Tamara Milagre soube há cinco anos que a probabilidade de vir a ter cancro da mama superava os 90%, quando na população em geral ronda os 10%. Graças a um teste genético preditivo descobriu que tinha uma mutação no gene BRCA1, do lado paterno. Além disso, a mãe tinha tido cancro da mama aos 44 anos. Os dados estavam lançados e não lhe restaram dúvidas sobre qual seria o melhor caminho a seguir.

Tinha três opções: fazer uma vigilância apertada para poder diagnosticar o cancro precocemente; fazer quimioprevenção com recurso a um medicamento com efeitos secundários muito fortes e que lhe baixava em 50% o risco de vir a ter cancro da mama; ou fazer uma mastectomia bilateral profilática, com redução máxima do risco.

Tamara escolheu a terceira, a mais radical, mas também a que lhe dava mais garantias de conseguir passar ao lado da doença. E aos 41 anos removeu integralmente as duas mamas. Passados oito meses colocou os implantes definitivos.

“Percebi que não tinha mais tempo a perder pois o cancro estava a espreitar à esquina”, conta Tamara Milagre.

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Mas não se ficou por aí. Logo no ano seguinte tirou também o útero e os ovários. Aos 46 nos, Tamara garante que “nunca” se arrependeu da decisão, apesar das dores e do período que esteve sem conseguir funcionar a 100%. “Tenho duas filhas para criar. Amanhã pode haver cura, e ainda bem, ficaria muito contente pelas gerações seguintes. Para mim já não vinha a tempo”, explicou a enfermeira que, desta forma, conseguiu reduzir o risco do aparecimento do cancro da mama para “3% a 5%”, na medida em que “ficam sempre umas células, mas mesmo assim estou muito abaixo do risco da população geral”, esclarece.

Quem também não quis brincar este jogo das probabilidades foi António, nome fictício. Há dois anos submeteu-se a uma cirurgia – colectomia total – que viria a mudar o seu dia-a-dia. Ficou sem o intestino grosso. “A recuperação foi demorada e a minha vida mudou um pouco. Hoje em dia tento manter uma alimentação controlada embora me digam para comer de tudo. A verdade é que quando saio da normalidade tenho de evacuar várias vezes ao dia”, descreve António, agora com 56 anos, que não se arrepende de ter decidido avançar para esta cirurgia preventiva.

Só um ano depois da cirurgia descobriu a predisposição genética para desenvolver cancro do cólon, um dos mais mortais. O conselho para avançar para esta cirurgia mais radical chegou-lhe mesmo antes disso, numa consulta no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, por ter muitos pólipos no intestino.

“O meu caso era hereditário, mas nem sei da parte de quem, pois não faço a mínima ideia de qual dos meus pais partiu nessa situação”, explica António.

Quando soube, não nega, “a minha reação foi de tristeza e pensei logo na minha filha e esposa”. E a pergunta foi inevitável: “se eu respiro saúde, caramba, porque é que só agora o meu corpo detetou esta situação?!”, recorda. Acontece que a filha e a esposa se transformaram nos principais pilares para enfrentar a operação e a vida depois dela.

António não acredita que o risco de aparecimento de cancro tenha desaparecido. “O 100% deixou de existir para mim e quando vou fazer exames duas vezes por ano e me dizem que está tudo ok, respiro de alívio”, confessa.

Mais de 100 doentes são seguidos na clínica de risco do IPO de Lisboa

Nos últimos três anos, houve pelo menos 15 doentes a fazerem uma cirurgia deste género no IPO de Lisboa, revela Isabel Claro, coordenadora da Consulta de Risco Familiar de Carcinoma do Cólon e Reto. E há requisitos que o utente tem de preencher para poder ser submetido a este tipo de operação preventiva do aparecimento do cancro do cólon: ou terem muitos pólipos no cólon (intestino grosso), não sendo possível removê-los na totalidade com colonoscopias, ou ser detetada uma alteração genética.

“A cirurgia pode ser a excisão do cólon com conservação do reto (colectomia total) ou a excisão do cólon e do reto (protocolectomia) e construção de uma bolsa que vai ocupar o lugar do reto”, detalha Isabel Claro, coordenadora da Consulta de Risco Familiar de Carcinoma do Cólon e Reto, do IPO de Lisboa.

No caso da protocolectomia, a probabilidade de aparecer cancro do cólon e reto nesse utente cai “quase 100%”. No caso da colectomia, “os doentes têm de fazer exame de vigilância do reto com intervalos entre os seis meses e um ano”, explica.

Quanto mais tarde a doença for detetada maior é o risco de o cancro já se ter desenvolvido, diz Isabel Claro, acrescentando que se houver história familiar de cancro do cólon o diagnóstico de mutação genética pode ser feito bem cedo e a cirurgia pode ser realizada no início da idade adulta (18 a 20 anos).

Sem números precisos, Isabel Claro avança que na Clínica de Risco Familiar do IPO de Lisboa são “seguidos regularmente entre 100 e 120 doentes com cirurgia profilática”. Além do cólon e reto, esta cirurgia pode ser feita também no caso da mama e dos ovários.

E para alertar as pessoas para a possibilidade de anteciparem o aparecimento do cancro, Tamara Milagre decidiu, em 2011, fundar a EVITA, uma associação que visa “consciencializar a sociedade para o risco do cancro hereditário, esclarecer quem tenha dúvidas e apoiar os indivíduos nas suas decisões informadas”. Desde então, revela Tamara, a associação tem sido procurada sobretudo por mulheres entre os 30 e os 45 anos, com filhos e “não há sombra de dúvida que já salvámos algumas vidas”.