Em Janeiro de 1956, Elvis Presley já gravava discos há uns dois anos. Costumava fazê-lo nos Sun Studios, em Memphis, onde Sam Philips lhe tinha topado o potencial. Na biografia do dono da Sun Records publicada no ano passado, o autor, Peter Guralnick, recorda a ideia que Philips alimentava ainda antes de Presley lhe aparecer à frente: “Se eu conseguisse encontrar um homem branco com o som e o estilo de um negro, faria milhões de dólares.” Alguns tentaram lá chegar mas nenhum conseguiu fazê-lo como Elvis. E apesar de Phillips ter acertado na escolha, não foi com a Sun que o rei se fez a estrela impossível de negar que é desde há 60 anos. A 27 de Janeiro de 1956, a editora RCA lançava “Heartbreak Hotel”, o primeiro número 1 de Elvis. Sam Philips sabia desde 1954 que nada seria como dantes. E não foi.

[Veja Elvis a tocar “Heartbreak Hotel”]

No meio da febre rock’n’roll dos anos 50, havia Little Richard a querer desafiar as leis da gravidade ou Chuck Berry a fazer da guitarra uma arma sexual. Bill Haley passeava-se pelas feiras e festas americanas com um circo sem falhas, Carl Perkins e Bo Diddley eram verdadeiros rufias e não havia maneira de não gostar deles. Todos a descarregar a recém-descoberta electricidade, domesticá-la era o menos importante dos dilemas. E, no meio de tudo isto, Elvis consegue o seu primeiro número 1 no top americano.

A estreia em singles pela RCA Victor era também – e assim que chegou às lojas e às rádios – a mais popular das suas canções, desde que em 54 descobriu que gravar discos era a vida que tinha pela frente. Mas “Heartbreak Hotel” é uma canção sem pressas. Elvis arranjou tempo para tudo, para não forçar nada e deixar que a denguice em câmara lenta trabalhasse bem. “Heartbreak Hotel” é dos melhores preliminares cantados que a história da pop já nos deu e ainda hoje funciona.

Ou pelo menos assim parece quando ouvimos a entoação de cama desfeita que Elvis entrega à canção. Na verdade, a letra fala de gente sozinha, de corações perdidos que, à falta de melhor consolo, podem sempre encontrar-se “ao fundo desta rua solitária”, no tal Heartbreak Hotel. A canção foi escrita por Mae Boren Axton e Tommy Durden. Mae era uma professora de inglês que escreveu mais de 200 canções para gente que procurava a fama entre Nashville e Memphis. Tommy era um guitarrista de bom gosto, que inevitavelmente ficou mais conhecido por “Heartbreak Hotel” do que por qualquer outra coisa, mas a verdade é que não era qualquer um que tocava com cowboys da country como Tex Ritter ou Johnny Cash – ele esteve lá.

Escreveram a canção depois de terem visto uma notícia sobre um bilhete de um suicida no jornal Miami Herald (história nunca confirmada, mas, com tudo o que é preciso para ter chegado a lenda, deixemo-la assim). Pediram a Glen Reeves que a gravasse como demo e numa convenção de rádio em Nashville, Mae Boren Axton, que também era DJ, encontrou Elvis e atirou o barro à parede. Disse-lhe que a gravasse para a RCA e ofereceu-lhe um lugar nos créditos de composição, ou seja, um terço dos royalties (negócio com a marca do manager de Elvis, o coronel Tom Parker). O resultado é que, até hoje, nunca nos lembramos que no outro lado do disco estava “I Was The One”.

[Ouça “I was the one”]

Ainda antes de gravar “Heartbreak Hotel”, Elvis já a tinha levado ao palco. No final de 1955, num clube em Arkansas, com 200 pessoas que esperavam por todos os outros sucessos de Presley: “That’s Alright”, “I Don’t Care If The Sun Don’t Shine” ou “Mystery Train”. “Heartbreak Hotel” era diferente, não tinha o nervo frenético que fazia da dança pélvica de Elvis uma epifania. Glen Reeves, que gravou a demo, não gostou da canção e recusou receber fosse o que fosse por cantá-la. E os executivos da RCA, ao ouvirem a gravação de Elvis, quiseram mesmo impedir a sua edição. Mas Presley, no tal concerto no Arkansas, já dizia com todo o seu orgulho sulista que “Heartbreak Hotel” seria um sucesso. Outra vez as datas: a 27 de Janeiro o disco estava nas lojas e na rádio; a 28 Elvis aparecia pela primeira vez na televisão nacional, no “Dorsey Brothers Stage Show” da CBS. Tinha feito história em dois dias. Nunca mais a América foi a mesma, depois veio o mundo.

Um ET sem roupa

E foi essa a grande conquista de “Heartbreak Hotel”. Elvis Presley já tinha tudo aquilo que fez dele único e revolucionário. Já tinha editora, discos gravados e um manager com punho de ferro que haveria de conquistar um espaço só para si nas enciclopédias – e que começou como vagabundo americano com circos de sapos e outras esquisitices na bagagem do camião. Tinha a imagem, a atitude, os passos de dança, o imenso talento e uma ambição da mesma categoria. Faltava-lhe ter o que a RCA garantia: projecção nacional, levar o nome de Presley a todas as casas americanas.

Conseguiu-o em menos de nada. Nesse mesmo 1956, Elvis editava o primeiro álbum e aparecia no primeiro filme, “Love Me Tender”. Escapar-lhe, e à sua influência, tornou-se impossível. Dylan ouviu-o, Springsteen juntou os dois, Lennon e McCartney tinham-no como herói e John Peel – uma das mais importantes vozes da história da rádio, jornalista, produtor, melómano como nunca mais se viu – escreveu na sua autobiografia como Presley lhe mudou os dias: “Sempre descrevi a primeira vez que ouvi o Elvis na rádio como o momento decisivo da minha vida. Ou pelo menos está lado a lado com a primeira vez que vi a Sheila [a mulher com quem esteve casado desde 1974 até 2004, ano em que Peel morreu] e o golo de Alan Kennedy contra o Real Madrid no Parque dos Príncipes [na final da Taça dos Campeões Europeus que o Liverpool ganhou em 1981].” A canção que o inglês ouviu foi “Heartbreak Hotel” e foi como “se um ET sem roupa tivesse entrado em minha casa e me dissesse que ia viver comigo”, escreveu.

Sam Phillips estava mais que certo. Sabia onde estava a mudança e descobriu-a. Faltou-lhe a logística para o acompanhar mas o mérito foi sempre dele. Quando ouviu “Heartbreak Hotel”, ainda assim, Phillips temeu o pior. Em entrevista à Rolling Stone, em 1968, revelou: “Quando ouvi o ‘Heartbreak Hotel’, disse ‘estes filhos da mãe vão estragar o homem’. Mas depois ouvi ‘Don’t Be Cruel’ e tornei-me no homem mais feliz do mundo.”