Ao contrário de outros, menos afortunados, que continuam a ser artistas no arame, David Oliveira tornou-se um artista do arame. E se é certo que todo o artista pretende deixar uma marca, no caso dele não há dúvida de que o objetivo foi atingido: as suas obras têm um traço bem reconhecível. E aqui traço não é uma metáfora para dizer estilo: é que os seus trabalhos parecem mesmo desenhos a lápis feitos no ar. Porém, são esculturas. Ou instalações. O nome é o que menos importa.

David Oliveira tem 35 anos e há sete que se dedica a criar estes curiosos objetos. “O que me atraiu no arame foi a capacidade de gerar uma linha, livre, que se pudesse movimentar no espaço tridimensional”, explicou ao Observador.

Assume-se como um artista visual. Licenciou-se em Escultura (na Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa), especializou-se em Cerâmica e fez o mestrado em Desenho e Anatomia Comparada (Animais). Depois deu aulas, trabalhou no teatro (como técnico, aderecista e cenógrafo) e há três anos que vive apenas da sua arte. O sonho de uma vida para muitos, alcançado por ele aos 32 anos.

Intitulada ‘Movimento Total’, a exposição que agora está patente no Carpe Diem (à Rua de O Século, 79, em Lisboa) evoca o movimento do Homem no espaço mas também no tempo: a sua evolução enquanto espécie. Ele é o último elo da cadeia. No entanto, não há aqui figuras humanas representadas, o que foi intencional. “É uma forma de pensar o Homem através dos animais que partilham a sua história no planeta. Eles são as testemunhas da nossa passagem”, afirma David.

E assim, espalhada por duas salas da exposição, surge uma autêntica família numerosa de animais saídos das suas mãos. David explica: “Através do uso de arame e de poliamida (tule) evoco 18 espécies. Construo-as de dentro para fora, partindo da premissa evolutiva que todo o organismo natural deriva de um anterior, e de que o movimento é o motor da biodiversidade.”

Entregue aos bichos

A exposição divide-se entre o habitat aéreo e o aquático. Na escadaria da entrada encontramos os pássaros: a coruja, o papagaio, o tucano, o cisne, o pato, a cegonha, o abutre e uma garça. Suspensos no ar e representados em pleno voo. Na sala do fundo, as criaturas marinhas: o peixe vela, o atum, as medusas, as douradas, o carapau, a raia, o polvo e até uma foca grávida. Todos eles à escala, em tamanho real.

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Dar asas à criatividade: esculturas de aves, num movimento suspenso, feitas de arame © Hugo Amaral/Observador

Este projeto surgiu após nove meses de gestação, durante os quais David Oliveira teve um ateliê em permanência no edifício onde agora expõe o resultado do seu trabalho. Algumas peças terminou-as num só dia, outras numa semana e houve até as que demoraram um mês. “Cada peça apresenta o seu desafio”, explica. “Pode ter a ver com a estrutura, a composição ou a lógica…” Mas o verdadeiro desafio, confessa, está em conseguir passar a mensagem.

“Por exemplo, quando comecei a fazer os pássaros, a minha irmã perguntou-me se aquilo eram dinossauros. Fiquei delirante.”

Através destas figuras, David Oliveira propõe uma forma de a arte se relacionar com questões atuais, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. Defende “uma arte de propaganda, cujos ideais falem de ética, respeito e educação”.

A inspiração vai buscá-la a “todos os homens e mulheres que acreditam em ideais e lutam por eles”. “Estou a falar dos que conhecemos: Leonardo Da Vinci, Martin Luther King, Rosa Parks, Gandhi, Steve Jobs, Malala Yousafzai, Nelson Mandela; e dos que desconhecemos mas que fazem do mundo um lugar melhor”, afirma.

David Oliveira vai traçando os seus desejos para o futuro. Quer expor os seus animais aquáticos no Oceanário e os pássaros no Museu de História Natural. E, acima de tudo, gostaria de ver os seus trabalhos “em sítios públicos, acessíveis a todos, pobres e ricos, crianças e velhos”. E conclui: “Acredito que a arte deve fazer parte da vida.”

O quê: Exposição ‘Movimento Total’, de David Oliveira
Quando: Quarta-feira a sábado, das 13h às 19h (até 18 de dezembro)
Onde: Carpe Diem – Arte e Pesquisa (antigo Palácio Pombal), Rua de O Século, 79, Lisboa
Quanto: Gratuito

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