Senhora Europa, dá licença? Ora essa, faça favor senhor Dragão. Pode entrar, já só existem oito lugares ao sol. O seu é o mesmo que utilizou naquelas seis visitas em 1987, 1994, 1997, 2000, 2004 e 2009, lembra-se? Evite só acordar a gigante Juventus, que está em sono profundo desde 1996. Escuse-se também a olhar nos olhos o Bayern, o Barcelona e o Chelsea, que estão danados para voltar a ser os protagonistas desta lengalenga. Já o preguiçoso e cabisbaixo Real Madrid, que está na suite, com morangos e champagne, é deixá-lo em paz: tem tropeçado nos próprios pés e está pesado, com fastio e sem genica (passou aos “quartos”, mas perdeu 4-3 em casa com o Schalke 04). Bem-vindo à elite dos oito fantásticos. Tome lá um queijo suíço, patrocinado por quatro distribuidores jeitosos da Invicta: Brahimi, Herrera, Casemiro e Aboubakar (4-0 vs. Basileia).

FC PORTO: Fabiano; Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro; Herrera, Casemiro, Evandro; Tello, Brahimi, Aboubakar

BASILEIA: Vaclik; Xhaka, Schar, Samuel, Safari; Elneny, Frei, Zuffi; González, Gashi, Streller

Quem não tem saudades da infância? Daquelas fugas de casa para ir dar uns pontapés na bola, que não era espetacular, escolher um nome de craque — “eu sou o Batistuta!”, “eu sou o Beckham!” –, esgotar e desidratar num relvado curtinho, duro e pesado, pintado de cinzento, que não convidava a gestos inspirados em Beckenbauer, Baresi ou Nesta. Todos os miúdos foram alguém um dia, mas essas aventuras e desventuras ficaram-se por aí, nesses tempos idos. Brahimi (ainda) faz isso tudo, aos 25 anos. Parece que está no recreio ou no quintal de casa de Paris, cidade onde nasceu. É um craque. A bola cola, o pé direito faz de colher e o corpo faz movimentos que a física deverá ter dificuldades em explicar. Sim, o argelino foi (porventura) o melhor em campo…

Walter Samuel não é homem de meiguices. Aos 13′, travou a correria de Tello já muito perto da área inimiga, mas o argentino ainda goza de um estatuto superior — deveria ter levado cartão amarelo (conseguiria ser expulso aos 91′, por duplo amarelo). Brahimi posicionou-se, respirou e tirou a pinta à baliza. A seguir deu uns passos, bateu na bola e ela, obediente e num movimento giratório que seduz, seguiu viagem, desviando-se das cabeças dos suíços. A última paragem seria no fundo das redes da baliza de Vaclík, 1-0. Este argelino já tinha feito esta brincadeira contra o Lille e Bate Borisov.

A pior notícia da noite chegaria pouco depois. Fabiano e Danilo chocaram, com um impacto impressionante. O lateral ficou inconsciente e teve de ser transportado para o hospital. A face dos colegas transformou-se, ficou pesada, gasta, preocupada. Lopetegui, o comandante sem retrovisor que tem de arranjar soluções ao segundo, chamou Martins Indi, que seria o novo lateral esquerdo, passando Alex Sandro para lateral direito. Danilo está numa grande momento de forma e até mereceu a braçadeira na ausência de Jackson.

Até ao intervalo, apenas um gesto de Aboubakar deixou o Estádio do Dragão com formigueiro nos pés. Ou com menos unhas e cabelos. O camaronês, aos 34′, recebeu de cabeça e a seguir deu uma patada violenta que rasou o poste esquerdo da baliza do Basileia. Seria um aviso para o que chegaria perto do final da partida…

Intervalo no Dragão. O FC Porto não perdia em casa para as competições europeias há oito jogos (cinco vitórias e três empates nesses últimos oito embates), por isso só havia razões para estarem confiantes os portistas nas bancadas. Mas o melhor estava para chegar: uma segunda parte de gala, com glamour, uma coisa chique, cool, com beleza para dar e vender. Houve pedalada, show e uma regra: só vale golaços. E assim foi, senhoras e senhores.

O Basileia quase não existia. Tentou pressionar em todo o campo, mas insistiu também em demasia nos passes longos, estendendo a equipa, gastando pilhas sem rigor. Os dragões, inspirados no tiqui-taca que o seu treinador basco quer implementar, destruíram o rival e deram um autêntico chocolate ao Basileia. Vamos a isto?

Bastaram dois minutos para o segundo da noite chegar neste segundo tempo. Herrera recebeu, descaído para a esquerda, fora da área, e colocou no poste mais distante da baliza de Vaclík, 2-0. Mais um belo golo. Uma coisa que não seria novidade para os 43 mil adeptos no Dragão, que aos 56′ teriam motivos para deixar o queixo cair até ao chão. Casemiro, quem sabe depois das lições de Ronaldo no Real Madrid, bateu um livre direto a fazer lembrar Beckham, Juninho, quem quiserem. Um golo daqueles de sonho, 3-0. O brasileiro ficou radiante. E com propriedade: ao golo juntou uma bela exibição, principalmente ao nível defensivo, com muitas dobras e cortes importantes.

A ópera seguiria, ao ritmo dos violinos (Brahimi e Tello, este mais tímido esta noite) e dos tambores da bateria (Casemiro e Herrera), que faziam lembrar o filme “Whiplash” pelo andamento e intensidade. Aos 76′, um belo contra-ataque, que trocou as ideias à defesa suíça, culminou em mais um golaço: Aboubakar conduziu, galgou uns quantos metros no meio-campo rival e, com jeitinho, assinou um remate de alto gabarito, 4-0. Quatro. Foi uma noite especial para a equipa da Invicta. Antes do golo do camaronês, Fabiano também teve tempo para brilhar: negou o golo a Zuffi, depois de um cruzamento de Gashi, com uma boa defesa. O guarda-redes brasileiro registou uma grande exibição, pois teve de sair algumas vezes da sua área para limpar a bola nas costas da defesa.

Ponto final no Dragão, um estádio que brindou os suíços com muitos “olés” para provocar uma equipa que mordeu os calcanhares aos portistas. Literalmente. Ou seja, o Basileia bateu forte e feio muitas vezes. Não foi bonito. E o FC Porto, vaidoso e capaz, agigantou-se como tanto gosta fazer na Europa. Nesta edição, os dragões levam sete vitórias e três empates e imaginam agora um brilharete. Sonhar é de borla, certo?