Para assinalar o centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, poeta que se suicidou a 26 de abril de 1916 em Paris, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, irá apresentar uma exposição sobre a vida e obra do autor, organizada por Jerónimo Pizarro e Ricardo Vasconcelos. Entre os muitos objetos nunca expostos, encontra-se uma fotografia do escritor tirada em 1914, em Lisboa, no Governo Civil.

A fotografia, semelhante às que são tiradas aos criminosos pela polícia, esteve guardada durante quase 100 anos no arquivo fotográfico do Museu da Polícia Judiciária (PJ), onde estão outros retratos de pessoas famosas. A imagem, que mostra Sá-Carneiro de frente e de perfil, foi tirada no posto antropométrico do Governo Civil de Lisboa, numa altura em que este tipo de retrato tinha começado a ser implementado. Apesar de o Museu da PJ garantir que não existem registos de que o escritor tenha sido alguma vez detido, não se sabe que motivos terão levado Sá-Carneiro a tirar o retrato.

“Não sabemos exatamente o contexto, porque é que ele lá foi ou se tinha curiosidade por aquele modelo fotográfico, que estava a ser desenvolvido”, disse ao Observador Ricardo Vasconcelos, um dos organizadores da exposição da BNP.

Segundo o organizador, é provável que a fotografia, tirada a 4 de junho de 1914, esteja relacionada com “trâmites relativos ao regresso de Sá-Carneiro para Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa quatro dias depois, a indicar que se tinha hospedado no ‘mesmo quarto do mesmo hotel'”, o Grand Hotel, localizado no Boulevard des Capuchines, perto da Ópera de Paris.

A exposição, intitulada Mário de Sá-Carneiro: O Homem São Louco numa referência a um texto de Fernando Pessoa sobre o autor de Dispersão, será dividida em várias secções dedicadas à vida e às várias vertentes da obra literária de Sá-Carneiro, desde a poesia à prosa. É “uma exposição concisa”, explicou por sua vez Jerónimo Pizarro, que organizou a mostra em conjunto com Vasconcelos. “Pretende ser um convite à releitura da poesia de Sá-Carneiro.”

Além das obras publicadas em vida, a exposição irá ainda incluir edições póstumas, editadas nos últimos 100 anos, manuscritos, que se encontram guardados na BNP, e traduções. Na secção dedicada a Orpheu, além do primeiro número da revista, lançado em 1915, serão também expostos “dois cadernos de recortes de imprensa que Sá-Carneiro tinha e que depois passaram para Pessoa, quando ele voltou para Paris”, salientou Vasconcelos. A mostra terá também fotografias de família de Sá-Carneiro, nomeadamente dos tempos de infância, e cartas enviadas a familiares.

Entre as várias dezenas de objetos, há ainda “três ou quatro surpresas”, como a carta enviada por Raul Leal a Mário de Sá-Carneiro em 1915, que foi publicada pela primeira vez por Mário Cesariny no livro O Virgem Negra, de 1989. “O resto são coisas que podem ser conhecidas, mas que são importantes para a bagagem literária de Sá-Carneiro”, referiu Pizarro.

A exposição será constituída por oito secções: publicações em vida, publicações na primeira metade do centenário da morte, publicações na segunda metade do centenário da morte, correspondência, prosa, poesia, Orpheu e miscelânea.

Apesar do título, a exposição pretende ser mais “panorâmica” e não tanto “sobre o tema da loucura”. “Temos alguns documentos que incidem sobre isso, como o texto de Pessoa [no qual chama a Sá-Carneiro ‘o homem são louco’]. É uma contextualização da vida e obra para aquelas pessoas que conhecem menos Sá-Carneiro, valorizando sobretudo os materiais que a Biblioteca Nacional tem”, concluiu Ricardo Vasconcelos.

A exposição será inaugurada no dia 26 de abril, às 13h. No mesmo dia, a Casa Fernando Pessoa irá organizar às 18h uma iniciativa que pretende também assinalar o centenário da morte do escritor. Esta contará com a presença de Ricardo Vasconcelos, que falará sobre Mário de Sá-Carneiro, as Vanguardas e a Modernidade, e dos atores Suzana Branco e Miguel Simões, que lerão poemas do poeta.

Artigo atualizado às 14h48 de 20/04 com a programação da iniciativa organizada pela Casa Fernando Pessoa