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Ciência

Como a carne cortada e os legumes esmagados contribuíram para a evolução do homem

O Homo erectus era muito diferente dos ancestrais, incluindo nos comportamentos. Aproveitou as ferramentas que tinha à disposição e tornou o momento da refeição uma tarefa muito mais fácil.

Mastigar vegetais crus exige mais esforço dos músculos do que comer carne crua

BAY ISMOYO/AFP/Getty Images

Na altura em que o homem passou a ter um cérebro maior e a ter mais requisitos de energia, também passou a ter dentes mais pequenos e músculos para mastigar mais fracos. Parece contraditório, não? Mas a explicação pode estar nas alterações da dieta e no uso de ferramentas, como refere um estudo publicado esta quarta-feira na Nature.

Há cerca de dois milhões de anos, quando o Homo erectus dava os primeiros passos no planeta, aconteciam alguns dos mais importantes passos da evolução do homem, como o desenvolvimento de um cérebro proporcionalmente maior do que em qualquer outra espécie de primata. Um cérebro maior poderia justificar mais tempo gasto na alimentação, mas não parece ter sido o caso.

Os dois investigadores da Universidade de Harvard (Estados Unidos) propõe duas alterações fundamentais na vida dos homens primitivos para justificar como conseguiam obter mais energia dos alimentos esforçando-se muito menos a mastigar: o aumento do consumo de carne, especialmente desde há 2,6 milhões de anos, e a utilização de ferramentas para cortar a carne e esmagar as plantas de que se alimentavam.

E não, comer comida cozinhada não parece ter sido o grande responsável pelo desenvolvimento do cérebro. O homem só aprendeu a controlar o fogo há cerca de um milhão de anos e cozinhar os alimentos só se terá tornado uma prática comum há 500 mil anos. Mas não haja dúvidas que depois de aprender a cozinhar os alimentos, as horas da refeição se tornaram bem menos exigentes para a musculatura facial.

Mastigar alimentos cortados e esmagados custava assim muito menos do que roer plantas como continuam a fazer os gorilas. Não ter de usar os dentes para moer as plantas, permitiu que a evolução tratasse de nos arranjar dentes mais pequenos, músculos de mastigação menos desenvolvidos e um intestino mais curto. E para compensar melhorou-nos a capacidade termorregulação e permitiu-nos desenvolver a linguagem, refere o comunicado de imprensa da revista científica.

Os investigadores demonstraram que se um terço da dieta fosse composta de carne crua, a força total da mastigação nos humanos do Paleolítico seria 15% mais baixa do que dos seus ancestrais. Cortar a carne, seria o suficiente para ter uma redução adicional da força requerida em 12%. Também é fácil de perceber que com alimentos mais macios, partidos ou moídos, o homem passasse muito menos tempo a alimentar-se e se esforçasse menos a mastigar.

As ferramentas são usadas pelos homens primitivos desde há 3,3 milhões de anos e o Homo erectus podia tê-las usado de três maneiras diferentes: bater com as rochas na carne para a tornar mais macia – uma técnica que os chimpanzés também usam -, cortar a carne em pedaços mais pequenos que acabam por ser mastigados menos vezes e retirar pele, tendões, cartilagens e outros elementos difíceis de mastigar.

Continuamos a poder roer uma cenoura crua, a rasgar uma sanduíche com os dentes ou a pegar na perna de frango à mão, mas as ferramentas que temos à nossa disposição tornam tudo muito mais fácil. Até os primos Homo erectus perceberam isso.

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