Não se encontravam desde maio de 1994, quase um ano depois do famoso “verão quente”. Há quase 20 anos havia Figo, Pacheco, Juskowiak e Cadete. Desta vez havia Carrilo, Mané, Tanaka e Montero. No meio-campo, William Carvalho e João Mário fizeram de Peixe e Paulo Sousa. Há quase vinte anos os leões, à 32.ª jornada, venceram por 3-0, graças a dois penáltis de Torres e um golo de Figo. Carlos Queiroz era o treinador. Em 2015, Carrillo, João Mário, Paulo Oliveira e Montero (4-0) foram os heróis da partida e empurraram o Sporting para as meias-finais da Taça de Portugal.

O Famalicão dava que falar ao chegar tão longe na Taça, mais ainda porque eliminou nos “oitavos” o Paços de Ferreira. Daniel, Ibrahima e Feliz ficaram sentados no banco, mas são habituais titulares. É que na próxima jornada do campeonato estes homens vão disputar a liderança da Série B do Campeonato Nacional de Seniores contra o Varzim.

Apesar das ausências, entrou bem esta equipa do norte. Concentrados, rigorosos, bem posicionados e, claro, com muito coração. Foi assim que os homens vestidos de branco se apresentaram em Alvalade, colocando vários problemas aos jogadores da casa. Os quase mil adeptos ajudavam a equilibrar o campo. Isso e a linha de seis defesas que muitas vezes se viu no arranque da partida. Sacrifício era a palavra da ordem.

O melhor momento desta primeira parte aconteceu aos 33′. Foi especial, cortesia de Carrillo, que decidiu abrir o livro. William Carvalho estava com a bola guardada e escondida de ambições alheias na linha do meio-campo. Depois levantou a cabeça e programou a bola para entrar nas costas da defesa do Famalicão, dando tempo a Carrillo para lá chegar. O peruano, com um toque digno de craque, bateu na bola de primeira e surpreendeu toda a gente. A bola, caprichosamente, fugiu do guarda-redes Murcia, que já havia defendido um penálti de Montero (27′), e tocou no poste antes de entrar e misturar-se com as redes. Grande, grande golo desde jogador que está a fazer o melhor ano em Alvalade. Marco Silva sorriu serenamente, orgulhoso.

Antes do golo, Montero e João Mário (ambos aos 14′) até estiveram perto de marcar o primeiro da noite, mas os adeptos teriam de esperar. Quem aproveitou para conquistar e aquecer o coração dos sportinguistas foi Tobias Figueiredo, um central de 20 anos, que já caiu no goto dos adeptos. Aos 17′, este jovem central que se estreava em Alvalade fez um corte decisivo quando Correia ficaria na cara de Marcelo Boeck, guarda-redes que mais tarde inventaria com os pés, assustando as hostes (26′). Muito perto do intervalo, o Sporting assinava 72% de posse de bola, confirmando que era dono e senhor deste jogo. O sonho da caminhada até ao Jamor prometia viver bem alto.

A segunda parte começou de uma forma deliciosa (48′). A bola chegou a Carrillo, desta vez na esquerda, chegada da canhota de Tanaka; o peruano devolveu ao japonês, que estava dentro da área. Sem hesitar, Tanaka tocou para a entrada da área, onde surgiu João Mário a rematar. Foi feliz, a bola desviou, mas fica a bela jogada de futebol, 2-0.

O Famalicão largou as amarras. Não se agigantou, mas deixou as linhas de seis defesas e a postura exclusivamente defensiva. Na primeira parte sobressaíram Mercio, Diogo Torres e Murta, naturalmente, por aquele penálti defendido. O guarda-redes experiente, de 35 anos, que até já passou pela Primeira Divisão (Gil Vicente, 2011-2013), teve pouco trabalho no primeiro tempo. O Famalicão esteve perto do 2-1 por duas vezes: Diego Medeiros (50′) e Pedro Correia (59′) assustaram a valer os cerca de dez mil adeptos sportinguistas nas bancadas de Alvalade.

Mas o terceiro golo chegaria, castigando um competente e corajoso Famalicão, que fez por merecer outro resultado. A qualidade alheia paga-se assim. Depois de um canto curto, Paulo Oliveira cabeceou com grande pinta para o fundo da baliza de Murta. O central de 22 anos levantou os braços e pediu desculpa. Entre 2000 e 2005, Oliveira jogou nos escolinhas e infantis do Famalicão.

O egoísmo bateria depois à porta. Um minuto depois do terceiro golo da noite, Carlos Mané surgiu isolado, estava na cara de Murta, e tinha a companhia de Tanaka. Pareciam dois amigos a correr em direção a uma baliza desprotegia, tal e qual como acontecia tantas vezes no recreio. O extremo decidiu resolver tudo sozinho, mas Murta cortou a bola. Tanaka não se queixou, não berrou, não desanimou. Em vez disso, assistiu Montero para o quatro-zero, com grande classe e com o pé direito (75′).

O ponto final chegaria com mais ou menos dificuldade por causa do nevoeiro pesado. Um ou outro canto para o Famalicão e algumas movimentações de Podence, que também ele se estreava em Alvalade, foi o que se viu até final. O Sporting goleou o Famalicão e chega às meias-finais da Taça de Portugal, ficando agora à espera do rival: Marítimo ou Nacional. Estes “quartos” têm sido um festival de golos. Primeiro foi o Rio Ave, que venceu o Gil Vicente por 5-2. Depois foi o descalabro em Braga: o Sporting da cidade bateu o Belenenses por 7-1. Agora foi a vez do Sporting da capital. Como será amanhã, senhoras e senhores da Madeira?