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Ciência

Imagens do Hubble: a escolha dos astrónomos portugueses

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Para assinalar o 25º. aniversário do lançamento do Telescópio Hubble o Observador convidou os investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço a escolherem as imagens preferidas.

Há 25 anos, o Telescópio Espacial Hubble, um projeto das agências espaciais europeia (ESA) e norte-americana (NASA), foi lançado para o espaço com a ajuda da nave Discovery. Desde então que a quantidade de dados recolhida é gigantesca. Entre eles algumas das imagens mais impressionantes do Universo. O Observador convidou os investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) a escolherem e a falarem as suas imagens preferidas.

O Hubble funciona como um olho dos astrónomos para o Universo. Por estar colocado numa órbita a 552 quilómetros de altitude consegue observar o Universo sem a interferência da atmosfera. Com os grandes espelhos que possui capta a luz dos objetos celestes e direciona-a para os instrumentos de medida. Para captar imagens de objetos distantes consegue fixar a posição com precisão, como se apontasse um laser a uma moeda pequena a mais de 160 quilómetros de distância.

O telescópio transmite todas as semanas 120 gigabytes de dados, o que corresponderia a mais de mil metros de livros numa prateleira, refere o site dedicado ao Hubble. Os dados recolhidos são analisados por cientistas de todo o mundo. Como resultado do que pode ser feito com os dados do Hubble, Pedro Augusto, colaborador no IA e na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, escolheu uma imagem que resulta da sobreposição de uma imagem do Hubble com observações rádio.

Esta imagem foi produzida pela minha equipa em 1997 e significou a resolução do mistério de uma estranha fonte radio (A, B, C, D): afinal A e D são a mesma, duplicada por efeito das lentes gravitacionais das galáxias G1, G2″, lembrou Pedro Augusto.

Para mostrar que o Hubble não se limitou a ser só mais um telescópio, mas realmente um objeto de medição revolucionário, Ricardo Cardoso Reis, colaborador no IA e Planetário do Porto, escolheu uma imagem que compara dois momentos da história do telescópio.

Um pequeníssimo erro no espelho do Hubble tornou-o ‘míope’, o que foi uma desilusão tremenda – o Hubble era afinal apenas ‘mais um’ telescópio. Só em 1994, com a primeira missão de serviço, foi possível instalar a WFPC 2, que tinha uma espécie de ‘óculos’ de correção”, disse Ricardo Cardoso Reis. “Este par de imagens [ver fotogaleria] marcou-me, porque mostra a transição de ‘mais um telescópio’, para ‘o extraordinário Telescópio Espacial Hubble’.”

Mas a imagem do Hubble “completamente incontornável” é a do Campo Profundo do Hubble (Hubble Deep Field). Esta imagem resultou de uma espécie de “caça aos gambuzinos”, conta Ricardo Cardoso Reis. “Vamos apontar o telescópio mais caro da história, cujos pedidos de tempo de observação são nove vezes superiores à oferta, apontá-lo durante 11 dias, para uma zona do céu aparentemente vazia, a ser se aparece alguma coisa”, diz o comunicador de ciência como se recriasse a história. “Et voilá! Num pedacinho do céu, do tamanho da cabeça de um alfinete a distância de um braço, aparecem milhares de galáxias!”

O Hubble Deep Field foi a primeira de uma série de imagens do Universo profundo. Numa pequena abertura angular entre duas estrelas, conseguem-se ver milhares de galáxias longínquas de diversas formas e cores”, explica Ismael Tereno.

“A descoberta, recenseamento e estudo de galáxias distantes tem vindo a ser uma das contribuições mais relevantes do Telescópio Espacial Hubble ao longo dos seus 25 anos de atividade. Revelou-nos, por exemplo, a história de formação estelar das galáxias ao longo do tempo cósmico”, lembra Catarina Lobo.

Se a imagem original do Campo Profundo do Hubble de 1996 permitia ver inúmeras galáxias, a soma de muitos mais dias de observação permitiu obter uma imagem ainda mais definida – o Campo Ultra Profundo (Hubble Ultra Deep Field).

Esta imagem representa a capacidade do Hubble de atingir mais longe, revelando as primeiras galáxias do Universo, as origens da própria luz.”, nota José Afonso, coordenador do IA.

“Quase todos os 3000 objetos nesta imagem espetacular são galáxias, em várias etapas da sua evolução, desde galáxias próximas ‘normais’, até incríveis galáxias irregulares e quasares no Universo distante. Esta imagem deu-nos uma visão sem precedentes da evolução do Universo ao longo do tempo”, diz Andrew Humphrey.

“A imagem deu-nos uma perspetiva única da imensidão do Universo e uma forma de ‘viajarmos’ até muito perto do início dos tempos. Para mim, esta foi sem dúvida um dos maiores legados do Telescópio Espacial Hubble”, refere Ana Afonso.

 

Mas existem outras imagens igualmente impressionantes. Para Ana Rei, aluna de doutoramento no IA e Universidade do Porto, a Nebulosa da Quilha, a preferida é a de uma gigantesca maternidade de estrelas. “De todas as imagens produzidas pelo Hubble até hoje esta foi a que mais me impressionou. E já lá vão uns anitos!” A investigadora acrescenta que “o impressionante nível de detalhe desta imagem permite-nos ver estrelas em vários estágios de formação, contribuindo para uma melhor compreensão sobre o nascimento de todo o tipo de estrelas”.

Impressionante pode ser também ver as imagens do Hubble confirmarem o que os investigadores tinham previsto que seria a realidade. Foi o que aconteceu a Ciro Pappalardo, investigador no IA e na Faculdade de Ciências de Lisboa: “Estava a fazer o meu doutoramento em França, e depois de milhares e milhares de simulações e modelos, eu e o meu orientador finalmente concordámos em qual era a melhor configuração para a distribuição do gás nesta galáxia. Depois, o Hubble tirou esta foto [ver fotogaleria]… e batia perfeitamente com a previsão! Foi a primeira vez que percebi o significado da palavra ‘investigação’.”

Entre os impressionantes e os imprevisíveis surge um outro fenómeno, o par de galáxias “os ratinhos”, escolhido por Nathan Roche, investigador do IA e da Universidade do Porto. “Os famosos ratos brincalhões. Duas galáxias em espiral, como a nossa, até que um encontro imediato, há cerca de 170 milhões de anos, formou duas longas ‘caudas’ e novas estrelas distinguíveis pela sua cor azul. Estas galáxias vão continuar a orbitar em volta uma da outra, até se fundirem, daqui a várias centenas de milhões de anos.”

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