383 atividades bem mais divertidas. Dizem-me que o prazer melhora com o tempo, e que é possível que acabe fanático do exercício físico e a competir ao espelho com a barriga da Carolina Patrocínio. Duvido. Aliás, foi preciso esperar pela quinta ou sexta aula para pura e simplesmente não ter vontade de vomitar, tal o nível de cansaço.

Todo o PT tem a máxima (mais uma) “no pain, no gain”, ainda que não a verbalize assim. Segundo a filosofia personaltreinarista, é o esforço constante que te leva a alcançar novos patamares. Quando eu me começo a sentir mais confortável com determinado exercício, o meu PT muda a dose e torna-o mais difícil. Não sei onde isto irá parar, e raramente é divertido. Mas – e este é o fim feliz desta história – sei que a opção por um PT tem grandes vantagens.

Vantagem 1: Eu preciso, de facto, de ter alguém a gritar-me aos ouvidos. De outra forma, não mexeria um músculo. Estou a pagar três vezes mais do que num ginásio, mas também acredito que vou obter resultados 30 vezes mais depressa.

Vantagem 2: Um bom PT exercita músculos que não fazemos ideia que existissem. No final de uma das primeiras aulas fiquei cheio de dores na parte interna das coxas, que é uma das maiores mariquices que já senti na vida.

Vantagem 3: A malta começa rapidamente a sentir-se melhor e com mais energia no seu dia-a-dia.

Atenção, não se entusiasmem. Sentir-me melhor não significa sentir-me mais magro. Significa levantar-me melhor da cama, apanhar melhor qualquer coisa que cai ao chão, aguentar melhor com o peso da minha filha mais nova quando ela está ao meu colo.

De resto, o meu peso continua igual ao fim de dois meses. Embora eu goste de imaginar que isso se deve ao facto do peso da gordura se ter transformado, qual sapo em príncipe, em peso de músculo, há dúvidas fundadas que seja realmente assim – a letra de alfabeto que corresponde ao meu perfil continua a ser a mesma, e a minha filha continua a gozar comigo. Eu respondo-lhe: “Se não evoluir de D para B, já não é mau. Homens com mamas é muito feio.”

Bom, há que pôr um ponto final nisto. Tinha bastante mais coisas para contar, que o mundo do personaltreinarismo é um poço sem fundo. Mas terão de ficar para a próxima. São quatro da tarde, tenho o meu PT neste momento a tocar à minha porta e desenvolvi com ele uma relação pavloviana. Assim que ouço a campainha, começo a suar e só consigo pensar em cabos de vassouras, toalhas arrastadas e num careca a gritar-me aos ouvidos: “NÃO CONSIGO NÃO EXISTE!” Estou bem treinado, é o que é.

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