Quase no final de “Éden”, de Mia Hansen-Love, o protagonista, Paul Vallée, que aos 20 anos, no início deste século, foi um dos mais célebres DJ da cena da música electrónica de dança francesa e pioneiro do som “garage”, e agora sobrevive de pequenos empregos e do dinheiro da mãe, fala com uma colega do curso de escrita criativa que frequenta nas horas vagas, sobre os seus gostos musicais.
A rapariga nunca ouviu falar dele, não sabe o que é música “garage”, não conhece um dos seus maiores expoentes que Paul lhe cita e diz ouvir apenas “rock antigo e os Daft Punk”. Estes são um dos raros sobreviventes, por talento e mérito próprio, dos anos em que Paul brilhou nas festas Cheers em Paris, fazendo duo com o seu amigo Stan, ícones do chamado “French Touch”, e ia com a namorada e o seu grupo a Nova Iorque indagar das novidades musicais, dançar ao som dos ídolos do “garage” nas “raves” e confraternizar e fazer negócio com eles.
https://youtu.be/TXnj6KtFvTE
“Trailer” de “Éden”
O “French Touch”
Numa época em que a arte em todas as suas expressões é cada vez mais superficial, efémera e descartável, e a cultura de massas se compagina com o pronto-a-consumir e o hedonismo colectivo, Paul é um “has been” apenas trintão de um subgénero musical que conheceu uma glória breve, uma intensa mas curta euforia geracional, e depois passou à prateleira. A sua história é-nos familiar de outros filmes ambientados no meio da música, e que narram a ascensão, consagração, ilusão de eterna juventude e fama, excessos e queda de um artista (que Paul nem sequer é, já que se limita a pôr e misturar música de outros); e de que “Éden” é mais uma variante, aqui temporalmente contígua e mais rapidamente consumada que o habitual, tendo em conta o mundo em aceleração em que vivemos e em que tudo parece durar cada vez menos.
O filme de Mia Hansen-Love ficar-se-ia por aqui, não fosse ele também um gesto de carinho da realizadora para o seu irmão, Sven Hansen-Love, co-autor do argumento de “Éden”, DJ consagrado aos 20 anos, cuja história ela conta, pois Paul é o seu “alter ego”; e não fosse ainda, tal como acontece em quase todos os quatro filmes anteriores da realizadora, uma exploração do tema da juventude, essa fase da vida em que tudo parece espantoso e possível e ao mesmo tempo muito confuso, sobretudo no capítulo dos sentimentos e dos estados de espírito. E da qual muitas vezes se é súbita e rudemente ejectado para a idade adulta e das responsabilidades. (O título remete de forma óbvia para um estado de graça paradisíaco que corresponde aos curtos “anos de ouro” de Paul como DJ, e também daqueles que o rodearam e acompanharam na aventura).
Entrevista com a realizadora e o actor
Digamos que “Éden” pode ser o equivalente cinematográfico possível, e muito prosaico, daquilo que há dois ou três séculos a literatura cultivava sob o nome de “romans d’apprentissage”, nos quais jovens heróis sem experiência se dedicavam a uma actividade preferida na qual procuravam aperfeiçoar-se e ser os melhores, e ao mesmo tempo que se viam perante uma série de obstáculos e provas que lhes deixavam mossas mas ajudavam a crescer e a enfrentar o mundo.
O conhecimento de experiência feito que os irmãos Hansen-Love, e sobretudo Sven, têm dos tempos que o filme recria, aumentam-lhe a cotação documental. E Mia escolhe um registo agilmente descritivo, livre de digressões melodramáticas, de sublinhados moralizantes e de fogos-de-artifício visuais, sempre muito próximo das personagens, dando os papéis principais a actores desconhecidos ou em início de carreira (Felix de Givry como Paul, Pauline Etienne na sua namorada Louise), e pondo caras mais conhecidas em papéis secundários (Greta Gerwig na namorada americana de Paul, Arsinée Khanjian no papel da mãe, Laura Smet noutra namorada mais velha e com gostos caros, etc.) Participam ainda, interpretando-se a si mesmas, várias figuras da música de dança, e há um delicioso “gag” recorrente envolvendo os Daft Punk e os porteiros dos clubes.
A história dos Daft Punk
Não é essencial, mas ajuda um bocado, ter pertencido à geração de Mia e Sven Hansen-Love, e dançado e vibrado ao som do “house” ou do “garage”, para melhor apreciar “Éden”. No que diz respeito à música, eu cá estou com a personagem de Greta Gerwig quando a certa altura diz a Paul, que não pára de ouvir o mesmo disco de “garage” em casa: “Não me importo de dançar com esta música, mas ouvi-la o dia inteiro é muito diferente”.