Kelvin é o exemplo perfeito de que um gesto durante um qualquer momento da vida de um homem pode transformá-lo num semideus. Será eterno aquele golo ao Benfica, que deu o campeonato ao FC Porto em 2012/13. Todos saberão sempre o que significa o “minuto 92”. É esse o preço de um golo imortal. Há muitos, como os de Maradona, Van Basten ou do “Fenómeno”. Mas este vive e viverá pelo peso que tem, pela facada no adversário, ferido de morte, que acabaria de joelhos. A canhota de Kelvin virou paixão no Dragão. Esta noite, no empate contra o Shakhtar (1-1), o brasileiro estreou-se com Lopetegui. Não, não fez maravilhas nem resolveu, mas foi convocado e entrou a quatro dias do clássico com os encarnados. Coincidência ou provocação?…
Devagar, devagarinho, sem ousar complicar muito a vida ao adversário. Como um duelo de ping-pong entre dois amigos que só querem meter a conversa em dia. Foi mais ou menos assim a primeira parte deste jogo, qual duelo entre dois velhos conhecidos que já tinham o destino traçado — os oitavos de final. Um falhanço de baliza aberta de Gladkiy, logo aos 4′, foi a exceção. O cruzamento partiu de Shevchuk, que enviou a bola para o segundo poste. O avançado ucraniano falhou de forma escandalosa e adiou a emoção.
O primeiro lugar do grupo já não escapava ao FC Porto. Mais: o clássico com o Benfica está a poucos dias, por isso era fácil de perceber a revolução no onze de Lopetegui, que contou com jogadores como Andrés Fernández, Ricardo, Marcano, Rúben Neves, Evandro, Quintero, Adrián e Aboubakar. O meio-campo da equipa da casa estava a dar uma goleada aos rivais, era um autêntico triângulo das Bermudas que engolia os rivais, Stepanenko e Fred. Explicação: o Shakhtar jogou num 4-4-2 clássico. Desculpas à parte, não deixa de ser interessante constatar que todos os jogadores do FC Porto já vestem a camisola da cultura espanhola, aquela que gosta de tocar muitas vezes na bola e pressionar alto. A identidade já ninguém a tira a este FC Porto de Lopetegui.
Para quem gosta de observar trabalho tático e simples, a monotonia levava safanões pelo jeito de Rúben Neves. Este miúdo, que somava o terceiro jogo a titular consecutivo, é uma maravilha para os olhos. Passa e vai, personalidade, ousadia e classe. O jogo dele tem tudo, e quando uma partida está mastigada, sem grande pressão alheia, é o trinco que toca muitas, muitas vezes na bola. Valha-nos isso. Mas as más notícias chegariam: Neves sairia lesionado aos 39′, após choque com Alex Teixeira. O Estádio do Dragão aplaudiu e muito este jovem prodígio.
#FCPxSHA: Rúben Neves torna-se o jogador mais novo de sempre a titular no FCP num jogo da Taça/#UCL. #playmaker #UCL
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#FCPxSHA: Antes de R. Neves, o jogador mais jovem a titular no FCP na #UCL era o brasileiro Anderson. #playmaker #UCL
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Os jogadores que chegavam da Ucrânia queriam pouco deste jogo. Estacionava muitas vezes no seu meio-campo, observando os de azul a tocar na bola. Só faltavam as pipocas. A equipa de Mircea Lucescu vivia das aventuras individuais de Douglas Costa, Bernard e Alex Teixeira. Este 4-4-2 não parecia lá muito bem oleado, ou isso ou faltavam motivos para correr e querer mais. Não havia um contra-ataque sólido, à velocidade da luz, como tantas vezes vimos.
Aos 25′, o FC Porto confirmava a nossa lengalenga e registava 65% de posse de bola. Do outro lado, e pouco depois, chegava um cheirinho a samba, saído dos pés de Bernard, um craque que chegou a ser falado para este FC Porto. O extremo canarinho deixou alguns defesas com a cabeça virada do avesso e tocou para Ilsinho, que acabaria por inventar e matar o lance. O Dragão ia limpando a baba, a imaginar o que não teve. Mas foi raro ver Bernard, diga-se.
Até ao fim deste primeiro tempo houve poucos momentos de sobressalto. Quaresma, que cumpria o 80.º jogo na Europa, e Adrián tentaram de longe, mas Pyatov disse “esqueçam lá isso”. Quintero ia aparecendo, a mostrar como se joga entre o meio-campo e o ataque, ou “entre linhas”, como agora se diz. O colombiano gosta de tabelar, tocar curtinho e aparecer no espaço. Tem coragem e um toque de bola digno de craque. Quem estava bem também era Aboubakar, um avançado que não terá a genialidade de Jackson nos pés, mas que sabe o que tem de fazer: servir de referência, receber e tocar de frente e surgir na área. Faltava oportunidades para rematar, mas o jogo não estava para isso (quem diria o que estava para vir, hein?).
A segunda parte não foi muito melhor, mas viu-se logo as redes de uma baliza a bailar (50′). Foi a de Andrés Fernández, o tal guarda-redes espanhol do FC Porto que jamais havia pisado um relvado para um jogo europeu. Bernard voltou a fazer das dele, mas Ricardo conseguiu cortar para canto. Na sequência, depois de o pequeno craque bater o canto, Stepanenko foi o mais decidido e cabeceou para o primeiro da noite, 1-0. A reação chegou logo a seguir, por Aboubakar, mas a canhota não estava calibrada.
#FCPxSHA: Desde 11/12 que um golo do Shakhtar na #UCL não era apontado por um jogador ucraniano. #playmaker #UCL
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Em vantagem, os ucranianos encolheram-se ainda mais. Se antes nem queriam muito deste jogo, um golo caído do céu numa bola parada era para agarrar com as duas mãos. Apesar de ficar mais introvertido, este Shakhtar melhorou no contra-ataque e gostou da ideia de ganhar um milhão de euros e aproximar-se do líder do Grupo H.
Os cerca de 28 mil adeptos no estádio quase gritaram o golo do empate, mas a bola saída da cabeça de Martins Indi, que entrou para o lugar de Neves, esbarrou na trave da baliza de Pyatov. Antes, uma ovação que mais parecia golo. Porquê? Entrou Kelvin, o tal herói das gentes da Invicta, que o associarão sempre, sempre a Jorge Jesus de joelhos no Dragão.
O FC Porto empurrou os ucranianos para trás, que estavam confortáveis nesse papel. Faltava intensidade e mais compromisso à troca de bola do FC Porto, que circulava lenta, sem descobrir espaços na teia rival — estaria a cabeça no clássico de domingo?. Mas o empate chegaria (87′). Na ressaca de um corte saído da área do Shakhtar, Aboubakar ajeitou a bola e chutou com uma senhora violência, 1-1. Que grande golo deste camaronês, que assinava o segundo jogo a titular (o primeiro foi, curiosamente, contra esta equipa). Os últimos minutos teriam um Porto sufocante, a procurar a vitória. Mas essa não chegaria. Ponto final no Dragão. Seis jogos, quatros vitórias e dois empates (16 golos marcados e quatro sofridos). Foi assim que o FC Porto assinou a caminhada para os “oitavos”.