“As paredes das cidades são as galerias com mais público”

Black Hand é conhecido como o Banksy do Irão e as ruas de Teerão provam porquê. São os dois artistas de rua – usam as paredes públicas para passar mensagens políticas, sociais, económicas ou, simplesmente, para demonstrarem pensamentos e convicções. Black Hand na capital do Irão, Banksy na capital de inglaterra. O segundo não revela a identidade por uma questão de escolha, o primeiro, por uma questão de segurança. “Segundo as leis iranianas sobre os municípios, pintar nas paredes ou fazer propaganda sem permissão oficial é um crime”, justifica.

As artes visuais são fortemente censuradas pelo Governo e, por isso, só estão acessíveis em galerias privadas e encontros de intelectuais. O objetivo de Black Hand é trazer demonstrações artísticas para a rua. “Eu prefiro que o meu trabalho seja visto por pessoas que não se levam muito a sério”, explica ao Guardian. “O núcleo intelectual e artístico desta sociedade subestima e ignora o poder do povo”.

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Graffiti alusivo aos direitos homossexuais.

 

Mas a limitação legal não travou a intenção do artista de rua. Black Hand usa o graffiti para satirizar várias situações daquele país. No Irão, a troca de órgãos é legal e as paredes de um dos maiores centros de transplante de rins, em Teerão, está coberta de informações pessoais. A cada número de telefone escrito, junta-se uma idade e um tipo de sangue. A explicação: os iranianos mais pobres estão a competir para vender os seus órgãos. De forma a ironizar a situação, o artista pintou um mural em que se vê um leilão por um rim. Depois, subiu ao norte da cidade para ver a obra terminada. O graffiti já não estava lá. Foi removido pelas autoridades iranianas. “As pessoas têm o direito de ter acesso à arte”, considera o artista.

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Graffiti alusivo à venda legal de órgãos.

“O que me inspira é a vida do dia-a-dia. Tenho mais liberdade para desenvolver várias ideias e trabalhá-las nesta arte”. Os eventos políticos são parte da inspiração de Black Hand. Quando os diplomatas iranianos se reuniram em Viena para debater uma solução para o fim das décadas de impasse sobre o programa nuclear de Teerão, Black Hand desenhou um graffiti com a mensagem: “Chega de guerra, continuem com diplomacia”. Com os conflitos sangrentos em Gaza, o artista espalhou uma mancha vermelha na parede de Teerão.

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Graffiti alusivo aos conflitos em Gaza.

A primeira obra de Black Hand nas ruas data de abril deste ano. O artista admitiu escolher “com muito cuidado” as paredes da capital com mais visibilidade para que os desenhos possam ser vistos imediatamente e registados com os telemóveis, antes que os funcionários passem e apaguem os graffitis.