No passado fim de semana, Lisboa voltou a receber os britânicos Wild Beasts, na quarta edição do festival Vodafone Mexefest. O Observador foi até aos bastidores do Coliseu dos Recreios para conhecer Hayden Thorpe e Ben Little, amigos de infância e os dois fundadores da banda. Hayden é o vocalista, a voz falsete que caracteriza a banda. Ben Little, guitarra e teclado. São amigos de infância, cresceram juntos e a banda com eles.

Já os tínhamos visto este ano em maio, no Rock In Rio Lisboa. Na altura atuaram no palco secundário do festival da Bela Vista, mas no passado fim de semana o contexto foi outro e coube-lhes a honra de ser cabeça de cartaz. No final da noite ficou provado que o destaque foi merecido, o Vodafone Mexefest é um evento alternativo, mais à medida do quarteto indie de Kendal.

Bem dispostos e conversadores, receberam-nos pontualmente nos camarins do Coliseu. Antes da entrevista passámos pelo backstage, onde se estavam a preparar para o ensaio de som. “Grande sala, magnífico!”, disse Ben Little. Tirou uma fotografia à plateia vazia. Por pouco tempo. Algumas horas depois, quatro mil pessoas estariam ali para os receber.

 

Os Wild Beasts não são uma banda “pop” mas são populares em Portugal. Como se sentem em relação a isso?

Hayden Thorpe: Definitivamente, sempre fomos bem recebidos aqui e agarramos todas as oportunidades que temos de vir cá. Só há pouco tempo é que marcámos este concerto e embora tenhamos uma agenda muito preenchida, assim que surgiu a oportunidade de voltarmos a tocar em Lisboa nós aceitámos. Estamos ansiosos.

Ben Little: É uma pena porque nunca tivemos um concerto em nome próprio em Lisboa.

É verdade. Vieram sempre em festivais.

Ben Little: Sim e gostávamos de dar um concerto em nome próprio mas suponho que seja difícil vir cá em digressão, com tanto material e o autocarro.

Já estão juntos há cerca de 12 anos e só lançaram quatro álbuns. O que fizeram durante o resto do tempo?

Hayden Thorpe: Essa estatística faz-nos parecer preguiçosos. Começámos aos 16 anos e só lançámos um álbum cinco ou seis anos depois. Portanto quatro álbuns em seis anos é bastante bom.

Sim, claro, e quatro EPs.

Hayden Thorpe: Acho que passámos a primeira metade das nossas vidas num período de gestação, no útero, a formarmo-nos e a tornarmo-nos na criatura que somos. Nós vimos de uma pequena cidade e a mentalidade de grupo era algo muito presente: aquele era o nosso pequeno mundo e não pertencia a mais ninguém. Não era medo do exterior mas medo de sermos contaminados. Quando éramos novos, ingénuos e abertos a novas ideias, tínhamos ideias muito fortes sobre o que queríamos ser. E quando a banda foi criada era uma criatura estranha porque nascemos no escuro, não nascemos no meio de uma cena musical, na cidade. Tal como as criaturas do mar profundo que têm sempre um aspeto estranho e que perguntam “o que há nos sítios com luz?”

E é por isso que vocês são os Wild Beasts [bestas selvagens]?

Hayden Thorpe: Exatamente [risos]

Ouvi numa entrevista que, a dada altura, vocês passaram oito meses sem se verem uns aos outros. Vocês precisam de se afastar?

Ben Little: Acho que precisávamos de tempo e de descansar da digressão. Viver uma vida normal para termos algo sobre o que escrever. Fazê-lo em digressão é difícil e parece que só se consegue escrever sobre um assunto. É bom fazer uma pausa disso tudo. E quando digo uma pausa não é bem isso porque continuámos sempre a trabalhar e a escrever.

Vocês têm outros projetos ou colaboram com outras bandas?

Hayden Thorpe: Algumas coisas mas esta é uma parte tão antiga da nossa vida e que nos consome tanto que todas as nossas ideias acabam por convergir aqui. Acho que ainda estamos a tentar atingir algo, portanto tudo o resto representa uma distração para criarmos o que pretendemos criar aqui. Está na nossa natureza darmos tudo o que temos e acho que esse período de oito meses serviu para nos recompormos a nível pessoal, porque em digressão e em salas como esta, onde estamos a fazer a entrevista, não vemos muitas cores nem sentimos muita vibração. E embora estejamos a viajar pelo mundo e a ver sítios fantásticos, temos de ter cuidado com a perspetiva que formamos dentro de nós porque nem sempre é algo bonito.

Ben Little: Há sempre a possibilidade de chegarmos a um ponto de esgotamento e tornar-se demasiado difícil.

No Rock in Rio, vocês passaram metade do concerto a tocar músicas do novo álbum e as pessoas reagiram de um modo frio, queriam ouvir músicas do “Smother” e do “Two Dancers”. E como vai ser hoje, vão insistir no álbum novo? Acho que nas rádios portuguesas o “Present Tense” não está a passar tanto como os anteriores.

Hayden Thorpe: É curioso porque não é isso que está a acontecer no resto do mundo.

Talvez estejamos um pouco atrasados em relação ao resto do mundo.

Hayden Thorpe: Talvez. Há uma coisa estranha que acontece comigo em relação à música, e talvez a todos que trabalham neste meio: após vivermos com algo durante certo tempo, torna-se parte de ti e olhamos para esses trabalhos já feitos como uma memória feliz. E passa-se o mesmo quando vejo um concerto, mesmo que uma canção nova seja um fenómeno, são as mais antigas que me tocam no coração. E depois sai mais um álbum e as canções que antes eram novas passam a ser antigas. Faz sentido? Ao vivo, provavelmente é muito óbvio que as novas músicas tenham muito mais força, que sejam criaturas mais completas do que as mais antigas. Especialmente em relação às músicas do “Smother”, em que o seu poder ao vivo residia na sua fragilidade, enquanto as do “Presente Tense” têm uma sonoridade muito mais panorâmica e forte e utilizam frequências físicas para fazer mexer as pessoas. Não é uma coisa que nos preocupe. Nunca sentimos que fôssemos uma banda que lançou aquele álbum que esteve na moda, que era tão cool e que teve uma aceitação unânime. Nunca tivemos de carregar esse fardo. Nós sempre fomos encorajados a fazer novos álbuns porque nunca estivemos naquela posição tão cool que um novo álbum representava uma responsabilidade para nós.

Neste álbum vocês fazem uma transição para algo mais eletrónico, utilizam mais sintetizadores. O que aconteceu? Porque sentiram necessidade de o fazer?

Ben Little: Acho que faz parte do processo de crescer, de aprender e de querer experimentar coisas diferentes. Tocamos juntos há tanto tempo com os nossos instrumentos que se tornou entusiasmante experimentar outras coisas, deixarmo-nos surpreender e tocar instrumentos que não sabíamos se conseguiríamos tocar. Isto não quer dizer que não queiramos utilizar mais guitarras. Não faço ideia de como vai ser a sonoridade do próximo álbum mas acho que o mais importante é continuar a evoluir e dar passos em frente. Não queremos fazer um álbum que soe ao anterior.

Tentar sempre obter algo novo.

Hayden Thorpe: Os sintetizadores e os sons eletrónicos evocam uma grande emoção. Por exemplo, um sintetizador vibrante com um baixo forte são muito mais narrativos do que uma guitarra e isso permite-nos contar as histórias que queremos de uma maneira mais vívida e isso reflete-se no nosso trabalho. As vozes não soam tão dramáticas porque o drama está todo na sonoridade. Escrevemos músicas sobre o corpo, a carnalidade e o desejo e acho que essa sonoridade é mais cinemática, mais visual.

No vídeo de “A Simple Beautiful Truth” vocês aparecem a dançar nas montanhas, algo orgânico, e depois à noite com todas aquelas luzes e néones. É uma representação dessa vossa transição?

Hayden Thorpe: É exatamente isso. Nós crescemos nos montes, naquelas montanhas, e essa relação com a natureza e essas paisagens ainda estão presentes na nossa música. Vivemos em Londres e trabalhamos lá mas não identificamos o betão e os edifícios altos como elementos pertencentes às nossas origens. Ao mesmo tempo, habituámo-nos a este modo de vida hipermoderno e esses dois aspetos estão em constante conflito dentro de nós. Qual é o melhor sítio para estar? Uma cidade enorme que nos traz obrigações e desconforto mas na qual podemos fazer coisas boas ou algures, num sítio bonito e confortável, onde talvez possas fazer as mesmas coisas mas é mais difícil? E isso está na nossa música.

Vocês começaram quando ainda se vendiam CDs e fizeram o salto para o digital. Vocês são uma banda muito consciente da vossa presença nas redes sociais – no Twitter por exemplo, suponho que seja gerido por uma agência como é habitual…

Hayden Thorpe: … Não. O Twitter é gerido por nós.

E o Facebook, é por uma agência?

Hayden Thorpe: Os managers da banda gerem o Facebook.

Sentem que isso é importante para promoverem a vossa música? Como artistas, como passaram por esta transição?

Hayden Thorpe: Não foi fácil. Muitas vezes penso que seja um grande aliado, é uma grande ferramenta de comunicação. Noutras, parece que destrói uma distância importante entre o artista e o ouvinte.

Porquê?

Hayden Thorpe: Se olharmos para o modo como Leonard Cohen, The Smiths, Cocteau Twins ou Kate Bush foram documentados, foi sempre dentro de um limite de controlo que se manteve assim ao longo do tempo, que os fez envelhecer bem.

Mas será que isso aconteceu porque eles estavam “impressos” [nos discos, nas revistas] ou porque eram bons?

Hayden Thorpe: Um bocado dos dois. Acho que a distância permite que a imaginação e o enigma tenham espaço para crescer.

Ben Little: Há algo de misterioso, uma aura…

E nem tudo fica exposto, é isso?

Hayden Thorpe: Não sei bem. Por exemplo, Joanna Newsom é uma artista de uma grande beleza e mística e não me interessa saber se ela saiu à rua para comprar um pacote de leite. Por outro lado, há pessoas que me fascinam e eu não me interesso muito pela música delas. Portanto acho que não há problema, desde que tenhamos cuidado e alerta em relação a este aspeto. Temos de ter o cuidado de não documentarmos e revelarmos a nossa vida, diariamente. Nós tivemos uma discussão sobre isto há pouco tempo. Será que é saudável para o teu espírito que tudo seja tornado automaticamente público? O que resta? O que é que nos pertence? Estas são as questões difíceis de responder.

Uma das caraterísticas dos Wild Beasts é a maneira como as vossas vozes se misturam. Isto foi consciente quando o Tom Fleming entrou para a banda ou foi algo que foram descobrindo?

Ben Little: Para mim, foi algo que funcionou mas que não foi imediato. Levou tempo e custou muito trabalho até chegarmos a este ponto. Foram anos e anos a trabalhar juntos e creio que é algo que combina bem.

Muitos me dizem que a força dos Wild Beasts está nas vozes, no equilíbrio entre elas.

Hayden Thorpe: Acho que também existe outro fator: parece que isto estava destinado para acontecer desta maneira. Isto acontece com todos os membros da banda. Passámos muito tempo da nossa vida adulta juntos e tudo isto converge numa única entidade, a banda. No entanto, não queremos deixar os “porquês” e os “comos” para serem decididos pela superstição, claro, mas tem de haver este magnetismo para que seja cativante e interessante.

E agora vão estar a fazer a digressão deste álbum durante mais um ano ou dois?

Hayden Thorpe: Durante mais duas semanas. Depois do concerto de hoje, ficam a faltar dois ou três até ao fim da digressão.

Para quando um concerto em nome próprio em Portugal? Temos boas salas para vocês tocarem, aqui em Lisboa e no Porto, vocês têm muitos fãs no Porto.

Hayden Thorpe: Claro. Obrigado pela sugestão. Nós adoramos vir cá. Na verdade, estamos sempre na dúvida se a nossa cidade preferida é Istanbul ou Lisboa.

O que vocês gostam mais de Lisboa e de Portugal?

Hayden Thorpe: Acho que é das pessoas. São muito abertas, amigáveis e íntegras. As pessoas têm boa vontade.

Ben Little: É óbvio que quando se viaja por tanto sítio, acabam por ser as pessoas que fazem os lugares. E em alguns lugares as pessoas conseguem ser mal-educadas.

Mas não aqui, certo?

Ben Little: Claro que não [risos]. Alguns lugares são mais difíceis do que outros, mas aqui não.

 

Tradução de Francisco Ferreira.