O Vodafone Mexefest despediu-se esta madrugada, depois de mais de 50 concertos espalhados por cerca de uma dúzia de salas. O segundo e último dia teve mais salas esgotadas, ainda que não faltassem boas alternativas para quem não conseguiu um lugar no concerto de eleição. Os britânicos Wild Beasts eram cabeças de cartaz mas o equilíbrio reinou na Avenida da Liberdade.

Se na sexta-feira o nosso roteiro começou em português, com Ana Cláudia, este sábado a viagem começou no Reino Unido. A sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge encheu para ver os Adult Jazz, quatro músicos de Leeds que terão chegado à idade adulta há pouco tempo, mas que mostraram alguma maturidade musical, apesar de se terem estreado em disco em agosto, com Gist Is. Adultos, sim, mas o “Jazz” que escolheram para o nome não os define. Nem vale a pena arriscar pôr-lhes uma etiqueta. Atiram-se a diferentes sonoridades e arriscam ainda mais com canções longas – pouco amigas das rádios e dos tempos modernos do multitasking. Harry Burgess, com o seu falsete e a sua guitarra, é o centro das atenções, bem apoiado pelo instrumental muitas vezes em crescendo, à la pós-rock. Para manter debaixo de olho.

AdultJazz 002-Tiago Martinho

Adult Jazz. ©Tiago Martinho/ Vodafone Mexefest

No Rossio, o Starbucks encheu-se para receber Pedro Lucas, um nome já bem conhecido no panorama musical português. Depois de ter abandonado o pseudónimo Lucas Bora Bora, o músico aventurou-se em nome próprio com o álbum Águas Livres, lançado este ano e apresentado durante o concerto.

Enquanto isso, não muito longe dali, soavam os primeiros acordes dos Salto. A banda, composta pelos primos Gui Tomé e Luís Montenegro, subiu ao palco com uma pontualidade quase britânica, marcando assim o regresso a mais uma edição do Vodafone Mexefest. À primeira música instrumental, onde o som das guitarras se misturava com uma batida eletrónica, seguiu-se uma boa dose de rock sem rodeios. As músicas foram-se sucedendo, umas atrás das outras, sem tempo para respirar ou sequer para um olá. O concerto já ia longo quando houve tempo para algumas palavras — “a noite é vossa, divirtam-se”. O público, já mais do que convencido, deixou-se cair de joelhos em “Deixar Cair”, o hit-single que perdura desde 2012.

Nuno Rodrigues subiu ao palco sozinho. E foi assim, simples, que se estreou no palco Montepio do Cinema São Jorge. Uma música depois, veio a apresentação: “olá, eu sou o Nuno. Sou o Duquesa e vou-vos tocar músicas de amor. Pode ser?”. Vieram depois os “companheiros”, Rafa, André e Cláudio, todos de Barcelos “menos o Cláudio”, que ajudaram a encher o palco e a música. Com temas inspirados “mais na namorada do que em outra coisa qualquer”, não houve só canções de amor. Houve rock ‘n’ roll. A sala, composta, deixou-se conquistar pelos ritmos rápidos e pela boa disposição de Duquesa, uma das grandes surpresas da noite.

Sharon Van Etten

Sharon van Etten. ©Ricardo Gomes / Vodafone Mexefest

Ainda bem que Kyp Malone, dos TV On The Radio, achou um dia que devia incentivar Sharon van Etten a perseguir a carreira musical. A norte-americana inaugurou o Coliseu dos Recreios este sábado, às 21h30, e foi logo recebida com um piropo de um fã. “És linda!”, gritou alguém da plateia. Sharon van Etten respondeu com “Afraid of Nothing”, do novo Are We There. As tiradas do público foram uma constante a cada intervalo de canções, e realmente a norte-americana não teve medo de enfrentar os comentários.

Ao pedido de “Quero ter os teus filhos”, Sharon respondeu ao cavalheiro com humor. “Queres ter os meus filhos? Isso é sequer cientificamente possível? Portugal está muito avançado então!”. Não era sarcasmo de irritação. A doçura vocal de Sharon van Etten estende-se à personalidade e nota-se que ela é muito querida do público. Com “Your Love is Killing Me”, do novo álbum, brindou o público com a dor de renunciar a um amor que também mata (a vida profissional, por exemplo). Tudo autobiográfico, ou não fossem as canções uma forma de expurgar o que vai de mal na alma de muitos artistas. “Every Time The Sun Comes Up” encerrou uma hora de um bonito concerto.

A partir daí começou a “hora de ponta” do Mexefest. Quase em simultâneo havia, por exemplo, Cloud Nothings, Sensible Soccers, Jay-Jay Johanson, Palma Violets e Perfume Genius. Tudo projetos que mereciam visitas. Um dos concertos mais esperados (e também mais pesados) era sem dúvida o de Cloud Nothings. O trio, guiado por Dylan Baldi, foi recebido por uma multidão entusiasmada, que encheu por completo o ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa. E a banda não dececionou. Música atrás de música, os Cloud Nothing ofereceram o melhor do seu punk rock e brindaram os presentes com um concerto memorável. Por ali cantou-se, dançou-se e pulou-se ainda mais. Já perto do final, “I Am Not Part of Me” levou o público ao rubro. Houve crowdsurfing e até um pequeno mosh pit — tudo a que um concerto de Cloud Nothings tem direito.

Do lote de apetecíveis em simultâneo, os Perfume Genius foram os campeões da procura. A sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge esgotou pelo menos 20 minutos antes da hora do concerto, marcado para as 23h00. A fila enorme tão antes da hora enganou alguns, que julgavam tratar-se da espera para que as portas abrissem. “A sala já está cheia, agora só se pode entrar se sair alguém”, ia avisando a organização. Com as poucas probabilidades de que isso fosse acontecer, muitos festivaleiros tiveram de procurar outras paragens. Quem conseguiu um lugar para ver o projeto de Mike Hadreas mostrou-se agradecido. E ao contrário de Sharon van Etten, Mike não respondeu aos comentários do público, que percebeu isso logo de início e não voltou a repetir. No São Jorge fez-se silêncio para as baladas como “Take me Home”. Em “Dark Parks”, Mike Hadreas tirou uma das camadas de roupa e sentou-se mas teclas. É ele a alma dos Perfume Genius. Quando não está ao piano mexe o corpo, balança de forma sensual. É impossível não reparar nele, nos movimentos que faz, na entrega que põe em cada canção. Caso alguém tivesse adormecido durante a primeira parte do concerto, teria certamente acordado com os berros estridentes ou em crescendo e com um cheirinho a eletrónica mais dançável, que ao fim de um par de canções voltou a serenar, com o regresso a baladas como “Sister Song” e “All Along”, que encerra o disco Too Bright, lançado em setembro deste ano. “Learning” foi tocado a quatro mãos ao piano. Valeu a pena ter chegado cedo para garantir um lugar neste concerto.

Palma Violets Marta Machado

Também houve “crowdsurfing” em Palma Violets. ©Marta Machado/ Vodafone Mexefest

Com vários espetáculos a acontecer em simultâneo e em pontos tão opostos como o Cinema São Jorge e a Casa do Alentejo, tornava-se difícil chegar a horas aonde quer que fosse. Mesmo assim, ainda nem o concerto tinha começado, e já os fãs se amontoavam na Estação do Rossio para ver os Palma Violets. À hora marcada, os londrinos subiram ao palco perante uma casa completamente cheia enquanto, à entrada, um mar de gente se debatia para conseguir entrar. O concerto, enérgico, contou com alguns temas novos, como foi o caso de “Matador”. Apesar disso, pouco tempo depois do início da atuação, foram várias as pessoas que começaram a abandonar o local. Mesmo assim, o espaço manteve-se cheio do início ao fim. Mas a festa não se fazia apenas lá dentro. Lá fora, eram várias as pessoas que tentavam encontrar o melhor lugar para ver um pouco do concerto. Houve até quem aproveitasse uma janela bem localizada para tirar uma fotografia com o telemóvel.

Do palco secundário do Rock in Rio Lisboa para cabeças de cartaz do Mexefest. Só passaram seis meses desde que os Wild Beasts vieram mostrar aos fãs portugueses Present Tense, álbum lançado no início deste ano. Sempre que atuaram em Portugal, fizeram-no em festival, mas o concerto no Mexefest, marcado para o Coliseu, foi o mais próximo que estiveram de atuar por cá em nome próprio (apesar da curta duração, 1h15 de concerto). E ainda que a base do espetáculo tenha sido a mesma – Present Tense; eles vivem no presente, não há cá nada de desfilar sucessos para entreter festivaleiros – o ambiente foi diferente daquele vivido no Rock in Rio. Já com 12 anos de carreira, quem nunca os tinha visto e se questionava se a voz de Hayden Thorpe era mesmo assim, pôde verificar que não há efeitos. Aquele timbre existe mesmo. Poderia ter-se ouvido com mais nitidez, caso o som estivesse melhor, mas deu para vibrar com “Mecca” logo a abrir, seguida de várias canções do novo álbum, como “A Simple Beautiful Truth” ou “Daughters”.  Hayden Thorpe agradeceu com um “obrigado” em português tão perfeito que enganou uma pessoa ao nosso lado: “Afinal são portugueses?!”. Depois de um curto encore, voltaram com “Wanderlust”, single de Present Tense, “All The King’s Men”, de Two Dancers (2009) e, a finalizar com um brinde com vinho, “Lion’s Share”, de Smother (2011).

Wild Beasts Ricardo Gomes

Wild Beasts. ©Ricardo Gomes / Vodafone Mexefest

A quarta edição do Vodafone Mexefest encerrou com um dia bem distribuído em termos de qualidade e variedade, o que levou a que o público também se distribuísse mais equitativamente pelas diversas salas. A dificuldade de escolher um nome como o grande destaque diz muito sobre este segundo dia de concertos, pela positiva e não pelo marasmo ou irrelevância. Cada pessoa seguiu o seu roteiro e muitos apostam já que bandas vão sair do Mexefest para os grandes festivais de verão.

A Música no Coração ainda não anunciou se o festival volta em 2015. Mas a boa organização e a bilheteira esgotada ao primeiro dia são bons argumentos para um regresso.