Rádio Observador

Tendências

Em todo o lado, só vemos rabos

509

Dos vídeos de música às revistas, não esquecendo as aulas de ginásio que só olham para os glúteos e estão sempre cheias. Se o rabo demorou a tornar-se central no corpo da mulher, hoje é uma obsessão.

Uma parte do vídeo de Beyoncé, "Partition".

Autor
  • Catarina Moura

Durante as grandes tempestades da Alemanha medieval, o pouco que havia a fazer por uma casa de família pobre era pôr a mulher à porta, de rabo ao ar. Era o equivalente, acreditavam, a mostrar alhos a vampiros: o diabo fugia. É que apesar do poder da transmutação, esta é a única parte do corpo humano que ele, teoricamente, não consegue imitar. E numa casa com um rabo à porta, o diabo não entra.

O rabo é uma dádiva pouco comum entre os animais da criação e que está a ser cada vez mais festejada (não será provavelmente esta exclusividade a principal razão). O dos babuínos, rosado e pelado, não conta — não é mais do que um calo para se poderem sentar. O mais surpreendente exemplo será o do gado belga azul, bois com músculos tão desenvolvidos como se passassem o dia a tomar esteroides. E mesmo assim, não se pode chamar aos seus músculos traseiros “rabo”, pelo menos na função que o nosso, humano, cumpre — ter um efeito propulsor no movimento, através dos músculos das nádegas, e permitir o equilíbrio para que nos possamos manter de pé, por exemplo.

Mas há que ultrapassar esta visão funcionalista, que terá pouco que ver com a prestação de Nicki Minaj em “Anaconda” ou com a edição da revista Paper em que Kim Kardashian serve champanhe no próprio rabo, num truque arriscado de equilibrismo — uma recriação da fotografia com o mesmo conceito feita pelo mesmo fotógrafo, Jean-Paul Goode, em 1976.

O traseiro de Beyoncé — que dá nas vistas desde o início da sua carreira — não deve estar em vídeos como o de “Partition” para dizer “sou essencial para que esta menina consiga andar” e Meghan Trainor, quando canta “I’m bringing booty back, Go ahead and tell them skinny bitches“, não está a orar a nenhum Deus da fertilidade. Como diria Queen B ainda na era Destiny’s Child: este tempo é bootylicious.

Yonce ? #99ProblemsButMyAssAintOne

A photo posted by ✨FashionOnPlay▶️ (@fashiononplay) on

“Tenho 99 problemas mas o meu rabo não é um deles”, garante Beyoncé numa versão própria de uma música do marido, Jay Z.

Uma História do rabo

O rabo tem vindo a revelar-se com menos vergonha desde os anos 80 e hoje vive o seu momento. Até mais, talvez, do que os decotes. Antes disto já o homem pré-histórico apreciava o rabo feminino por uma questão de seleção natural — as ancas largas e o rabo grande e redondo são indicativos da presença de juventude, estrogénio e gordura suficiente para gerar um filho. Que o diga a estatueta do paleolítico, encontrada na Áustria e batizada Vénus de Willendorf, associada à fertilidade.

Venus_von_Willendorf_wikipedia

A Vénus de Willendorf. Fonte: Wikipédia

Um estudo da Universidade Bilkent, na Turquia, concluiu que o que é atrativo para os homens é, na verdade, a curvatura cervical que dá lugar ao rabo e é, no caso, da mulher, mais pronunciada. A explicação dada diz que é este traço que permite à mulher mudar o seu centro de gravidade na gestação de uma criança, tendo assim uma gravidez com menos complicações — a natureza, outra vez.

A mesma razão da fertilidade foi já repetida para a atração pelo peito feminino, que é um traço erótico verdadeiramente antiquado e consensual — não esqueçamos a alegoria da República, para não falar de umas quantas virgens Marias que desnudam um seio como símbolo de maternidade.

preview_fo_big_book_of_butts_08_1002181538_id_338362

Bettie Page, um belo exemplo da curvatura cervical pronunciada. © Taschen / The Big Butt Book

Os padrões euro-americanos de beleza e a moda feminina não privilegiam a face traseira há tanto tempo como o fazem com os seios — que alguns pigófilos (admiradores de rabos) dizem ser uma imitação frontal do rabo. Mesmo no sexo heterossexual, o rabo parece ter qualquer fator de proibitivo, que nos aproxima dos animais. Os primeiros humanos praticariam o coito com o homem por trás da mulher, e a mudança de posições estará associada ao desenvolvimento da capacidade de amar, e ao desejo de contacto visual.

No século XVI começam a usar-se armações que evidenciam o rabo e que se mantêm até ao século XIX. Também os corpetes, ao reduzirem a cintura, evidenciavam as ancas e o rabo, criando uma silhueta de ampulheta. Mas com as flappers dos anos 20, o rabo só se adivinha, não está marcado nos vestidos que libertam o corpo. O rabo voluptuoso era visto como inestético, se não mesmo bizarro. No final do século XVIII, Saartjie Baartman foi trazida de África para Londres pelos colonialistas britânicos e exibida como aberração por ter um rabo muito grande — nunca antes visto na Europa.

800px-Pierre-Auguste_Renoir_089

Uma senhora de Renoir que poderia equilibrar um copo tal como Kim Kardashian

Uma das explicações que se podem avançar para o rabo ter passado a maior parte do século XX quase despercebido, é o facto do padrão de beleza ocidental se ter mantido essencialmente restrito à mulher branca, que não é geneticamente propensa a glúteos desenvolvidos ou à forte acumulação de gordura nessa zona.

Mesmo na pornografia, apesar das gravuras cheias de palmadas eróticas da Inglaterra vitoriana, o foco no rabo é tardio. Dian Hanson, autor do livro The Big Butt Book, da Taschen, passou semanas a escavar arquivos de revistas pornográficas dos anos 60 para encontrar apenas uma mão cheia de imagens.

fo_ big_butt_book - Copy

A capa do livro da Taschen só dedicado aos rabos. Aviso: a parte preta levanta-se.

No princípio era… Jennifer Lopez

O fascínio pelo rabo confunde-se com a história da afirmação das comunidades afro-americanas e latino-americanas. 1997 marcará provavelmente o ano em que Jennifer Lopez nos mostrou o caminho, quando interpretou no filme Selena a cantora latina com o mesmo nome. Com os seus movimentos de anca e sensualidade sul-americana a ser celebrada, daí em diante só valia a pena ter um rabo para o mostrar. No ano passado, a cantora e atriz tentou lembrar-nos que foi o caso-charneira com a música que gravou com Iggy Azalea. Chamava-se simplesmente Booty – palavra difícil de traduzir em português mas que é qualquer coisa entre o diminutivo “rabiosque” e a sexualizada “bunda”. Mas depois da consagração sem vergonha do rabo, J. Lo deixou de ter o monopólio.

Com o hip hop — um movimento nascido no underground dos bairros das comunidades negras – a crescer, em meados dos anos 80, há uma estética nova a afirmar-se a todos os níveis (sendo esta época também o momento de uma aceitação mais generalizada da pornografia).

Hoje, as mulheres americanas com ascendência africana dividem-se entre o orgulho num rabo grande bem desenhado e a vontade de afastar o estereótipo. O twerk — um estilo de dança em que se faz um uso sábio do rabo ao ritmo da música — será o melhor exemplo. Uma ciência que criou polémica (por ser racial) e levantou a discussão: será que só as afrodescendentes o conseguem fazer como deve ser?

anaconda nicky minaj

A Anaconda de Nicki Minaj.

A comunidade negra criticou o vídeo de Taylor Swift, “Shake It Off”, pelas cenas que mostravam twerk. Num comentário para o Huffington Post, a humorista Amanda Seales criticou a cantora por estar a calcar o estereótipo dos rabos grandes como propriedade caricatural das mulheres afro-americanas e logo a seguir por não ter rabo: “She’s like: ‘i’m in my black costume now, so let me try and shake my not-ass-at-all’.”

Sendo o rabo dançante ou não uma propriedade africana, não deixa de ser curioso (até por uma questão de representatividade) que num vídeo recente de Justin Bieber só haja mulheres a dançar, mas que nenhuma pareça ser negra.

A dança e o exercício não negligenciam hoje os glúteos — se é que não vivem deles. Enquanto no século XIX Félix Vallotton pintou o grande plano de um rabo em movimento mostrando a realidade crua e dura, ou no século XVII um rabo era, para a pintura, bonito em toda a sua imperfeição ­— na celulite e nas estrias, e até numa escoliose que se diagnostica nas “Três Graças” de Rubens —, no século XX o que queremos dos rabos é que sejam tão redondos, forte e lisos quanto possível. Não há ginásio que não tenha hoje as aulas de exercícios para os glúteos sempre cheias: do bumbum Brasil ao Made in Brasil, passando pela Zumba.

Étude_de_fesses

“Étude de Fesses”, de Felix Vallotton, 1884

Já nos anos 80, com a sua coleção de vídeos para fortalecer abdominais, coxas e glúteos (ou buns, como lhe chamava), Jane Fonda parecia avisar que o rabo podia ser o caminho. Ela ou as cuecas super-cavadas que se usavam na data e que na verdade evidenciavam mais as coxas e alongavam as pernas do que valorizavam o rabo, muito coberto, pelo menos acima dos trópicos — no Brasil, um biquíni cavado sempre foi qualquer coisa de mais reveladora. Mas bem-vinda aos anos 2000, Jane, e às aulas de Blaya. No Pack Five Bundas, a bailarina membro dos Buraka Som Sistema dá aulas particulares a cinco pessoas de cada vez e o grande foco é… bom, não vale a pena repetir.

Para lá das calças de ganga que prometem fazer um efeito push up e da cirurgia estética segura para reabilitar e insuflar um rabo, há um mundo a acontecer na internet e, em especial, em caves insalubres dos Estados Unidos. Para o seu livro, Hanson tentou contactar alguns dos utilizadores de fóruns sobre o corpo que afirmavam fazer injeções de hidrogel (na realidade, silicone industrial) nos glúteos de quem pagasse entre 100 a 200 euros. As utilizadoras pediam ajuda desesperada por não terem um rabo. Nos casos mais extremos estas intervenções levavam à morte.

O rabo como traço erótico indispensável está maioritariamente associado à mulher: Hanson não levanta sequer a hipótese de analisar este tema no masculino, e numa pesquisa rápida pela internet encontram-se poucas discussões do rabo associadas ao homem. A fotografia de Justin Bieber nu num barco (entretanto retirada do Instagram) é um oásis no deserto. Encontra-se a página Guy’s Butt & Other Hot Things e os seus conteúdos são maioritariamente homoeróticos.

Às mulheres, valha-lhes Vénus Calipígia, a deusa grega que está sempre, distraída e angelicamente, a mostrar o rabo.

Vénus Calipígia. Fonte: Wikipédia

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)