Logo Observador
Exposições

“Madonna”. Das paredes do Vaticano para a Rua das Janelas Verdes

1.837

"Madonna", a nova exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, reúne pela primeira vez em Portugal alguns dos tesouros dos Museus do Vaticano. A inauguração é esta quinta-feira.

No ano em que se comemora o centenário das Aparições de Fátima, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, não quis passar ao lado dos festejos e decidiu organizar uma exposição dedicada exclusivamente à representação da Virgem Maria. Madonna — Tesouros dos Museus do Vaticano inaugura esta quinta-feira e reúne 73 peças provenientes, sobretudo, das coleções de arte do Vaticano. A mostra é um “privilégio”, como salientou António Filipe Pimentel, diretor do MNAA, durante a visita de imprensa desta terça-feira. Afinal, não é todos os dias que se recebe uma exposição realizada em parceria com alguns “dos mais reservados museus do mundo”.

O “projeto muito ambicioso”, como o descreveu António Filipe Pimentel, teve curadoria de Alessandra Rodolfo, dos Museus do Vaticano, e de José Alberto Seabra Carvalho, diretor-adjunto do MNAA. As obras saíram diretamente das paredes do Vaticano para a Rua das Janelas Verdes. É que, como explicou a curadora Alessandra Rodolfo, não há uma única peça que faça parte das coleções de reserva dos Museus do Vaticano — para que fossem emprestadas, foi preciso arranjar forma de ocupar o espaço em branco. A maioria delas nunca saiu de Roma.

O crucifixo (entre Deus e o Diabo), de Marc Chagall, é a obra mais moderna da exposição, realizada já no século XX, em 1943

Além destas peças, Madonna — Tesouros dos Museus do Vaticano inclui ainda duas obras das galerias Borghese (de Venusti e Salvi), um dos mais importantes museus de Roma, e Corsini (de Gentileschi e van Dyck), e um conjunto importante de peças provenientes de coleções portuguesas. Tudo com um simples objetivo: “Mostrar um acervo de obras italianas, ou de origem italiana, que não são comuns nas nossas coleções, quer públicas quer privadas”, como explicou aos jornalistas José Alberto Seabra Carvalho durante a visita guiada, onde esteve presente o núncio apostólico em Lisboa, Rino Passigato, com quem a direção do museu iniciou negociações para a realização da exposição há mais de dois anos.

Sempre com a Virgem Maria como tema central, as peças, de diferentes tipologias (pintura, escultura, tapeçaria e iluminura) vão desde a Antiguidade tardia ao Barroco. Com uma exceção: o quadro O Crucifxo (entre Deus e o Diabo), de Marc Chagall, realizada já em pleno século XX. A pintura — que ocupa um recanto entre a primeira e a segunda salas da exposição — é a única da coleção de arte contemporânea do Vaticano dedicada à mãe de Jesus. E, por esse motivo, não podia faltar na mostra do museu lisboeta. “É um Chagall um bocado inesperado, menos festivo do ponto de vista da cor, não tem uma grande dimensão e é até menos onírico”, explicou o diretor-adjunto.

Ele é, aqui, uma peça estranha, porque está desenquadrado. E no espaço até decidimos pô-lo aqui, que é uma espécie de não lugar entre uma sala e outra, marcando de alguma forma o alfa e o ómega — o culto de Maria está no princípio e depois no fim desta exposição.”

Álvaro, o português que pintava como um italiano

As peças mais antigas de Madonna são datada do século III. Nessa altura, o culto de Maria ainda não estava “oficializado” (isso só viria a acontecer no século V), mas já era popular entre as primeiras comunidades cristãs, como provam dois fragmentos de sarcófagos de crianças desse período, expostos na primeira sala da mostra.

O primeiro deles “representa a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus”. “Do lado esquerdo, sem separação aparente, há a visão de Ezequiel, que ressuscita os mortos. É um passo da Bíblia que afirma a capacidade de redenção e de ressurreição, que depois é personificada em Jesus Cristo. As duas imagens são tipologicamente idênticas no seu significado”, disse José Alberto Seabra Carvalho. Num outro fragmento, mais pequeno, “há um presépio com um burro, o menino enfaixado, a mãe ao lado”. Tem um telheiro, “um apontamento sintético que designa a cabana”, e uma estrela cadente. “Está tudo lá há quase dois mil anos.”

A pintura de Álvaro Pires de Évora mostra a Virgem com o Menino, na companhia de São Bartolomeu e Santo Antão. O quadro pertence ao Museu de Évora

Uma das curiosidades da segunda sala — “Bolonha, Siena e Florença. O triunfo da Madonna na pintura dos séculos XIV e XV”– é um retrato da Virgem com o Menino, com um fundo dourado, atribuído a Alvaro di Piero de Portugallo, também conhecido por Álvaro Pires de Évora. A pintura, do século XV, foi adquirida há poucos anos pelo Museu de Évora e é uma das poucas da exposição que foi realizada por um português.

Não se sabe grande coisa sobre este Álvaro Pires, a não ser que terá nascido em Évora e feito carreira em Itália, a partir de 1411. “Morre nos anos 30, mas está documentado e tem obras em Piza, Volterra e Luca — tudo à volta de Siena e Florença, por onde ele de facto andou”, disse José Alberto Seabra Carvalho. Mas o mais interessante é que, apesar de ser português e de eventualmente se ter formado por cá, Álvaro Pires não pintava como tal.

“Antes dos Painéis de São Vicente de Fora [que fazem parte da coleção permanente do MNAA], que já não são isto — não têm fundos de ouro –, este é o único caso de um pintor português que se calhar não aprendeu cá. Fez a carreira em Itália e faz parte mais da arte italiana do que da nossa. É uma ponte importante, numa época em que temos relações artísticas muito mais fortes com o norte — com a Flandres — do que com o sul. E o Álvaro Pires é um integrado.” Não se sabe ao certo como é que o artista português chegou a Itália, mas existem algumas teorias.

Hoje desconfia-se muito que tenha sido a partir de Valência que, nesta altura, era uma plataforma entre Espanha e o norte de Itália. Pode ter sido por essa via que ele chega lá.”

Foi também nesta sala que foi colocada uma cópia da famosa Pietà, de Miguel Ângelo, feita nos anos 70 depois de uma parte ter sido destruída por Laszlo Toth, um geólogo húngaro com problemas mentais que, em 1972, entrou pela Basílica de S. Pedro (onde a estátua se encontra) com um martelo, gritando: “Eu sou Jesus Cristo, eu ressuscitei dos mortos”. “Felizmente, havia uma cópia nos Museus do Vaticano, que seguiu de guia à reconstrução do original”, contou o diretor-adjunto do MNAA. “E, por cautela, fez-se outra cópia nessa altura.” É essa que faz parte da nova exposição do museu das Janelas Verdes.

A exposição inclui uma cópia da Pietà, uma das mais famosas esculturas de Miguel Ângelo. O original está exposto na Basílica de S. Pedro, no Vaticano

E porque numa exposição sobre pintura italiana não podia faltar nem Miguel Ângelo nem Rafael, esta inclui “a parte de baixo de um retábulo grande” da autoria de Rafael. “É um Rafael jovem, é uma obra de 1503, mas onde ele afirma já uma espécie de grito de independência face a [Pietro] Perugino, o seu mestre, porque até a própria conceção do espaço tem algo de novo — é muito mais rigorosamente, a paleta é mais aberta e mais complexa. É mais dele do que de propriamente de Perugino“, salientou José Alberto Seabra Carvalho.

Esta é uma das obras nascentes de Rafael, tal como depois se vem a afirmar em Roma, ate a sua morte, em 1520.”

O único da Vinci conhecido em Portugal

Da sala renascentista, segue-se para a ala maneirista e, depois barroca. A última sala — “Imagens de Maria. Obras italianas em coleções portuguesas” — foi recheada com obras que pertencem a coleções portuguesas. A estrela da sala é uma tela gigantesca de Tintoretto que pertence ao Mosteiro de São Bento de Singeverga, no Minho. A obra, uma Adoração dos Magos, foi doada ao mosteiro benedictino por um particular, só tendo sido corretamente identificada na década de 1990. A pintura, que ocupa uma parede inteira, nunca tinha sido exposta ao grande público.

A Adoração dos Magos de Tintoretto (datada de c. 1580-1590) chama desde logo a atenção pelo seu tamanho, mas a obra mais importante da última sala é mais pequena do que uma folha A4. Trata-se de um pequeno esboço de Leonardo da Vinci, que faz parte da coleção da Faculdade de Belas Artes da Universidade Porto, que mostra uma rapariga lavando os pés a uma criança. Não se sabe ao certo como é que o estudo veio parar a Portugal (uma das hipóteses sugere que tenha sido trazido por algum artista português depois de uma viagem a Itália), mas uma coisa é certa: é o único da Vinci que se conhece no país.

A única obra de Leonardo da Vinci que se conhece em Portugal — um pequeno estudo de uma rapariga lavando os pés a uma criança — pertence à Faculdade de Belas Artes do Porto

Nossa Senhora nunca saiu de moda, muito pelo contrário

Todas as obras da exposição Madonna retratam algum momento da vida da Virgem Maria. É esse, aliás, o fio condutor de toda a mostra. Mas, ao contrário do que seria de se esperar, não existem grandes diferenças interpretativas de século para século. O diretor-adjunto do MNAA explicou aos jornalistas que, no Mundo Antigo, a Virgem surge “colocada em cenas sempre com um caráter mais sintético, muito mais simples”. “Tematicamente, as coisas ainda são relativamente reduzidas. Vão expandir-se mais tarde, nomeadamente a partir do século XIII ou XIV, e muito em Itália.”

É a partir desse período que se dá uma “explosão na criação de novos temas narrativos, com passagens da vida da Virgem que, na verdade, não vêm dos Evangelhos [da Bíblia], e que são em muito boa parte criados pelos Evangelhos Apócrifos”. “Mas são plenamente adotados em função da multiplicação da imagem”, esclareceu o diretor-adjunto do museu. “Estamos na época dos retábulos, das grandes decorações de altar, e a vida da Virgem vai expandir-se à imagem da vida de Jesus Cristo. Faz uma espécie de contratipo.” Assim, Maria passa a ser representada “de todas as formas, desde a Conceção à Assunção”.

Passa pelos mesmos passos, digamos assim, da vida de Jesus. Exceto o Calvário, como é óbvio. Há aqui como que uma contaminação que é muito explorada imageticamente.”

A exposição Madonna — Tesouros dos Museus do Vaticano vai estar patente na Galeria de Exposições Temporárias do MNAA até 10 de setembro. A inauguração oficial acontece esta quinta-feira, pelas 18h30 e contará com a presença do ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes. Os bilhetes (só para esta exposição) custam 5 euros.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Henrique Casinhas.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rcipriano@observador.pt
Livros

Por uma questão de sobrevivência

Luísa Graça, Paula Cristina Marques Silva, Maria Elisabete Lima, Maria Isabel de Magalhães Pacheco e outros

Este texto é mais do que uma carta aberta – é uma manifestação desesperada de milhares de microempresas que o Governo insiste em ignorar.