Numa declaração de consenso, um grupo de investigadores britânicos considera que deveria ser possível fazer investigação com embriões humanos, utilizando técnicas de manipulação genética para compreender melhor o estádio inicial do desenvolvimento humano. Neste sentido, e com o objetivo de utilizar esta técnica, os investigadores enviaram um pedido de autorização à Autoridade Britânica para a Fertilização Humana e Embriologia, conforme noticia a BBC.

A referida declaração resultou de um encontro do Grupo Hinxton – uma rede que inclui especialistas em células estaminais, em bioética e em política científica – que decorreu em Manchester no início do mês de setembro. Embora o grupo apoie a investigação com embriões manipulados geneticamente, também estabelece uma clara distinção entre investigação e a aplicação clínica, conforme refere um comunicado de imprensa do Instituto Francis Crick, no Reino Unido.

Os investigadores reconhecem que muito do conhecimento atual resulta da investigação em embriões de ratos de laboratório, mas algumas das células e processos são muito diferentes em embriões humanos. Fazer investigação com embriões humanos poderia trazer respostas importantes para compreender algumas causas de infertilidade ou de inviabilidade da gravidez.

“O conhecimento ganho poderia levar a melhoramentos na técnicas de reprodução in vitro e na redução das falhas de implantação usando tratamentos que não envolvessem a edição [manipulação genética] de embriões humanos”, disse Robin Lovell-Badge, membro do Grupo Hinxton e líder do Laboratório de Biologia das Células Estaminais e Genética do Desenvolvimento do Instituto Francis Crick.

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Mas Arthur Caplan, professor de ética em Medicina na Universidade de Nova Iorque, ainda que não esteja contra a técnica, considera que ainda não se esgotaram o tipo de estudos que se podem fazer com embriões animais antes de se passar aos embriões humanos. “Parece-me que antes de se tentar usar embriões humanos, temos de explicar porque é que não precisamos de fazer mais trabalho com esta nova técnica em animais.”

O encontro do grupo focou-se na discussão dos temas mais controversos das novas técnicas de manipulação genética, sobretudo as implicações que teriam não só na criança, mas nas gerações futuras a partir dessa criança – visto que uma alteração genética num embrião que fique guardada nas células reprodutoras será passada à descendência.

Os investigadores defendem que não se pode travar a investigação pelo receio de que possa ser usada para criar humanos geneticamente modificados. É por isso que consideram que a investigação deve continuar, para conhecer os benefícios e problemas deste tipo de técnicas e para estar preparado para lidar com elas no futuro. Assim como devem continuar os debates e discussões sobre o assunto, envolvendo a comunidade científica, mas também o público e os decisores políticos.

“Restringir a investigação por que se considera que a aplicação em reprodução é prematura e perigosa vai garantir que permanecerá para sempre prematura e perigosa por falta de melhor conhecimento”, afirma Sarah Chan, membro do grupo e investigadora na Universidade de Edinburgo.

Embora defenda a edição genética, o presidente da Aliança para a Medicina Regenerativa, Edward Lanphier, citado pelo Huffington Post, receia que a utilização prematura destas técnicas possa comprometer o desenvolvimento de terapias no futuro. “Estamos preocupados que um alarido público sobre uma violação ética pudesse comprometer uma área promissora de desenvolvimento terapêutico, nomeadamente de alterações genéticas que não sejam hereditárias.”

Em causa, neste pedido de autorização, está a utilização de embriões excedentários das técnicas de reprodução in vitro doados pelos doentes sujeitos a estas técnicas. Estes embriões seriam normalmente desperdiçados, mas desta forma podem ser usados em investigação – no máximo durante duas semanas e sem possibilidade de serem implantados numa mulher.

Kathy Niakan, a investigadora do Instituto Francis Crick que precisa desta autorização, pretende perceber que genes são responsáveis pelas primeiras fases do desenvolvimento embrionário humano e o que pode impedir que uma mulher complete a gestação, referiu o Guardian.

O jornal britânico refere que existem três tipos de utilização da manipulação genética. A mais frequente é a manipulação para o tratamento de doenças do sangue ou dos pulmões. Outra é a manipulação de embriões, óvulos e espermatozóides, para realizar investigação, como agora se propõe. E por fim, uma técnica para a qual os cientistas ainda não se propuseram, mas que ainda assim tem causado controvérsia, é a manipulação genética de embriões que fossem posteriormente usados em medicina medicamente assistida – como os “bebés por encomenda”.

Em abril, a equipa de Junjiu Huang, investigador na Universidade de Sun Yat-sen, em Guangzhou (China), publicou na revista científica Protein & Cell os resultados de uma investigação em que manipulava geneticamente embriões humanos. O artigo que tinha sido rejeitado tanto pela revista Nature como pela Science suscitou imediatamente reações sobre os problemas éticos.

Na altura, Ana Sofia Carvalho, diretora do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, explicou ao Observador que “a alteração do património genético é proibida na União Europeia, assim como é proibido usar fundos europeus para fazer este tipo de investigação”. Mas ainda que esta investigação levante problemas éticos e científicos que ainda não tinham sido colocados, isso não justifica, segundo a diretora do instituto, que se proíba que a ciência avance.

“O papel da bioética não é ser um cão de guarda, mas funcionar como um mecanismo de antecipação. A bioética deve ir acompanhando e ir refletindo”, lembra Ana Sofia Carvalho.

A técnica utilizada pela equipa chinesa é equivalente àquela que Kathy Niakan se propõe utilizar. Mas o regulador britânico poderá autorizar este tipo de investigação desde que seja cumprida a legislação do país e os embriões sejam destruídos ao fim de 14 dias, conforme referiu o Guardian. Em Portugal, toda a utilização de embriões para fins clínicos ou de investigação é regulamentada pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.