Papa João XXI. O português mais poderoso de sempre antes de Guterres

16 Outubro 20163.892

Pedro Hispano foi o português com mais poder no mundo antes de Guterres chegar à ONU. O historiador Armando Norte, que acaba de publicar a biografia do único Papa português, conta-nos a história.

É preciso recuar à Idade Média para encontrar um português a exercer um cargo importante na política internacional que se possa equivaler a António Guterres nas Nações Unidas ou a Durão Barroso na Comissão Europeia. O historiador Armando Norte, que publicou há uma semana a biografia “João XXI – O Papa Português” (Esfera dos Livros), conta em exclusivo para o Observador a misteriosa história da vida e morte de Pedro Hispano: padre, médico, filósofo, alquimista com fama de mago e Papa que entrou em divergência com D. Afonso III e manteve a excomunhão ao rei português.

Pedro Hispano, aliás João XXI, legitimador e derrubador de reis

Em setembro de 1276, um conclave de cardeais, reunido em Viterbo (Itália), escolhia como Papa o cardeal-bispo Pedro Julião, de Lisboa, conhecido nos meios intelectuais e académicos pelo nome de Pedro Hispano. Tornava-se, assim, o sucessor de S. Pedro; a cabeça da Igreja Latina; bispo de Roma e primaz da Itália; santo Padre; Santíssimo Senhor e patriarca do Ocidente; vigário de Cristo; príncipe dos Apóstolos; pastor universal; Servus servorum Dei — o servo dos servos de Deus. Ou, noutra forma, mais direta e imediata de o dizer, convertia-se, desse modo, no mais importante indivíduo do seu tempo e num homem ungido para a eternidade.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

Pedro Hispano (ou Pedro Julião) mais tarde Papa João XXI (apesar de nunca ter existido um João XX)

O grupo de responsáveis pela decisiva missão de escolher o novo pontífice não era muito extenso. Devido às mortes recentes de dois cardeais-diáconos, o colégio de eleitores era composto apenas por onze elementos. Um número que ficaria, entretanto, ainda mais reduzido, pois um dos cardeais acabaria por morrer enquanto o conclave tinha lugar, enquanto outro faltou à chamada, por razões desconhecidas. Sobraram, portanto, nove cardeais, que ficaram encarregues da decisão eleitoral. Dois desses homens eram cardeais-bispos, um dos quais o próprio Pedro Julião; três eram cardeais-presbíteros; outros quatro eram cardeais-diáconos. Todos eles eram repetentes em eleições apostólicas. Vários acabariam mesmo por ser nomeados papas em conclaves posteriores.

Deveu-se, pois, a estes homens a escolha de um português como Papa da Cristandade, na primeira e única vez que tal sucedeu em toda a história da Igreja. Na condição de Papa, Pedro Julião passava a ser, de súbito, a máxima autoridade política e religiosa do mundo cristão, o juiz de última instância em todas as disputas, único legislador em matéria eclesiástica, legitimador e derrubador de reis, chefe da hierarquia católica e supremo representante de Deus na Terra, com a possibilidade de excomungar e lançar interditos, declarar guerras, fazer a paz. Era dono de um poder sem rival na Idade Média.

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O livro do historiador Armando Norte, 42 anos e especialista em cultura medieval, foi publicado há uma semana

Em certo sentido, a escolha não deixa de ser surpreendente, pois o Papa eleito não pertencia a nenhuma família da nobreza romana, itálica, ou gaulesa, cujos membros eram tradicionalmente nomeados para ocupar a mais alta posição da Igreja Católica Romana. Mas talvez aí, paradoxalmente, nessa aparente fragilidade de apoios, se deva procurar uma das razões para a decisão final, emergindo o português como uma via alternativa capaz de assegurar a manutenção dos equilíbrios existentes no interior do cardinalato, que, de outro modo, seriam abalados. Em rigor, é impossível determinar em que medida a combinação dos vários fatores em presença — forças em tensão, reconhecimento intelectual, habilidade política — motivaram a eleição de Pedro Hispano.

O que importa sublinhar neste contexto é que a escolha não era inócua; antes plena de efeitos, significados e consequências. No século em que nasceu, viveu e morreu Pedro Hispano, o décimo terceiro da Era Cristã, o Papa era a principal figura política no concerto internacional de poderes, fruto da preponderância de uma igreja pujante e de um forte programa centralizador desenvolvido pelo papado durante a alta Idade Média, cujo apogeu coincidiu com o governo do Papa Inocêncio III (1198-1216). Com efeito, nos primeiros séculos medievais, a Igreja crescera bastante em complexidade e dimensão. A sua estrutura hierárquica complexificou-se e alargou-se, a máquina burocrático-administrativa foi ampliada, como foi substancialmente melhorado o aparelho fiscal, destinado à cobrança de impostos. A essa intensa política de sedimentação do poder da Igreja, conduzida pelo papado, dá-se comummente o nome de teocracia papal, um programa de ação que foi integralmente subscrito por João XXI nos curtos meses em que dirigiu a mais importante instituição da Cristandade Latina da sua época.

Na condição de papa, Pedro Hispano passava a ser a máxima autoridade política e religiosa do mundo cristão, legitimador e derrubador de reis, chefe da hierarquia católica e supremo representante de Deus na Terra, com a possibilidade de excomungar e lançar interditos, declarar guerras, fazer a paz. Era dono de um poder sem rival na Idade Média.

Uma vez eleito como bispo da sé romana, Pedro Hispano tomou para si o nome apostólico de João XXI. A escolha do nome apostólico era já, no final do século XIII, uma tradição de enorme simbolismo, tanto como uma prática continuada. Essa escolha continha uma forte carga alegórica, por intermédio da qual o Papa recém-eleito prestava uma homenagem expressa a alguém da sua predileção: fosse um Papa anterior, um santo da sua particular devoção, eventualmente um patrono, ou até mesmo um membro influente da sua própria família; em qualquer caso, um modelo exemplar de virtudes e de comportamentos que se estabelecia como figura tutelar da sua governação.

Motivo de curiosidade é o facto de nunca ter existido um João XX na lista dos papas católicos. A razão para esse lapso foi uma contabilização mal feita da responsabilidade de Martinho Polónio, um dominicano contemporâneo de Pedro Hispano, de origens eslavas, que chegou a ser muito apreciado como pregador e canonista.

A morte de Pedro Hispano, causada pela derrocada do seu apartamento, esteve envolvida em mitos: foi vista como uma prova do seu carácter malévolo, por ser um mago, ou castigo divino por achar que ia viver muitos anos.

Os vários relatos que se encontram em crónicas e anais acerca da morte de Pedro Hispano, em maio de 1277 coincidem no essencial. Com ligeiras diferenças de tom ou de pormenor, as versões estabelecem como causa da morte a queda de uma divisão residencial do palácio apostólico de Viterbo, onde o Papa habitava. Alguns autores procuraram servir-se das próprias circunstâncias da morte de Pedro Hispano, como uma prova do seu carácter malévolo.

Assim, a sua morte, causada por um esmagamento, resultante da derrocada de uma ala do palácio de Viterbo, que o próprio mandara erguer, foi apresentada, em diversas ocasiões, como um castigo divino, a que se ligaram variados motivos, uns mais caricaturais do que outros: desde a prática de magia aos desregramentos de conduta, passando pelo laxismo no governo eclesiástico e por um suposto pretensiosismo, apontado como causa direta da sua morte na Gesta de Filipe III, rei de França, e na crónica da autoria de Ptolomeu de Luca. Nesta última conta-se que, tal como era frequente acontecer, João XXI olhara para si próprio num espelho, e para todos rira orgulhosamente, em triunfo; e, então, a câmara cedera sobre si, tendo ficado esmagado entre a madeira e as pedras, expirando seis dias depois. Quanto à Gesta do rei dos francos, narra que o Papa acreditava ter muitos anos de vida pela frente, e que muitas vezes o afirmara, arrogância que acabara por lhe custar a vida, pois essa era uma decisão que estava nas mãos de Deus, e não nas suas.

A atividade política: os caminhos da justiça e o espírito de Cruzada

Uma vez tomado o nome apostólico, Pedro Julião teve de proceder à escolha da sua divisa e de decidir quais as insígnias que o identificariam daí em diante. A divisa que escolheu, redigida em latim, dizia: “Dirige domine Deus meus in conspectu tuo viam meam“, o que significa, numa tradução livre para português: “Guia-me, Senhor, pelos caminhos da tua justiça”. Trata-se de uma passagem literal extraída de uma oração dedicada aos mortos, que aparecia frequentemente incorporada nos livros devocionais conhecidos por Livros de Horas, muito populares na Idade Média. Uma frase que reporta, por sua vez, a um passo específico do Livro dos Salmos do Antigo Testamento, onde se diz: “Senhor, guia-me na tua justiça; dirige diante de teus olhos o meu caminho, por causa dos meus inimigos” (Sl 5, 9-10). Um lema que remete, porventura, para a personalidade controversa que muitas crónicas lhe apontam.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

O brasão de armas adotado por João XXI: as chaves cruzadas simbolizam o acesso ao reino dos céus

Quanto às insígnias adotadas, o recém-eleito João XXI optou por apresentar no brasão de armas, como ornamentos exteriores, os símbolos típicos da heráldica dos pontífices romanos, de acordo com o ritual latino. No topo, a tríplice tiara, depositada sobre uma mitra, correspondendo às três tradicionais funções apostólicas: o múnus, a governação e a santificação. Ao centro, as duas chaves cruzadas, uma de cor dourada, a outra prateada, simbolizando as chaves de acesso ao Reino dos Céus, atributos iconográficos associados a S. Pedro, o primeiro entre os Apóstolos, que segundo o Evangelho de Mateus as recebera diretamente do próprio Cristo (Mt 16, 18-19). Na base do brasão, estavam duas borlas, pendendo da extremidade de uma corda que entrelaçava as duas chaves. A corda é representada em cor púrpura, associada aos pontífices de Roma, entendidos como herdeiros directos da púrpura imperial romana. No interior do brasão, figurava o escudo de João XXI, reconhecível pela forma esquartelada, ou quadripartida, que apresentava.

O papa era a principal figura política no concerto internacional de poderes, fruto de um forte programa centralizador desenvolvido pelo papado.

Resolvidas as questões formais, simbólicas e protocolares, e uma vez sagrado como sumo pontífice, João XXI envolveu-se de imediato numa intensa atividade executiva e legislativa, como se pode conferir da leitura do registo oficial dos seus diplomas, conhecido por Regesta. As Regesta papais começaram por ser cópias das cartas papais e de outros documentos oficiais. Eram fac-símiles, com valor notarial, por isso preservados nos arquivos da chancelaria apostólica, arquivados em volumes próprios para o efeito, e destinados à manutenção de um registo interno para conservar e validar os actos dos vários papas. Mais modernamente, acabaram por tomar o idêntico nome de Regesta as publicações contendo a lista de documentos promulgados por cada pontífice, dispostos por ordem cronológica, e contendo sumários cuidadosos dos conteúdos desses atos.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

O Papa João XXI havia de ter divergências com o rei português D. Afonso III

Nos breves oito meses em que foi incontestavelmente a figura mais importante da Cristandade, o Papa português elaborou uma significativa produção diplomática, materializada nesses registos oficiais, que ultrapassou a centena de bulas e de cartas apostólicas. É esse corpo documental que permite perceber as principais orientações políticas que pretendia desenvolver, que se podem resumir na defesa da supremacia religiosa e política do Papa no interior da Cristandade; no desejo de unidade entre as igrejas de Roma e de Constantinopla; na luta contra o inimigo de Fé — o Islão –, materializada num fervoroso espírito de Cruzada; e no combate às heterodoxias doutrinais e aos desvios de fé, como aconteceu na famosa disputa entre averroístas e agostinianos, que dividiu a famosa universidade de Paris.

No plano político, João XXI, assim que chegou ao pontificado, teve de atuar em várias frentes, para tentar colocar um fim a vários dos problemas que herdara. Desde logo, conciliar os reis de França e de Castela-Leão, respectivamente Filipe III e Afonso X, em luta pelo controlo da área de Navarra. Depois, sanar a questão do título de imperador dos romanos, reivindicado por Carlos de Anjou, rei da Sicília, e por Rodolfo de Habsburgo, imperador do Sacro Império Germânico. Ao mesmo tempo, sufocar a turbulência que pairava na área itálica, e que agitava comunas rivais, como Perúgia e Assis, mas que também afetava as relações das comunas com o papado. Finalmente, repor a autoridade da Igreja perante a desobediência de reis em conflito aberto com alguns setores da Igreja, como sucedia no caso português, com Afonso III.

A vida de Pedro Hispano: professor e médico em Paris e Siena

Mas quem era, de facto, Pedro Julião, e como chegou ele ao topo da hierarquia política e religiosa do seu tempo? Sabe-se, na verdade, pouco do seu percurso: sobram os rastos difusos, abundam os becos sem saída, acumulam-se, quantas vezes prodigiosamente, as brumas — em especial no que se refere aos seus anos de infância e primeira juventude.

O papa português elaborou uma significativa produção diplomática, materializada em registos oficiais, que ultrapassou a centena de bulas e de cartas apostólicas.

Do que é possível reconstituir, o futuro Papa João XXI terá nascido no início do século XIII, em data incerta, que a tradição situa algures no intervalo entre os anos 10 e 20, mas que a crítica histórica vai aproximando gradualmente do início da primeira década. É provável que tenha nascido em Lisboa, embora haja hipóteses alternativas, se bem que pouco fundamentadas, que o dão como natural de Coimbra. Sobre as suas origens familiares, sabe-se igualmente muito pouco. Tudo se resume a algumas especulações sobre o nome e profissão do seu pai, provavelmente um médico, de nome próprio Julião, atendendo às regras da onomástica medieval e ao uso generalizado do sistema de patronímico em Portugal. O estatuto social da sua família, e o seu nível de riqueza e património, ignoram-se, em absoluto.

Ao que tudo indica, foi na Sé de Lisboa e na escola capitular que lhe estava anexa que o jovem Pedro Julião passou os seus primeiros anos. Não custa supor, nessa medida, que o seu trajeto escolar tenha sido em tudo semelhante ao de muitos outros oblatos, os jovens entregues à Igreja pelos pais para se dedicarem ao serviço de Deus: a entrada no sacerdócio; o cumprimento dos primeiros estudos, baseados nos salmos; a introdução à liturgia e ao ritual; e a iniciação aos Evangelhos e ao corpo da doutrina católica.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

Terá nascido em Lisboa ou Coimbra, e tudo indica que estudou na escola adjacente à Sé de Lisboa e em Paris

Essas primeiras etapas de formação terão sido cumpridas com grande sucesso por Pedro Julião, uma vez que pouco tempo depois, em idade que muitos sugerem bastante precoce, terá sido enviado para a universidade de Paris para cumprir estudos mais avançados, aí continuando provavelmente a dar aulas, durante algum tempo, uma vez concluída a sua formação nessa universidade. Inequívoco é que deu aulas de medicina em Siena, no final da década de 1240, não estando de todo esclarecido onde terá contactado com as ciências médicas — talvez em Salerno, talvez em Montpellier, talvez na própria Paris. Alguns anos mais tarde foi nomeado como mestre-escola na catedral de Lisboa, mas num regime de absentismo, que afasta as hipóteses de aí ter ensinado, a não ser, quiçá, durante estâncias muito breves. Quanto à cronologia da maior parte desses acontecimentos, mesmo os mais seguros, é bastante volátil, e escapa-se quase sempre.

O conselheiro e arcebispo que manteve a excomunhão de D. Afonso III

Muito mais claro é o serviço que prestou no quadro da Igreja. Sabe-se que Pedro Julião recebeu vários benefícios eclesiásticos, apesar das disposições que, no período, procuravam limitar os fenómenos da acumulação, para evitar a apropriação de cargos e de rendimentos por parte dos beneficiários. Percorreu quase todo o cursus honorum da Igreja do seu tempo: foi cónego, mestre-escola, arcediago e deão; chegou mesmo a ser eleito arcebispo, ainda que não tenha recebido a confirmação no lugar. Também foi conselheiro régio e, já em contexto apostólico, parece ter tido ao seu cuidado a saúde de Gregório IX, dando crédito as notícias que o dizem seu físico. Além disso, desempenhou legacias a mando de Inocêncio V, na condição de comissário do Papa, até alcançar, finalmente, a posição de cardeal-bispo de Túsculo (Itália), lugar que só abandonou para assumir o papado.

Foi, sem dúvida, um trajeto variado, e com marcos importantes, incluindo passagens por duas das mais importantes dioceses em território português, a arquidiocese de Braga e a sé de Lisboa, e a nomeação para o governo da igreja de Guimarães — uma posição sempre muito disputada ao nível do reino português, reservada a figuras de grande projeção da cena política e eclesiástica.

João XXI acusou D. Afonso III de prática sistemática de abusos e desmandos contra a Igreja portuguesa e de ser um crónico afrontador das liberdades eclesiásticas. Manteve os interditos sobre o reino e renovou as excomunhões feitas ao rei.

Bastante decisiva para essa caminhada foi, sem dúvida, a desenvoltura com que sempre se moveu nos círculos de poder, designadamente junto da corte régia e, em particular, da Santa Sé, conseguindo insinuar a sua presença, com sucesso, junto do rei Afonso III de Portugal (de quem acabaria por divergir mais tarde), e de mais do que um pontífice. No geral, tratou-se de um percurso diferenciado e bastante sólido que o capacitou para a carreira bem-sucedida que desenvolveu junto da Cúria romana, primeiro como cardeal, depois como sumo pontífice.

A relação entre Pedro Julião e Afonso III, parece ter sido marcada, na sua origem e durante um período de tempo considerável, por uma grande proximidade ou, pelo menos, por sentimentos mútuos de afecto e respeito. De facto, o futuro João XXI serviu o rei na qualidade de seu procurador em várias ocasiões, integrou ainda o conselho régio e é bastante provável que tenha sido enviado para desempenhar missões diplomáticas junto da Cúria apostólica, em defesa dos interesses portugueses, instância onde o seu nome já era seguramente conhecido e respeitado.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

O túmulo papal de João XXI. O Papa português morreu em maio de 1277, de forma misteriosa, depois de uma parede lhe ter caído em cima

As razões que terão estado na base da rutura posterior entre os dois homens, depois dessa aparente cumplicidade, parecem prender-se, em grande medida, com um processo de escolha para bispo da Sé de Lisboa, vago pela morte do bispo Aires Vasques (1258-1282). Em função da conveniência dos interesses políticos do momento, o monarca português patrocinou a eleição de mestre Mateus para a posição de bispo de Lisboa. Em discordância aberta com o rei, Pedro Julião encabeçou um movimento alargado de protesto no interior do cabido, numa altura em que era o deão em funções e em que terá aspirado a ser ele próprio nomeado para prelado da diocese lisboeta.

O desenlace acabaria por acontecer em desfavor das ambições e desejos do deão Pedro Julião e do cabido que o secundava, pois foi eleito mestre Mateus para a posição. Anos mais tarde, ao ser nomeado Papa, João XXI não esqueceria esse episódio, e, tal como os seus antecessores no papado, acusou o rei português de prática sistemática de abusos e desmandos contra a Igreja portuguesa e de ser um crónico afrontador das liberdades eclesiásticas. Manteve os interditos sobre o reino e renovou as excomunhões feitas ao rei.

Apesar do seu fulgurante trajeto eclesiástico e dos ambiciosos projetos políticos que protagonizou, amplamente testemunhados pelos registos da chancelaria papal, a morte de Pedro Hispano, oito meses depois de ser eleito pontífice, não lhe permitiu deixar uma marca impressiva na história da Igreja.

Filósofo, médico e alquimista com reputação de mago

A popularidade de que gozou durante a medievalidade, e que se prolongou pelo Renascimento, persistindo até aos dias de hoje, tem, de facto, uma origem bastante diferente. Remete para a sua dimensão de intelectual e para os contributos que lhe são atribuídos no âmbito da história da ciência e história das ideias, em concreto os estudos que dedicou aos ramos da filosofia e da medicina.

O problema é que a vasta produção bibliográfica, a diferente natureza dos assuntos abordados e a própria coerência interna dos textos escritos sob o nome de Pedro Hispano ou que lhe foram creditados, desde o século XIV, pouco depois da sua morte –, tendo como premissa a vasta ciência do Papa, assumida pelo próprio e amiúde asseverada em crónicas, quer contemporâneas quer posteriores –, suscitam várias reservas no que toca à sua assimilação a uma única personagem histórica.

Foram as Summulae Logicales que deram larga fama o seu nome. A esse livro, aludiu Dante na Divina Comédia. E foi por causa desse livro, que o autor florentino reservou a João XXI um lugar no Paraíso.

Movendo-se por entre tantas dúvidas, a crítica textual mais recente parece pouco inclinada a creditar ao pontífice todos os tratados que compõem o habitual cânone de manuscritos que lhe são consagrados. Há inclusivamente especialistas que vão mais longe, sustentando que muito poucos desses trabalhos, ou mesmo nenhuns, devem ser atribuídos a João XXI, propondo-os como a produção de um ou vários Pedros Hispanos seus contemporâneos. A polémica não sendo estéril, parece, por enquanto, inconclusiva, mas obriga a distinguir, no conjunto das obras imputadas a Pedro Hispano, entre a produção cuja autoria se encontra suficientemente estabilizada e os escritos cuja catalogação e atribuição suscitam maior discussão.

As dificuldades em estabelecer com rigor as autorias das obras de João XXI são inúmeras, e estão muito longe de ser um exclusivo do Papa português. São muito numerosos os autores e escritos da época medieval que subsistem enredados em polémicas afins, enfrentando problemas insolúveis, ensombrados por propostas contraditórias, baseadas em todo o tipo de argumentos: filológicos, caligráficos, cronológicos, ontológicos, etc.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

Por ser estudioso de alquimia, a química medieval ligada às ciências ocultas, Pedro Hispano chegou a ter a reputação de mago

Em todo o caso, considerando somente o corpo de obras de Pedro Hispano fixado com maior rigor, e descontando os muitos textos em relação aos quais existem reservas, verifica-se, ainda assim, que a sua quantidade, qualidade e impacto foram muito desiguais. Neste particular, as obras sobreviventes de medicina e de lógica sobrepõem-se às restantes: em número, em importância, na repercussão alcançada. Olhando apenas às quantidades produzidas, fica-se com a perceção de que Pedro Hispano se ocupou em especial da redação de tratados médicos. Contam-se neste capítulo cerca de três dezenas de escritos, aos quais se seguem, a larga distância, as obras de filosofia e de alquimia. Só depois vêm as peças de teologia. Quanto aos escritos sobre zoologia que lhe são apontados, afiguram-se residuais no conjunto da sua produção intelectual. Há ainda a assinalar uma obra, em tudo excêntrica ao resto da sua produção, um curioso tratado, em verso, sobre os elementos atmosféricos.

No campo dos saberes médicos, Pedro Hispano comentou praticamente todas as principais autoridades em que assentava a aprendizagem nas escolas medievais de medicina, de acordo com o elenco estabelecido pela famosa escola médica de Salerno, fundada no século X, e que teve um enorme impacto na evolução da história da medicina. Quanto à adesão à alquimia, diga-se que o interesse pela química medieval era, no período, inseparável do mundo do ocultismo e das ciências ocultas, o que lhe valeu, em alguns círculos, a pejorativa e controversa reputação de mago.

Por outro lado, foi num contexto de grande efervescência intelectual, marcado pela recuperação no Ocidente de obras perdidas de Aristóteles, que Pedro Hispano redigiu os manuscritos filosóficos responsáveis por lhe assegurar um lugar na história da Filosofia. Entre os trabalhos que lhe são imputados com mais insistência e segurança, o Tesouro dos Pobres (Thesaurus pauperum), no domínio das ciências médicas, e as Súmulas de Lógica (Summulae logicales), no ramo da lógica, são indiscutivelmente os mais famosos e celebrados.

O Tesouro dos Pobres, as receitas medievais, e a referência de Dante na Divina Comédia

O Tesouro do Pobres consiste numa lista de conselhos e preceitos médicos, contendo no seu interior um copioso número de receitas; algumas das quais terão sido elaboradas pelo próprio Pedro Hispano. No seu todo, abrangem a quase totalidade do conjunto conhecido das doenças humanas no período medieval. Os males e as receitas são apresentados segundo um critério anatómico, sendo que o texto se inicia com um rol de prescrições para as maleitas que atingem a cabeça e culmina com o catálogo das doenças e receitas relacionadas com os pés.

Quanto às Summulae Logicales, muitas vezes referidas simplesmente por Tractatus, ou por outros nomes alternativos, alcançaram fama em função da doutrina lógica exposta, que apresentava e compatibilizava tendências filosóficas opostas, nomeadamente entre os nominalistas, que aprofundaram as questões semânticas e os significados dos nomes em filosofia, e os realistas, que entendiam os conceitos universais como sendo reais. Ao longo do tempo, embora seja reconhecida, de forma unânime, a importância das Sumulae como texto didático, têm variado largamente as interpretações sobre o seu verdadeiro valor intelectual e científico.

Papa João XXI ou Pedro Hispano

Há dúvidas sobre a autoria de muitos livros atribuídos a Pedro Hispano, mas um deles é aludido por Dante na Divina Comédia

Mas é precisamente devido à sua produção científica e, especialmente, a estas duas obras em particular – o Thesaurum pauperum e as Summulae logicales – que Pedro Hispano, o Papa João XXI, deve muito da sua celebridade posterior, sem o que não passaria de uma pequena nota de rodapé na História, não obstante o seu notável percurso eclesiástico, que lhe valeu a chegada ao lugar mais importante da Igreja Católica Romana. Em especial, foram as Summulae Logicales, que cercaram de larga fama o seu nome. A esse livro, aludiu Dante na Divina Comédia. E foi por causa desse livro, que o autor florentino reservou a João XXI um lugar no Paraíso.

Era essa a ambição de qualquer cristão na Idade Média; teria de ser essa a máxima aspiração de um homem da Igreja, como fora o português durante toda a vida. Acima de tudo, seria essa, sem dúvida, a aspiração de um pontífice, o representante de Deus na Terra: entrar no Paraíso, alcançar o lugar final da Bem-Aventurança.

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