Clara Satchell-Silva já fez história. É a primeira portuguesa a entrar no The Great British Bake Off, concurso de talentos britânicos que põe à prova doze amadores que, ao longo de várias semanas, têm de superar diferentes provas nas áreas da pastelaria e da padaria. Por falar em pão, o quarto episódio, que será transmitido no Reino Unido na próxima terça-feira, dia 13 de outubro, será dedicado à padaria. Continuará Clara a impressionar, depois de no último episódio ter conseguido a distinção máxima, sendo nomeada Star Baker pelos júris, graças a um bolo impressionante em forma de mala que conquistou todos os presentes?
É possível, o progresso ascendente ao longo dos episódios tem mostrado uma subida na confiança e determinação da portuguesa. E, neste momento, é uma das favoritas a ganhar. Mas provas diferem de programa para programa, The Great British Bake Off é um concurso de talentos muito difícil, imprevisível e imperdoável. Essa é uma das razões para o seu sucesso e continuidade. Neste momento, está na 17.ª temporada. Faz parte da cultura popular britânica. Integra a lista dos 100 melhores programas de televisão do século XXI elaborada pelo New York Times, mas em Portugal continua a ser impossível vê-lo.
Clara, de Aveiro a Hertfordshire
Antes disso, um pouco de Clara. Tem 24 anos, é natural de Aveiro e mudou-se para o Reino Unido aos 18 para estudar marketing. Entretanto, já se licenciou. Vive em Hertfordshire, tem um noivo, Kieran, e está nos planos mudarem-se em breve para a Geórgia, nos Estados Unidos. A paixão pela pastelaria é recente. Há dois anos, Clara começou a dedicar-se seriamente a estas artes, em parte para mostrar à família de Kieran a doçaria portuguesa. Obviamente que já os introduziu ao pastel de nata. Tem um dom artístico muito presente, que tem sido bastante visível em algumas das suas criações, com bolos muito coloridos e ambiciosos.
▲ "The Great British Bake Off" é um concurso de talentos muito difícil, imprevisível e imperdoável. Essa é uma das razões para o seu sucesso e continuidade
Começou de forma discreta, à portuguesa, com insegurança sobre as suas capacidades. Apesar de se ter destacado na primeira prova do primeiro episódio, nas restantes duas não foi bem-sucedida. Ainda assim, nunca esteve em risco de ser expulsa nessa primeira etapa, e conseguiu destaque na segunda metade da classificação. As coisas mudaram significativamente no segundo episódio, dedicado a biscoitos, onde mostrou o seu jogo com maior segurança. No terceiro episódio, o último transmitido até à data, impressionou em quase todas as etapas. Na última prova deu um brilharete com um bolo em forma de mala. Estava tão segura que, quando levou o bolo ao júri, desfilou como se estivesse numa passadeira de moda, sem vacilar, sem temer que o bolo se iria destruir — o que era bem possível por causa do peso da confecção. Não levou um aperto de mão de Paul Hollywood — o elogio máximo do júri — porque ele já tinha dado um nesse episódio e há que medir a distribuição destes apertos de mão. Mas conquistou o estatuto de Star Baker nesta semana, o prémio máximo semanal. O episódio terminou com Clara a ligar ao padrasto que, em alta-voz, respondeu em excitação com uma série de palavrões. Certíssimo.
“The Great British Bake Off”: um fenómeno que atravessa gerações
Há cerca de um mês estreou no Filmin o documentário A Spurtle Dourada, em volta de uma competição anual de papas de aveia. Há algumas décadas, numa pequena comunidade nas Terras Altas Escocesas, alguém teve a ideia de criar um campeonato do chamado “porridge”. Há uma equipa dedicada a programar cada edição, há jurados, toda uma equipa de lavagem de tachos e talheres e, no ano em que o documentário foi filmado, uma série de preocupações técnicas para que a rodagem não interferisse com a competição. Começou como algo local, neste momento há quem viaje da Austrália para participar. Este tipo de competição local é um fenómeno comum no Reino Unido. Existem nas aldeias concursos dos mais diversos tipos, muitas vezes aproveitando especificidades próprias da região. É uma forma de criar comunidade e tradição e juntar as pessoas em locais onde a população gosta de ter tudo planeado e saber o que esperar ao longo do ano. E, claro, beber um copito ou outro.
Foi a partir deste princípio que a produtora Anna Beattie teve a ideia de criar um concurso de talentos em volta de bolos e pastelaria. É uma tradição de séculos mostrar o que de melhor se faz em casa, competir num ambiente de festa local. The Great British Bake Off tem muito desse espírito. Cada temporada é filmada durante o verão e, desde há vários anos, no terreno de uma daquelas casas de campo britânicos absurdamente gigantes, dentro de uma tenda montada para o efeito. Esta temporada foi disputada em Welford Park, a localização mais comum das dezassete edições do concurso de talentos.
Estreou-se na BBC Two em 2010 e o sucesso crescente fez com que se mudasse para a BBC One quatro anos depois. Contudo, ao fim de sete temporadas — num pico de popularidade, o final da sétima temporada teve mais de 16 milhões de espectadores — a BBC decidiu abandonar o formato. O Channel 4 não adormeceu e pegou no programa, transmitindo-o desde então (2017) até hoje. A média de espectadores já não é a mesma de outros tempos, mas mantém-se ali nos sete milhões. Cerca de 10% da população. Não está mau.
Cada episódio tem uma temática diferente e é partido em três provas. A primeira chama-se “Signature Challenge”, onde os pasteleiros apresentam uma receita que conhecem bem e estão fartos de experimentar, seguindo uma série de parâmetros. Segue-se o “Technical Challenge”: sem grandes segredos, é uma etapa de técnica. Provavelmente a mais exigente nos episódios iniciais, onde os concorrentes são testados com tarefas desafiantes que depois são avaliadas numa prova cega. Por último, há o “Showstopper Challenge”, onde se pede para brilhar, criar algo que mistura talento e técnica, que tenha uma aparência de fazer cair o queixo e mantenha um sabor magnífico. Foi aqui que Clara brilhou no último episódio.
▲ Nigella Lawson e Paul Hollywood são os jurados. Alison Hammond e Noel Fielding são os apresentadores
Patch Dolan
Há uma cara que está lá desde o início, a de Paul Hollywood. É um daqueles chefs-celebridade, cuja carreira junta presenças em programas de televisão (seja de culinária ou de viagens), livros e, claro, júri no The Great British Bake Off. A acompanhar Paul têm estado diferentes nomes da área. Primeiro foi Mary Berry, substituída na mudança para o Channel 4 por Prue Leith. No início deste ano foi anunciado que Prue iria abandonar o lugar. Dias depois, a instituição Nigella Lawson foi anunciada como a futura parceira de Paul. Os jurados do Bake Off são sempre pesos pesados.
Existem também, claro, os apresentadores. Na BBC eram Mel Giedroyc e Sue Perkins (esta última envolveu-se em mais do que um acidente nas primeiras temporadas, destruindo bolos que os concorrentes estavam a preparar). Com a mudança para o Channel 4 entrou o comediante e ator Noel Fielding, que tem permanecido até hoje, acompanhado por diferentes colegas ao longo da última década: Sandi Toksvig, Matt Lucas (de Little Britain) e Alison Hammond, parceira televisiva desde 2022.
De meados de setembro até meados de novembro, The Great British Bake Off é um dos programas mais falados no Reino Unido. Toma conta da conversa do dia-a-dia, dos comentários nos jornais, das redes sociais, havendo sempre um programa de comentário logo a seguir a cada episódio, de seu nome An Extra Slice (Uma Fatia Extra), e uma versão dedicada a profissionais, que costuma passar na primavera. A BBC perdeu o Bake Off, mas tem variações do mesmo para outras categorias, The Great British Sewing Bee (dedicado à costura) e o The Great Pottery Throw Down (virado para a cerâmica). Ambos no ar há mais de uma década, também divertidos, mas não na mesma medida. Bake Off é o rei.
Contudo, o rei não tem transmissão em Portugal. Fora do Reino Unido é transmitido nos Estados Unidos, Canadá — onde passa como The Great British Baking Show — e na Austrália. Também tem direito a versões localizadas: nos EUA há o The American Baking Show, na Austrália o The Great Australian Bake Off, em França o Le Meilleur Pâtissier, no Brasil há o Bake Off Brasil e até Itália tem a sua versão, onde há o hábito de haver desafios como criar bolos que brilham no escuro. Talvez a presença de Clara no concurso inglês possa mudar alguma coisa.
O hype por Clara justifica-se?
Sim. E há que ter a noção que tudo pode terminar nos próximos dias — são as realidades de um concurso de talentos feroz. Clara foi imediatamente apresentada no primeiro episódio como a primeira portuguesa a participar no Bake Off. A sua resposta? “Espectacular”, assim, em português. Por falar nisso, Alison Hammond já tentou falar português com Clara e a concorrente teve de lhe chamar a atenção de que estava a falar em espanhol. O primeiro bolo chamava-se “Taste of Two Homes”, uma alusão a Portugal e Inglaterra, onde apostou numa receita que não é estranha a Nigella Lawson: um Chocolate Stout Cake. Recebeu elogios pela textura.
Seguiu-se o difícil teste técnico. Pedia-se para fazer um bolo de café e nozes. Apesar do bolo estar bonito, não caiu no paladar do júri. Clara ficou em oitavo lugar nessa prova. Seguiu-se o Showstopper, foi pedido aos participantes que criassem um autorretrato. Clara apostou num bolo de pistáchio, no topo um retrato seu, desenhado à Van Gogh. Estava bom, mas muito longe de ser matador.
No segundo episódio as coisas mudaram substancialmente. Era a semana do biscoito e arrancou com o desafio de produzir trinta biscoitos iguais, ao estilo americano — grandes. Os biscoitos de Clara tinham o ótimo nome de Til Tiramisu Do Us Part. Quase recebeu um aperto de mão de Paul. Tanto ele como Nigella elogiaram o quão incríveis estavam, mas o recheio estava um bocadinho demais.
▲ Cada episódio tem uma temática diferente e é partido em três provas
No segundo desafio — o técnico — foi-lhes pedido para replicarem um clássico britânico, o Iced Gem, um biscoito amanteigado com um recheio colorido, que faz parte do imaginário britânico e das digestões de todas as crianças. Aqui as coisas correram particularmente mal, os concorrentes tinham de recriar um biscoito sem receita, apenas pela visualização. A maior parte dos concorrentes falhou no desafio, Clara não foi exceção e ficou em décimo: os biscoitos não estavam bem cozinhados. Deu a volta no desafio final, foi pedido para criar um mosaico de biscoitos. Clara ficou no top 3 com o seu Euro Summer Biscuit Mosaic. Era lindíssimo.
Chegamos então ao terceiro e último episódio transmitido. Uma estreia nos desafios de The Great British Bake Off, foi pedido ao público que criasse os três desafios. O primeiro foi fazer um cheesecake com um familiar. Clara escolheu o noivo, Kieran, e juntos criaram o Honky Tonk Cheesecake, com uma bandeirinha dos Estados Unidos no topo — os dois com chapéus de cowboy —, aludindo à mudança futura. Correu bem, foi dos mais apreciados, Clara só falhou, mais uma vez, em excesso: esticou-se um pouco nos toppings.
A etapa técnica foi, mais uma vez, muito desafiante para quase todos os concorrentes. Fazer um bolo sem receita a partir de um conjunto de ingredientes secretos. Clara apostou num bolo de amêndoa e limão e sofreu dos problemas gerais que acontecem nesta prova: apesar de ter um aspeto óptimo para as duas horas que lhe foram dadas, o bolo não estava bem cozido.
Seguiu-se o momento em que mais brilhou até agora, com a mala Pina Couture. O público pediu aos concorrentes para fazerem um bolo que se pudesse usar. Houve muitos chapéus, um concorrente fez um mega biscoito em formato asas de borboleta, Clara foi muito ambiciosa e fez uma mala, muito bonita, que até tinha marcas de crocodilo. Paul e Nigella acharam o bolo delicioso, com um excelente equilíbrio de sabores e surpreendentemente leve para o tipo de bolo que era. Numa palavra: excecional. E levou com a estrela da noite.
Contudo, ser Star Baker não é uma garantia de imunidade. Nem uma garantia de que as coisas continuarão a correr bem. Aliás, pode até colocar mais pressão em Clara. É um problema bastante comum no The Great British Bake Off, com concorrentes a sucumbir à pressão depois de uma sessão de provas lhes ter corrido excecionalmente bem. O percurso de Clara tem sido ascendente e, nos três episódios já transmitidos, está claramente no top 3. A receita é, portanto, continuar. O quarto episódio é dedicado a pão, algo bem diferente daquilo que os concorrentes têm feito até agora. A ver o que sai do forno.