Foi a primeira vez que o NOS Alive esgotou os três dias. Sábado, dia 9, foi o terceiro, com um nome a puxar o gatilho: Arcade Fire. A banda canadiana foi excelente – como aqui demos conta – mas houve muito mais (e boa) música a fechar a 10ª edição do festival. Outros momentos, nem tanto. Estes são os nossos sublinhados.

M83

Este domingo, com os olhos postos na final do Europeu de futebol, não há um único português que queira ver um francês contente. Mas os M83 de Anthony Gonzalez e restante trupe são tipos que não guardam rancores nem ressentimentos e vieram este sábado a Algés de coração aberto.

O grupo francês foi uma boa aposta da organização para o pós Arcade Fire e conseguiu manter o que a banda canadiana tinha conseguido: transformar o palco NOS em pista de dança entusiástica. Apesar de terem um álbum recente — Junk, editado em abril deste ano — mostraram saber adaptar-se ao registo de festival e deram um concerto cujo alinhamento percorreu grande parte da carreira da banda (que já conta com sete discos de estúdio), trazendo alguns hits como “Steve McQueen”, “We Own The Sky” e “Midnight City”, por exemplo.

Esse cuidado foi muito bem-vindo porque o último disco da banda, além de estar fresco, não parece ter tido um impacto tão forte junto da crítica e dos fãs dos M83 quanto o dos seus mais reconhecidos discos. Duas coisas, contudo, foram notórias: a intensidade e competência técnica do rock de tendências eletrónicas feito pelos franceses (ao dreamy com que muitas vezes os adjetivam podemos acrescentar o adjetivo “espacial”) e a receção calorosa que o público lhes devotou. Durante cerca de uma hora, viram-se pessoas às cavalitas, braços no ar e dança (muita dança) entre os festivaleiros que resistiram à hora mais tardia do concerto, que começou à 1 hora da manhã (e ainda foram muitos). [GC]

Vetusta Morla

Ao terceiro dia do NOS Alive, começou a ouvir-se menos inglês e mais espanhol. A responsabilidade é, em parte, da banda de indie-rock Vetusta Morla. O grupo liderado por Juan Pedro “Pucho” Martín arrastou muitos turistas vindos do país vizinho. E se isso foi notado durante todo o dia, ficou ainda mais evidente quando os Vetusta Morla subiram ao palco NOS, às 19h30, a seguir ao português Agir.

A expectativa era grande porque, se os Vetusta Morla são famosíssimos em Espanha — confirmaram-nos os espanhóis que dançaram e cantaram durante todo o concerto, junto ao palco —, em Portugal estiveram esquecidos até agora: ainda nem sequer tinham vindo tocar a Lisboa, e só por uma vez atuaram em solo nacional. O que foi uma motivação adicional para eles — “É a nossa primeira vez em Lisboa. Esperemos que gostem porque queremos voltar”, disse o vocalista da banda ao público. Mais tarde ficou a promessa: “Obrigado. Havemos de voltar em breve. Está prometido”.

À capital portuguesa trouxeram rock mexido e pujante, mas cuidado. O alinhamento passou pelos trabalhos já editados da banda (que, apesar de ter começado em 1998, só em 2008 lançou o primeiro longa-duração, Un día en el Mundo, a que se seguiram mais três discos de estúdio). Mas foram as canções do último álbum — em particular a espantosa canção que dá nome ao disco, “La Deriva” — que mais cativaram os presentes. Os Vetusta Morla foram uma das melhores surpresas do festival e esperamos, mesmo, voltar a vê-los em breve. [GC]

Band of Horses

Aos espanhóis seguiram-se os norte-americanos Band of Horses. A banda de Ben Bridwell e companhia era uma das mais aguardadas da noite no NOS Alive — a par dos M83, de Grimes e, claro, dos cabeças de cartaz Arcade Fire. Eles vêm de Seattle mas isso não significa que se movem pelos territórios do grunge e do rock mais abrasivo. Pelo contrário: o que os Band of Horses fazem é uma espécie de mistura entre o indie-rock e o country elétrico para aquecer corações (ou despedaçar, dependendo da perspetiva). Facilmente os víamos a tocar num palco de um bar nos Estados Unidos, com algumas cervejas em cima (não muitas, porque nunca perdem o controlo).

O concerto que deram este sábado no NOS Alive foi, contudo, algo morno. Começaram bem com o tema “Is There a Ghost”, um dos mais conhecidos do grupo. E tocaram alguns dos outros temas que os notabilizaram no panorama rock norte-americano, como “Laredo” ou “No One’s Gonna Love You”. As restantes, contudo, pouco mexeram com o público. E a maior parte dos presentes, pelo que ouvimos, esperavam mais: um pouco mais de interação com o público, um pouco mais de rock.

A verdade é que os Band of Horses foram, ao vivo, o que já são em estúdio: uma banda simpática, com uma ou outra canção mais entusiasmante mas cuja música é algo monótona. Foi isso que sentimos, por exemplo, ao ouvi-los tocar temas do seu novo álbum, Why Are You OK?, editado no mês passado: as novas canções pouco fogem ao modelo seguido nas anteriores, com variações entre a acalmia a puxar à lágrima e a grandiloquência épica com que Ben Bridwell e companhia atacam os instrumentos e o microfone no refrão. Como nota adicional, acrescentamos que a missão era difícil: encaixados entre o rock festivo (e cuidado) dos Vetusta Morla e dos Arcade Fire, acabaram por quebrar o ritmo. E o ambiente só aqueceu mais tarde, com os canadianos. [GC]

nos alive 2016, band of horses,

Four Tet

Há em torno do DJ, músico e produtor Kieran Hebden um hype fenomenal, que se explica olhando em volta. Ainda os Arcade Fire não tinham terminado o “best of” no Palco NOS, já a tenda Heineken se enchia de gente, minutos antes do set da meia-noite.

Tudo no ponto, virar o dia com a batida de um dos melhores, mais criativos e estimulantes produtores de música eletrónica da atualidade. Foi minimal, melódico e até agressivo, como quem espeta alfinetes em sítios estratégicos e com o timing certo.

Four Tet sabe brincar com as variações de ritmo e gere as pausas com uma sabedoria pouco comum. Depois acelera dos 0 aos 100 em muitos segundos, é como uma carroça onde se vai em passeio para apreciar o caminho. Mesmo quando explode, tudo continua controlado, ele estuda os alinhamentos ao milímetro.

Foi pena que esta noite tenhamos assistido “apenas” a um DJ set, dos bons é certo, mas onde ficou (também) a faltar cenografia. Não que a música não se baste, mas porque há discotecas bem mais bonitas que o Palco Heineken. [PE]

Grimes

Ao final da tarde chegou a notícia à sala de imprensa: não foi autorizada a presença de fotógrafos no espetáculo de Grimes. Neste tempo em que toda a gente anda com uma máquina fotográfica no bolso, um artista não permite a captação de imagens por profissionais. “Temos vedeta”.

Claro que nestas coisas é “ver para crer” e rapidamente percebemos porque terá chegado a ordem: Claire Elise Boucher quase não foi mais que uma silhueta, a luz vermelha (muito forte) foi a pintura escolhida para a apresentação de Art Angels, um dos melhores discos pop/rock de 2015. Ou seja, o cenário ia dar cabo das fotografias. OK, é uma opção estética, a arte com que se faz um espetáculo é sempre uma opção que temos respeitar.

Grimes foi desembaraçada na atitude, competente no movimento e muito comunicadora, foi uma querida, mas não se percebia uma palavra do que dizia. O som esteve absolutamente inaudível em todos os aspetos – desequilibrado (voz/música) e constantemente no limite do ruído.

Se não se deixar “ver” já é mau, não se fazer ouvir é igualar um espetáculo a nada. E esta noite tivemos essa lição: como fazer de um disco tão bom um péssimo espetáculo. [PE]

nos alive 2016, grimes

Ratatat

Mike Stroud e Evan Mast são uma dupla nova-iorquina já relativamente bem conhecida do público português, muito por conta da prestação e projeção que tiveram no ano passado, no Vodafone Paredes de Coura. Foram eles a última banda a atuar na 10ª edição do NOS Alive, um trunfo que prometia ser um final com chave de ouro. E foi, ainda que comedido para alguns (poucos, muitos, não sabemos), porque a memória destes dois momentos separados por menos de um ano deixou um sabor a pouco. Não que o espetáculo desta noite não tivesse corrido bem, mas a banda (e o público) merecia mais.

Merecia o palco grande (contra M83 não tinham hipótese, mas isso não pode interferir na avaliação), com um som mais poderoso e sobretudo, com mais espaço para fazer brilhar a componente gráfica que é fundamental para a digressão que promove o álbum Magnifique, editado há precisamente um ano – a mesma que vimos por terras do norte. Ou seja, assistimos em Algés à reprodução do que vimos em Paredes de Coura, mas tudo em ponto pequeno (palco, alinhamento, som e moldura gráfica).

Para quem os viu no ano passado foi uma espécie de acordar de memória, soube bem. As guitarras – velhas, com fita adesiva a prender as cintas – continuam a pintar as batidas pré-gravadas, aqui e ali com acrescentos de percussão feitos na hora. Tocaram Magnifique mas não se esqueceram do miar do gato selvagem (de Classics, 2006).

Apareceram os leões mas faltaram os periquitos. Quem os viu pela primeira vez vai querer ver mais e nós também, outra vez, mas em tamanho XL. [PE]

Ao longo do dia estivemos outra vez em direto. Nas dezenas de entradas do nosso liveblog encontra muitos outros momentos, entre os quais o anúncio esperado: 6, 7 e 8 de julho de 2017, as três datas da 11ª edição do NOS Alive. Lá estaremos.