É muito fácil caricaturar Jacob Rees-Mogg — até porque, convenhamos, ele ajuda. Atualmente, este político é uma das figuras mais influentes entre os conservadores ingleses e o seu poder resulta de uma mistura irresistível: o cérebro portentoso, a rapidez da palavra, as convicções claras e, muito importante, as doses maciças de humor autodepreciativo.
Depois, como eu dizia, há a caricatura. Rees-Mogg tem 57 anos mas parece ter 157. Como não podia deixar de ser, estudou em Eton e em Oxford. Anda sempre de fato completo e nunca tira o casaco de trespasse, mesmo quando as temperaturas chegam aos 30 graus (já disse: “Porque é que eu havia de fazer isso?”). É um católico tradicionalista, tem seis filhos e, muito apropriadamente, chamou Sixtus ao bebé mais novo. Um jornal notou que o descendente “partilha o nome com cinco papas”. Jacob nunca trocou uma fralda a nenhum dos filhos porque, disse numa entrevista, a ama das crianças não o permitiria. Detalhe: a ama dos seis foi também a ama dele.
Há uns anos, o Financial Times lembrou uma frase que ele terá dito na infância: “Quero ser milionário aos 20 anos, multimilionário aos 40 e primeiro-ministro aos 70, quando já tiver ganho dinheiro suficiente para me dar ao luxo de desperdiçar algum na política”. Dinheiro, tem: vive numa mansão com 400 anos e conduz um Bentley de 1968. Não se tornou primeiro-ministro, mas já pertenceu a governos, foi deputado e destacou-se como um dos mais articulados defensores do Brexit. Algures entre o conservadorismo e o reacionarismo, ficou conhecido como “o Ilustre Deputado do século XVIII”. Insistindo na imagem, o FT escreveu que ele mostra “uma firme recusa em abraçar o século XX, quanto mais o século XXI”.
E, no entanto, foi este homem de outro mundo que expôs e, sejamos sinceros, humilhou um homem que é muito do novo mundo. Esta semana, foi impossível entrar numa rede social sem tropeçar em excertos de uma entrevista (ou conversa, ou debate, chamem-lhe o que quiserem) feita a Jacob Rees-Mogg por Tucker Carlson. Carlson foi comentador político em vários jornais e televisões, incluindo a CNN, explodiu as audiências na Fox News e, depois de ser expulso na sequência de um processo judicial que custou muitos milhões à estação, lançou um canal próprio que, como não podia deixar de ser, tem o seu nome. Em todo este processo, Tucker Carlson foi-se deslocando tanto para a direita que, a dada altura, tinha ultrapassado Gengis Khan. Pode ter sido por causa dos cliques que dão muito dinheiro, pode ter sido por causa da vontade de agradar a uma audiência crescentemente radicalizada ou pode ter sido, apenas, por causa de alguma coisa que lhe misturaram na bebida. Carlson é uma estrela naquele setor da direita populista que ganhou músculo e força com o movimento de Donald Trump e que depois cresceu, montado nas redes sociais, numa alternância oportunista entre o apoio e a crítica ao trumpismo. Já se fala dele como potencial candidato presidencial nas próximas eleições.
Na entrevista-conversa-debate com Jacob Rees-Mogg, Tucker Carlson fez linha no cartão de bingo: elogiou Putin, defendeu Hitler e atacou os regimes liberais da Europa ocidental. Estupefacto com a brutalidade, com a fragilidade e com a infantilidade dos argumentos que lhe eram sucessivamente apresentados, Rees-Mogg foi explicando, com uma paciência santa, alguns princípios básicos da direita clássica: a importância fundamental do respeito pelo Estado-nação; a constatação de que a melhor forma de se evitar uma guerra é estando preparado para ela; a lição da História de que os tiranos têm de ser travados cedo para não precisarem de ser combatidos tarde.
Repito: Tucker Carlson não é um maluquinho. É seguido por milhões de almas sôfregas de ouvirem as suas opiniões, costuma ser recebido na Casa Branca e, em 2024, teve o suspeito privilégio de entrevistar Vladimir Putin no Kremlin. Nem de propósito, a dada altura do debate com Rees-Mogg, Tucker tenta argumentar que o Reino Unido tem um regime mais opressor das liberdades do que a Rússia.
Tucker Carlson: O governo do Reino Unido está a punir e a proibir pessoas e ideias de que não gosta. A Rússia não está a fazer isso. Portanto, como é que…
Jacob Rees-Mogg: O quuuêêê? Não pode dizer isso. Na Rússia, estão a fazê-lo em força. Estão a espancar pessoas. Estão a prendê-las.
Tucker Carlson: A Rússia prendeu menos pessoas no último ano por publicações nas redes sociais do que o Reino Unido.
Jacob Rees-Mogg: Na Rússia, elas limitam-se a cair acidentalmente de janelas.
Noutro momento, expondo a sua iliteracia financeira e a sua devoção a Moscovo, Tucker atribui à Rússia um poder económico que ela simplesmente não tem.
Tucker Carlson: A Rússia tem uma economia muito maior do que a da Grã-Bretanha, creio que, basicamente…
Jacob Rees-Mogg: Não, não, não. Não tem uma economia maior do que a da Grã-Bretanha. Tem uma economia menor do que a da Grã-Bretanha. Tem é um poderio militar maior.
Tucker Carlson: Mas é uma economia muito maior. Tem muito mais riqueza e recursos. Tem um setor transformador muito maior.
Jacob Rees-Mogg: O seu PIB é menor do que o do Reino Unido. É cerca de dois terços.
Tucker Carlson: O PIB não é a única medida de uma economia.
Jacob Rees-Mogg: É uma medida importante de uma economia.
Tucker Carlson: Não, os russos…
Jacob Rees-Mogg: A Rússia é um fracasso económico. Poderia ter uma economia enorme, mas tem uma economia pequena porque é profundamente corrupta e não conseguiu utilizar os seus recursos de forma eficaz.
Tucker Carlson: Certo. A sua riqueza inerente é muito maior do que a do Reino Unido. É o maior país do mundo.
Jacob Rees-Mogg: Sim, mas a riqueza inerente não é muito útil, pois não? Há muitos países africanos com recursos enormes que nunca os conseguiram utilizar. A Rússia tem sido consistentemente um país pobre, apesar dos seus recursos.
Tucker Carlson: Sim.
Jacob Rees-Mogg: OK.
Na conversa, seguiu-se Hitler. Uma das recentes modas intelectuais nas catacumbas da direita radical americana é a tese de que o verdadeiro vilão da Segunda Guerra Mundial foi Churchill e não os nazis. Para Tucker, Hitler era uma espécie de Madre Teresa de Calcutá, só que de farda. Por isso, defende que o Reino Unido nunca deveria ter entrado em guerra com a Alemanha.
Tucker Carlson: Só estou a dizer que a ideia de que Hitler simplesmente entrou pela Polónia adentro ao acaso é uma mentira. O Reino Unido não tinha nada a ver com isso. E destruíram o seu império e o seu país a combater na Segunda Guerra Mundial, que ainda fingem ter sido uma boa ideia. Mas não foi.
Jacob Rees-Mogg: Foi fundamental. Foi o clássico bem contra o mal.
Tucker Carlson: O Reino Unido beneficiou com isso?
Jacob Rees-Mogg: Fizemos a coisa certa.
Tucker Carlson: É um país melhor do que era?
Jacob Rees-Mogg: Por ter derrotado Hitler? Sim.
Tucker Carlson: Portanto, o Reino Unido é um país melhor agora? É um país mais saudável agora?
Jacob Rees-Mogg: Caso contrário, estaríamos a falar alemão.
Tucker Carlson: Quem se importaria com isso? Há muita gente na Grã-Bretanha que nem sequer sabe falar inglês. Por isso, seria bom ter pelo menos uma língua europeia falada no seu país.
Jacob Rees-Mogg: Não, não vejo qualquer vantagem em falar alemão. Muito obrigado, mas nós queremos falar inglês.
A dada altura, mostrando piedade cristã, Rees-Mogg tenta travar a trajetória desgovernada de Carlson.
Jacob Rees-Mogg: Fico muito surpreendido por estar à beira de defender Hitler. Acho que não é bem isso que quer estar a fazer.
Tucker Carlson: Pois, se calhar sou só um nazi disfarçado. Na verdade, não sou um nazi disfarçado.
Jacob Rees-Mogg: Fico mais descansado.
Alguém que se submeta à tortura de ouvir Tucker Carlson, neste e noutros vídeos, chega a uma conclusão deprimente mas iluminadora: há uma parte da esquerda que odeia o Ocidente, mas há uma parte da direita que também. Essa direita — que é nova mas soa a velho — odeia as sociedades abertas e as liberdades; odeia as regras estabelecidas e as tradições; odeia o equilíbrio de poderes e a supremacia do indivíduo. Depois, claro, há uma direita que vem, como Rees-Mogg, “do século XVIII” e que olha para tudo isto com um sorriso que mistura distanciamento e troça. Sim, há uma direita que odeia o Ocidente. Mas não, a direita não é toda igual.