Artigo publicado originalmente a 17 de outubro de 2015 e republicado esta sexta-feira, a propósito da morte da cantora Miúcha.

Casado nove vezes, apaixonado umas duzentas. Em vários países, arrisca Miúcha. Georgiana de Moraes, terceira de cinco filhos de Vinícius, não sabe se nas visitas a Portugal alguma vez o coração bateu mais forte por uma mulher. Mas confirma que o poeta e compositor brasileiro se apaixonou pela vila de Óbidos e que até tentou comprar lá uma casa. Foi também em Óbidos que o Observador se encontrou com Georgiana e com a irmã de Chico Buarque.

Durante o soundcheck que antecedeu o concerto desta quinta-feira à noite, que marcou a abertura do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, os turistas iam chegando, atraídos pela música, e iam ficando. Miúcha começou com “Eu sei que eu vou te amar”, composta pela imbatível dupla Vinícius de Moraes e António Carlos Jobim. As duas foram cantando aquilo que o amigo e pai escreveu, de “Carta ao Tom” a “Samba da Benção”, passando por “Saudades do Brasil em Portugal”, o fado bossa nova, como lhe chamou Miúcha.

“O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal”

E, claro, “Chega de Saudade”, para muitos a gravação onde nasceu a Bossa Nova. Vinícius de Moraes morreu há 35 anos, mas as duas surpreendem-se com a presença tão atual do “poetinha” — como lhe chamava Tom Jobim — na cultura brasileira contemporânea.

A conversa com o Observador aconteceu antes do ensaio. Miúcha, filha do grande amigo de Vinícius, Sérgio Buarque de Holanda, cresceu com a presença do poeta e compositor. Atuou com ele. Ainda canta as letras que ele escreveu. Georgiana de Moraes nasceu do terceiro casamento de Vinícius, com Lila Bôscoli. As memórias acumulam-se e as histórias de quem com ele conviveu multiplicam-se nesta entrevista cruzada. Parece que, afinal, não chega de saudade.

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Miúcha: Está provado que ele era eterno, a gente é que não estava percebendo [risos]. Enquanto a gente conviveu com o Vinícius, vivemos uns tempos incríveis. A gente já estava vivendo a história, não estava só passando umas noites engraçadas. Há 10 anos eu andei pelo Brasil inteiro e fiquei muito impressionada com crianças querendo saber do Vinícius, do Tom Jobim, do Chico Buarque, crianças que sabiam músicas! Isso me espantou muito. Rola uma eternidade.

Georgiana de Moraes: Parece que tem momentos no mundo em que tudo acontece. No Brasil foi cinema, música, foi um momento de muita…

M: Efervescência criativa.

GM: É. Tem muitos músicos bons agora, mas que a gente sabe que aquela foi uma época especial, foi. E não esmoreceu. Nós, filhos, temos uma empresa para cuidar da memória e da obra dele. Eu, que agora estou um pouco mais próxima do trabalho diário, me impressiono muito com a quantidade de pedidos diários, ou de colégios, para usarem músicas, ou de pessoas que querem fazer peças, ou shows… A importância para os compositores, Caetano [Veloso], Gilberto Gil, a gente viu. Mas ver isso nas pessoas que não viveram aquela época, para mim, foi impressionante.

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Miúcha, à esquerda, e Georgiana de Moraes, à direita, no soundcheck antes do concerto. © Hugo Amaral/Observador

M: Vinícius era um agregador, tanto com os amigos como com os parceiros. Ele estava sempre pronto para dar força ao menino que chegava com uma música nova. Ele foi dando oportunidades e ajudando as pessoas a fazerem uma obra melhor, e hoje eu acho que esse processo está meio acéfalo. Isso mudou muito. Ele inventou realmente uma linguagem coloquial para a poesia, que antes era muito desesperada. Na música também. Tinha muita gente que achava que ele tinha de ter um nome diferente como letrista, como se fosse uma arte menor. E ele sempre foi muito enfático, dizendo: “Não, para mim é a mesma coisa! A poesia brasileira ou a letra da música, tudo é a nossa cultura e o nosso sentimento”.

GM: As pessoas sempre têm uma história para contar sobre ele.

M: Então sobre namoradas, umas duzentas, de vários países [risos].

GM: Quando a gente faz show, sempre tem alguém que vem dizer: “Olha, Vinícius teve uma importância na minha vida, o dia em que eu encontrei com ele foi o dia em que eu passei a gostar de poesia”… São infindáveis as histórias.

M: São marcas muito poderosas que ele deixou e que as pessoas querem contar. Mas tem muita mentira também, muito folclore.

GM: O Edu Lobo diz que a música “Canto Triste” foi feita em Petrópolis. O Edu era um garoto ainda e Vinícius já um compositor. E ele conta que tocou o “Canto Triste” e que Vinícius escreveu a letra não em muito tempo e que deu para ele. E que ele levou a letra dentro do sapato, porque tinha a sensação de estar com um cheque em branco na mão, que aquilo era uma coisa que ele não podia perder de jeito nenhum

Manuel Bandeira-Chico Buarque-Tom Jobim-vinicius de Moraes

Da esquerda para a direita: Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. © Pedro de Moraes / Acervo Instituto António Carlos Jobim

GM: O ambiente em casa era muito festivo. Nas várias casas na verdade.

M: Em casa do meu pai também rolava, e em vários países. A gente morou no Rio e em São Paulo, depois em Roma, Vinícius era cônsul em Paris, e muito frequentemente chegava lá em casa, sempre namorando alguma artista linda e meu pai babando de inveja [risos].

GM: Vinícius é tão presente que… É, como pai ele foi ausente. Eu nem sei se a ausência foi o difícil em ser filha de Vinícius de Moraes. Mas uma vez entendida, é uma coisa tão boa… Há tanta coisa que foi recebida pela vida fora dele, que ficou, que eu estava ali, que eu peguei, que eu experimentei, essa herança tem uma vida muito longa. Vai ao contrário porque vai ficando melhor.

M: Acho que desde que eu nasci que ele frequentava a casa dos meus pais. Já fazia parte. Meu papai ficava com ciúmes porque o Vinícius era louco por mulher e por criança, então ele ficava brincando e papai queria conversar, não achava a menor graça [risos]. Quando a minha filha com 15 anos foi cantar com ele na Baía uma vez, ele nunca teve diferença entre a pessoa ser nova, velha, branca, pobre, ele tinha uma comunicação espantosa. Chegava para você e te dizia alguma coisa que te marcava e você passava a ter uma confiança enome nele.

GM: Ele era muitas vezes chamado para conciliar, para desfazer brigas. A Nana Caymmi uma vez chamou Vinícius para acabar com uma briga que estava tendo com a mãe. Todo o mundo aceitava ouvir ele. Era um agregador.

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M: Eu conheci a Georgiana na barriga da mãe dela. Temos 15 anos de diferença.

GM: Mas somos amigas há 40 anos. Inseparáveis.

M: Inseparáveis.

GM: Este espetáculo foi nascendo. A gente já tinha feito tantos juntas por tanto tempo e aí vêm essas datas, como o centenário, em que aparecem ideias. A gente fez uns primeiros shows pela América Latina e aí ele renasce de vez em quando.

M: Nós atuamos as duas com Vinícius durante um ano e meio.

GM: É, sentia a responsabilidade, não sei como é que eu consegui atravessar aquilo! Foi difícil, mas também foi uma universidade. De tudo.

M: E foi um ganho. Era só ver a cara de coruja dele, olhando para a Georgiana. “Essa eu que fiz!” [risos].

GM: Mas ele era muito exigente.

M: Era. Ele tinha um alto grau de profissionalismo que a gente não acreditava. A gente via sempre o Vinícius rindo, brincando, e eu me lembro de uma vez em que Georgiana e eu nos atrasamos, chegamos à última da hora no show e fomos passar a ferro um vestido, levamos o maior raspanete dele. “Vocês têm de aprender a ser pontuais e profissionais!”. Parecia que não, mas ele era absolutamente rigoroso nos horários, na armação do show. Ele tinha uma ideia de palco que nenhum de nós, nem o Tom Jobim, tinha. O Tom ficou o tempo todo mais dedicado aos discos, à composição, mas não ao palco. E Vinícius tirou de letra, ele é um homem do palco. Tudo isso a gente tenta pegar dele.

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Durante o ensaio, os turistas iam sendo atraídos pelo som do Bossa Nova. © Hugo Amaral/Observador

GM: Antes da “Garota de Ipanema”, o disco que tinha em casa quando eu era muito pequenininha era o Canção do Amor Demais, da Elizete Cardoso cantando músicas de Tom e Vinícius. Dizem que foi o marco da Bossa Nova porque na “Chega de Saudade” tinha o violão do João Gilberto, que mudava tudo! Aquilo foi a passagem. Então esse disco eu ouvia em criança e já me emocionava muito com aquelas músicas. Aí, quando chegou “Garota de Ipanema” a gente já estava familiarizada. E adorava, como adoro até hoje. Adoro. Dizem que é a segunda música mais tocada no mundo. Porque ela é muito gravada e vai de uma música de fundo à gravação de Amy Winehouse. Uma vez, o José Miguel Wisnik, numa aula show que ele faz sobre Vinícius, disse que a coisa do balanço da música desaparece em inglês: “Tall and tan and young and lovely”. Em português é: “Olha que coisa mais linda”. O balanço se perde.

GM: Eu sei tudo sobre o romance da minha mãe com Vinícius. Ele era casado com a Tati [Beatriz de Moraes], a primeira mulher, e eles tinham um amigo em comum, o grande escritor e cronista brasileiro chamado Rubem Braga. Um dia eles estavam no mesmo lugar, o Rubem chegou e os apresentou assim: “Vinícius de Moraes, Lila Bôscoli. Lila Bôscoli, Vinícius de Moraes. E seja o que Deus quiser” [risos]. Ela sempre dizia: “E foi!”. Estiveram juntos oito anos. Para Vinícius foi um bom tempo.

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Vinícius com Georgiana ao colo. ©D.R.

GM: É verdade que Vinícius quis comprar uma casa em Óbidos. Ele vinha muito a Portugal, já tinha grandes amigos aqui. E acho que em época de lua-de-mel ele gostava de comprar casa nos lugares [risos].

M: Montar o ninho, né? Vamos ser felizes para sempre.

GM: Exatamente. Quando ele estava casado com a Marta, a argentina, ele não chegou a comprar casa mas alugou uma em Punta Del Este, ficou ali um mês. Então acho que quando ele estava aqui por Portugal com a Cristina [Gurjão], chegou a Óbidos e achou que era aqui que ele queria ficar, numa destas casinhas floristas. E parece que tentou comprar, mas acho que por qualquer razão não conseguiu. Mas eu me lembro dele falar muito de Óbidos. Então viemos parar aqui. Que bom!