22 de março, 1968. O recuo no tempo vale a pena, pelo menos para os fãs das obras literárias que dão vida à Terra Média, esse mundo ficcional povoado por criaturas mágicas e desenhado sob o comando da caneta e criatividade de J.R.R. Tolkien. A menos de uma semana da estreia do terceiro filme da saga O Hobbit, o britânico Telegraph fez uma vistoria aos arquivos noticiosos, limpou-lhes o pó e, pelo meio, deparou-se com uma entrevista ao escritor, realizada há quase 50 anos.

“Nunca esperei sucesso monetário”, disse o então filólogo reformado (de filologia, isto é, estudo científico da língua) de 76 anos — a conversa com os jornalistas Charlotte e Denis Plimmer aconteceu em casa de Tolkien já lá vão quatro décadas. “De facto, nem eu nunca pensei na publicação comercial quando escrevi “O Hobbit” nos anos 1930″. O certo é que o sucesso adensou desde então. Em 2012, também o Telegraph escrevia que o livro tinha vendido qualquer coisa como 100 milhões de cópias, além de estar traduzido em 50 línguas.

“Num buraco no chão vivia um hobbit”. Foi assim que tudo começou. Numa altura em que precisou de fazer uns trocos extra, Tolkien deu por si a ler diversos trabalhos de índole académica. Era uma agonia, segundo relata, mas o professor tinha como obrigação manter um determinado estilo de vida e enviar os filhos para boas escolas. A tortura não foi em vão, isto porque chegou o dia em que se deparou com uma folha em branco. Tentado, não resistiu a rasurar o papel e acabou por escrever a frase que viria a despontar a narrativa imensa que perdura até aos nossos dias.

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Mas ainda antes de O Hobbit ganhar forma, ver a luz do dia e vencer, já Tolkien pensava na demanda da irmandade, o exercício literário de nove indivíduos com o objetivo de salvar o mundo do malfadado Sauron — um manuscrito que demoraria 14 anos a ficar completo. “De todos os livros que trouxe cá para fora em 63 anos, há alguns que consigo dizer com confiança absoluta que vão vender muito depois de eu ter partido. Deste não tenho dúvidas”, disse referindo-se à trilogia do anel.

Os livros em questão não eram sobre nada, isto é, não continham intenções alegóricas, morais religiosas ou políticas. “Não é sobre guerras modernas (…) e o meu vilão não é o Hitler”. Ausência de simbologias à parte, Tolkien argumentou ainda que os contos fantásticos precisam de estar confinados a tempos e espaços lendários, caso contrário, mediante a possibilidade de o leitor poder “tecnologicamente controlar” a história, ela deixa de ser mágica. Nesse aspeto, não brincou em serviço, criando linguagens próprias e descrições históricas, sociológicas e filosóficas das personagens que alimentam o enredo. Criar um hobbit sem uma árvore genealógica, escrevem os entrevistadores, seria como deixá-lo sem carne.

Posto isto, a pergunta. A derradeira pergunta. Poderia uma saga literária como a do anel ser transformada numa longa-metragem? “Seria mais fácil filmar “A Odisseia” [de Homero]. Acontece menos nela. Apenas algumas tempestades”. E o mesmo poderia ser dito dos filmes dedicados à vida de Bilbo Baggins, em O Hobbit? Talvez, mas o certo é que para semana há mais Terra Média num grande ecrã perto de si.