Na vila de Óbidos vão caber mais de 400 autores portugueses e lusófonos, muitas apresentações de livros, debates e espetáculos. Tudo isto é FOLIO, o Festival Literário Internacional de Óbidos que nasce a 15 de outubro com inspiração na Festa Literária de Paraty, no Brasil. O objetivo é fazer “o maior encontro internacional de literatura em Portugal”.

Há dois anos, a Ler Devagar surpreendeu ao criar, numa vila com cerca de três mil habitantes, várias livrarias. O projeto, que ficou conhecido como Vila Literária de Óbidos, cria agora este festival ambicioso, cheio de escritores e artistas do triângulo Portugal-África-Brasil. O centenário da revista Orfeu e os primórdios do modernismo português vão estar em destaque.

O Observador vasculhou a lista de atividades de uma ponta à outra e encontrou eventos imperdíveis para os diferentes públicos. Seja para aqueles que vão com crianças, para quem prefere concertos a livros, ou para quem não perde um bom debate.

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Não há um espaço único de feira do livro. Mas José Pinho, da Ler Devagar, explicou ao Observador que todas as livrarias vão ter livros do dia de todas as editoras e descontos. “Há livros a partir de um euro”, prometeu. Na tenda dos escritores também haverá algumas publicações a preços mais simpáticos.

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No FOLIO não há disciplinas obrigatórias. Há, sim, aulas imperdíveis dadas por escritores. O moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa, por exemplo, vão falar sobre literatura africana (18 de outubro, 15h). A partir do livro de Saramago Ensaio sobre a Cegueira, Gonçalo M. Tavares vai analisar e pensar sobre vários tipos de cegueira, na literatura e nas artes (22 de outubro, 15h).

Se quer saber mais sobre Fernando Pessoa, vai poder aprender com um dos grandes especialistas mundiais, Richard Zenith (24 de outubro, 11h). Pedro Mexia fala sobre Agustina Bessa-Luís (15 de outubro, 15h), Ana Paula Arnaut sobre António Lobo Antunes (16 de outubro, 15h) e Clara Ferreira Alves sobre Eça de Queirós (21 de outubro, 11h).

Para além das aulas, é organizado um seminário internacional de dois dias dedicado a professores e bibliotecários, embora também haja painéis sobre literatura para o público em geral. O primeiro, dedicado ao tema “A vida precisa de literatura”, está marcado para as 11h de 17 de outubro e terá moderação da jornalista Anabela Mota Ribeiro.

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Com tantas mesas redondas, debates e tertúlias, vai ser difícil sair do FOLIO sem ter assistido a uma boa troca de ideias. A 22 de outubro, às 15h, Carla Martins apresenta o seu novo livro Mulheres, Liderança Política e Media (Alêtheia). Nele, a investigadora compara o número de mulheres que encabeçam as listas candidatas pelas várias formações políticas, questiona a forma como mulheres e homens na política são escrutinados e tenta antecipar o sucesso da Lei da Paridade na obtenção de um maior equilíbrio entre homens e mulheres nos órgãos de poder. Há, portanto, muito para debater.

Quase em simultâneo, às 14h30, Patrícia Reis, Tatiana Salem-Levy e Reinaldo Moraes debatem um tema escaldante: como levar a cama para a literatura e a literatura para a cama? A conversa sobre as armadilhas do sexo na literatura será moderada pela escritora Filipa Martins.

Na véspera, às 18h30, o jornalista e crítico literário José Mário Silva conversa com a escritora cubana Karla Suarez e com a norte-americana Rachel Kushner sobre o reatar das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba. Karla Suarez está neste momento a escrever um romance sobre a participação cubana na guerra em Angola. Rachel Kushner é autora de Os Lança-Chamas e Telex de Cuba. A conversa promete.

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Em qualquer evento literário há lançamentos de livros, o que significa que pode comprar uma obra assinada por quem a escreveu (e ainda trocar algumas palavras com o seu autor favorito). Gregório Duvivier, rosto que conhecemos melhor do grupo humorístico Porta dos Fundos, vai ser muito requisitado. O ator, argumentista e escritor apresenta no dia 23 de outubro, às 19h, Caviar É Uma Ova, primeiro livro editado em Portugal (Tinta da China).

Também Gonçalo M. Tavares publica um novo livro este mês, O Torcicologologista, Excelência (Caminho), com apresentação no FOLIO. Marque na agenda as 16h30 de domingo, 18 de outubro. Francisco Bosco, João Tordo, Joel Neto, David Machado e Samuel Pimenta, que acaba de lançar Os Números Que Venceram os Nomes (Marcador), são outros dos escritores presentes.

Hélia Correia, que este ano venceu o prestigiado Prémio Camões, será muito procurada. Mas, tal como Ricardo Araújo Pereira, Eduardo Lourenço e o espanhol Javier Cercas, não estará a apresentar livros, apenas a participar em mesas redondas.

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Para além dos livros, há cinema, concertos, teatro, espetáculos de rua e exposições para diferentes gostos. No concerto inaugural, dia 15 de outubro, às 21h30, vai poder ver Georgeana de Moraes, filha de Vinícius de Moraes, homenagear o pai, na Cerca do Castelo, ao lado de Miúcha, irmã de Chico Buarque. No dia seguinte, às 22h30, António Zambujo e Mayra Andrade estreiam-se a cantar Caetano Veloso. Continuando nas homenagens aos músicos brasileiros, Cristina Branco junta-se ao Trio de Mário Laginha para cantar Chico Buarque, a 24 de outubro, às 22h30.

Música, poemas, sons, sotaques, muitas vozes e instrumentos. É o que prometem Domenico Lancellotti, Tomás Cunha Ferreira, Pedro Sá e Moreno Veloso (sim, o filho de Caetano) no concerto que vão dar a 23 de outubro, às 22h30. Um dia antes, à mesma hora, Gisela João canta o fado com que tem conquistado cada vez mais fãs. João Afonso apresenta (20 de outubro, 19h) Sangue Bom, disco onde canta poemas de Mia Couto e José Eduardo Agualusa.

São dois músicos, mas o que vão mostrar em Óbidos não é propriamente um concerto. Às 22h30 de sábado, 17 de outubro, Kalaf Epalanga e Toty Sa’Med viajam pela poesia angolana dos anos 1960-70, acompanhados por uma guitarra, num momento a que chamaram “Antigamente é que era doce“. Durante cerca de uma hora e meia, passam pelas mudanças culturais que tiveram lugar desde a saída das potências colóniais de África, através da poesia, e celebram assim os 40 anos de independência.

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Kalaf Epalanga e Toty Sa’Med atuam no dia 17 de outubro. ©Divulgação

O cinema também se mostra, e logo no dia inaugural. Às 21h exibe-se “Vale Abraão”, de Manoel de Oliveira, inspirado no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís, de 1991. No último dia do festival, 25 de outubro, às 15h, quem não viu o filme “José e Pilar”, que Miguel Gonçalves Mendes fez sobre o amor de José Saramago por Pilar del Río, vai poder fazê-lo. A 20 de outubro, às 15h, recupera-se “Os Mistérios de Lisboa”, que Raoul Ruiz realizou em 2010 com base no livro homónimo de Camilo Castelo Branco. Mais tarde, às 18h, passa “Orfeu Negro”, de Marcel Camus, que foi Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1959 e Óscar de melhor filme estrangeiro em 1960.

Há poucos espetáculos de teatro no programa, mas bons. Muito bons. A começar por “Ode Marítima”, que Diogo Infante volta a interpretar especialmente para o FOLIO. Trata-se de um dos poemas mais marcantes de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa, aqui acompanhado pela música original de João Gil. Para ver e ouvir no dia 19 de outubro, às 21h.

No dia 24 de outubro, às 21h30, Maria Rueff transforma-se em outras Marias que António Lobo Antunes transpôs para os seus livros, no monólogo “António e Maria”. Com produção do Teatro Meridional, Rui Cardoso Martins assina a adaptação e a escrita do texto.

Nas exposições, há uma visita guiada a “Nós, os de Orpheu”, no dia 23 de outubro, às 18h, para ficar a saber mais sobre o centenário do “primeiro grito moderno que se deu em Portugal”, na expressão de Almada Negreiros. André Carrilho e Pedro Loureiro, o primeiro com ilustrações e o segundo com fotografias de escritores, reúnem ali o melhor do seu trabalho. André Letria leva para Óbidos as ilustrações que fez para o conto infantil de José Saramago A maior flor do mundo.

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Os leitores de todos os tamanhos também têm o que fazer no FOLIO. Para além das várias sessões escolares, na Galeria Nova Ógiva e na Livraria Histórias com Bicho vai acontecer a “PIM! — Mostra de Palavras, Ilustração e Movimentos de Leitura”. Trata-se de uma mostra internacional de ilustração onde vão estar presentes criadores portugueses e brasileiros na área da literatura infanto-juvenil, como o português Afonso Cruz e o brasileiro Roger Mello, com uma coleção de ilustrações originais de livros editados. A inauguração acontece a 17 de outubro, às 17h.

Na dia inaugural do evento, às 17h, acontece a chegada de um elefante muito grande chamado Salomão. “A Viagem do Elefante” é uma encenação teatral ao ar livre criada a partir da adaptação livre da obra de José Saramago com o mesmo nome, e onde se cruza teatro, música e artes plásticas.

Na hora de recarregar baterias, dirija-se ao Jardim das Oliveiras, na Cerca do Castelo. É lá que vão ser inauguradas esplanadas literárias para quem quer comer na companhia dos livros. Há também um Sunset Wine na Cerca do Castelo, com “mostra de todos os vinhos da região Oeste”, promete a organização. O melhor é manter afastados os mais novos desta secção.

Se quer ver tudo com detalhe, o programa do FOLIO pode ser consultado no site oficial.

Ilustrações de Andreia Reisinho Costa