Um poço de mentes brilhantes no Reino Unido. E são portuguesas

10 Setembro 20147.248

Cientistas portugueses de topo no Reino Unido são mais de 900. O Observador apresenta alguns dos emigrantes de luxo que trabalham em terras de Sua Majestade.

Joana Moscoso está a fazer investigação em microbiologia no Imperial College em Londres e fundou uma empresa para explicar ciência às crianças. Tiago Brandão Rodrigues estuda novas técnicas para detetar se o tratamento contra o cancro está a ser eficaz. Raquel Oliveira voltou de Inglaterra para criar uma equipa de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras. São três exemplos dos cerca de 900 investigadores e estudantes portugueses a viver no Reino Unido e que fazem parte da PARSUK, uma associação que em apenas seis anos já teve um grande impacto na vida de alguns dos membros.

O Reino Unido, na verdade, é um dos destinos eleitos pelos “cérebros” portugueses. De acordo com os dados do Relatório sobre Emigração de 2013, apresentado pelo Governo no Parlamento em julho, 19% dos emigrantes portugueses naquele país são licenciados – o número mais alto entre todos os países destino de emigração portuguesa.

Para a ciência não existem fronteiras e a possibilidade de fazer investigação num grupo conceituado fora do país de origem é apelativa para os investigadores portugueses, que não excluem a hipótese de voltar a Portugal temporária ou definitivamente. São as oportunidades que ditam muitos dos percursos feitos, mas a vida pessoal também. A artista e investigadora Cristina Rodrigues vive no Reino Unido, mas passa muito tempo em Portugal onde tem um atelier. Luís Valente tem uma nova oportunidade fora do país, o que poderá levar a família a emigrar também.

As tradições portuguesas, a ruralidade e os trabalhos manuais são alguns dos focos da artista

As experiências de cada um acabam por servir de exemplo e de inspiração a muitos outros. Os encontros entre estudantes e investigadores portugueses começaram em 2007 com o primeiro encontro Luso, organizado por estudantes de Cambridge. Em 2008, foi organizado por um grupo de Oxford que sentiu necessidade de dar continuidade a estes encontros. A constituição de uma associação surgiu da necessidade de facilitar e garantir a organização do evento. Nascia assim a PARSUK (Portuguese Association of Researchers and Students in the United Kingdom).

“A ideia inicial era organizar anualmente o Luso, mas depois de constituída a associação pensámos noutras atividades, como workshops de comunicação de ciência e de empreendedorismo, a página da associação e a newsletter, almoços e jantares com cientistas e outros eventos de cariz social”, diz ao Observador Raquel Oliveira, na altura a realizar o pós-doutoramento na Universidade de Oxford. A investigadora fez parte da organização do Luso 2008 e manteve-se na direção da PARSUK durante três anos, o primeiro dos quais como presidente.

Os objetivos são apoiar a integração da comunidade portuguesa e criar uma rede de contactos entre os participantes. “Criar a associação fez muito mais diferença do que poderia imaginar no ínicio”, admite Raquel Oliveira. Além do Luso, que tem lugar no Reino Unido em junho, a PARSUK organiza também o GraPE – um fórum anual para graduados portugueses no estrangeiro – que acontece em Portugal no último sábado antes do Natal. “[Os eventos] são focados em temas da atualidade, ciência e pontes em termos de emprego” explica ao Observador Sofia Koch, atual presidente da associação.

Os membros desta associação sem fins lucrativos estão maioritariamente ligados à ciência (senso lato) e às universidades, mas têm um interesse crescente por outras áreas, como a arte e a literatura ou a economia e o empreendedorismo. “A ligação era principalmente às universidades, mas agora queremos mais ligações às empresas, tanto nos casos em as empresas abrem portas aos portugueses, como nos casos em que os portugueses querem criar a própria empresa”, conta Sofia Koch.

Para poder levar a missão da PARSUK a outros pontos do Reino Unido, a associação conta com o apoio de embaixadores – membros da PARSUK que estendem a rede às cidades onde vivem ou trabalham e que podem também organizar pequenos eventos nesses locais. Chegar a mais pessoas é o objetivo da direção atual: quer pelas redes sociais, quer pela organização de pequenos eventos com maior frequência, para chegar mais facilmente a novos membros e para manter os membros mais antigos ligados à rede.

Além dos encontros, a associação tenta apoiar tanto quem quer regressar a Portugal como quem gostava de ir estudar ou trabalhar para o Reino Unido. Mantém ainda um programa de estágios de verão em que dois alunos das universidades portuguesas podem passar um mês a trabalhar num projeto de investigação no Reino Unido – PARSUK Xperience. Para Raquel Oliveira que atualmente não conhece nenhum membro da direção “é um orgulho ver a evolução da PARSUK – as pessoas que entram trazem sempre ideias novas.”

Um dos principais objetivos da PARSUK é criar uma rede de contactos entre os membros.

Cientista e empreendedora

“Organizar um Luso foi um ponto de viragem na minha vida”, conta ao Observador Joana Moscoso, investigadora no Imperial College, em Londres, desde 2009. Foi graças a esta experiência e às pessoas que conheceu que integrou a direção da PARSUK em 2012-2013 e criou uma empresa de responsabilidade social.

Foi num encontro de amigos, numa sexta-feira à tarde no pub, que foi desafiada para participar na organização do Luso 2012, em Londres. “Foi o mais concorrido de sempre. Tivemos mais de 300 participantes”, conta orgulhosa Joana Moscoso. O doutoramento já ia no segundo ano e “estava bem encaminhado”, com resultados publicáveis, o que lhe deixava algum tempo livre para se envolver noutros projetos. Mas um dos projetos mais importantes em que se envolveu foi o Projeto Escolas.

Tatiana Correia e Joana Moscoso são cofundadoras da empresa Native Scientist

As crianças emigrantes ou descendentes de emigrantes no Reino Unido têm poucas ambições académicas devido às dificuldades de aprendizagem causadas pela barreira linguística. “Por não serem fluentes em inglês, são muitas vezes consideradas crianças com necessidades educativas especiais e portanto são colocadas em turmas mais difíceis”, refere a investigadora. Nestas turmas, os professores não se esforçam para que as crianças ultrapassem um nível mediano. Para Joana Moscoso, a comunidade científica no Reino Unido devia fazer alguma coisa. “Se há mais emigração de qualidade de portugueses, temos responsabilidade de fazer mais por essas crianças.”

Motivadas por um dos temas do Luso que tinham ajudado a organizar, relacionado com cooperação e desenvolvimento social, Joana Moscoso e Tatiana Correia, decidiram criar uma empresa. “O empreendedorismo social está muito na moda”, diz Joana Moscoso, simultaneamente cientista e fundadora de uma empresa Native Scientist. Percebendo o potencial de divulgar ciência em português, as duas jovens portuguesas decidiram replicar o Projeto Escolas. Contaram com o apoio da PARSUK e do Instituto Camões, que mantém uma rede de aulas extracurriculares de português, envolvendo 35 professores e quatro mil crianças.

Os concursos de empreendedorismo que ganharam deram-lhes “o que era preciso para o projeto levantar voo”. Com apenas um ano de vida, a Native Scientist já levou a ciência a mais de 300 alunos. As atividades são sobretudo em português, mas a comunidade de emigrantes espanhola e francesa também são alvos deste projeto de valorização escolar. O próximo passo é expandir as ações a outras áreas, porque, por enquanto, estão muito centradas em Londres. “Uma empresa social baseada no voluntariado não pode crescer muito rápido”, diz a empresária de 29 anos.

De cada vez que vão às escolas, os cientistas têm 10 minutos para falar sobre a investigação que fazem a cada de grupo de quatro crianças. Oriundos de áreas diversificadas, incluindo as engenharias, os cientistas dão a conhecer as aplicações da ciência em português. “É muito gratificante porque estamos a dar a portugueses”, disse uma das cientistas voluntárias neste projeto. “A altura em que se vêm os cientistas mais contentes é quando fazem comunicação de ciência”, contou outra. Para as crianças a experiência também é positiva. “Alguns dizem que é a aula mais divertida que já tiveram”, conta Joana Moscoso, que além de cofundadora da empresa também fala de microbiologia às crianças.

Desde os 12 anos que tinha a certeza que queria ser microbióloga. A partir daí foi motivada pela vontade de viajar. “Não vim para fora por necessidade, mas porque fazia parte de um plano”, diz Joana Moscoso. “Pensava em educar-me cientificamente lá fora, para depois implementar os conhecimentos em Portugal.” Da licenciatura na Universidade do Porto ao projeto de final de curso na Suécia, do mestrado na Austrália ao doutoramento em Inglaterra. Agora, com o primeiro ano de pós-doutoramento concluído precisa de modificar alguma coisa na vida. “Gosto de mudar, a mudança dá-me energia”, conta Joana Moscoso, apesar de adorar a cidade onde vive. “Uma pessoa vicia-se em viajar. O ideal era ter uma base em Portugal e poder viajar por outros sítios.”

Cambridge é a Disney World dos investigadores

Sem descartar a possibilidade de viajar para outros locais, Tiago Brandão Rodrigues aproveita o melhor que pode o tempo que tem passado em Inglaterra. “Cambridge é ótima para se viver e muito apelativa para os investigadores.” Para o investigador, Cambridge está para os cientistas como a Walt Disney World (um parque temático da Disney) está para as crianças.

Cambridge é uma cidade muito diferente daquelas onde já tinha feito investigação – Dallas, nos Estados Unidos, ou Madrid, em Espanha. “Tinha tido toda a minha experiência em investigação científica em grandes cidades, onde a ciência não é o mais importante, mas em Cambridge tudo gira à volta da universidade”, refere ao Observador o investigador de 37 anos.

“Tinha tido toda a minha experiência em investigação científica em grandes cidades, onde a ciência não é o mais importante, mas em Cambridge tudo gira à volta da universidade.”
Tiago Brandão Rodrigues, investigador no Cancer Research UK

Todo o percurso de investigação, até chegar a Inglaterra, tinha estado centrado na ressonância magnética e imagiologia pré-clínica (técnica médica que recorre ao uso de imagens). Tiago Brandão Rodrigues estudava os processos bioquímicos envolvidos nas doenças neurodegenerativas, mas também os processos relacionados com o cancro do cérebro ou do sistema nervoso central. Agora, no Cancer Research UK a investigação é dedicada ao cancro, em particular ao “desenvolvimento de novas tecnologias para deteção do cancro ou para ver, logo no início, se as terapias estão a resultar”.

O artigo publicado na Nature Medicine no final de 2013 mostra os resultados desta investigação. “Para ver se o tratamento está a funcionar logo nos primeiros dias pode fazer-se uma análise da atividade bioquímica do tumor, em vez de avaliar a variação do tamanho semanas ou meses depois. Nessa altura pode ser tarde demais”, explica o investigador. Esta técnica também tem um potencial de diagnóstico precoce. Mas da publicação destes resultados até à aplicação na prática clínica pode demorar ainda cinco ou 10 anos. Tal como os novos medicamentos, as novas metodologias também passam por ensaios clínicos.

No Reino Unido desde 2010 depressa se ligou à PARSUK, fazendo parte da direção em 2011-2012. “Liguei-me à PARSUK por causa do Luso.” Agora, faz parte da rede de embaixadores que ajudam a estabelecer a ligação entre os estudantes e investigadores portugueses e a PARSUK na cidade onde vive. Também organiza eventos científicos e sociais entre os membros: realizou uma sessão informal de esclarecimento sobre os projetos europeus, que contou com a presença de 30 ou 40 pessoas, e promoveu um workshop de dois dias em comunicação de ciência, patrocinado pelo programa Ciência Viva. Os 20 investigadores que participaram aprenderam a preparar um comunicado de imprensa, a falar na rádio ou na televisão e a tornar a linguagem mais acessível ao público.

Workshop de comunicação de ciência organizado pelo embaixador da PARSUK Tiago Brandão Rodrigues (à direita, de camisola azul)

Para quem deseja viajar à procura de trabalho ou de uma mudança de vida, Tiago Brandão Rodrigues alerta que “ir para o estrangeiro implica concessões” e representa algumas dificuldades em termos afetivos, mas também dá a possibilidade de “descobrir novos contextos profissionais e pessoais”. Quem queira viajar para aprender, precisa de garantir que é isso mesmo que vai acontecer no sítio de destino e alerta: “Corre-se o risco de ir e não voltar tão depressa. Abrem-se novas portas. Somos cativados por novas realidades.” O importante é aproveitar as oportunidades, mas dar passos cautelosos.

Há ir e voltar… e tornar a ir

As boas oportunidades devem ser aproveitadas. Fazer um doutoramento numa instituição prestigiada, com uma boa equipa, numa área de investigação interessante, motivou Luís Valente e Catarina Ramos do Carmo a viajarem para Londres para realizarem o doutoramento. Ele no Cancer Research UK, desde 2005, e ela no Imperial College de Londres, a partir de 2006.

Foi uma nova oportunidade, desta vez no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, que trouxe o casal de volta ao país de origem. “Voltámos a Portugal porque tínhamos oportunidade de trabalhar com grupos que nos interessavam”, diz ao Observador Catarina Ramos do Carmo, que voltou para Portugal em 2010, um ano depois do marido.

“Voltámos a Portugal porque tínhamos oportunidade de trabalhar com grupos que nos interessavam.”
Catarina Ramos do Carmo, investigadora no Instituto Gulbenkian de Ciência

Catarina espera ter mais um ano para acabar o pós-doutoramento, as duas licenças de maternidade nos últimos quatro anos atrasaram um pouco o processo. Luís, a trabalhar na Fundação para a Ciência e Tecnologia desde 2013, encontrou na Alemanha uma oferta melhor na área em que trabalha – política científica. A família vai ficar temporariamente afastada, mas Catarina Ramos do Carmo afirma que é importante para a família a estabilidade profissional.

Os bolseiros de investigação científica, embora com um financiamento de formação avançada, não são considerados estudantes, mas também não são considerados trabalhadores – têm poucas regalias sociais e não têm direito a subsídio de desemprego. Catarina Ramos do Carmo gosta do trabalho de laboratório que realiza e não exclui a possibilidade de continuar como bolseira de pós-doutoramento, mas também não põe de parte a possibilidade de concorrer para a indústria.

“Gosto muito de trabalhar com este grupo e, se me perguntarem, não quero sair”, diz a investigadora, mas sabe que pode não ter outra hipótese. Se na Alemanha o marido encontrar boas condições profissionais e se “tudo estiver a correr bem”, é provável que a família se junte a ele daqui a uns meses. “Conheço várias pessoas que estão a fazer o mesmo, um dos elementos do casal vai primeiro e, se tudo correr bem, o outro vai lá ter depois.”

Catarina Carmo e Luís Valente (ambos ao centro) participaram na organização do Luso2009

Por enquanto, Catarina Ramos do Carmo está concentrada em terminar o pós-doutoramento. Pretende perceber como é que as bactérias do género Wolbachia – que infetam vários insetos – interagem com a mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster). Estas bactérias conferem aos insetos proteção contra vírus e podem reduzir a possibilidade de o vírus ser passado para outros hospedeiros. Infetar mosquitos que transmitem o vírus da dengue com a bactéria poderá ajudar a diminuir as infeções de dengue em humanos. Quando este trabalho terminar terá de procurar novas oportunidades. “Viajar não era a primeira escolha, mas não me incomoda.” O casal só tem uma restrição, prefere ficar na Europa.

Estava na altura de montar um laboratório

Depois de ter viajado até à Holanda para cumprir parte da licenciatura e até à Alemanha para realizar o doutoramento, Raquel Oliveira teve a possibilidade de realizar um pós-doutoramento no departamento de Bioquímica da Universidade de Oxford. Mas chegou o momento em que decidiu que estava na altura de criar o próprio grupo, para pôr em prática as ideias que lhe enchiam a mente. Agora é investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, onde lidera a equipa do laboratório Dinâmica de Cromossomas.

Perceber que mecanismos atuam dentro de uma célula para que ela se divida corretamente e que papel têm os cromossomas nesse processo tem sido o foco da investigação que realiza. No Reino Unido teve a “oportunidade de trabalhar num grupo excelente”, com todas as condições de trabalho que precisava: equipamento, recursos humanos, massa crítica. A multiculturalidade do local e a dedicação à ciência potenciam as condições. “Todas as semanas havia um seminário com alguém relevante na nossa área”, refere a investigadora.

Mas após cinco anos e meio, e apesar de ter possibilidade de continuar, Raquel Oliveira sentiu necessidade de criar o próprio grupo. “Já tinha aproveitado ao máximo a minha experiência em Oxford e sentia necessidade de a aplicar de outra forma, de ser desafiada.” Foi assim que começou a procurar ativamente um instituto de investigação que a pudesse acolher. Não se sentia obrigada a voltar a Portugal, embora desejasse fazê-lo, mas, de facto, o IGC tinha a melhor oferta. “É um centro excelente, com ótimas condições e muita interação entre os diferentes grupos”, conta a investigadora que desde 2012 tem trabalhado neste novo projeto – o de coordenar pessoas.

Durante o pós-doutoramento, para auxiliar o chefe, já tinha supervisionado outras pessoas ou realizado outro tipo de tarefas normalmente atribuídas a um investigador principal. “Aprendi muito com isso, quando tive de fazer certas coisas para montar o meu laboratório, já não era a primeira vez”, diz a investigadora que agora gere uma equipa de cinco. Também foi muito importante falar com outras pessoas que já o tinham feito e, nesse aspeto, a rede de investigadores da PARSUK mostrou-se uma mais-valia.

Embora tivesse sido uma das fundadoras da associação e a primeira presidente, a PARSUK mostrou fazer muito mais diferença do que à partida Raquel Oliveira podia esperar. A ideia inicial dos encontros era o convívio, a oportunidade de falar português, mas as conversas acabavam por ter sempre “conteúdos enriquecedores”. Muitas informações úteis foram aproveitadas nesses encontros. “Beneficiei imenso com a PARSUK.”

"Quando tive de fazer certas coisas para montar o meu laboratório, já não era a primeira vez."
Raquel Oliveira, investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência

A arte escondida na ciência

Sem perder a oportunidade que se desenhava à frente dela, Sofia Koch deixou o trabalho na universidade, que a começava a desinteressar, e aceitou o desafio de trabalhar para uma empresa. “É o meu emprego de sonho”, diz ao Observador, sobre o lugar que ocupa na empresa Abcam, em Cambridge, há nove meses.

A ciência entrou na vida de Sofia Koch muito cedo. Desde que experimentou o microscópio do pai que sabia que queria ser bióloga. Mas afinal não foi. A bioquímica teve um apelo mais forte, mas a microscopia continuava a dominar os seus interesses. Agora, na empresa onde trabalha, é responsável pelas técnicas de microscopia e edição de imagem. “A empresa produz anticorpos que requerem sempre validação e controlo de qualidade antes de serem postos no mercado para venda”, explica a investigadora. “A minha função é validar os anticorpos com técnicas de imunofluorescência e imunohistoquímica.”

Com estas técnicas, que usam corantes fluorescentes, a investigadora obtém imagens que podem ser consideradas quase peças artísticas, até aquelas que não são importantes para a ciência. “Como passatempo comecei a colecionar as imagens que não interessavam pelo teor científico, mas que se destacavam pela sua beleza, cor e originalidade”, confessa. “A arte em ciência pode ter um lado didático, no sentido em que muitas imagens conseguem atrair a atenção de um público pouco ligado à ciência e estimular a sua curiosidade.”

A arte esteve também em destaque no evento Luso 2014 – “Engenho e Arte” – que ajudou a organizar no mês de junho em Bath, no sudoeste de Inglaterra. Depois do encontro de investigadores e estudantes portugueses, Sofia Koch integrou uma lista que agora faz parte da direção da PARSUK. Embora tenha assumido o papel de presidente da associação, a investigadora acredita numa estrutura horizontal, sem hierarquias. A PARSUK é para Sofia Koch “um poço de mentes portuguesas brilhantes no Reino Unido”. O desejo é que possam voltar a Portugal para aplicar os conhecimentos que adquiriram lá fora.

Sofia também gostaria de voltar a Portugal, mas não acredita que isso venha a acontecer nos próximos cinco a 10 anos. Por enquanto mantém-se ao microscópio, enquanto aguarda pela publicação dos resultados do doutoramento e pós-doutoramento que realizou Instituto Ludwig de Investigação em Cancro na Universidade de Oxford, desde 2009. Estudava uma proteína que julgava responsável pela polaridade das células epiteliais, como a do intestino, que faz com que a parte da célula virada para o interior do intestino seja diferente da que está mais próxima do exterior. “A polarização das células neste tecido [intestinal] é extremamente importante para prevenir a invasão por patogénios”, explica Sofia Koch. “Os resultados que obtive num modelo animal permitiram, por exemplo, conhecer um pouco mais sobre as causas da inflamação intestinal crónica (Doença de Crohn).” Aguarde-se, então, a publicação.

Uma manta feita de adufes

Cristina Rodrigues também participou no evento Luso 2014 dedicado ao tema “Engenho e Arte”, mas como oradora na sessão “A promoção internacional da cultura e arte portuguesa”. Sobre o evento diz que ficou “muito impressionada com uma rede de investigadores tão grande.” Além dos trabalhos desenvolvidos como artista plástica e arquiteta, Cristina Rodrigues também se dedica à investigação da desertificação em meios rurais.

Foi para Inglaterra há cinco anos, para se juntar ao atual marido, mas divide o tempo entre Portugal e a cidade que a acolhe – Manchester. “Vou a Portugal de dois em dois meses e fico por lá 15 dias de cada vez.” Vem a trabalho. Em Idanha-a-Nova, tem um atelier, mais antigo que o de Manchester, com mulheres da terra, habituadas aos trabalhos manuais. “As mulheres portuguesas têm mais aptidão para trabalhos manuais”, diz ao Observador a artista, enquanto as compara com as mulheres britânicas. “O atelier faz trabalhos mais avançados. Elas já sabem o que eu quero.”

Foi no concelho de Idanha-a-nova que reuniu material para a primeira instalação artística que criou: o Mural do Povo (The People’s Wall), que junta fotografias a preto e branco dos habitantes, as histórias destes e o som dos adufes (instrumento de precursão tocado tradicionalmente pelas mulheres). Esta instalação artística serve para chamar a atenção para a desertificação e o desequilíbrio social e económico no meio rural português. Mas a obra mais importante é A Manta (The Blanket) – uma instalação com oito metros de comprimento e cinco de largura, recheada de adufes como se dos quadrados de uma manta de croché se tratasse.

Nem só em Portugal Cristina Rodrigues trabalha com mulheres portuguesas. “Todas as contas de vidro e cristal da instalação Enlightenment foram colocadas por mulheres portuguesas a viver em Manchester.” Mas o que interessa realmente à artista é trabalhar com a emigração em geral. Recolhe mobiliário de emigrantes em Manchester que depois decora com a ajuda de artesãs profissionais e voluntárias. Fazem tranças com fitas de seda e cetim e enrolam papel para criar objetos de design.

Tudo em grandes quantidades, para alimentar as instalações de grande escala que Cristina Rodrigues coloca em museus e catedrais. Atualmente a artista tem uma exposição na catedral de Manchester, que estará patente até dia 21 de setembro. Em 2013 esteve no Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, e no Mude – Museu do Design e da Moda, em Lisboa. Para 2015, prepara uma exposição no Mosteiro de Alcobaça, para comemorar os 25 anos desde que foi considerado Património Mundial da UNESCO.

A aventura de ser enfermeiro no Reino Unido

Entre os que partem para estudar e os que partem para trabalhar nem todos o fazem de livre vontade. Nuno Pinto, enfermeiro desde 1999, conseguiu trabalhar em Portugal, mas foi obrigado a emigrar. “O que se tem assistido em Portugal nos últimos anos tem sido um destruir sistemático do sistema público de saúde em prol de interesses privados”, denuncia ao Observador. “Como não me revi neste sistema, decidi vir para Londres, viver com três amigos que já cá estavam a iniciar-se nesta aventura de ser enfermeiro no Reino Unido.”

Deixou o país onde previa vir a receber pouco “reconhecimento profissional e monetário” e onde os “interesses pessoais e económicos se sobrepõe quase sempre ao que deveria ser o melhor serviço aos portugueses” e não conta voltar. Pelo menos enquanto as condições não mudarem. No Reino Unido completou a especialidade em cuidados intensivos, no Kings College de Londres, e é nesta área que tem desenvolvido o seu trabalho.

“O que se tem assistido em Portugal nos últimos anos tem sido um destruir sistemático do sistema público de saúde em prol de interesses privados. Como não me revi neste sistema, decidi vir para Londres.”
Nuno Pinto, enfermeiro de cuidados intensivos

No âmbito do trabalho e investigação ligada aos cuidados intensivos criou, em conjunto com um médico e um programador, uma aplicação móvel – assIsT’U – para ajudar na comunicação com os doentes em cuidados intensivos que se encontravam ventilados e impedidos de falar. A aplicação tem ainda vídeos com exercícios, diários para o doente e ferramentas para os profissionais de saúde.

O enfermeiro de cuidados intensivos, como trabalhador independente, e formador na área da saúde, dedica algum do tempo disponível à Diáspora dos Enfermeiros, constituída associação este ano. A Diáspora está para os enfermeiros como a PARSUK está para os investigadores – pretende ajudar no processo de mudança e integração, tanto no contexto profissional como no contexto social. Estando acessível aos cerca de cinco mil enfermeiros portugueses no Reino Unido, a associação pretende estender-se a outros países que tenham enfermeiros portugueses emigrados, como Suíça, Espanha, França ou Bélgica.

Apresentação oficial da Diáspora dos Enfermeiros na Embaixada de Portugal

Este ano, já conseguiram realizar algumas atividades com a comunidade portuguesa. “Fizemos formações de suporte básico de vida para crianças da comunidade e estivemos presentes em festas portuguesas a oferecer conselhos em saúde e despiste de tensão arterial”, refere Nuno Pinto. A página da internet tem sido outro dos projetos desenvolvidos pelos membros da Diáspora. Para outubro, planeiam um torneio de futebol que possa juntar colegas enfermeiros de várias regiões do país.

 

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