Algures em 2008, Anthony Atala e a sua equipa encontravam-se num dos muitos gabinetes do Wake Forest Institute for Regenerative Medicine em Carolina do Norte, nos Estados Unidos. O motivo? Comprovar que um coelho macho conseguia, com sucesso, acasalar com um coelho fêmea. Quando Anthony Atala percebeu que o coelho macho conseguiu cumprir com a sua tarefa, ficou feliz. Não por um qualquer fetiche, mas porque tinha acabado de provar que o conceito no qual estava a trabalhar desde 1992, o de que se podem desenvolver pénis em laboratórios para posteriormente serem utilizados em transplantes, era teoricamente possível. Aquele coelho foi um dos 12 para quem Anthony criou um pénis, através de bioengenharia. Todos os coelhos tentaram acasalar: oito conseguiram ejacular, quatro engravidaram a parceira.

Um ano depois, o anúncio de Anthony criou um frenesim nos meios científicos. Não apenas pela novidade de existir alguém que conseguisse criar órgãos sexuais masculinos em laboratório, mas também pelo facto de existir uma esperança para aqueles que perderam o pénis por defeitos genéticos, lesões ou como consequência de cirurgias para tentar remover alguns tipos de cancro mais agressivos.

Atualmente, as únicas opções existentes para estes homens é a construção de um pénis através da remoção de pele e tecido muscular das coxas ou do braço. A função sexual pode ser restaurada com a colocação de uma prótese peniana, que pode ser maleável, deixando o pénis num estado semi-rígido permanente (algo que pode ser difícil de esconder), ou insuflável, através da colocação de uma bomba salina no escroto. Ambas as tecnologias têm sido utilizadas desde 1970.

Outra opção é o transplante, uma escolha que acarreta o risco da rejeição imunológica. A hipótese de o órgão ser rejeitado pode ser diminuída com medicamentos anti-rejeição, que podem ter graves efeitos secundários. O impacto psicológico do transplante também pode ser grande, especialmente com um órgão tão íntimo como o pénis. Em 2006, um homem chinês foi o primeiro a receber um transplante peniano, através de um dador. Duas semanas depois da operação, o homem e a sua parceira pediram para que o órgão fosse retirado.

Para alguns, criar órgãos humanos pode soar demasiado a ficção científica, mas para o peruano Anthony Atala, cirurgião urologista e professor de medicina regenerativa, é uma necessidade absoluta. “Ficámos completamente abismados”, explica Anthony ao The Guardian, referindo-se aos primeiros anos da sua pesquisa. “Até a ideia do próprio campo da medicina regenerativa era nova na altura. Não tínhamos a mínima ideia de como iríamos construir um pénis, muito menos fazê-lo de maneira que funcionasse como o órgão natural”. Em 1994, Anthony teve uma ajuda da Mãe Natureza. Recorrendo a uma técnica utilizada para criativos biológicos da pele, colocou o pénis do doador numa espécie de detergente enzimático durante umas semanas de modo a “lavar” as células do doador.

“No final ficamos com uma estrutura que parece colagénio — um esqueleto, se quisermos, que parece e tem a textura do órgão”, explicou James Yoo, um dos colaboradores de Anthony. “Pensem no pénis como um edifício. Se se retirar todos os habitantes e toda a mobília, ficamos à mesma com a estrutura principal do edifício. Depois substituem-se os inquilinos. É essa a ideia. Aqui o pénis é o edifício e os inquilinos são as células”.

De seguida, inserem-se no pénis as próprias células do paciente, retiradas através de uma biópsia de tecido recuperável. As células musculares, que relaxam durante uma ereção para permitir que os vasos se dilatem, são as primeiras, seguidas pelas células endoteliais que revestem a superfície interior dos vasos sanguíneos e linfáticos. Depois, o pénis fica pronto para ser transplantado.

Então, por que razão é que, seis anos após a criação com sucesso de pénis para coelhos, ainda não se faz o mesmo para humanos? Anthony explica que, como é frequente nestes casos, a ampliação é um processo complicado. “Mesmo que possamos criar pénis para pequenos mamíferos, temos de ajustar a tecnologia, os processos, a proporção de células e assim por diante, para obter estruturas cada vez maiores. É basicamente isso que temos vindo a fazer desde a experiência com os coelhos”.

Mas já se fizeram progressos extraordinários. Anthony conseguiu criar meia dúzia de pénis humanos, ainda que não se encontrem preparados para serem transplantados. Anthony e a sua equipa estão a testar as estruturas para garantir segurança e efetividade. Existe uma máquina que esmaga, estica e torce os órgãos para se certificar que podem enfrentar o desgaste do dia-a-dia. Outra máquina que bomba fluidos para testar a capacidade de conseguir uma ereção.

“São vários testes rigorosos. Mas temos estado a tentar conseguir a aprovação da Food and Drug Administration (FDA)”, o órgão governamental dos Estados Unidos responsável pelo controlo de equipamentos médicos, materiais biológicos e produtos derivados do sangue humano. “Para tal tudo tem de estar perfeito, antes de começarmos a testar pela primeira vez em humanos”.