Manda a tradição que o homem se ajoelhe num momento inesperado e apresente um anel diante daquela que — se tudo correr bem — será a sua mulher. O pedido de casamento é, desde que nos lembramos, uma “responsabilidade” que se diz caber aos homens. Mas e quando são elas a protagonizar esse gesto?

Diana Matias não se ajoelhou nem ofereceu um anel, mas foi ela quem pediu o namorado de longa data em casamento. Determinada a dar o passo em frente — e sem vontade de esperar pela iniciativa masculina –, a jornalista escolheu o dia da passagem de ano 2008-2009 para, na casa de uns amigos, fazer a proposta. Pensou em tudo: a certa altura arrastou o namorado para o exterior, onde momentos antes colocara pequenas velas ao longo do rebordo da piscina que, todas juntas, escreviam uma só mensagem: “Casa comigo”.

Não foi uma pergunta, foi um pedido, lembra a jornalista ao Observador. “Acho que leu à primeira, mas ele quis dar a volta à piscina na mesma. Ficou emocionado, disse que sim e deu-me um abraço”, conta com uma ponta de saudade na voz. Diana Matias assumiu uma postura que habitualmente não está associada às mulheres, no entanto, garante que nem ela nem o atual marido têm qualquer preconceito sobre isso:

Pensei ‘porque não posso ser eu? Porque tenho de esperar?’. Que coisa fora de época, isto de ser o homem a tomar a iniciativa.”

Quando os papéis se invertem

Como a história de Diana (atualmente mãe de um menino com quase três anos e de uma menina com 15 dias), há outras em que foram elas que — tal como se diz em linguagem corrente — se chegaram à frente. Apesar de não ser uma realidade muito evidente, existem casos que nos fazem pensar obrigatoriamente na inversão de papéis. Em causa já não está apenas quem faz o quê lá em casa, mas as posições que os membros do casal assumem na dinâmica das relações.

Parece-me que estamos perante uma reinvenção dos papéis do homem e da mulher no amor e na construção de uma relação, agora não tão distintos: eles deixam de ser os ‘conquistadores’ por excelência e elas as ‘conquistadas'”, começa por dizer a mediadora familiar Margarida Vietez.

A psicóloga Carolina Justino tende a concordar, ao afirmar que “as diferenças de papéis têm vindo a ficar mais diluídas” e que “há aspetos em que ambos têm vindo a tornar-se mais igualitários nas relações”.

É o caso de Ana Lúcia Lino. A enfermeira conheceu o atual marido à saída de um jogo de râguebi através de um amigo em comum. O que começou com uma troca de mensagens ainda na rede social Hi5 — já lá vai o tempo –, passou para um relacionamento pouco convencional. Ana Lúcia Lino não queria, à data, um compromisso sério porque tinha saído recentemente de uma história complicada. Por esse motivo, ainda se lembra de dizer que a união entre ambos não passaria dos três meses. Enganou-se. Aos meses seguiram-se anos e uma natural evolução das coisas, ainda que o casal se recusasse a chamar de namorada e namorado. “Ele era sempre a minha alegria, nunca o meu namorado”, conta entre risos, num registo sempre bem-disposto.

Chegado o momento de Ana Lúcia ter a sua própria casa, a jovem enfermeira começou a interrogar-se sobre se haveria algo mais a fazer: “Consultei a minha mãe e a minha irmã e elas disseram-me ‘se queres viver com ele, porque não te casas?’.” Dito — ou neste caso, questionado — e feito. Era dia 1 de dezembro e o casal estava à frente do Padrão dos Descobrimentos, em Belém, quando Ana Lúcia entrega um relógio à sua “alegria” com um desenho de uns bebés no interior e a pergunta “Queres…?”. “Eu acho que ele adorou. Ele nunca me ia pedir em casamento porque eu dizia que não me ia casar. Ele não ia correr esse risco.”

Raquel Loureiro, jornalista, também fez uma incursão semelhante. Apaixonada por um colega de trabalho com quem já vivia há um ano, decidiu-se a dar o passo em frente. “Não sou muito dada ao romantismo convencional — isso dos jantares às luzes das velas e ramos de rosas não é a minha cena –, mas sempre gostei da ideia de reunir as pessoas de quem mais gosto numa celebração”, admite ao Observador. Assim, num dia cuja data exata já não se recorda, montou um jogo de pistas em casa para o namorado ver e desmontar o quebra-cabeças, uma espécie de peddy paper temático, apostado em enfatizar a relação de ambos.

“Deixei uma série de papéis com pistas que se encaminhavam para a árvore de Natal, onde estava uma fotografia nossa com a mensagem ‘queres casar comigo?’. Eu estava muito nervosa porque, na verdade, não falei muito sobre essa ideia e não parti para isto com a certeza absoluta de que ele o queria. Quando ele viu as pistas, eu estava com os olhos muito marejados e ele… ele disse que sim”, conta Raquel Loureiro.

“São mulheres que perseguem o que as faz feliz”

Mas qual é, afinal, o perfil da mulher capaz de colocar a questão que o sexo que ela própria representa tanto quer ouvir? Tendencialmente, falamos de pessoas decididas, seguras de si, com um forte sentido de confiança e autoestima, mas também amplamente conhecedoras dos seus recursos psicológicos, enumera a mediadora familiar Margarida Vietez. Isto significa que são capazes de encarar os medos relativamente à hipótese de serem rejeitadas, o que, à partida, é o verdadeiro bicho papão de toda a mulher.

Digamos que são mulheres que perseguem o que querem e o que consideram fazê-las felizes”, atira a mediadora familiar.

Do outro lado da barricada, os homens que “se deixam” ser pedidos em casamento poderão ser mais cautelosos e tímidos. Mas não só. Sobre isto, a psicóloga Carolina Justino tem outra coisa a dizer: “O homem que aceita está mais aberto para a postura ativa da mulher. Isso não vai assustar todos os homens, mas sim os mais inseguros.”

Pode, então, um homem sentir-se intimidado quando o pedido vem da ala feminina? “Não me parece que fique intimidado”, responde Vietez de uma assentada. “Talvez fique surpreendido e sem saber o que dizer ou fazer, mas isso é natural. Temos todo um modelo cultural por trás que define os papéis de género e que não desaparece de um momento para o outro.”

Carolina Justino completa essa ideia ao dizer que muitas pessoas vão buscar o valor próprio aos papéis que adotam: “O homem que precisa de se sentir másculo para se sentir melhor, que precisa de abrir a porta do carro e ganhar mais dinheiro do que a mulher é um homem que não irá aceitar um pedido de casamento”, comenta a psicóloga.

No entanto, a ideia de um homem se sentir intimidado com tal proposta pode ter que ver com o sentimento de que já não controla o processo de conquista. Nesta equação pouco matemática entra ainda o estado em que está a relação, até porque quando um pedido é sentido como pressão, seja pelo homem seja pela mulher, é porque os dois não estão na mesma página.

Obviamente que num pedido de casamento temos de atender ao estado de maturidade da relação. Se uma mulher pedir um homem em casamento ao final de um mês de relação provavelmente poderá ser visto como um caso de desespero, mas se o pedido foi feito num contexto de uma relação saudável e madura, provavelmente será apreciado como expressão do amor que sente”, afirma Margarida Vietez, sem deixar de fazer a ressalva de que cada caso é um caso.

E a mediadora familiar conclui: “A sociedade somos todos nós. A sociedade pode esperar tudo, mas a aceitação dos outros nunca se deve sobrepor ao que consideramos ser o melhor para nós, nem fazer-nos desistir dos nossos sonhos”, continua a mediadora familiar. “Parece-me que, felizmente, as pessoas estão a começar a tomar consciência disso e já existem por aí ‘muitas mulheres corajosas’ que saem do modelo pré-histórico e aceitam o desafio de pedir o namorado em casamento. “